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sábado, 9 de janeiro de 2021

O mérito da carta de Haddad

A Folha tem méritos em ceder seus carros para torturadores, apoiar o golpe militar, por defender o neoliberalismo de FHC e Guedes e por incensar a criminosa Lava Jato

Maufalavigna

Um dia sem usar o Twitter e o Andrade apronta uma surpresinha. Como sou reconhecido (e atacado) pelas críticas ao bom moço aqui, sinto-me obrigado a cometer um fio sobre A Carta-Coluna -- longe da grandeza de uma carta-testamento, mais próxima de uma cartinha de Temer. 

A derradeira coluna de Haddad (a melhor que já fez, segundo Pomar, a única passível de leitura, na minha humilde opinião), possui UM mérito. Que não é pequeno, dado a postura assumida pelo autor até o princípio do ano passado.

A grande divergência (não é claro se há outras que sejam importantes para o autor, embora citadas) diz respeito aos direitos políticos de Lula. Não é irrelevante. Deveria ser a principal bandeira da esquerda, já que Lula é o único nome que pode derrotar Bostô em 2022.

Ver o ex-candidato dar tal importância a essa questão se torna ainda mais importante quando lembramos de sua tibieza ao não admitir um golpe de Estado, ao lidar com a mídia golpista e defendê-la com argumentos retirados do surreal manto da liberdade de imprensa quando lembramos de sua fraqueza ao se desculpar com trogloditas identitários toscos, mesmo não tendo se expressado com preconceito algum, quando lembramos de suas posições expressas em programas chinfrins como Roda Viva a respeito de Lava-jato, Bolívia, Venezuela sempre procurando manter seu espaço e sua visualização nesses meios, mesmo que isso custe o desprezo de parte da militância petista e uma posição acabrestada pelos donos do poder. Nem falarei aqui de flertes frenteamplistas que não foram para a cama. 

Portanto, vale ressaltar essa motivação que, embora devesse ser óbvia, destoa da figura do acadêmico que deseja uma ampla entrada nos salões da elite e busca o respeito de tapetes estendidos (nem tão vermelhos, por favor...). No entanto, ele aceitou a coluna lá atrás e reconhece méritos na Folha. Pois bem. Temos de ser duros aqui. A Folha tem méritos em ceder seus carros para torturadores, apoiar o golpe militar, ser um espaço midiático onde a coluna social manda e desmanda, por defender o neoliberalismo de FHC e Guedes, por incensar a criminosa Lava Jato, por facilitar os caminhos de Bostô e sua súcia, por mentir e criar "fakes" com a desfaçatez de um Malafaia no zap. Então, quais os méritos da Folha, de uma roda morta ou de um show circense de Porchato e Arrelia?

Qual a necessidade de agradar quem demonstra nojo da classe trabalhadora, da história de Lula e do PT? Por que não tratá-los como parte da corja que planejou e deu o golpe? (ah, o golpe... É melhor ser entrevistado na GloboNews por Leitão e Merval do que admiti-lo...) 

E, por fim, qual o ganho político em gritar por liberdade de expressão e reforçar a aura ilusória da bravura do jornalística para quem, justamente, impede quaisquer possibilidades de liberdade de imprensa e jornalismo responsável? É o que Andrade faz constantemente.

Enfim, parabenizo o autor por algo que, enfim, pode marcar uma mudança em sua postura. E folgo em saber que as críticas que faço a quem aceita uma "coluna" na Folha podem agora adquirir sentido para militantes desta rede. Reitero: só bundas-moles ganham colunas na Folha. 

Agrada-me não termos ex ou pré candidatos exercendo ofício tão cabotino. Entendo quem precisa de um ganha-pão e é obrigado a receber uma graninha de uma família e associados que, histórica e moralmente, são uma vara de porcos. Mas aceitar uma coluna ali é falta de decoro. 

Por fim. Andradetes: o texto é fraco, tíbio, frouxo e, em alguns pontos, quase adolescente e choroso ("ain, sempre quis ter uma coluna na Folha, mas assim fica difícil, né? Bobos, malvados"). Meio cafona. Perdoem-me, mas se agradar com isso é uma prova de profundo mau gosto.

Haddad rompe colaboração com a Folha Liberal da Ditadura


Despedida

Nos momentos decisivos, a Folha, em lugar de discutir ideias, prefere agredir pessoas de forma estúpida.

Fernando Haddad

Agradeço ao leitor a consideração que me tenha dispensado. Procurei ser o mais zeloso possível ao ocupar este espaço, trazendo à sua consideração um ponto de vista menos paroquial sobre assuntos de interesse nacional.

Quando fui convidado para ser colunista da Folha, relutei em aceitar. Na época, me incomodava o posicionamento do jornal no segundo turno das eleições de 2018.

Pareceu-me uma falsificação inaceitável um órgão de imprensa que apoiou o golpe militar de 1964 equiparar, em editorial, um professor de teoria democrática a uma aberração saída dos porões da ditadura. Àquela altura, a Folha já sabia que a família Bolsonaro era autoritária e corrupta, mas entendia que a agenda econômica neoliberal de Paulo Guedes compensaria o risco. Teria sido mais correto assumir isso publicamente.

Aceitei o convite, no entanto, porque intuía que o governo Bolsonaro traria graves consequências ao país, o que exigia da parte de todos uma disposição ainda maior ao diálogo.

Na semana passada, ocorreu um episódio insólito. Uma jornalista sugeriu, em artigo publicado no Estadão, que o STF mantivesse a condenação de Lula e desconsiderasse as provas de parcialidade de Moro. E por quê? Para evitar que Lula seja candidato em 2022, o que, supostamente, favoreceria a candidatura de Bolsonaro. Reagi, nas redes sociais, afirmando que, diante de tanta infâmia e covardia, restava ao PT reafirmar os argumentos da defesa de Lula e relançá-lo à Presidência.

Em editorial, segunda-feira (4/1), este jornal resolveu me atacar de maneira rebaixada. Incapaz de perceber na minha atitude a defesa do Estado de Direito, interpretou-a como tentativa oportunista de eu próprio obter nova chance de disputar a eleição presidencial, ou seja, que seria um gesto motivado por interesse pessoal mesquinho. Simplesmente desconsiderou que, nos últimos dois anos, em todas as oportunidades, inclusive em entrevista recente ao jornal, defendi sempre a mesma posição, qual seja, a precedência da candidatura de Lula.

Ao me desqualificar mais uma vez, inclusive com expediente discursivo desrespeitoso, ao estilo bolsonarista, esta Folha demonstra pouca compreensão com gestos de aproximação e sacrifica as bases de urbanidade que o pluralismo exige. Infelizmente, constato que, nos momentos decisivos, a Folha, em lugar de discutir ideias, prefere agredir pessoas de forma estúpida.

O jornal tem méritos que não desconsidero, mas não vejo como manter uma colaboração permanente com este veículo.

Por fim, a julgar pelo histórico dos políticos que a Folha veladamente tem apoiado, penso que ela deveria redobrar os cuidados antes de pretender deslegitimar alguém.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Devemos nos preparar desde logo para o pós-Bolsonaro


América 2021
No exterior, Bolsonaro é tema apenas de programas humorísticos. Devemos, porém, nos preparar desde logo para o depois.

Difícil falar de longo prazo em um país onde, durante uma pandemia, faltaram máscaras e faltam seringas. As placas da geopolítica, no entanto, movem-se com tal velocidade que receio não restar muito tempo para que um reposicionamento do Brasil nos reabra alguma perspectiva de futuro.
Dois acordos internacionais recentes deveriam chamar a nossa atenção.

Em 15 de novembro de 2020, foi assinado um tratado que cria a RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente). Por meio desse acordo, os dez países-membros da Asean (Filipinas, Malásia, Indonésia e Tailândia e outros seis) se unem aos cinco países da respectiva Área de Livre Comércio (Japão, Coreia, China, Austrália e Nova Zelândia), formando um bloco que congrega 30% do PIB mundial.

Nesta semana, China e União Europeia selaram o Acordo Abrangente de Investimentos, que facilita o investimento direto recíproco, conquista indiscutível de Angela Merkel às vésperas da posse de Joe Biden. Apesar dos contratempos e desafios, o projeto europeu segue seu curso autônomo, com brexit e tudo.

Na América, as coisas não correm tão bem. Sob a administração Trump, duas medidas mudaram as perspectivas regionais. O USMCA, ou Nafta 2.0, foi uma exigência dos EUA para manter o acordo de livre comércio com México e Canadá, mediante o qual obtiveram vantagens, sobretudo no que concerne a serviços e propriedade intelectual.

Além disso, Trump retirou os EUA das negociações em torno da Parceria Transpacífica, por divergências sobre investimentos e compras governamentais. Doze países banhados pelo Pacífico (entre eles Chile, Peru, Nova Zelândia e Cingapura) levaram à frente a iniciativa, agora no âmbito do Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica. Sem os EUA.

Os EUA são, eles próprios, o mais bem-sucedido empreendimento cooperativo inter-estatal da história: 13 colônias que se transformaram em 50 Estados poderosos sob uma Constituição. Mesmo com os democratas, os EUA dificilmente terão olhos para a América Latina como área continental de desenvolvimento econômico.

Bolsonaro, do seu lado, não perde oportunidade de hostilizar nosso principal parceiro regional, a Argentina, e global, a China. E, mesmo tendo aceito praticamente todas as exigências europeias para celebrar o acordo UE-Mercosul, não conseguiu obter o necessário aval dos parlamentos dos países europeus em virtude de seu público compromisso com a destruição ambiental.

Sem rumo e liderança, perderemos mais dois anos. No exterior, Bolsonaro é tema apenas de programas humorísticos. Devemos, porém, nos preparar desde logo para o depois.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A Folha de S.Paulo levou o cretinismo editorial a um novo patamar

Leandro Fortes

JORNALIXO

A Folha de S.Paulo levou o cretinismo editorial a um novo patamar: inventou um sujeito (a "década") para substituir os governos do PT e, assim, pode falar das ações afirmativas petistas sem citar Lula e Dilma.

Só empastelando essa merda.

Fernando Haddad

Prouni, expansão das federais (Reuni), Fies sem fiador, criação dos Institutos Federais, Novo Enem, SiSU, Lei de Cotas etc., tudo isso foi a Década que fez. Os governos da época e o movimento negro estavam na arquibancada assistindo a Década trabalhar. #Decada2022.

sábado, 19 de dezembro de 2020

No limite

Fernando Haddad  

Não é o humor inteligente que ironiza a vilania dos poderosos. É a velha e sem graça piada racista, misógina, homofóbica, de classe, que busca legitimar pelo riso naturalizante a barbárie que nos assola.

"Na Pfizer, tá bem claro no contrato: nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral; se você virar um chimp"¦ virar um jacaré, é problema de você (sic)... —não vou falar outro bicho senão vão dizer que vou começar falar besteira—, ou se algum homem começar a falar fino."

Bolsonaro, nessa reflexão, faz referência a possíveis metamorfoses que a vacina pode provocar. Por cautela, troca, de início, a palavra "chimp" por jacaré. Falsa cautela que não esconde a intenção, mas covardemente se protege, ao optar pela autocensura imposta (de fora), mas no fundo rejeitada. Se começa mal, Bolsonaro faz questão de terminar escrachadamente pior, ao fazer menção a outro possível efeito colateral da vacina: afinar a voz dos homens.

Noutro dia, Bolsonaro fez referência ao tratamento da covid com ozônio, que, segundo um correligionário seu, é aplicado pelo reto. Bolsonaro, perante apoiadores, ironizou a procura pelo tratamento. Afinou a voz e, sorrindo, disparou: "Estou com covid, estou com covid".

As comparações entre Bolsonaro e Odorico Paraguaçu ganham destaque. As semelhanças do atual ministro do Turismo com Dirceu Borboleta acentuam as correspondências. Entretanto, como observou Eugênio Bucci, o carisma despudoradamente cômico do prefeito corrupto e truculento era o retrato da ditadura militar sisuda e burra que não se enxergava na ficção e, por consequência, não censurava a obra de Dias Gomes, para alegria do público.

Quando os polos entre ficção e realidade se invertem, o gênero literário também se transforma, da comédia para a tragédia. Na verdade, o fenômeno é mais complexo. Na ditadura, "os gêneros", por assim dizer, estavam compartimentados, ou melhor, acomodados em distintas dimensões. Agora, tragédia e comédia estão reunidas na mesma pessoa, em busca de aprovação popular.

O humor que a isso se presta só pode ser aquele que reforça os estereótipos contra as vítimas históricas da selvageria brasileira. Não é o humor inteligente que ironiza a vilania dos poderosos. É a velha e sem graça piada racista, misógina, homofóbica, de classe, que busca legitimar pelo riso naturalizante a barbárie que nos assola.

A ironia da ficção era que, em Sucupira, algo líquido e certo como a morte não acontecia. O prefeito não conseguia inaugurar seu cemitério. O Odorico de hoje se insurge contra algo que era incerto, mas que apareceu surpreendentemente: a ciência nos ofereceu, em prazo recorde, não uma, mas várias vacinas contra o vírus letal.

Faltavam cadáveres em Sucupira, e era divertido. No Brasil de Bolsonaro, faltam caixões, e dá muita raiva.

sábado, 14 de novembro de 2020

Terra de Trumps


Fernando Haddad

Torcer pela vacina é racional, mas não exime o gestor público de responsabilidade

"Quem seria o Macron brasileiro?" Essa era a pergunta mais ouvida depois da eleição do atual presidente da França, em 2017.

Vários políticos desfilaram em busca da chancela dos porta-vozes do establishment. Um deles resolveu gravar um vídeo em francês para saudar a boa nova. Em 2018, como se sabe, o establishment elegeu Bolsonaro como seu representante. Agora, procura-se um Biden. Alguns políticos brasileiros até fizeram chegar às suas mãos uma espécie de carta de apresentação à guisa de cumprimentos. Vamos ver o que os headhunters da direita nos reservam para 2022.

Donald Trump perdeu as eleições para a Covid-19. Todas as pesquisas de opinião lhe davam a vitória no começo do ano. Entretanto, sua gestão da pandemia foi catastrófica, para dizer o mínimo, e seu discurso, durante a crise, tem sido muito parecido com o discurso de Bolsonaro, que, mesmo após sua derrota, toma-o por modelo. Os números também os aproximam: morreram, até hoje, 740 norte-americanos por milhão de habitante, contra 773 brasileiros.

Isso pode passar a falsa impressão de que quem se opõe ao discurso negacionista de ambos esteja fazendo um bom trabalho, o que não é verdade. Os dados do estado e da cidade de São Paulo são incontroversos. Os mortos nessas localidades atingiram 909 por milhão e 1.131 por milhão, respectivamente.

E, como bem demonstraram nesta sexta (13) três professores da USP de Ribeirão Preto ("Plano São Paulo deve ser revisto", Tendências / Debates), o problema é de gestão.

São Paulo, cidade e estado, não adotaram as medidas que permitiram a países como China, Vietnã, Austrália e Nova Zelândia obter resultados sanitários e, consequentemente, econômicos satisfatórios: o protocolo Tris (testagem, rastreamento e isolamento com suporte). Para quem considera a solução utópica, basta conferir os resultados da cidade que a adotou. Araraquara, governada pelo PT, tem em torno de 250 mortes por milhão.

Segundo reportagem de Ana Letícia Leão (O Globo, 13.nov.2020), a Info Tracker --plataforma da USP e da Unesp desenvolvida para monitorar a pandemia-- indica um salto de 50% nas suspeitas da doença entre agosto e novembro na cidade de São Paulo. Não se sabe se o recente apagão nos dados, que durou uma semana, tem a ver ou não com o calendário eleitoral, mas estamos em meio a um cenário provável de subnotificação.

Torcer pela vacina é racional, mas não exime o gestor público de responsabilidade. Vidas e empregos se perdem nesse caldo macabro de obscurantismo federal e incompetência local nessa terra de Trumps.

Fernando Haddad

Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo  

sábado, 17 de outubro de 2020

A universidade pública brasileira é um pequeno milagre


Guedes quer apenas se livrar das universidades federais

Fernando Haddad

Dois terços dos eleitores até 24 anos reprovam o projeto antinacional de Bolsonaro

“Universidade Federal do Rio de Janeiro! É do Rio de Janeiro ou é federal? Ou assume a atribuição ou devolve tudo, e normalmente se empurra a conta para a União. A União são nossos filhos e netos. A União não é um ser abstrato.”

Suprimi algumas palavras da delirante reflexão de Paulo Guedes para torná-la menos desconexa. Na visão do ministro, o Rio de Janeiro é um ser mais abstrato do que a União. Investir a receita de impostos na educação de nossos filhos e netos é empurrar-lhes a conta. Guedes, no fundo, quer apenas se livrar das universidades federais.

O historiador Eric Hobsbawn destacou o quanto os projetos nacionais europeus foram tributários do progresso educacional de pessoas oriundas das classes menos favorecidas, que passaram a ocupar posições até então reservadas a uma pequena elite. “O progresso das escolas e universidades dava a dimensão do nacionalismo”, resumiu.

Inspirado nessa premissa, Benedict Anderson descreveu a última onda desse processo nas ex-colônias da Ásia que culminaram com a formação de Estados nacionais. De comum, o papel da educação da juventude. Suwardi, por exemplo, contava 24 anos quando publicou seu famoso artigo contra o domínio holandês sobre a Indonésia, em julho de 1913.

A universidade pública brasileira é um pequeno milagre. Último país do continente a criar uma universidade, o Brasil, mesmo com os recentes cortes orçamentários, responde, ainda hoje, por 50% da produção científica da América Latina. Entretanto, só no século 21 as portas da universidade se abriram para os “filhos e netos” do trabalhador, sob a liderança de um sem diploma. Hoje, felizmente, 70% dos estudantes das universidades federais são egressos da escola pública; mais de 50% são negros.

Além disso, o fim do vestibular, com a reformulação do Enem, permitiu à juventude uma mobilidade inédita pelo território. Uma consciência nova vai se formando. Em cada universidade federal há estudantes de praticamente todos os estados, realidade que passa a milhas de distância da concepção de país de Paulo Guedes.

A inédita expansão do acesso à educação superior pode criar as condições subjetivas para que essa geração faça história. Nosso século 20, ao contrário do asiático, foi marcado pelo descaso com a educação. Causa e consequência disso, pelo menos em parte, o Estado nunca se emancipou dos particularismos da elite econômica.

Dois terços dos eleitores até 24 anos reprovam o projeto antinacional de Bolsonaro. É o segmento mais crítico ao governo. Virá deles a energia para construir o Brasil a partir dos escombros do bolsonarismo.

sábado, 10 de outubro de 2020

Bolsonaros transformaram gabinetes parlamentares em minas de ouro


Os filhos deles

Fernando Haddad

Bolsonaros transformaram gabinetes parlamentares na própria mina

A corrupção pode ter salvado momentaneamente a democracia. Refiro-me aos filhos de Bolsonaro. A quantidade de evidências que as autoridades policiais reuniram sobre o esquema das rachadinhas —palavra branda para peculato e lavagem de dinheiro— faz crer que foi o ocupante do Planalto que sentiu o golpe e busca, circunstancialmente, uma conciliação com o Congresso e o STF.

A família Bolsonaro não descobriu o mapa da mina; antes, transformou gabinetes parlamentares na própria mina. O esquema, descrito na peça de acusação, é relativamente singelo: nomeiam-se servidores fantasmas para cargos comissionados; salários são sacados na boca do caixa; e o dinheiro é distribuído para membros da família por meio de depósitos em conta, compra de imóveis subfaturados, financiamento de campanha eleitoral, uma fantástica loja de chocolates etc

O crime compensaria se duas condições fossem satisfeitas: vários mandatos parlamentares (01, 02, 03) e paciência (28 anos). Os pequenos saques não chamariam a atenção, e de saque em saque...

Lembrei-me do filme "Um Sonho de Liberdade", em que Andy Dufresne (Tim Robbins) passa 19 anos fazendo um túnel com uma pequena machadinha e despejando, sem que ninguém notasse, os grãos de argila da parede da sua cela --tapada com um pôster de mulher seminua-- no pátio do presídio. Dufresne era inocente, e sua fuga significava a redenção.

Os Bolsonaros tinham também o seu sonho de liberdade, e, de grão em grão, a família acumulou um patrimônio fundiário respeitável, mas que, segundo o colunista Reinaldo Azevedo, pode levá-los à cadeia.

O Coaf identificou a estranha movimentação antes das eleições, e, segundo o empresário Paulo Marinho, os Bolsonaros foram alertados do ocorrido pela própria Polícia Federal. A narrativa do establishment não podia ser contestada. No segundo turno da eleição, havia dois extremistas, mas um deles representava a banda podre da política, e o outro, o messias. Queiroz foi demitido, preventivamente, antes do segundo turno, e o país só veio conhecê-lo, e seus famosos depósitos, depois do escrutínio.

Bolsonaro, a princípio, tentou falar grosso. Entretanto, o "acabou, porra!" terminou em abraço, e o que de fato acabou foi a Lava Jato.

A operação para blindar os meninos segue o seu curso. Enquanto isso, a sensação é a de que vivemos em "plena" democracia ao tempo em que a República é corroída miseravelmente, em clima de harmonia entre os Poderes.

Moro, cansado da política, estuda mudar-se para a metrópole. E aqui a carne continua cara por culpa dos filhos do Lula, donos da Friboi.

sábado, 3 de outubro de 2020

Bolsonaro abre mão dos interesses do Brasil para favorecer reeleição de Trump

Biden x Bolsonaro

Fernando Haddad

Brasil cede a caprichos comerciais dos EUA para favorecer reeleição de Trump

Pela primeira vez, um presidente brasileiro subordina os interesses nacionais não exatamente aos interesses de outro país, mas aos interesses de um governante de outro país.

Inicialmente, Bolsonaro tentou demonstrar que sua política para a Amazônia coincidia com os objetivos estadunidenses. Deu-se em Davos a esclarecedora conversa com Al Gore em que Bolsonaro, diante da preocupação manifestada com a Amazônia, afirmou: "a Amazônia não pode ser esquecida, temos muitas riquezas, e gostaria muito de explorá-las junto com os Estados Unidos". A reação do americano foi interessante: "eu não sei o que você quer dizer". Bolsonaro certamente imaginou que comportando-se como súdito dos EUA agradaria o interlocutor.

Nesta semana, Biden, no debate com Trump, sugeriu que organizaria ajuda internacional ao Brasil para a preservação da floresta e que submeteria o país a sanções econômicas se mantida a política atual. Biden sinalizou que adotaria política alinhada com a União Europeia, que reluta em aprovar o acordo com o Mercosul caso não haja um compromisso do Brasil com a pauta ambiental

Enquanto isso, Salles passa a boiada. Depois do desastre amazônico e pantaneiro, ele avança sobre os manguezais, numa demonstração clara de que, em relação às mudanças climáticas, o alinhamento do Brasil é com o negacionismo de Trump.

A subordinação é tamanha que o Brasil tem cedido aos caprichos comerciais dos EUA para favorecer a reeleição de Trump. No caso do aço brasileiro e do etanol de milho americano, estamos literalmente exportando empregos.

John Bolton, ex-assessor de Trump, disse certa vez que "a doutrina Monroe estava bem viva". Quando o presidente James Monroe a anunciou, em 1823, numa proclamação que pode ser assim resumida —"a América para os americanos"—, a doutrina soava simpática frente à primeira onda de descolonização que se deu justamente nas Américas.

Como se sabe, a frase ganhou novo sentido a partir da guerra hispano-americana, vencida pelos EUA em 1898, e a segunda onda de colonização na África e na Ásia, da qual o governo norte-americano participava agora como potência imperialista, anexando as Filipinas, Guam e Porto Rico.

A partir daí, as nações caribenhas, inclusive Venezuela e Cuba, caíram sob a órbita americana. No pós-Guerra, quando da Guerra Fria, foi a vez de as nações do Cone Sul, que ensaiavam projetos de desenvolvimento autônomo, serem submetidas a ditaduras militares apoiadas pelos EUA.

As causas planetárias, no entanto, introduziram variáveis na geopolítica global que a cachola de Bolsonaro não é capaz de compreender.

Fernando Haddad

Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo  

sábado, 25 de julho de 2020

O homem que estima o peso de negros em arrobas e chama os nordestinos de "paraíba" há de receber uma resposta à altura



Nordeste

Tenho sérias dúvidas de que uma revolução teria feito mais pelo Nordeste do que os governos petistas.

Lula nunca fez segredo do seu projeto político. Via o pobre como parte da solução, não parte do problema. E, diante da enorme dificuldade em transformar democraticamente uma sociedade atrasada, tomou a decisão que lhe parecia mais viável para cumprir os seus objetivos.

Sem aumentar a carga tributária —que nos oito anos anteriores tinha passado de 26% para 32% do PIB—, Lula optou por redefinir prioridades e, nas suas palavras, "pôr os pobres no Orçamento da União".

Como a proporção de pobres era muito maior no Nordeste do que em qualquer outro lugar do país, deu-se uma mudança estrutural que nenhum especialista em desenvolvimento regional esperaria.

O Nordeste, tido pela elite econômica como o peso morto que atrasava o progresso do Brasil, ganhou uma projeção que, apesar de recentíssima, foi, de certa forma, naturalizada.

Cisternas, Luz para Todos (energia elétrica), Caminho da Escola (ônibus escolares), Reuni (universidades e institutos federais), Proinfância (creches e pré-escolas) etc. são algumas das iniciativas conhecidas.

As mais debatidas, contudo, pela escala, foram o Fundeb, o Bolsa Família e a transposição do rio São Francisco, ações das quais Bolsonaro tenta se apropriar.

Matar a fome e a sede de uma mãe e matricular seu filho na universidade passou a ser, no decurso de uma década, uma possibilidade concreta para milhões de famílias nordestinas situadas abaixo da linha de pobreza, enquanto as oportunidades de emprego e renda se multiplicavam em toda região.

Em 1º de abril de 2010, o Twitter do Bolsonaro pontuava: "o bolsa farelo (família) vai manter esta turma no poder". Pois durante a tramitação da PEC de prorrogação do Fundeb —que este governo boicotou o quanto pôde—, Bolsonaro resolveu pegar carona no limite extrateto da complementação da União para fermentar o programa Bolsa Família com a intenção declarada de mudar seu nome para Renda Brasil. Isso depois de comemorar a transposição do São Francisco, obra que recebeu praticamente pronta.

A colunista do UOL Thaís Oyama ouviu de um assessor militar do presidente que "o Nordeste é um campo fértil esperando que o governo faça a colheita" ("Bolsonaro, o pai dos pobres", 26/6/2020). Condizente com a visão do chefe, o militar acrescentou que as viagens não seriam a única ferramenta para a "colheita".

O homem que estima o peso de negros em arrobas e chama os nordestinos de "paraíba" há de receber uma resposta à altura da sua visão agropecuária da nossa gente.

Fernando Haddad

Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Fala grosso, Haddad



O TOM DA FALA DE HADDAD

Todo mundo sabe, inclusive os que votaram ‘enganados’ em Bolsonaro, quem é, o que pensa e o que diz Fernando Haddad. 

Mas qual será o tom da entrevista de hoje no Roda Viva? Minha previsão: Haddad vai subir um pouco o tom da sua fala.

Não dá mais para falar em voz baixa e com muitas cordialidades num país tomado pelos fascistas.

Haddad deve ter um pouco de Lula e de Dilma e falar com a voz dos negros, dos gays, dos índios, das mulheres e de todos agredidos por Bolsonaro e seus aliados milicianos de dentro e de fora do governo.

Se tiver de falar, fala grosso, Haddad.

sábado, 13 de junho de 2020

O único legado do fascismo é um rastro de destruição


Não há uma via única para suprimir a democracia 
Método fascista é, em certas circunstâncias, mais eficaz do que golpe clássico
“O brasileiro perdeu até o direito de virar estatística.” Essa foi a reação do jornalista Márvio dos Anjos, nas redes sociais, às tentativas frustradas do Ministério da Saúde, sob gestão do general Pazuello, de mascarar os números da pandemia. O comentário não poderia ser mais apropriado.

O empresário Carlos Wizard, colaborador do governo, acabou desistindo de assumir a secretaria que promoveria a mágica recontagem. O limite da ideologia, como se sabe, são os negócios, e a iniciativa pegou muito mal.

Ninguém mais se lembra de quando Bolsonaro previra que as mortes de Covid-19, no ano, não excederiam as mortes de H1N1 em 2019: cerca de 800. Não só atingimos, nesta sexta (12), a segunda posição em número de mortes no mundo como há previsões sombrias de que, por agosto, superaremos os EUA. Brasil acima de todos.

Apesar de tudo, creio que o “e daí?” bolsonarista pode vencer. Explico.

Depois de lutar contra todas as evidências sobre a gravidade da pandemia, Bolsonaro promoveu um giro tático que condiz com a natureza do seu governo.

Esconder mortos é coisa de ditadura. E o que acontece no nosso país, de erosão da democracia “desde dentro”, é algo bem diferente de um golpe clássico. Uma das falhas da palavra de ordem “não vai ter golpe” era passar a ideia subjacente de que havia um plano que seria executado em data determinada, quando, na verdade, estávamos diante de um “processo”, que, aliás, está em curso. Não há uma via única para suprimir a democracia. O golpe clássico é apenas uma das formas. O método fascista é algo muito distinto e, em certas circunstâncias, mais eficaz. As ciências sociais conhecem a diferença.

O que causa algum constrangimento ao bolsonarismo é o caráter pandêmico da crise, ou seja, o fato de ela ser um assunto global. A repercussão externa dos nossos números o preocupa, ainda que levemente. Mas, internamente, Bolsonaro sabe que pode trivializá-los.

Reportagem desta Folha contabiliza que a Covid-19 já matou mais do que trânsito em 2019 no Brasil. A questão é justamente essa. As mortes violentas no Brasil, sem Covid-19, são parte do nosso dia a dia —no trânsito, contra as favelas, dentro de casa, nos presídios, no campo etc. Por que o pânico diante de uma “gripe”, e ainda passageira?

O grande mérito da democracia moderna é contar com filtros que obstruem a emergência do lado podre de uma sociedade que sempre flertou com a morte. Nesse flerte reside a naturalização cotidiana da barbárie. O único legado do fascismo é um rastro de destruição: não se pode acusá-lo de inércia; ele é um agito permanente e sem rumo.

sábado, 6 de junho de 2020

Luta contra ameaça fascista não pode implicar perda de identidade dos progressistas e diluição de seus propósitos


Verdadeira disputa democrática só acontece com preservação do Estado de Direito

Fernando Haddad

Em 2016, em entrevista à Folha, afirmei que, após a crise de 2008, a tendência política mundial, inclusive no Brasil, era que: “direita e extrema direita sejam o polo das próximas disputas”. Perguntado sobre qual seria o futuro da esquerda, respondi: “O desafio da esquerda é maior do que nunca; vamos ver o que ocorre, até 2018, em torno da candidatura do Ciro Gomes, se o Lula vai ser impedido de disputar”.

Três acontecimentos alteraram o quadro substancialmente: 1) 0 colapso do governo Temer, a partir do Joesley Day; 2) a devastação imposta ao tucanato pela Lava Jato, com a prisão de três ex-governadores (MG, PR e GO) e sérias acusações contra outros dois, candidatos derrotados à Presidência (Serra e Aécio); 3) a prisão política de Lula e seu consequente crescimento nas pesquisas de intenção de voto.

Muitos imaginaram que o destino de Lula seria o mesmo do dos ex-governadores tucanos: a desonra e o ostracismo. Tomaram suas decisões com base, não no que era o certo a fazer, mas no cálculo político mais mesquinho e, até certo ponto, racional. Os verdadeiros progressistas mantiveram-se firmes na defesa do que consideravam justo, mesmo pagando o preço que a história cobra de quem se coloca contra a maré.

No segundo turno das eleições de 2018, candidatos a governador que foram ao segundo turno em seis estados —três do PSDB e três do PDT— declararam apoio ao fascista Bolsonaro, que venceu.

O sonho da direita de derrotar a extrema direita com o apoio da esquerda, como se deu na França, transformou-se no pesadelo Bolsonaro com a apoio da direita. Como se os Clinton e os Obama se aliassem a Trump para derrotar Bernie Sanders. Como se Macron se aliasse a Le Pen para derrotar Mélenchon. Uma escolha muito difícil, alguns diriam.

Em uma outra entrevista à Folha, em 2018, digerida a derrota, disse que o governo Bolsonaro nos impunha uma estratégia mais complexa do que a usual, “trabalhar em duas frentes: uma de defesa dos direitos sociais, que pode agregar personalidades que vão defender o SUS, o investimento em educação, a proteção dos mais pobres; a outra, em defesa dos direitos civis, da escola pública laica, das questões ambientais”. Em outras palavras: uma frente progressista; uma outra, antifascista. A segunda mais ampla que a primeira.

Essa necessidade, contudo, não pode implicar perda de identidade dos progressistas e diluição de seus propósitos —no fundo o que a direita quer.

Quando superarmos a ameaça fascista e garantirmos a preservação do Estado de Direito, se dará a verdadeira disputa democrática, entre diferentes times e sonhos. Espero que sem trapaça desta vez.

sábado, 16 de maio de 2020

Fernando Haddad analisa o artigo grotesco do general Mourão


Mourão

Fernando Haddad

O que mais chama a atenção no artigo de Hamilton Mourão (O Estado de S. Paulo, 14/5) não é o autoritarismo, mas o uso de falsa erudição para encobrir a mera truculência.

Alguém que enaltece a memória de torturador e invoca o autogolpe como princípio constitucional não choca ao atribuir a crise que vivemos à atuação dos governadores, legisladores e magistrados. Essa atitude, aliás, não destoa de outras.

Recorro, mais uma vez, a Ruth de Aquino, que, em O Globo, apontou a ação dos outros generais bolsonaristas nos últimos sete dias: os elogios de Villas Bôas à entrevista desvairada de Regina Duarte na CNN; a afirmação de Heleno de que a divulgação da íntegra da reunião ministerial —em que Bolsonaro, segundo Moro, teria cometido crime de responsabilidade— seria ato impatriótico; e a ida de Braga Netto ao STF, na marcha insana de empresários e Bolsonaro em prol da desarmonia nacional.

Mourão quis parecer culto, como quando comemorou a efeméride da criação das capitanias hereditárias como expressão da nossa tradição de empreendedorismo. No artigo desta semana, a bizarrice se tornou séria: Mourão partiu para a ignorância, num duplo sentido, exercitando-a para nos ameaçar.

Invocar o federalismo estadunidense para criticar a ação dos governadores brasileiros é revelador de um profundo desconhecimento da realidade dos Estados Unidos. Lá, os governadores têm muito mais autonomia do que no Brasil, inclusive no que se refere à lei penal. A soberania dos estados subnacionais foi um dos temas de negociação para contar com a adesão das ex-colônias à União.

Nossa engenharia foi outra. Nossa Federação, desde o Estado Novo, funciona, em muitos aspectos, como Estado unitário. E a jurisprudência tem sido sábia em definir critérios de competência quando eles não estão expressos de forma taxativa na Constituição. Quanto às questões sanitárias relativas à pandemia, por exemplo, pode-se traçar um paralelo com as questões ambientais. Quando há conflito entre as determinações municipais, estaduais e federais (no Brasil, o município é ente federado), vale a regra mais rigorosa. Um bloqueio total (lockdown) determinado pelo presidente vale em todo o território nacional; um bloqueio total determinado por um governador não pode ser relaxado, no respectivo estado, por ato do presidente.

Quanto à alegada usurpação do Poder Executivo pelos demais Poderes, Mourão distorce os preceitos e foge à responsabilidade. Um Executivo inepto não pode querer se apresentar como um poder usurpado quando contido, pela imprensa e pelo Judiciário, em seus arroubos autoritários.

sábado, 28 de março de 2020

Não se pode permitir que Bolsonaro siga transformando o país nesse pandemônio


Pandemônio

Fernando Haddad
Incapaz de enfrentar o problema, Bolsonaro lança campanha contra isolamento
Bolsonaro promove a discórdia. Em nenhum país do mundo se vê algo semelhante. Com o agravamento da crise, a maioria dos governantes têm se portado como chefe de Estado. Muitos erros foram cometidos diante da pandemia, inclusive pela OMS, mas o esforço agora tem sido enfrentar, com base no melhor que a ciência pode oferecer, o desafio monumental com que nos deparamos.

Em menos de duas semanas, Bolsonaro conseguiu a proeza de: 1) hostilizar dois Poderes da República, convocando e participando de ato pelo fechamento do Congresso e do STF; 2) criar uma crise diplomática com a China, soltando a coleira de seu filho Eduardo; 3) afrontar 25 governadores, muitos dos quais seus aliados, determinando o fim do isolamento social, depois de seu ministro da Saúde tê-los induzido a decretá-lo.

Quando, no domingo passado, Bolsonaro editava a MP da Morte —que permitia às empresas a suspensão de contrato de trabalho por quatro meses sem pagamento do salário—, o primeiro que veio a público defendê-la foi o governador João Doria. No que concerne à economia, direita e extrema-direita sempre estarão de acordo em fazer recair a conta da crise nos ombros do trabalhador.
Diante do desgaste inédito que sofreu ao longo da semana, tendo que revogar a referida MP, Bolsonaro, comportando-se como verdadeiro chefe de facção, resolveu dar um passa-moleque nos governadores.

Havia uma implícita divisão de tarefas a cumprir, respaldada pelas atribuições de cada um no pacto federativo: governadores e prefeitos tratariam de evitar o colapso do sistema de saúde; e o governo federal trataria de evitar o colapso da economia. Vidas e empregos se perderiam, infeliz e inevitavelmente, mas as perdas poderiam ser minoradas.

Estudos sobre a gripe espanhola (1918), por exemplo, mostram evidências robustas de que intervenções não farmacêuticas, como o isolamento social, não apenas diminuíram a mortalidade como mitigaram as consequências econômicas da pandemia comparativamente às regiões que não as adotaram.

Não existe receita simples, mas não estamos diante de um dilema moral entre saúde e economia.

Ciente de sua total incapacidade para enfrentar o problema, Bolsonaro resolveu apostar. Convencido de que os estragos a uma economia já combalida são maiores do que alguns milhares de corpos empilhados —num país pobre que, afinal, pratica genocídio diariamente—, lançou a campanha "o Brasil não pode parar", que tira as pessoas do isolamento e isola o país do resto do mundo.

Não se pode permitir que Bolsonaro siga transformando o país nesse pandemônio.

sábado, 21 de março de 2020

Pandemia num mundo governado por loucos

Pandemia

Fernando Haddad

Em visita a Nicolas Sarkozy, Lula ouviu do ex-presidente francês que o mundo estava sendo governado ou por loucos ou por técnicos, não havendo espaço para a grande política. Mencionou três dos loucos, cujos nomes, por discrição, não revelo, confiando à imaginação do leitor a fácil tarefa de desvendá-los.

Essa circunstância agrava as condições de enfrentamento da pandemia de coronavírus, que, em si, já não são nada simples. Se quem deveria liderar a nação, além de incapaz, for mentalmente perturbado, os danos sociais, que já são grandes, podem se tornar irrecuperáveis.

É claro que até os negacionistas torcem por uma pronta resposta da ciência, vacina ou remédio. E, se ela vier, tanto melhor para dízimos e dividendos. Mas estadistas não podem contar com o melhor dos cenários. Ao Estado cabe preparar-se para o pior.

A postura tresloucada de líderes tem valorizado em demasia, por contraste, a conduta dos que têm assumido um discurso responsável. Mas também tem permitido que a avaliação crítica das ações governamentais fique em segundo plano.

O governo brasileiro padece dos dois problemas: quem conduz o país não tem juízo; e as decisões técnicas são tardias, insuficientes ou simplesmente equivocadas. A postura de Bolsonaro tem sido objeto de análise crítica. Os equívocos do Ministério da Saúde, esses têm recebido pouca atenção.

Há pelo menos quatro providências que ainda não foram tomadas ou foram tomadas tardiamente:

1) Testes em massa e distanciamento social reduzem drasticamente a proliferação da doença, medida fundamental para que o sistema de saúde não colapse. Apesar dos alertas da OMS, recomendando a prática, o governo nada fez e, diante da falta de comando, as autoridades subnacionais adotaram medidas descoordenadas;

2) Ampliação de leitos de UTI: se a proliferação não for contida, os leitos de UTI disponíveis não serão suficientes. Ainda que tenha havido um enorme incremento no período 2003-16 --cerca de 12 mil--, teríamos que contratar a abertura de pelo menos 5 mil novos leitos, contando com o "achatamento" da curva de contágio;

3) Recomposição do Mais Médicos: sem ele, será afetada a vida dos mais pobres quando a epidemia chegar aos rincões e periferias do país. Outra providência é retomar o Revalida (validação de diploma de médicos formados no exterior);

4) Regulação da comercialização dos insumos necessários ao enfrentamento da pandemia, inclusive quanto ao comércio exterior: enquanto ela durar, o provisionamento de insumos precisa ser garantido por ação governamental.

Se a ciência não nos trouxer uma solução imediata, a política terá que nos entregar mais do que temos tido.

sábado, 14 de março de 2020

A diferença entre um chefe de Estado e um completo idiota


Crise e liderança 

Fernando Haddad
A pergunta que cabe fazer é se estamos preparados para enfrentar uma crise que pode ter proporções consideráveis. Dispomos do SUS e de reservas cambiais. Contudo, dispomos de um estadista que seja sóbrio e capaz de liderar o país? Claramente, não.
Em 2018, chamava a atenção nas pesquisas qualitativas que os eleitores de Bolsonaro reconheciam nele o atributo da "autenticidade", mesmo quando sabiam que ele estava mentindo.

Quando, recentemente, Bolsonaro ofendeu uma jornalista por atribuir-lhe a disseminação de vídeo convocatório de ato contra STF e Congresso, defendeu-se, dizendo que o vídeo em questão era de 2015, sem se dar conta de que as imagens eram recentes. Desmascarado, assumiu o propósito, para em seguida, sob o pretexto do coronavírus, desaconselhar o ato, não sem antes estimulá-lo, subliminarmente, e afirmar sua legitimidade.

Na mesma semana, afirmou que teria vencido as eleições no primeiro turno, não fossem as fraudes praticadas, das quais apresentaria provas. Diante do insólito caso em que o fraudado vence, a nação aguardou ansiosa nova manifestação presidencial, que se desviou da fraude para o tema da confiança.

Essas mentiras autênticas são difíceis de desconstruir, pois sua justificação não está nos falsos enunciados em si, que certamente servem de cortina de fumaça, mas nos verdadeiros comandos subjacentes. O que de fato elas dizem é: "Ataquem a imprensa! Ataquem as instituições! Ataquem a oposição!". E as matilhas virtuais reagem com seus reflexos condicionados.

Bolsonaro, por outro lado, mesmo durante a campanha, assumiu desconhecer os principais assuntos de Estado, outra prova da sua "autenticidade". Suas opiniões restringem-se a questões simbólicas: radares, armas etc. Sem condições de arbitrar entre opiniões divergentes em temas importantes, o pequeno grande homem contornou a situação pela criação de superministérios e concentrou poder em uma única pessoa por área: assim, por exemplo, Moro e Guedes. Diante de qualquer questão incômoda, Bolsonaro sai-se sempre com um "pergunte ao fulano", seja um ministro de Estado, seja um humorista fantasiado de presidente-bananeiro.

A pergunta que cabe fazer, entretanto, diante desse histórico deplorável e dos recentes acontecimentos críticos, é se estamos preparados para enfrentar uma crise que pode ter proporções consideráveis.

Dispomos do SUS, um ativo extraordinário no campo da saúde pública. Dispomos de reservas cambiais e petrolíferas, que blindam nossa economia contra ataques especulativos. Contudo, dispomos de um estadista que seja sóbrio e capaz de liderar o país, coordenar ações e organizar os esforços nacionais diante dos desafios que estão colocados —como foi o caso em outros momentos?

Claramente não. E se a crise for severa, isso nos fará muita falta.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Bolsonavírus


Fernando Haddad
Alvos preferidos são mulheres, pobres, pretos, nordestinos, LBGTs...
Em tempos de pandemia, vale a pergunta sobre os maiores males que afligem a nação.

A antropóloga Lilia Schwarcz, no livro “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (que todo jovem deveria ler), descreve as pragas trazidas pelos colonizadores da América portuguesa. São velhos conhecidos nossos: escravismo, patrimonialismo, mandonismo, patriarcalismo, intolerância etc.

São, de fato, nossas características congênitas. Convivemos com elas e, de certa maneira, muitos de nós as naturalizam. Não há como superá-las sem cultivar a liberdade e radicalizar a democracia, incluindo sua dimensão econômica.

Democratizar o acesso à educação profissional e superior (científica) para formar cidadãos críticos e trabalhadores criativos. Democratizar o acesso à terra, urbana e rural, para livrarmo-nos do monopólio que condena à miséria milhões de brasileiros. Democratizar o acesso ao crédito, para que os meios de produção possam trocar de mãos, ensejando formas socioambientalmente sustentáveis de organização da produção.

A democracia, entretanto, em condições específicas, também adoece e, por vezes, “seleciona” agentes que põem em questão seus fundamentos. Em momentos de crise aguda, o sistema imunológico da democracia se debilita, e um vírus oportunista pode se instalar no corpo social.

Nessas circunstâncias, aquelas características congênitas voltam a se manifestar ainda com mais força, causando uma espécie de estupefação nos que não foram infectados. Trata-se de uma nauseante “redescoberta” do Brasil, um pesadelo acordado.

Esse vírus oportunista tem, portanto, seus alvos preferenciais. Mulheres, pobres, pretos, nordestinos, LBGTs, professores, jornalistas, cientistas, artistas etc., ou seja, todos aqueles que representam, de alguma forma, uma ameaça, ainda que difusa, ao status quo são considerados inimigos. Se a pessoa somar dois desses atributos (jornalista mulher p.ex.), as coisas se complicam ainda mais.

Assim, nada mais errôneo do que considerar Bolsonaro um raio em céu azul ou um acidente de percurso. Bolsonaro é a recidiva agressiva de nossas patologias insuperadas, em face de um sistema imunológico debilitado. Ele tanto intui isso que as mentiras que dissemina não são camufladas, o que lhe permite aferir com precisão o grau de adesão cega a seu movimento pestilento.

Por fim, vale notar, as viroses espirituais guardam duas diferenças com as meramente corporais. As viroses espirituais trazem grandes vantagens para seus disseminadores, sejam pastores charlatões ou empresários inescrupulosos; e elas só se curam com mais, e não menos, proximidade entre o público-alvo.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Livros

Fernando Haddad
Estados tentam institucionalizar a censura literária
“A partir de 2021, todos os livros serão nossos, feito por nós. Os pais vão vibrar. Vai estar lá a bandeira do Brasil na capa. Vai estar lá o hino nacional. Os livros hoje em dia, como regra, são um montão de amontoado de muita coisa escrita”.

Pouco depois desse elucidativo juízo presidencial, alguns governos estaduais tomaram providências na mesma direção de institucionalizar a censura literária. Rondônia e São Paulo largaram na frente. Rondônia distribuiu uma relação de livros a serem recolhidos das escolas. São Paulo vetou uma lista de obras de um projeto de leitura para presos.
Reginaldo Faria em cena do filme "Memórias Póstumas", de André Klotzel; o livro de Machado de Assis que
inspirou o filme estava na lista feita pelo governo de Rondônia dos que deveriam ser recolhidos das escolas.
Não estamos falando de livros da dupla “Marx e Hegel”, por exemplo, que apavora alguns procuradores de São Paulo. Os alvos foram Machado de Assis, Mario de Andrade, Gabriel García Márquez e, claro, “Kafta”.

O germe do obscurantismo, entretanto, vem de longe. Dez anos atrás, alguns jornalistas resolveram fazer um escrutínio dos milhares de títulos distribuídos pelo Ministério da Educação. Valeram-se de uma técnica rudimentar: pinçavam uma frase que, descontextualizada, soava controversa para atacar a qualidade dos livros, sugerindo, nas entrelinhas, que havia um viés ideológico na escolha por parte dos dirigentes do MEC. Desconheciam a metodologia do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que garantia completa impessoalidade, tanto na confecção do catálogo pelas universidade quanto na escolha final pelas escolas.

No caso mais grave, depois de uma devastadora campanha midiática, ações judiciais foram propostas com o intuito de recolher o livro “Por uma Vida Melhor”, de Heloísa Ramos, destinado a jovens e adultos —segundo seus detratores, a obra “ensinava a falar errado”. Um senador chegou a invocar Stálin em defesa da norma culta, ao que eu respondi: “Stálin e Hitler fuzilavam seus inimigos, mas Stálin lia seus livros antes de tomar a decisão”, sugerindo, em tom de ironia, que o senador comportava-se como um nazista ao condenar uma autora sem tê-la lido.

A imprensa tomou as dores do senador e me acusou de preferir Stálin a Hitler, colocando-me, involuntariamente, na companhia de Roosevelt e Churchill. Tomaram o título do meu primeiro livro, “O Sistema Soviético” —que escrevi aos 26 anos de idade—, como prova do meu apreço pelo stalinismo, sem se dar ao trabalho de ler a orelha do livro e, menos ainda, suas conclusões, críticas ao regime soviético. O celebrado autor Branko Milanovic chegou a resultados parecidos, 30 anos mais tarde, no seu “Capitalism, Alone”.

Se as nossas elites dirigentes ao menos tomassem gosto pela leitura antes de procurar dirigi-la, teríamos um avanço cultural extraordinário.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Fascismo

Sexo e religião são temas recorrentes do discurso fascista
Uma certa sociologia crítica, nos anos 1940-50, não tomava o fascismo como forma de organização do Estado ou forma de organização da economia. Preferencialmente, encarava o fascismo como forma política em movimento, considerando a propaganda fascista, em si, objeto de consumo e satisfação.

Para ela, o discurso fascista é astuciosamente ilógico e pseudoemocional, relegando ideias e programas políticos a um papel secundário quando comparados ao impacto psicológico que almeja. Os fascistas apresentam-se como altruístas e incansáveis, pequenos grandes homens que louvam o movimento diante de uma audiência de pobres —mas honestos— de bom senso —mas não intelectuais.

O líder é apresentado como alguém tão frágil como seus irmãos, mas que se fortalece ao confessar sua condição sem inibição. Ele evita formulações que posteriormente tenha que reafirmar, refugiando-se numa imprecisão retórica de caráter totalitário, já que imune às limitações de programas bem delineados.

Os fins são substituídos pelos meios, promovidos pelo discurso fascista que ataca fantasmas e não oponentes reais, sem empregar uma lógica argumentativa, senão um fluxo organizado de ideias que se vinculam por frágil associação. A despeito de seu caráter regressivo, o discurso fascista não é irracional em seu todo. Conscientemente planejado, suas distorções fantásticas o situam no campo da "irracionalidade aplicada". Há loucura no método.
O discurso fascista viola os tabus que foram impostos ao cidadão "comum", refletindo-o. Já o líder fascista é levado a sério justamente porque, pela desinibição, arrisca-se a passar por tolo —o que o distingue e pelo que é recompensado. Ele verbaliza o que seus seguidores pensam e sentem, mas não podem exprimir. O fascismo não é, portanto, o resultado de uma hipnose de massa ou mera manifestação do inconsciente. Sua sobriedade cínica denuncia a participação exagerada do "eu" de cada um dos seus seguidores.

Sexo e religião são temas recorrentes do discurso fascista. A indignação com a obscenidade nada mais é do que uma fina racionalização, propositalmente transparente, do prazer que histórias escandalosas proporcionam aos ouvintes. A religião, por sua vez, é invocada para ser colocada a serviço da atitude ritualística do fascismo que dispensa qualquer conteúdo dogmático específico. O fascismo se interessa pelo "corpo", não pelo "espírito" da religião.

O fascismo se reduz, assim, ao culto do existente, que transforma até a doutrina cristã em slogans de intolerância a tudo que o ameace.

Faz pensar.