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sexta-feira, 12 de março de 2021

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O futebol brasileiro está na segunda divisão mundial, não bota mais medo em ninguém


Juca Kfouri

O Tigres é um time lento, velho e pior que o Palmeiras. Pensemos no Bayern Munique, aí sim, será difícil.

Eis a tônica do tradicional autoengano brasileiro ou o me engana que eu gosto para agradar torcedor e não ser agredido nas redes antissociais.

Daí o Tigres bota o Palmeiras no bolso, Weverton tem de fazer milagres, o time mexicano é muito mais perigoso, ganha o jogo por 1 a 0 e elimina os brasileiros, mata o sonho do título inédito.

Porque há muita gente que se recusa a aceitar que o futebol brasileiro está na segunda divisão mundial, não bota mais medo em ninguém e que, no máximo, temos times para consumo interno —ou no limite das fronteiras da América do Sul.

Aliás, o que o Flamengo fez em 2019 foi excepcional, ao levar o jogo para prorrogação contra o fortíssimo Liverpool.

Vencer o Mundial de Clubes parece tarefa assim como querer que o campeão brasileiro de basquete ganhe do Los Angeles Lakers, embora a diferença para o Tigres não seja desse tamanho, como é para o Bayern Munique.

O futebol nacional caiu tanto que a derrota para o Tigres dói menos que a para o Manchester United, em 1999.

Porque, então, o Palmeiras jogou melhor, diferentemente do acontecido em Doha, quando o Tigres sobrou no gramado.

O dia em que cairmos na real, olharmos para dentro com olhar crítico e exigente de mudanças estruturais no modo de gestão dos clubes brasileiro, talvez as coisas comecem a mudar.

Afinal, o Palmeiras ganhou neste ano o campeonato do estado dele, a taça do continente dele e ainda pode ganhar a copa do país dele.

Definitivamente não é pouca coisa, aliás é muita, quase tudo que qualquer time pode almejar.

Apenas não dá para enfrentar LeBron James. Ou Lewandowski.

Ou até mesmo André-Pierre Gignac, o artilheiro francês do Tigres campeão da América que, aos 35 anos, mete medo.

Porque Pelé, Mané Garrincha, Didi, Gerson, Tostão, Rivellino, Romário, Ronaldos, Rivaldo, fazem parte do passado.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Dirigentes do futebol brasileiro são tão incompetentes e cínicos quanto Paulo Jegues


Como o Ministério da Economia, clubes culpam pandemia por falência
Cínicos, hipócritas e mentirosos, dirigentes quebraram equipes brasileiras
Juca Kfouri

Como se fossem o ministério da Economia, clubes culpam pandemia por falência

Endividados, quebrados, praticamente falidos se não gozassem de regime ultrapassado e predador, os clubes apelam à viúva com a desculpa de que a pandemia os levou à bancarrota.

Cínicos, hipócritas e mentirosos.

Pouquíssimos podiam dizer que estavam em situação saudável antes do coronavírus. Assim mesmo nem tanto a julgar pelos cortes infames que o Flamengo fez de 62 trabalhadores que menos podem no clube, provavelmente porque seu presidente, Rodolfo Landim, concorra ao título de “Cartola Ceifador de 2020”, tão sensível se revela em relação aos funcionários vivos e às famílias dos jovens jogadores mortos.

O clube mais popular do país tem apreço pelos seus comparável ao do velho da Havan com os dele.

Já o segundo clube mais popular nem a conta de luz paga em dia, além de não publicar o balanço como a legislação determina até o último dia de abril.

Sabem a rara leitora e o raro leitor qual é a desculpa do presidente alvinegro?

Andrés Sanchez argumenta com a medida do governo para que as empresas possam publicar seus balanços até julho.

Só que o Corinthians não é empresa e Sanchez é contra a ideia de que venha a ser.

Então, em vez dos clubes agirem para fazer bom suco dos dois projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional, o do clube-empresa e o da Sociedade Anônima do Futebol, buscam aprovar um terceiro, infame, em regime de urgência, do deputado baiano Arthur Maia (DEM).

Com três objetivos básicos como aponta o especialista em Direito Esportivo João Henrique Chiminazzo: “Estabelecer que nos próximos 180 dias o clube não precise recolher o FGTS do jogador e o jogador não possa pedir a rescisão do contrato, o que anula a validade do artigo 31 da Lei Pelé; modificar a Cláusula Compensatória Desportiva (multa quando o clube demite o jogador). A lei diz que o mínimo seriam os salários restantes até o final do contrato. O projeto reduz esse valor para metade do que o jogador iria receber até o final do contrato e ainda permite que seja pago de forma parcelada; suspender o pagamento do ProFut por parte dos clubes”.

Um escândalo!

Empurram ainda mais com a barriga suas pendências com o Estado brasileiro e tungam os bolsos dos jogadores, embora estes até mereçam dada a passividade com que a tudo veem e nada fazem.

A sem-cerimônia da cartolagem em assaltar os cofres públicos, e explorar o pé de obra alheio, só não estarrece a nacionalidade porque nos acostumamos a ver o Posto Ipiranga dizer que o país estava decolando antes da Covid-19, num espetáculo de desfaçatez comovente.

Ninguém minimamente sensato desfaz dos prejuízos causados pela pandemia, assim como não pode aceitar desculpas esfarrapadas sem que haja contrapartidas da parte de quem, por irresponsabilidade, má gestão e maus feitos, fez de nossos clubes verdadeiros sacos sem fundos.

Se crise é oportunidade, a mais recente não pode servir para fazer de conta que tudo vinha bem até que ela desse o ar de sua desgraça.

Muito menos pode servir para a volta açodada dos campeonatos e botar em risco a vida dos participantes.

Em meio a tudo isso, quando uma voz do mundo da bola se manifesta corretamente como fez Raí, surge um bobinho amestrado para criticar a mistura de futebol com política.

Com zero de ética, caiu a máscara de Caio Ribeiro, filho de mau conselheiro oposicionista são-paulino.


Juca Kfouri
Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Jair Messias Bolsonaro é a parte podre de um país adoecido


A cafajestagem bolsominion

Por PAULO BRONDI

Bolsonaro é um cafajeste. Não há outro adjetivo que se lhe ajuste melhor.

Cafajestes são também seus filhos, decrépitos e ignorantes. Cafajeste é também a maioria que o rodeia.

Porém, não é só. E algo que se constata é pior. Fossem esses os únicos cafajestes, o problema seria menor.

Mas, quantos outros cafajestes não há neste país que veem em Bolsonaro sua imagem e semelhança?

Aquele tio idiota do churrasco, aquele vizinho pilantra, o amigo moralista e picareta, o companheiro de trabalho sem-vergonha…

Bolsonaro, e não era segredo pra ninguém, reflete à perfeição aquele lado mequetrefe da sociedade.

Sua eleição tirou do armário as criaturas mais escrotas, habitués do esgoto, que comumente rastejam às ocultas, longe dos olhos das gentes.

Bolsonaro não é o criador, é tão apenas a criatura dessa escrotidão, que hoje representa não pela força, não pelo golpe, mas, pasmem, pelo voto direto. Não é, portanto, um sátrapa, no sentido primeiro do termo.

Em 2018 o embate final não foi entre dois lados da mesma moeda. Foi, sim, entre civilização e barbárie. A barbárie venceu. 57 milhões de brasileiros a colocaram na banqueta do poder.

Elementar, pois, a lição de Marx, sempre atual: "não basta dizer que sua nação foi surpreendida. Não se perdoa a uma nação o momento de desatenção em que o primeiro aventureiro conseguiu violentá-la".

Muitos se arrependeram, é verdade. No entanto, é mais verdadeiro que a grande maioria desse eleitorado ainda vibra a cada frase estúpida, cretina e vagabunda do imbecil-mor.

Bolsonaro não é "avis rara" da canalhice. Como ele, há toneladas Brasil afora.

A claque bolsonarista, à semelhança dos "dezembristas" de Luís Bonaparte, é aquela trupe de "lazzaroni", muitos socialmente desajustados, aquela "coterie" que aplaude os vitupérios, as estultices do seu "mito". Gente da elite, da classe média, do lumpemproletariado.

Autodenominam-se "politicamente incorretos". Nada. É só engenharia gramatical para "gourmetizar" o cretino.

Jair Messias é um "macho" de meia tigela. É frágil, quebradiço, fugidio. Nada tem em si de masculino. É um afetado inseguro de si próprio.

E, como ele, há também outras toneladas por aí.

O bolsonarismo reuniu diante de si um apanhado de fracassados, de marginais, de seres vazios de espírito, uma patuléia cuja existência carecia até então de algum significado útil. Uma gentalha ressentida, apodrecida, sem voz, que encontrou, agora, seu representante perfeito.

O bolsonarismo ousou voar alto, mas o tombo poderá ser infinitamente mais doloroso, cedo ou tarde.

Nem todo bolsonarista é canalha, mas todo canalha é bolsonarista.

Jair Messias Bolsonaro é a parte podre de um país adoecido.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Caiu um dos nazistas do governo Bozo 38


A queda do técnico nazi

Juca Kfouri

Roberto Alvim caiu.

Sem hombridade para assumir como seu o discurso nazista em que parafraseou Joseph Goebbels e que fez com fundo musical do maestro hitlerista Richard Wagner.

Culpou assessores, ou aceçores segundo o ministro da deseducação, Abraham Weintraub, e o Google.

Assessores que ele escolheu como Bozo 38 escolheu Fábio Wajngarten, o publicitário que contrata pelo governo por meio de sua empresa.

O governo que nasceu com apoio de gente com Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Joãozinho Nove, Wilson Witzel, Janaína Paschoal, não pode ser tão explícito como foi Alvim.

Certo de sua impunidade, e com a arrogância ignorante de quem julgou não ser denunciado por citar o propagandista principal do nazismo, Alvim exorbitou.

E engrossa a fila dos desempregados que a reforma trabalhista prometeu resolver e só fez aumentar.

O saudoso jornalista Geraldo Mayrink um dia escreveu não haver limites para a insânia.

Alvim levou ao pé da letra e se deu mal.

Agora resta a ele o Uber, o Ifood, o empreendedorismo de Paulo Guedes.

Tomara que tantos outros engrossem a alternativa.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Lula livre?


Juca Kfouri

Se eu fosse filho de Lula, irmão dele, seu neto, bisneto, pai, mãe, mulher ou namorada, eu gostaria de vê-lo livre nas condições que lhe oferecem. Se fosse amigo de Lula, também. Tanto quanto se lulista fosse. A namorada, diga-se, discorda.

Como não sou nenhuma das alternativas anteriores, e não sei o que é melhor para ele, deixo aqui apenas o testemunho de quem gosta de Lula. Há, na imprensa, quem chame de sala VIP o cubículo em que ele está preso há quase um ano e meio. Estive lá e posso garantir: enlouqueceria em três meses no espaço claustrofóbico em que se encontra.

Esses comunicadores veem razões menores em sua recusa de sair do cárcere, como se porque logo mais terá de voltar em nova condenação.

Lula estaria apenas jogando para a torcida, segundo dizem crer. Incapazes de reconhecer a grandeza do gesto de alguém que, por indignação, por se considerar injustiçado, diz que não é pombo-correio para usar tornozeleira eletrônica e se recusa a ser solto a não ser inocentado.

Neste país de Silvérios e Paloccis, a cafajestagem tem espaço na mídia para gente tão pequena, incapaz de aceitar o tamanho do adversário. A história será correta com tais formadores de opinião. Basta olhar para trás e ver como está nela o advogado Sobral Pinto, que, apesar de ser católico fervoroso a ponto de ir à missa diariamente, defendeu o líder comunista Luís Carlos Prestes.

E nem se trata de exigir generosidade de quem quer que seja, apenas caráter. Caráter para não ser covarde ao xingar alguém que está preso, lição ensinada pelo jornalista João Saldanha quando o bicheiro Castor de Andrade foi para a prisão, tempos depois de ter invadido seu programa na televisão e ameaçado matá-lo. Provocado por colega da mesa de debates para criticar Castor, Saldanha respondeu que não falaria de quem não poderia se defender.

Ora, não reconhecer dignidade na recusa de Lula é comportamento de pequenez sem tamanho, com o perdão da aparente contradição.

Vivemos tempos tão sombrios que há quem ofenda a colossal Fernanda Montenegro ou quem cogite não assinar o Prêmio Camões para Chico Buarque de Hollanda —embora ele deva preferir o diploma só com a assinatura do presidente português.

Esses têm a mesma formação dos que se dirigem a Lula como “o presidiário”, como provavelmente fariam em relação a Nelson Mandela se fossem jornalistas na África do Sul em busca das benesses dos que o encarceraram. Não, não há comparação entre Mandela e Lula, só o registro de comportamentos abjetos, típicos da falta de espinha dorsal.

Nada impede que amanhã Lula resolva ceder aos apelos dos seus, e nem por isso daqui será retirada uma linha sequer. Porque não se deve exigir heroísmo com pescoço alheio, e ninguém melhor que ele para saber o que fazer com o seu.

A pretensão destas linhas se limita a reforçar o direito à dúvida sobre a justiça da sentença, dada a reação do sentenciado e, mais, reconhecer a raridade do gesto, algo jamais visto no Brasil, quiçá no mundo.

Discordo, mas aceito tranquilamente as opiniões dos que o tem como culpado e querem vê-lo morrer na prisão —e na prisão comum.

Entendo os que, intoxicados pela parcialidade, elevaram juízes e procuradores a santos, mesmo que não passem do que as conversas publicadas pelo Intercept Brasil revelam.

Repilo a falta de caráter, a linguagem chula e a desonestidade dos que sabem como a carapuça lhes cabe.

E termino como Sobral Pinto, pedindo a eles a Lei de Proteção aos Animais. Com todo o respeito.

sábado, 21 de setembro de 2019

O triste fim de Jair Messias Bolsonaro


Blog do Juca Kfouri

Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA*


Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos. Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: "Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero."

Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada. Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: "Alvorada é coisa de comunista!" — Esbravejara: "Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha."

O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.

Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.

— Largue a pistola, não vale a pena!

A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:

— Quem está aí?

Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos. Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:

— Porra! Quem é você?

— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.

— Você não é real!

— Não?

— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!

O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:

— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.

— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.

— Vou levar você para a floresta.

— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reacção alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro…

O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:

— Acabou!

Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:

— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!

— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.

Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. "Cheira a onça", assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério. Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio. Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio. Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio. Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio. As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio. As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio. O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.

*Publicado originalmente na revista "Visão" de Portugal.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Juca Kfouri entrevista Glenn Greenwald.



O Entre Vistas de hoje recebe o jornalista Glenn Greenwald. Juca Kfouri e Glenn falam sobre a Lava Jato, o poder da informação e as relações entre a mídia e a democracia.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O desgoverno que nos assola não cumpre nenhuma promessa


Juca Kfouri
Entidades esportivas continuam próximas ao poder no governo Bolsonaro
É claro que acreditou no discurso moralizante da propaganda bolsonarista quem quis.

Alguns até por boa fé e intoxicados pela massacrante campanha que atribuiu ao petismo a corrupção que há cinco séculos mina o país.

Como foram mesmo indesculpáveis os pecados em torno da Copa do Mundo e da Olimpíada, um dos compromissos do entorno bolsonarista era o de exemplar as entidades esportivas há décadas mergulhadas em corrupção.

E o que se vê já no quinto mês de desgoverno?

A CBF, depois de convidar o presidente eleito para entregar taça de campeão e ser recebida com pompa e circunstância no Palácio do Planalto, envolvida nas mesmas denúncias de sempre, com empresas em paraísos fiscais, concorrências viciadas, velhos personagens de escândalos anteriores que reaparecem por trás de empresas com nomes como Prudent Group ou Sport Promotion, que primam pela imprudência de promover o mesmo esporte da propina de sempre, marionetes do Marco Polo que não viaja ou do Ricardo Teixeira que ainda fede, mas não cheira.

Pior, com o respaldo ou de cartolas que andaram reproduzindo o discurso bolsominion, como Mário Celso Petraglia, ou até de ex-deputados do PT, como Andrés Sanchez e Vicente Cândido, porque, como se sabe, a esperteza não tem ideologia, muito menos partido político.

E, como em toda guerra de interesses escusos, brigam as comadres e descobrem-se as verdades, com acusações cruzadas de todos os lados, que passam ao largo do nosso bravo Ministério Público, seja o federal, sejam os estaduais, mais a Receita e a Polícia federais.

Já os marqueteiros dos planos de salvação nacional, da reforma trabalhista que acabaria com o desemprego e que, em quase dois anos, só fez aumentá-lo, ou da panaceia da reforma previdenciária, tratam de contratar desfrutáveis apresentadores de TV para, a peso de ouro e com dinheiro público, tê-los como levantadores de bola em entrevistas constrangedoras, daquelas que dão vergonha alheia.

Sob efusivos aplausos, é claro, dos três pitbulls que atendem pelo mesmo sobrenome presidenciável, do astrólogo boca-suja, da histriônica deputada plagiadora e do ministro kaftaniano (sim, com “T”).

Quanto tempo tudo isso ainda durará é a resposta que vale milhões enquanto a Copa América não começa para, quem sabe, o país se reencontrar com o clima da Copa das Confederações, em 2013, o começo do fim do governo Dilma Rousseff.

O fato é que nunca se viu uma turma de milicianos capaz de marcar tantos gols contra a cada dia, como o pão que o diabo amassou.

Só falta, como os seguidores falangistas do generalíssimo Francisco Franco, ouvirmos o ex-capitão que, como se vê, jamais gostou nem do Exército, gritar “viva la muerte!”, como bem observou mestre Janio de Freitas.

SALVES!
Para Janio de Freitas, à frente de todos, e, agora em ordem alfabética, para Bernardo Mello Franco, Bob Fernandes, Celso Rocha de Barros, Dorrit Harazim, Eugênio Bucci, José Trajano, Kennedy Alencar, Luis Fernando Verissimo, Mário Magalhães, Roberto Pompeu de Toledo, Vladimir Safatle, cada um a seu modo, valentes e sensíveis iluministas nestes tempos obscuros em que pululam isentões de má consciência ou meros capachos capazes de chamar de sala vip a infame solitária que aprisiona o ex-presidente Lula, lá colocado pelo justiceiro que se veste de preto e hoje é refém não apenas dos milicianos, mas, também, dos senadores de quem depende para “ganhar na loteria” uma vaguinha no STF.

Se até lá o ex-capitão já não for ex-presidente."

Juca Kfouri
Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A absurda doação do Pacaembu


Concessão do Pacaembu tem mais cara de doação do que negócio
Juca Kfouri

Esqueça o fracasso que foi, está sendo e nada indica que deixará de ser, o processo de privatização do Maracanã.

Digamos que apenas deu errado, um azar, caiu em mãos ineptas como as da Odebrecht em processo viciado como tudo que a empresa e o ex-governador Sérgio Cabral, hoje se sabe, sempre fizeram.

Admitamos, também, que praças esportivas não devam ser geridas pelo Estado.

O conjunto esportivo concedido tem área de 75.598 m², com área construída de 35.865,53 m², abrangendo piscina olímpica aquecida com arquibancada para 2.500 pessoas; ginásio poliesportivo coberto com capacidade para abrigar 2.500 espectadores; ginásio de tênis com piso de saibro coberto com assento para 800 pessoas; quadra externa de tênis com arquibancada para 1.500 pessoas; quadra poliesportiva externa com iluminação; três pistas de cooper com 500, 600 e 860 m; duas salas de ginástica e posto médico, frequentados, na piscina, por exemplo, gratuitamente pela população nove horas por dia, utilização que será restringida a cinco horas e poderá a passar a ser cobrada.

A concessão permite que os quase 40 mil m² de potencial construtivo receba valor pecuniário em troca da manutenção da área já existente, algo entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões, que transformariam os R$ 111 milhões recebidos pelo erário em R$ 61 milhões ou R$ 41 milhões para o consórcio.

Parece um ótimo negócio. Para o concessionário!

Prestes a completar 80 anos, e erguido sobre terreno público, o complexo esportivo do Pacaembu, tombado pelo patrimônio histórico, é uma das poucas áreas de acesso livre à população de São Paulo, não está sendo concedido, mas doado, sob o argumento de que dá prejuízo de R$ 6 milhões anuais aos cofres da prefeitura, por não assumida má gestão.

Embora o número jamais tenha sido detalhado e o andamento das negociações tenha sido feito praticamente às escondidas, com apenas uma consulta popular, convocada na surdina, cabe discutir se a coisa pública tem de dar lucro.

Pense numa escola, num hospital ou num parque público: foram feitos para serem lucrativos ou para atender bem quem paga impostos e os utiliza?

Parece claro que estamos diante de mais um passo no sentido de pensar a cidade como unidade de negócio e não como locus da cidadania.

Pior: pense neste processo mais uma vez na mãos do tucanato de Aécio Neves, Paulo Preto, José Serra, Marconi Pirillo, Aloysio Nunes, Eduardo Azeredo, Geraldo Alckmin etc.

Por que imaginar que o destino será diferente do acontecido no Maracanã?

Por que supor que a povo não será prejudicado?

Prometem demolir o tobogã para erguer um centro comercial, com restaurantes etc.

Ora, se há empreendimentos que São Paulo tem de sobra são esses, ao contrário de espaços para o lazer e a saúde esportiva dos cidadãos. 

O processo de concessão do estádio já custou a cabeça de arquitetos, membros dos organismos de fiscalização, inconformados com o andamento das coisas.

Que a Justiça siga cumprindo seu papel de não permitir mais um assalto da coisa pública.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Juca Kfouri: Onze perguntas a Queiroz

Blog do Juca Kfouri

1. Se a “movimentação atípica” na conta de Fabrício Queiroz vem da venda de carros recuperados de companhias de seguros, por que ele demorou tanto tempo para dar explicação tão singela?

2. Ele pode mostrar a documentação dos carros que comprou e revendeu?

3. Se Jair Bolsonaro não tem tempo para ir ao banco, e daí Queiroz ter depositado na conta da futura primeira-dama, como explicar que o presidente eleito vira e mexe sai de casa exatamente para ir ao banco?

4. Se Queiroz está doente, porque não disse logo ao país sobre o mal que o acomete?

5. Se pôde falar ao SBT por que não o fez ao MP?

6. Se temeu por sua vida por que não pediu proteção às autoridades?

7. Se não fez nada de errado, por que deixou de falar com Flávio Bolsonaro?

8. Como dizer que não estava foragido se ninguém o encontrava?

9. Ele contou que o enteado suicidou-se com um revólver seu. Não é mesmo perigoso ter armas em casa?

10. Como um ex-policial experiente pôde ser tão descuidado?

11. Quem ele pensa que engana?

Bem, essa última pergunta é fácil responder…