terça-feira, 5 de maio de 2020

Carnificina americana

Por Bradford DeLong
"Infelizmente, os Estados Unidos não estão nem perto desse cenário mais esperançoso. A epidemia nos EUA não está em queda e o governo de Donald Trump não deu indicações de que terá a crise sob controle em um futuro próximo"
Assim como o sistema político, a esfera pública dos EUA está quebrada.

Em 23 de abril de 2020, os Estados Unidos ultrapassaram a marca de 50 mil mortes confirmadas por covid-19, tornando-se o país mais atingido no mundo. Os EUA têm metade da população da Europa continental, mas 75% do número de mortes diárias.

Não sou epidemiologista. Mas se tivesse que dar um palpite, diria que, corrigida a subnotificação, o número real de mortes nos EUA que podem ser atribuídas ao coronavírus estaria mais perto de 75 mil. Outros países conseguiram colocar o número de novos casos diários em trajetória descendente. Caso a mantenham, dentro de poucos meses terão atingido o ponto em que podem manter o vírus relativamente contido por meio de medidas cuidadosas de isolamento, rastreamento dos contatos e testes.

Em 28 de abril, o número diário de mortes pela covid-19 na Itália e Espanha havia caído de mais de 700 para cerca de 350. Alemanha, Canadá e Turquia também pareciam estar revertendo a tendência, com menos de 200 mortes por dia. Na Irlanda, por agora, parece improvável que a contagem diária supere as 60 mortes. O Japão tem 20 mortes por dia, a Áustria, 12, e a Dinamarca, 10. Entre os países com menos de 10 mortes estão a Noruega e a Grécia (4), Austrália (3) e Nova Zelândia e Coreia do Sul. Em Hong Kong, ninguém está morrendo do vírus.

Nos EUA, há três semanas o número de novos casos confirmados por dia tem se mantido em cerca de 30 mil, enquanto os testes de covid-19 realizados por dia estão em cerca de 150 mil (com cerca de 20% dando sistematicamente positivo). Os EUA, portanto, parecem ter interrompido a aceleração da epidemia dentro de suas fronteiras: o número médio de novos casos resultantes de cada pessoa infectada (R[t]) não está mais tão acima de 1.

Mas ainda não está abaixo de 1. Então, em vez de desacelerar- se, a epidemia continua em ritmo constante.

Na ausência de uma vacina, epidemiologistas estimam que cerca de 70% dos americanos (230 milhões de pessoas) precisariam estar infectados até a população atingir a chamada imunidade de grupo. Se o vírus tiver taxa de mortalidade de 1%, a contagem final de mortos não ficaria apenas entre 50 mil e 75 mil,mas em 2,3 milhões. E isso presumindo que o sistema de saúde dos EUA consiga suportar a pressão de novos casos. Se não conseguir, a taxa de mortalidade aumentaria para mais de 1%, mas para quanto? Dois por cento? Três? Cinco? Se fosse de 3%, o número de mortos no país seria de quase 7 milhões.

Em contraste, se a epidemia estivesse em declínio, poderíamos começar a planejar o que vem depois do confinamento de sociedades inteiras: testes em massa de detecção do vírus e de seus anticorpos para determinar quem já pode estar imune. Os considerados resistentes ao vírus poderiam, talvez, receber pulseiras verdes ou algum tipo de sinal digital. Poderiam ser colocados para trabalhar em atividades essenciais que envolvam contato humano, enquanto os que ainda estivessem suscetíveis à infecção ficariam em casa, usariam máscaras em público, se manteriam a uma distância de 2 metros dos demais, lavariam as mãos e superfícies com frequência e assim por diante.

Nessa fase seguinte, o emprego e a economia poderiam começar a se recuperar e o surgimento de novos casos ficaria contido. O coronavírus sempre representará uma tragédia para os que perderam pessoas queridas, mas em termos gerais, passaria a ser mais um incômodo — um risco a ser minimizado até a chegada de uma vacina.

Infelizmente, os EUA não estão nem perto desse cenário mais esperançoso. A epidemia nos EUA não está em queda e o governo Trump não deu indicações de que terá a crise sob controle dentro do futuro próximo. Em vez disso, Rudy Giuliani, confidente e intermediário do presidente dos EUA, Donald Trump, desdenhou do protocolo necessário de testes e rastreamento como “ridículo”.

Pior, em recente entrevista coletiva, o próprio Trump sugeriu que o vírus poderia ser tratado injetando produtos químicos domésticos venenosos ou irradiando uma pessoa com luz ultravioleta (que, por acaso, é a forma usada em um episódio de Jornada nas Estrelas de 1967, “Operation – Annihilate!”, para matar parasitas que alteravam o comportamento dos infectados).

Também foi noticiado que Trump deu luz verde a um plano proposto pelo governador republicano da Geórgia para reabrir a economia do Estado. Desde então, ele voltou atrás, argumentando que é “cedo demais” para uma reabertura, mas a mensagem a sua base política já havia sido absorvida.

A governadora republicana Kristi Noem, da Dakota do Sul, um Estado que sobe rapidamente nos rankings de casos de covid-19 por milhão de pessoas, diz que o distanciamento social não funciona porque “99% das infecções” não estão acontecendo nos locais de trabalho, mas na casa das pessoas. Noem condenou as pessoas em outros Estados que “abrem mão de suas liberdades em troca de apenas um pouco de segurança”.

Assim como o sistema político americano, a esfera pública americana está quebrada. Infelizmente, como os senadores republicanos já decidiram em fevereiro que os crimes de responsabilidade de Trump não são suficientes para retirá-lo do poder, os EUA perderam a última chance que tinham de uma adoção de políticas sólidas e racionais.

Por enquanto, a epidemia avançará implacavelmente, matando cerca de 4 mil pessoas por dia e elevando a taxa de desemprego a inéditos 20%. Com uma taxa de mortalidade de 1%, 4 mil mortes por dia significam que 400 mil pessoas por dia contraem o vírus e começam a desenvolver uma resistência, pelo menos, temporária a ele. Dessa forma, a cada dia vamos estar 0,2% mais próximos da imunidade de grupo. No meio tempo, a situação pode mudar, talvez para melhor, mas mais provavelmente para pior.

J. Bradford DeLong , ex-vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, é professor de economia da Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2020. www.project-syndicate.org

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