Que Aldir Blanc vá em paz. E, como um dos compositores mais importantes a conseguir burlar a censura durante a ditadura, não tem também momento mais representativo para a sua partida.
E parte agora, num rabo-de-foguete para o lado de Henfil e de seu irmão, mas sem choro de Marias e Clarices e com a esperança ainda na corda bamba. Infelizmente, vai também, num período onde chibatas e rubras cascatas voltam à tona no lombo de trabalhadores de aplicativos precarizados, entre cantos de sertanejos com arma na cintura.
Hoje vou ficar tipo Carlito, bêbado e trajando luto em sua homenagem.
A última batalha é sempre pedida, mas a luta deve ter sido boa. Obrigado, mestre. Sabemos que o show de todo artista, tem que continuar.
Vinícius Carvalho
O Mestre-sala dos Mares
João Bosco/Aldir Blanc
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu.
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala.
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas.
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:
Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias.
Glória à farofa
à cachaça, às baleias.
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais.
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais.
Mas salve.
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais.
Mas faz muito tempo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário