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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ernesto Araújo, um demente dos mais perigosos

Nilson Lage

Acabo de ler o artigo “Trump e o Ocidente”, de Ernesto Araújo, publicado na revista Cadernos de Política Exterior, Ano II, número 6, do segundo semestre de 2017. 

Trata-se de laboriosa bajulação do presidente americano, a que o autor atribui profundos e improváveis conhecimentos.

O importante, no entanto, é o que o chanceler de Bolsonaro diz dele mesmo, entre citações de Heidegger, Nietzsche e até Spengler, que há cem anos saudava a decadência do Ocidente. 

Ernesto Araújo embarca nessa canoa – mas o Ocidente, para ele, não é o Ocidente geográfico ou político, com suas instituições conhecidas: é uma essência espiritual, abstração, sem peso e forma. 

O que ameaça de fato o Ocidente, sustenta, não faz parte do mundo material, mas consiste na deterioração da alma ocidental cristã, herdeira do Santo Graal, numa espécie de efeito autoimune que facilita a obra deletéria do credo muçulmano. 

A salvação de tal entidade mítica é missão transcendente, que exclui o liberalismo e a herança da Revolução Francesa – algo há muito guardado e misteriosamente contido nos regimes (no senso comum, protofascistas) daquela parte da Europa que faz fronteira com a Rússia: ele cita a Polônia e o papa Wojtyla. 

A conclusão forçosa de tal viagem às profundezas do Nada é que caberia a Trump, no leme da América, ser a mão possante de Deus, única força capaz de redimir o Ocidente.

Em suma: um demente dos mais perigosos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Bastidores do fim do Mais Médicos

Camilo Vannuchi

— Eles que se danem.

— Mas, presidente, são 11 mil médicos cubanos no Brasil, distribuídos por mais de 3 mil municípios.

— Vão pra Cuba!

— Mas, presidente, haverá um desfalque significativo. Estamos falando de algo em torno de 25 milhões de pessoas que ficarão desassistidas.

— Vamos fazer uma faxina! Minha bandeira jamais será vermelha!!

— Mas, presidente, seria mais adequado buscar os substitutos antes que os cubanos fossem embora.

— Matar uns 30 mil! Uma guerra civil. Se tiver que morrer alguns inocentes, paciência.

— Mas, presidente, os médicos cubanos atuam hoje em mais de 60 países.

— Petralhas! Vagabundos! Quebraram o país e ainda mandaram bilhões de reais para Cuba.

— Mas, presidente, os médicos cubanos são funcionários públicos. Eles trabalham para o Estado. O que o Brasil fez com eles foi um convênio. Por isso eles continuam recebendo seu salário, com um adicional, mas não recebem diretamente do governo brasileiro como profissionais autônomos de outros países.

— Não te estupro porque você não merece! Sou favorável à tortura!! Marginais vermelhos!!!

— Mas, presidente, o senhor não está falando coisa com coisa.

— Grrrr.... Grrrr.... Au au! Auuuuuuuu.......

Anticristo coloca a Besta no trono do Itamaraty


Um bolsonarista na casa de Rio Branco


O novo presidente terá um chanceler à sua imagem e semelhança. O futuro ministro Ernesto Araújo não é apenas um bolsonarista de carteirinha. Ele também emula o chefe no discurso contra o “globalismo”, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural”.

O ideário do novo chefe do Itamaraty pode ser consultado no blog “Metapolítica 17”. A página é dedicada a uma militância fervorosa a favor do capitão e contra o PT. Ele se refere à sigla como “Partido Terrorista”. Em tom imodesto, diz que pretende “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”.

“Se o PT ganhar, vai extinguir todas as luzes da decência e da liberdade”, escreveu, a uma semana da eleição. Ele acusou os petistas de tramarem um “regime de partido único, ditatorial, (...) um governo que controlará sua vida a partir da educação pré-escolar, que administrará sua família, que controlará o que você pensa e diz”.

O futuro chanceler também ecoa Bolsonaro na pregação contra a China, maior parceira comercial do Brasil. Ele sugere que é preciso resistir à “China maoísta que dominará o mundo”. O discurso parece levemente fora de época. A potência asiática começou a abandonar o maoísmo em 1978, com as reformas de Deng Xiaoping.

Em outro post, Araújo afirma que o socialismo “perverte o milagre da concepção com a ideologia do aborto, perverte o sexo com a ideologia de gênero e o feminismo” e “perverte a fé cristã”.

O anti-intelectualismo também desponta nos textos do diplomata. Em setembro, ele escreveu que “o povo é muito mais são e sábio do que a classe instruída”. Acrescentou que as crianças brasileiras receberiam uma “educação cínica e anti-patriótica onde [sic] se ensina uma história sem heróis e onde professores sub-marxistas tentam criar pequenos militantes”.

Num artigo mais extenso, publicado em 2017 na revista “Cadernos de Política Exterior”, Araújo desfia admiração por Donald Trump. O embaixador compara o presidente americano a Reagan e Churchill e sustenta, sem ironia, que ele pode “salvar o Ocidente”. Ao que tudo indica, o Itamaraty está prestes a entrar num novo período de alinhamento automático à Casa Branca.

Bernardo Mello Franco

É colunista de política do GLOBO. Também passou pelo Jornal do Brasil e pela Folha de S.Paulo. Foi correspondente em Londres e repórter no Rio, em SP e Brasília. É autor de "Mil Dias de Tormenta - A crise que derrubou Dilma e deixou Temer por um fio"