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domingo, 2 de maio de 2021

A capacidade asnática de de Guedes só não é maior do que a de uma elite que o sustenta


Folha: por que Guedes é tratado como ‘menos imbecil’?

Fernando Brito

A ombudsman da Folha, Flávia Lima levanta, sem ponto de interrogação a questão de que “a cobertura que a imprensa faz de Paulo Guedes ainda é, no estilo e no tom, diferente daquela feita sobre as falas da ministra Damares Alves, ou do ex-ministro Abraham Weintraub”, que traduzi na pergunta aí do título.

E a resposta, de uma imensa obviedade, é a de que o extinto Posto Ipiranga sustenta, afinal, o “não-programa econômico” que, desde Fernando Henrique Cardoso , da direita brasileira: o “polidesmonte” do país.

Guedes é um “fundamentalista” do primarismo que ataca, por todos os lados, a única possibilidade que tem o Brasil de construir seu destino: incluir, assistir, educar, criar, transformar o que poderia ser um dos maiores mercados de consumo do planeta associado a uma capacidade de produzir e, assim, gerar trabalho e renda que sirvam de combustível a tudo o que se listou.

A história é sempre a mesma: “o Estado atrapalha”, “a iniciativa privada faz melhor”, “para que produzir se é mais barato comprar” e outros simplismos do gênero, tratados como “verdades auto-explicadas”.

A rigor, o único objetivo econômico do país não é sequer o “ajustar as contas públicas” que se apregoa tanto, mas o de responder com cortes irracionais (além de desumanos) à perda de capacidade de gerar renda pública crescente do Brasil e, continuar com o processo de alienação de patrimônio palpável (privatização do que há) e potencial (concessões do que está maduro para ser) com a desculpa (sim, sempre verdadeira na penúria) de que não há aqui capitais para o investimento necessário.

É o moto contínuo do  atraso e da pobreza, a vocação de gerente de um entreposto colonial que há séculos domina os grupos dominantes do Brasil.

Paulo Guedes não está fazendo nada que não seja cometer o crime de expressar com clareza o pensamento ridículo que habita, em silêncio ou travestido de fórmulas em “economês”: o de que somos o país onde as “regalias ao pobres” atravanca o desenvolvimento econômico: ora são os encargos sociais “no cangote” do empresário, ora é a doméstica que ia à Disney, agora o filho do porteiro na universidade.

A solução, genial, é o “ticket” da Saúde, para ir ao Sírio e Libanês e o “ticket” educação, que poria os filhos dos pobres na PUC.

A capacidade asnática de de Guedes só não é maior do que a de uma elite que o sustenta.

sábado, 3 de abril de 2021

Universidade de Washington vê Brasil igualar EUA em mortes: até 660 mil

Fernando Brito

Com a situação como está, o Brasil pode chegar a 563 mil mortes por Covid-19 até o dia 1° de julho.

É a previsão do Instituto de Métricas e Avaliações em Saúde da Universidade de Washington, um dos mais respeitáveis preditores estatísticos epidêmicos.

E esta é uma avaliação moderada, que leva em conta números de morte menores do que aquelas que estamos registrando.

Se a coisa piorar, o IHME admite que se possa chegar a 664 mil mortes naquela data.

O número se iguala ao dos Estados Unidos, onde a previsão vai a 668 mil na hipótese mais sombria e a a 609 mil na hipótese considerando não haver por já a tal “4ª onda”.

O cálculo foi feito com dados disponíveis até 27 de março e, ontem, com 238.206 mortos, já deixamos para trás as previsões dos estatísticos, em quase 2 mil as mortes.

E é conservador, porque prevê que o crescimento das mortes vá continuar no mesmo ritmo até a terceira semana de abril, passando então a cair com força.

Se você quiser examinar mais detalhadamente os gráficos que ilustram os posts, eles podem ser obtidos AQUI (Brasil) e AQUI (EUA).


terça-feira, 9 de março de 2021

Vilania de Fachin é tão clara que deve fracassar





Não foram necessárias mais que algumas horas para que se tornasse tão evidente a manobra de Luiz Edson Fachin ao anular os processos de Lula em Curitiba para evitar a decretação da parcialidade de Sergio Moro que, ao que tudo indica, ela está fada ao fracasso.

Até a direita de punhos de renda está atônita, diante do fato de que é impossível negar que a finória canetada de Fachin visa, essencialmente, proteger Moro e sua trupe da escancarada parcialidade.

Essa é a principal razão, pois Fachin sabe que seria virtualmente impossível, salvo por um escândalo ainda maior do que o da Lava Jato, validar os processos de Curitiba em um ano e meio, repetir a condenação e, ainda, confirmá-la em segunda instância.

É a Moro, mais que a Lula, que a sua canetada beneficia, pois era inevitável que a condenação de Lula por Moro não resistisse ao julgamento de suspeição que, mesmo sem efeitos práticos, seria a condenação do ex-juiz, ainda que apenas moral.

Abalado, combalido, retirado, Moro ainda é – por falta de coisa melhor – uma das opções eleitorais da camorra que levou Bolsonaro ao poder e se viu destroçada por ele.

Mas depende, para isso, de que Lula esteja livre por uma “tecnicalidade” – a incompetência de foro – e não porque foi condenado por razões políticas pelo seu tribunal e seus procuradores, numa conspiração que culminaria com a eleição de Bolsonaro.

Os advogados da turma da Lava Jato já declaram que a suspeição “é assunto encerrado”.

Não é, e vai seguir estigmatizando Moro, mesmo que o Supremo decida sepultar o julgamento do habeas corpus de Lula que a questiona, e isso não é favas contadas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Queda de ações da Petrobras supera piores previsões


Fernando Brito

Todos esperavam um tombo forte logo na abertura do pregão da Bovespa, mas o movimento de queda das ações da Petrobras – e de todas as estatais, em menor escala – só está se aprofundando e, neste momento, passa dos 20% .

Claro que, como os especuladores estão em movimento, há “forçação” de barra nestas cotações, mas dois outros preços deixam mais difícil e custosa para a empresa a intenção de Jair Bolsonaro de rebaixar os preços dos combustíveis. O dólar sobe 2,4%, a R$ 5,51, e o petróleo outros dois por cento.

Como os dois são indexadores do preço dos combustíveis, só hoje o salto beira os 5%.

Eletrobras, em razão do “dedo na tomada” prometido por Bolsonaro, cai 7% e Banco do Brasil, em razão do receio que o ex-capitão aproveite a oportunidade do “bundalelê” nas estatais para fazer “rodar” a diretoria do banco, tomba acima de 10%.

Nos cálculos de valor de mercado – que nada têm a ver com valor real, mas estão sempre nas contas dos financistas – as três empresas perderam algo pouco acima de R$ 100 bilhões, apenas hoje, R$ 125 bilhões se considerada a queda de sexta-feira.

O mercado não está “irritadinho” com Bolsonaro, está, para usar a linguagem presidencial, puto da vida.

Deveriam estar com eles próprios, que apostaram num cavalo xucro, achando que era um burro manso.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Bolsonaro passou a sufocar o Brasil

Impeachment: em todas as bocas, ainda não em todos os becos 

Fernando Brito

Ontem, no editorial do Estadão; hoje no da Folha de S. Paulo: a palavra impeachment começa a andar em todas as bocas, embora não esteja (ainda) em todos os becos.

Ainda assim, é inegável que o governo Jair Bolsonaro entrou em processo de decomposição.

Os dois temas que preocupam a população – Saúde e Economia – estão tendo um tratamento, nada precoce, errático, inconsistente, improvisado ou, numa palavra, ridículo.

Já não há o espaço orçamentário e de aceitação empresarial a um novo auxílio emergencial que nos acuda diante da nova onda pandêmica. Paulo Guedes o nega e pretende que um sistema de “vales” – a simples antecipação de 13° de aposentados e pensionistas – possa ajudar na travessia de um semestre desastroso neste início de 2021.

É na economia que o grande fogo de crises arde e todos viram que o auxílio emergencial funcionou em 2020 como seu resfriador. E a água fria, pelo visto, acabou.

Na Saúde, o que era patético em Eduardo Pazuello, finalmente, ganhou sua verdadeira face de trágico e criminoso e a provável abertura de inquérito no Supremo Tribunal para apurar os eventos macabros de Manaus vai levar lenha à fornalha pública onde assa o roliço general.

Assa, aliás, não só o seu couro, mas a imagem de todas as Forças Armadas, metidas numa enrascada onde se misturaram ambição, arrogância, autoritarismo e, sobretudo, burrice e anacronismo.

Estão dados, portanto, os elementos para um processo de pânico social: há o medo da morte e da crise econômica somado à escuridão de um governo sem Norte, sem rumo, órfão de sua referência norte-americana e mundialmente marginalizado por sua estupidez.

Janio de Freitas tem completa razão quando afirma hoje que encarar “o impeachment não apenas como solução, mas sobretudo como necessidade, avançou mais e ganhou mais exposição nos últimos dias do que nos dois anos de Bolsonaro até a tragédia pandêmica em Manaus”.

É exatamente isso que o país sente: o peito opresso, a dificuldade de respirar para viver, a incerteza sobre o que lhe vai acontecer.

Bolsonaro passou a sufocar o Brasil.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

São Paulo caminha para o lockdown e Doria para o knock-out

Fernando Brito

O fechamento do comércio a partir das 20 horas e aos sábados, domingo e feriados é o primeiro passo para o inevitável lockdown a que chegará a cidade de São Paulo dentro de alguns dias.

Será a consequência lógica de um agravamento da Covid em São Paulo que os números expressam sem permitir engano: de um mês atrás até hoje, o número de casos cresceu 79% no estado (de 5.606 casos por dia para 10.023 casos por dia, em média) e de mortes subiu 96%, de 111 mortes por dia em média semanal para 218 mortes por dia esta semana. 254, só nas últimas 24 horas.

E é o fato de que é inevitável que a situação caminha inexoravelmente para ficar fora de controle que anima João Doria a aceitar o confronto com a camada de classe média e empresários que já foram protestar contra o fechamento parcial.

Ele sabe que o colapso sanitário em São Paulo tira-lhe mais do que lhe deu a operação bem-sucedida de trazer a vacina Sinovac para o Butantã.

E conta com que Jair Bolsonaro, na sua sesquipedal ignorância vá continuar a fazer dele seu alvo preferencial, o que dissimula o direitismo elitista do governador da cashmère.

Dória está fazendo a coisa certa – e até menos que ela – mas trai-se no oportunismo exagerado que sua vaidade não lhe permite conter.

A capa – certamente gratuita e desinteressada, não é – com sua foto posada, sobraçando caixas e caixas da Coronavac – é das coisas mais torpes que já se viu na torpe coleção de torpezas da revista.

QUANTOÉ

A falta de seriedade de Doria, com seus governados entrando num torvelinho de sofrimento de sofrimento e dor, é destas coisas que a era dos bons moços – ele próprio, Aécio, Moro e outros – nos legou para mostrar que ternos bem cortados não fazem um homem decente.

Dória está fadado a perecer por parecer ser como não é e por não poder, por isso, ser o que é.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Brasil sem diplomacia será país sem vacina

Fernando Brito

O início da confusa vacinação, quase simbólica, dos brasileiros contra a Covid-19, vencida a etapa das autorizações da Anvisa – espera-se que irão repetir-se com menos demora -muda o foco das preocupações de Estado para a necessidade imediata (e já tardia) do insumo farmacológico ativo (IFA) que a permita envasar aqui.

Afora as cinco milhões de doses em finalização no Butantã – que, somadas ao lote inicial, pouco mais permitem que imunizar um terço da população envolvida em atividades médico-hospitalares – não há material para sequer mais um frasco de vacina.

Isso significa que as linhas de produção do Butantan e da Fiocruz ficam paradas e vazias, esperando com que trabalhar.

Obter este material exige, porém, muito mais ação do que são capazes de ter os dirigentes dos dois institutos.

Não apenas porque as fábricas têm muito mais demanda do que capacidade como os países – a Índia e a China – estão às voltas com a vacinação de suas populações de mais de bilhão de almas.

Não conseguiremos matéria-prima em quantidade e fluxo seguros para vacinar os brasileiros sem pressões e diálogos diplomáticos muito além da capacidade de simples embaixadores.

Requisita-se, em casos assim, a presença do chanceler e do próprio presidente.

E hoje Ernesto Araújo e Jair Bolsonaro são personagens cujo simples odor afasta interlocutores em qualquer continente.

Dependemos, portanto, que a generosidade para com o povo brasileiro seja mais forte que a repulsa em tratar algo com nosso governo.

Isso pode, porem, valer para gestos limitados, como foram os providenciais caminhões de oxigênio que a Venezuela mandou para Manaus e que não mereceram sequer um “obrigado”.

Mas não vale para um programa de grandes dimensões, que exige o cumprimento do cronograma de embarques de grandes quantidades de insumos, por pelo menos seis meses – se os planos de produção funcionarem como estão no papel, o que é improvável.

Pesa no ar a quase certeza de que não teremos quem vá, em nome da vida do povo brasileiro, pedir os insumos da vacina.

Se pararmos a vacinação, e daí?

sábado, 9 de janeiro de 2021

Haddad e a derrota moral da Folha, que prefere Bolsonaro, mas não confessa

Hitler se defende




Fernando Haddad fez algo que só o qualifica como político e ser humano.

Mostrou que a conveniência nunca pode ser mais importante que a dignidade.

Para Haddad, oriundo da classe média alta paulistana, bem acolhido em círculos acadêmicos e da elite, seria simples e envaidecedor continuar contando com uma coluna semanal na Folha.

Mas a atitude do jornal, que já tornava isso um exercício permanente de tolerância – obrigação, aliás, de homens públicos – chegou a termos intoleráveis no editorial da edição de segunda-feira passada, onde acusava seu colunista da baixeza de afirmar que o ex-prefeito defendia o direito de Lula candidatar-se à presidência porque estaria “esperançoso por uma nova chance” de acabar por substituí-lo na chapa, como em 2018.

E Haddad fez muito bem em não tolerar o intolerável: um jornal que diz acolher sua opinião mas que o julga capaz de um subterfúgio desta natureza torpe.

Não, não é normal agir assim. Imagine, por exemplo se o The New York Times – o qual tantas vezes o jornal paulistano aspira ser, em escala tupiniquim – abrigasse uma coluna de Kamala Harris e escrevesse, em editorial, que a até agora senadora pela Califórnia aceitasse ser companheira de chapa de Joe Biden, “esperançosa por uma chance” de acabar substituindo o veterano político, de 78 anos?

A Folha, sim, é que é dissimulada e covarde, porque vocifera contra o que Bolsonaro é (e que não difere do que sempre sabidamente foi) mas refugiou-se na “Paris da omissão” quando se tratou de entregar a ele o nosso país.

Por isso é que nunca será sequer a sombra do grande jornal norte-americano, até porque este, na hora das decisões, não escolhe o muro e, menos ainda escolheria, sem a coragem de explicitá-lo, um tiranete como o que tiveram por lá ou o temos aqui, desafortunadamente.

Ao menos para este modesto escriba, hoje, Fernando Haddad tornou-se mais digno de, um dia, exercer a Presidência e a escolha de Lula para que o encarnasse em 2018 foi sábia e honrada.

Homens leais, com caráter e dignidade são raros na vida pública e saber reconhecer um deles é dever que independe de ideologias e até de programas políticos. Como é dever discernir entre o palavrório liberal de quem, na “hora H”, por ódios políticos, entrega o país a um canalha.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Mortes disparam no Rio. E sobem muito em todo o país




Com 224 mortes registradas na últimas 24 horas, o Estado do Rio de Janeiro voltou a apresentar números que não alcançava desde a pior fase da pandemia, em meados de maio passado.

224 vidas perdidas em um dia, o mesmo que cair um avião lotado aqui mesmo e sem sobreviventes.

Na capital, a taxa de ocupação da rede pública municipal supera os 95%, com 243 de 251 leitos de UTI acolhendo pacientes graves.

A situação do país, como tão cansativamente se repete aqui, está em franca deterioração. 756 mortes e mais 34 mil casos hoje.

Os 167 mil mortos da Covid-19 já são 13% de todas as mortes, por todas as razões, comparadas ao total de 2019.

Coração, cânceres, assassinatos, acidentes de trânsito, nada disso mata mais que o coronavírus.

Não temos mais governo, nem ministro, nem secretários de Saúde, salvo exceções.

A disciplina da sociedade para a prática do distanciamento social, a aceitação das restrições às atividades econômicas e a capacidade de prover a subsistência pela via do moribundo auxílio emergencial estão minguadas ao extremo.

Estamos na mão do acaso, da sorte ou azar de que a transmissibilidade do vírus nos ajude a que tudo seja, apenas por um acaso, menos terrível do que foi seis meses atrás.

Porque, afinal, não somos “maricas” e temos de morrer e ver morrer para…para quê, mesmo?

Ah, sim, para irmos ao shopping, à academia, ao luau do Arpoador…

domingo, 27 de setembro de 2020

Bolsonaro mentiu sempre e a Folha – como toda a mídia – não amarelou: acumpliciou-se


Mas quando não foi assim, Folha?

Fernando Brito

A coluna da ombudsman da Folha hoje é, desde o título, um exemplo de como as verdades podem ser ditas por inteiro.

Bolsonaro mentiu e a Folha amarelou, a sentença que encabeça o texto de Flávia Lima é dura, mas não um exagero, por conta das duas verdades ditas ali.

Já se tinha observado aqui, dias atrás, que os jornais praticaram farto malabarismo verbal para fugir desta cristalina verdade: o presidente mentiu.

Certo que o verbo mentir é destes do qual se tenta escapar nos discursos bem educados pelo clássico “fulano faltou com a verdade” ou as tais “falácias” que, já o ironizou Veríssimo, parece carneirinhos dóceis e inofensivos.

Mas há limites para o relativismo, quando se trata de confrontar-se com um tipo como Bolsonaro, afinal a “escolha nada difícil” da mídia nas eleições de 2018, e o festival de asneiras que ele imantou e ergueu, como uma onda tenebrosa sobre o país.

Exagero?

Diz a própria ombudsman: “Nunca é demais lembrar que Bolsonaro usa a mentira como estratégia, e a imprensa brasileira ainda não sabe bem o que fazer com isso”.

Ah, que bonito: que tal, por exemplo, tratar o boi pelo nome?

Por onde se olhe, desde a terra plana, à ditadura socialista ou bolivariana, passando por kits gay e mamadeiras de piroca, há muito tempo era necessário dizer que o bolsonarismo alicerçou-se num pantanal de mentiras, assim mesmo, mentiras deslavadas.

Mas a grande mídia tudo “relativizou” em nome de uma “imparcialidade” que não pratica e normalizou, cinicamente, o que é intolerável: apologias à ditadura, à tortura, à morte, e o acobertamento do que já era uma gangue familiar – a vasta fauna de bolsonaros filhos, mulheres e ex – cujas ligações policiais e milicianas era sobejamente conhecida.

Curioso é que, tão pródiga em exigir autocríticas à esquerda, jamais pensou que deve ao país o mesmo por ter patrocinado a barbárie da extrema-direita.

Sobretudo por ter participado, anos a fio, do processo de “selvagerização” do Brasil, em nome da liberdade do capital.

Bolsonaro mentiu sempre e a Folha – como toda a mídia – não amarelou: acumpliciou-se, aceitando-o como remédio, ainda que amargo a seus modos educados – para que se evitasse um governo de centro-esquerda no país.

sábado, 29 de agosto de 2020

Os zumbis da direita


Fernando Brito

Embora a gente saiba que está acontecendo, é chocante e inacreditável que estejam se formando exércitos zumbis, completamente alucinados, na extrema-direita, como os movimentos “QAnom” retratados hoje pelo Estadão, em reportagem de Vinícius Valfré.

Vejam o nível de delírio:

Em síntese, os adeptos do QAnon acreditam que o presidente Donald Trump foi escolhido por um exército secreto para uma batalha contra governantes ocultos do mundo. É um herói patriota que aceitou enfrentar uma rede de tráfico humano e pedofilia que envolve desde políticos da esquerda e atores de Hollywood até o Vaticano e o bilionário húngaro George Soros.

A origem do movimento é obscura. Os adeptos seguem um anônimo que se identifica como “Q” para lançar mensagens cifradas em um fórum da deep web – parte da internet escondida de ferramentas de busca para preservação do anonimato.

A fonte primária da teoria jamais fez qualquer menção a Bolsonaro, mas apoiadores do presidente trataram de incluir o brasileiro entre os líderes mundiais escolhidos pelo “Q” para “salvar o mundo”.

Em abril deste ano, por exemplo, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, postou nas redes uma foto ao lado do pai e dos irmãos comendo milho. Para adeptos do movimento QAnon, mais do que uma mera reunião de família, a imagem era uma prova de que Bolsonaro é o escolhido. Dias antes, o “Q” havia publicado a cena de uma plantação de milho. “Junte as peças do quebra-cabeça”, dizia a mensagem postada pelo perfil “Revelação Total”.


Loucura? Pois lembre que existem grupos defendendo a ideia de que a Terra é plana e está no centro do Universo – quase 600 anos depois de Copérnico – e até de que as pistolas de termômetro causam câncer, cegueira e danos cerebrais. São as versões pós-eleitorais do kit gay de Bolsonaro que, em escala global, têm Donald Trump como uma espécie de Jaspion que vem salvar a civilização ocidental de uma conspiração sino-gay-marxista e, talvez, extraterrestre.

É coisa de deixar Jim Jones no chinelo mas, afinal, isso a deputada Flordelis já fez.

Porque, afinal, os fanatismos se mistura e partem das convicções (ou das fés, como queiram) para chegar ao delírio e ao absurdo.

Não são apenas fake news, noticias falsas que se espalham pelas redes. É a incapacidade de raciocinar, de relacionar os fatos, de discernir o que é ilógico do que faz sentido.

Bolsonaro, com sua arminha, fez o que seus fanáticos dizem que faz a pistola-termômetro: causou graves danos cerebrais à sociedade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tá lá o fascista estendido no chão

Mórbida semelhança

Fernando Brito

Separados e às turras desde o início de seus governos, Wilson Witzel e Jair Bolsonaro saíram da inexpressividade política para a vitória eleitoral montados no mesmo burro xucro do moralismo e da apologia do policialismo como solução para os problemas do Rio de Janeiro e do Brasil.

Entre o “mirar na cabecinha” e o “fazer arminha” as diferenças eram poucas e representavam a mesma promessa de que uma polícia letal e o cidadão fortemente armado seriam resposta eficaz contra a violência.

E que ambos, como ex-juiz e ex-militar iriam colocar ordem num Rio de Janeiro e num Brasil que, diziam, estavam em crise por causa da corrupção de governantes anteriores.

Como quase sempre acontece, o discurso da moralidade funcionava como capa da sordidez de gente sempre ávida de vantagens e pecúnias pessoais.

Bolsonaro, o irmão mais velho, não assumiu pessoalmente o parentesco, mas o fez expressamente ao colocar o filho Flávio como fiel escudeiro de Witzel, o que o próprio “01” admite.

Apesar de nunca ter tido o apoio do presidenciável do PSL, Witzel contou com a presença do senador eleito mais votado do Rio, Flávio Bolsonaro (PSL), em atos de sua campanha. Reportagem do UOL, logo após a eleição contava como era o “tal pai, tal Witzel”:

Apoiadores do presidenciável também pediram voto para Witzel em redes sociais e palanques, como foi o caso do deputado estadual eleito Rodrigo Amorim (PSL), o mais bem votado do Rio de Janeiro. A campanha de Witzel chegou a pagar anúncio no Google que associava o ex-juiz ao sobrenome Bolsonaro. Quando se digitava “Bolsonaro” no buscador, encontrava-se um link com a chamada “Bolsonaro apoia Witzel”. Somente ao clicar, o eleitor entendia que o apoio era de Flávio, e não do pai dele Jair Bolsonaro.

Também foram distribuídos panfletos com imagens de Witzel e Jair. As propostas e discursos de Witzel também buscam o máximo de proximidade com Bolsonaro. Se o capitão reformado defendia segurança jurídica para policiais em caso de mortes em confrontos, o candidato do PSC seguia a mesma linha e ia mais longe ao defender o “abate” de criminosos armados com fuzil.

Se Bolsonaro pregava a implantação de escolas militares pelo país, Witzel fazia a mesma promessa para o Rio. Se o capitão reformado falava em Deus, o candidato do PSC também recorria a perfil religioso. O governador eleito prometeu ainda expandir o número de clubes de tiro como apoio à proposta de Bolsonaro de flexibilizar o Estatuto do Desarmamento com o propósito de facilitar a posse de arma à população.

Até a proposta encampada por Bolsonaro Escola sem Partido foi citada no último debate Witzel x Paes, na TV Globo. O discurso contra a corrupção foi outro ponto em comum, além da imagem de candidato de fora do sistema.

Sem a cobertura judicial com que conta Bolsonaro, em seu poder maior, e jurado de morte pelo presidente, que não tolerou o delírio presidenciável do ex-juiz Witzel (não foi o único ex-juiz a sofre disso, registre-se), o governador do Rio não conseguiu que seus mal feitos fossem vistos em câmera lenta, como os da família presidencial.

O pai, atribuindo a ele a desgraça do filho com o MP e a polícia estadual, não hesitou.

Mirou bem na cabecinha e está lá o corpo político de Witzel, estendido no chão.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"Fizemos todo o possível para matar o maior número de brasileiros" diz o genocida

 

“Fizemos todo o possível”. Claro, o possível para chegar a 100 mil mortes

Fernando Brito

Jair Bolsonaro, na antevéspera de o Brasil completar 100 mil mortes pelo novo coronavírus, disse que ” temos como realmente dizer que fizemos o possível e o impossível para salvar vidas, ao contrário daqueles que teimam em continuar na oposição, desde 2018″.

De cara, é de perguntar o que a oposição, sem poder e meios, poderia fazer para salvar vidas, a não ser contra o que julgava errado.

Mas quais foram “o possível e o impossível para salvar vidas” que Bolsonaro arroga-se a dizer que fez?

Dizer que o vírus não era perigoso? Provocar aglomerações de fanáticos que pediam o fechamento so STF? Mandar as pessoas para a rua, derrubar o isolamento, quando ele era a única arma provada de contenção do contágio? Oferecer a cloroquina até às emas do jardim do Alvorada? Demitir ministro após ministro da Saúde e mandar o Exército produzir uma cloroquinada que está encalhada e pronta para ser jogada fora?

Ou quem sabe foi o dizer que ia “morrer gente”, que isso é da vida, que seriam pessoas idosas e doentes, que já estariam com passagem marcada para outro plano?

E daí, não é?

Bolsonaro explica a louvação à cloroquina dizendo que “não existia, naquela época, como não existe, uma vacina, não existia medicamento, apenas a promessa, no primeiro momento, da hidroxicloroquina, depois outras coisas apareceram”. Não se sabe o que apareceu, se o vermífugo, a cânfora ou a insuflação de ozônio, mas certamente nada que tenha uma mínima sustentação científica.

Os modelos matemáticos de instituições de saúde já nos projetam uma perda de quase 200 mil vidas até dezembro.

Bolsonaro, certamente, não fez o possível.

Mas fez o impossível, o impensável, o inaceitável e a história o condenará.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Não temos mais governo



Um país em dissolução


Se nos deixarmos envolver na rotina dos escândalos - não raro mais de um por dia - que se sucedem no país é possivel que deixemos de ver o essencial do que está ocorrendo.

E o fato é que somos um país em dissolução, em todos os campos da vida coletiva.

A epidemia é, sem dúvidas, o mais dramático e terrível, pelas vidas que nos rouba, mas não é o único.

A projeção do FMI de uma queda de 9,1% de queda do PIB brasileiro é ainda um cálculo modesto, quando se confirmar que não faltam muitos dias para que tudo tenha de retroceder, em matéria de reinício das atividades econômicas, pelo agravamento dos números que não param de crescer.

Diante disso, não temos, mais de três meses depois de iniciada esta catástrofe, qualquer diretriz séria para recuperar o já fraco desempenho pré-pandemia, os programas de financiamento às pequenas empresas não chegaram a elas. A sua capacidade de manter empregos já se esgotou e, mesmo com esta reabertura improvisada, quem voltou a funcionar está fazendo com uma força de trabalho reduzida e, frequentemente, em escala.

Mas há algo que é pior do que tudo isso – e é boa parte da causa de tudo isso.

É que perdemos o governo – e em todos os níveis – como um elemento capaz de aglutinar e dar direção à sociedade.

Justamente no momento em que – aqui e no mundo – os governos são as únicas ferramentas que podem oferecer algum rumo a uma economia que só não está quebrada nos setores voltados para a pura especulação financeira.

E não temos governo em quatro níveis: municipal, estadual, federal e nem no que se poderia chamar de inteiração internacional, pois viramos párias no mundo, até mesmo no mundo do dinheiro, bem pouco preocupado com ética.

A obra iniciada para destruir um governo de centro-esquerda cresceu tanto que está, também, destruindo um governo de extrema-direita. E, pior, destruindo o país que sonhava, não faz muito, em finalmente ocupar o espaço que tem direito como gigante. Adormecido, desperto, depois histérico e, agora, esfarelando-se.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Está começando o colapso. Da Saúde e do País


Fernando Brito

Os jornais voltam a anunciar para as próximas horas, ou até o fim de semana, a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde.

O secretário de Vigilância Sanitária, Wanderson Oliveira, já enviou mensagem aos seus auxiliares dizendo que “a gestão do Mandetta acabou e preciso me preparar para sair junto” e disse-lhes que “todos estão livres para fazer o que desejarem”, numa referência óbvia sobre continuarem em seus cargos.

Tudo nos dias em que a barreira de exames represados vai se abrir sobre as estatísticas e inundar o noticiário com milhares de casos e centenas de mortes, se for esta e não maior a ordem de grandeza nos números.

Temos um alucinado ex-capitão na Presidência, mas não na chefia do país.

E generais covardes, que recusaram o papel de adverti-lo que a sua conduta inconsequente levaria o Brasil ao caos que seus fanáticos seguidores querem, alucinados, imputar ao vírus chinês e aos “comunistas”, entre outros, da Globo e do Dória.

Quem o empurrou ao Planalto tinha todo o poder para segurá-lo na loucura.

Em poucos dias caminharemos para o colapso não apenas da rede hospitalar, mas também de todo o sistema de gestão da máquina pública.

Ninguém irá se sacrificar enquanto um psicopata ateia fogo ao país e quando os dirigentes da Saúde pública e as autoridades locais são publicamente desautorizadas.

Pode-se desconhecer quem substituirá Mandetta, mas não se pode deixar de saber que será pessoa de caráter fraco, por se acumpliciar a uma orientação genocida de Jair Bolsonaro, querendo mandar o povo as ruas justo nos momentos em que entramos no pico da contaminação viral.

Os dias que virão serão sombrios e que o acaso e o isolamento possam proteger a alguns de nós.

Ontem postei aqui algo que a mídia não publica – e são dados oficiais e norte-americanos, nenhum alarmismo esquerdista – dando conta de que, em meio milhão de novaiorquinos testados para o vírus, perto da metade o havia contraído.

Não há razão científica para que não seja assim aqui e, talvez, pior, por conta das moradias precárias.

Há, porém, razões políticas para que, ainda num dia distante, ao sairmos disso, esta gente seja responsabilizada pelos crimes que cometem contra a vida de milhares de brasileiros.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Médicos prevêem 111 mil mortes em SP, mesmo com quarentena


Médicos prevêem 111 mil mortes em SP, mesmo com quarentena. Veja

Fernando Brito

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã e coordenador da equipe médica que acompanha e projeta cenários para a infecção por coronavírus em São Paulo mostrou números aterradores, que só reforçam a necessidade de que a população adira e as autoridades públicas fazerem cumprir o isolamento social.

Mesmo com as medidas de restrição, projetam-se 111 mil mortos em 180 dias que estimam durar, até que termine totalmente, a pandemia que nos assola.

Sem elas, mais 166 mil. Isso mesmo, 277 mil mortes.

Apenas em São Paulo, frise-se.

Torcemos todos para que as projeções de especialistas estejam erradas, mas se forem apenas uma fração do que são, é apavorante.

Os números, para o já próximo 13 de abril, serão 5 mil infectados, um décimo do que o estado teria sem as restrições de circulação.

Doria agiu com energia e correção no anúncio da extensão – apenas a primeira – da quarentena para o dia 22, o que certamente acontecerá pelo menos mais uma vez.

Teve o cuidado de colocar a seu lado uma equipe de médicos infectologistas, o que emprestou a credibilidade necessária e foi duro com quem está clamando pelo retorno à circulação normal.

Sabemos que os números disponíveis são precários, por conta da baixa incidência de testes.

Reforça-se a convicção de que a sabotagem que Jair Bolsonaro faz é criminosa e genocida, pois tratam-se de dezenas de milhares de vidas que, desnecessariamente.

Assista, abaixo, o trecho onde são apresentadas as projeções, durante a coletiva do governo paulista.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Bolsonaro apodrece em praça pública


Bolsonaro assinou sua sentença de morte política

Fernando Brito

O governo Bolsonaro, nos próximos dias, vai desmanchar, dissolver-se.

Desenha-se a cena final de sua saída.

Todas as suas bases de sustentação política, já trincadas, estão desmoronando a olhos vistos.

Sua matilha fascista, as milícias virtuais da quais se valia para para assustar e intimidar a opinião pública e as instituições, encolheu e não são poucos os que, fugindo de Berlim, arrancam dos braços a suástica bolsonarista para sobreviver.

Seu apoio do Congresso é virtualmente zero. Nada do que propuser por esta via será aprovado, ou o será completamente desfigurado.

Se não cair no Supremo, onde já não tem sequer um voto.

Começará a debandada de ministros, embora seu ministério, sem representatividade política, seja essencialmente composto de sabujos e nulidades. Ainda assim, com mulheres, filhos, parentes a pressioná-los.

Sempre digo que quando você não consegue se explicar em casa, a coisa vai mal.

Mas, sobretudo, Jair Bolsonaro perdeu o indevido aval político que lhe deram as Forças Armadas, quando o general Edson Leal Pujol, em pronunciamento pelas redes oficiais do Exército, definiu o combate à epidemia como “a missão mais importante de nossa geração”.

Não seria, se fosse “uma gripezinha” que não exigisse um isolamento e uma paralisação quase total do país.

Embora sejamos, agora, a terra dos caráter fraco e das coluna vergada, Bolsonaro e seu transtornado núcleo familiar chegaram ao ponto de se tornarem intoleráveis até mesmo dentro das estruturas de governo.

O que assistimos ontem foi a aparição de um morto-vivo, de um zumbi contaminante a quem os que conservam um pingo de sanidade, precisam sepultar o quanto antes.

Porque Bolsonaro apodrece em praça pública, um morto que brinca com a vida dos vivos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

O Brasil assiste inerte sua economia desabar


Fernando Brito

Não é preciso adivinhar para entender o que vai se passar em nosso país agora que todos os epidemiologistas concordam que estamos entrando para o terrível clube da disseminação comunitária – isto é, não mais para casos que vêm de fora – do coronavírus.

Espontânea ou ordenada, a redução da circulação de pessoas e a natural tendência ao autoisolamento vai impelir, depois de um primeiro instante de preocupação, para quem pode, de estocar produtos, a uma queda acentuada no comércio e nos serviços. Daí para a redução das encomendas à indústria e, afinal, um declínio de uma atividade econômica que não ia muito bem das pernas.

O que um governo responsável deveria estar desenhando agora?

Em primeiro lugar, já que não interferiu no momento certo, ainda em janeiro, para conter a corrida ao dólar – ao, contrário, afagou o mercado com uma imprudente nova redução dos juros – não seguir na queima diária de reservas inútil diante de um cenário absolutamente irracional e dominado pela especulação.

Ao contrário, deveria estar mobilizando uma parte prudente delas para a constituição de um fundo para financiar projetos intensivos em mão de obra a juros nulos, ou quase.

Porque o desemprego crescerá, em razão da redução das atividades por meses. Se não há muito o que fazer com os 40% dos trabalhadores que são “informais”, é preciso segurar o que há formalizado, em relação aos quais sempre é possível ter alguma flexibilidade com férias, bancos de horas e acordos trabalhistas. Linhas de crédito de curto-médio prazos do Banco do Brasil, da Caixa e do BNDES, com condições especialíssimas, mas vinculadas à manutenção do emprego formal deveriam estar sendo articuladas.

Obras públicas paralisadas poderiam ser retomadas ainda que com repercussão em um déficit fiscal que, a esta altura, não tem sentido ficar evitando, pois virá maior com a queda da atividade econômica.

Reformas, operações políticas complicadas, polêmicas e eventualmente traumáticas deveriam ter uma moratória para não se transformarem em pontos de desentendimento político.

Se não temos o trilhão e meio de dólares que o Federal Reserve anunciou estar despejando hoje no mercado, temos algumas de dezenas de bilhões de reais que poderiam ser lançados para reaquecer o inverno econômico que se aproxima.

Mas o nosso presidente está preocupado em estimular o turismo de mergulhadores e em abrir um cassino em Angra dos Reis.

E o Paulo Guedes, então, não está preocupado com nada, pois segue tranquilo enquanto sobem as labaredas.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Segunda-feira sangrenta no mercado


Fernando Brito

O aumento do número de casos de coronavírus na Europa, levando o continente a iniciar pela Itália uma série de bloqueios na circulação de pessoas já faria, por si só, acontecer uma queda violenta nos mercados financeiros.

Mas a decisão da Arábia Saudita de “torrar” petróleo muito abaixo dos preços mundiais – num confronto com a Rússia, outro grande exportador – jogou gasolina na fogueira, provocando uma queda no preço da commodity energética, com uma queda, agora de 22% e arrastando as empresas petroleira a um patamar ainda mais baixo do que tinham ante a provável redução da demanda normal pela interrupção de viagens e de transporte de mercadorias.

Todas as companhias de petróleo estão caindo perto de 10% pelo muno e as ligadas a exploração de shale oil, o petróleo de xisto, o trunfo norte-americano, caem mais e 20% nas negociações do premarket dos EUA que, como um todo, cai perto de 5%. As bolsas europeias, em meio ao caos, baixam 7% neste momento.

As ações da Petrobras, que caíram quase 10% na sexta, devem abrir o dia repetindo a dose, empurrando o índice Bovespa para perto dos 90 mil pontos, a cotação que tinha ao final do governo Temer.

Será, como diz o equilibrado jornalista econômico José Paulo Kupfer, no UOL, uma “segunda-feira sangrenta” para o capital.

O dólar deve abrir acima de R$ 4,75, esperando o leilão do Banco Central para cair , depois, voltar a subir.

A crise, que muitos subestimaram, está apenas começando.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Veja embrulha Witzel e Bolsonaro na morte de miliciano


Entramos no carnaval da “milícia doida”.

Hoje, a Veja mergulha o governador Wilson Witzel no pantanal da morte do miliciano Adriano Nóbrega.

Ele teria recebido – segundo sua mulher, Júlia Mello Lotufo, 2 milhões de reais em dinheiro vivo para sua campanha eleitoral ao governo do Rio.
Também revelou a ela quem pediu e quem recebeu as mochilas de dinheiro — repassado, nas palavras dele, como uma espécie de investimento, um seguro que garantiria proteção para tocar seus negócios clandestinos sem ser importunado pelas autoridades, especialmente a polícia.
Witzel, claro, nega tudo e diz que vai processar a viúva de Adriano.

Ela, diz que Witzel roeu a corda da relação com o miliciano para colá-lo na testa dos Bolsonaro.

A revista traz mais: o fazendeiro Leandro Abreu Guimarães, “que deu guarida a Adriano em sua fazenda no município baiano de Esplanada” e que ajudou o ex-PM a fugir de um cerco policial na Costa do Sauípe, aparece, sorridente, numa selfie com Jair Bolsonaro.

Não é nada, é claro, senão mais uma coincidência das dúzias de “por acaso” que surgem na história das ligações milicianas do presidente.

Que mais uma? Lauro Jardim a traz: Paulo Catta Preta, advogado da família de Adriano é amigo antigo de Fred Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas.
— o 01 empregava a ex-mulher e a filha de Nóbrega em seu gabinete de deputado estadual. Catta Preta, aliás, já foi até advogado da ex-mulher de Wassef, Cristina Boner.
Ô mundo pequeno…

 Leandro, o fazendeiro ao lado do presidente

Adriano relatou ameaças familiares de infiltração no governo do Rio

VEJA 

No último dia 1º, Júlia Mello Lotufo, mulher do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega,disse que ele seria morto em uma operação de queima de arquivo organizada pelo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Na ocasião, não quis explicar por que Witzel se envolveu na morte do marido, que aconteceu oito dias depois, durante a operação realizada pela Polícia Militar da Bahia, com a ajuda da equipe de inteligência da polícia fluminense. Desde então, Júlia está escondida. Assustado, confidenciou as pessoas próximas ou medo de sofrer represálias de uma organização criminosa infiltrada na administração do Rio caso revele ou sabe. E ela sabe muito. Seus segredos contemplam tudo o que viram, ouviram e fizeram durante dez anos de relacionamento amoroso com Adriano da Nóbrega, ou o ex-policial que enriqueceu ao mergulhar no submundo de um crime e foi acusado pelo Ministério Público de Chefia das Milícias Temáticas do Rio.

A partir de conversas com parentes e pessoas do círculo íntimo de Adriano, VEJA descobriu a razão da manifestação pública de sua mulher. Enquanto estava foragido, ele confidenciou à esposa ter dado 2 milhões de reais em dinheiro vivo à campanha de Witzel ao governo do Rio. Também revelou a ela quem pediu e quem recebeu as mochilas de dinheiro — repassado, nas palavras dele, como uma espécie de investimento, um seguro que garantiria proteção para tocar seus negócios clandestinos sem ser importunado pelas autoridades, especialmente a polícia. A propina, na visão dele, seria a matéria-prima que selaria a paz entre as partes. Algo, porém, deu errado. Em janeiro de 2019, logo no primeiro mês de mandato de Witzel, o Ministério Público do Rio acusou Adriano de chefiar o Escritório do Crime e conseguiu uma ordem de prisão preventiva contra ele. Foragido, ativou sua rede de contatos e pediu socorro, invocando a ajuda financeira que prestara na campanha. Os amigos disseram a ele que Witzel queria usá-lo como um troféu, como prova da eficácia de sua política de segurança. “Mas ele não acreditava”, contou uma pessoa próxima do ex-capitão.

Adriano só passou a encarar Witzel de fato como um inimigo ao desconfiar que o governador queria mantê-lo na lista de suspeitos de participação no assassinato da vereadora Marielle Franco. Daí em diante, os pedidos de ajuda se transformaram em cobranças aos interlocutores de Witzel: “Estão querendo colocar essa morte na minha conta. Avisem a ele que eu o ajudei. Ele está deixando o MP me transformar num monstro e não vai fazer nada?”. Foi a partir desse momento, segundo seus parentes, que o ex-capitão começou a desconfiar que seu destino estava traçado. Se existe algo que o crime organizado não tolera é a quebra do código do silêncio, mesmo quando isso se constitui apenas numa possibilidade. Por meio de nota, o governador Wilson Witzel declarou que não conhecia Adriano nem recebera dele nenhum tipo de ajuda. Sobre a acusação de Júlia feita no dia 1º, informou que ela será processada por calúnia, difamação e injúria.

Com carreira de destaque dentro da PM até ser expulso da corporação, Adriano da Nóbrega era condescendente consigo mesmo. Seus parentes gostam de dizer que ele não era um anjo, já que realmente ganhava a vida com a exploração de grilagem de terras e de máquinas de caça-níquel, mas também não era o demônio que pintavam, numa referência às acusações de que cometia homicídios em série. Certa vez, já foragido, o suspeito de chefiar o Escritório do Crime declarou que só não era inocentado pelo MP porque virara personagem da disputa entre o governador do Rio e o presidente da República. Parceiros na campanha eleitoral de 2018, Witzel e Jair Bolsonaro se tornaram desafetos, sobretudo depois que anunciaram a intenção de concorrer ao mesmo cargo em 2022. “Ele percebeu que o governador queria, por meio dele, colar o selo de bandidagem na testa do Bolsonaro”, declarou uma pessoa do círculo íntimo do ex-capitão do Bope.

A relação da família Bolsonaro com Adriano da Nóbrega é antiga. Em 2003, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro apresentou uma moção de louvor para elogiar Adriano cinco meses depois de ele ter matado um técnico de refrigeração durante uma ronda policial na qual tinha como parceiro o notório Fabrício Queiroz. Em 2005, Flávio concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, a maior honraria do Legislativo estadual. Também naquele ano, o deputado Jair Bolsonaro elogiou o ex-capitão do Bope na tribuna da Câmara dos Deputados. Quando a morte desse herói da família foi anunciada, Bolsonaro, conhecido pela verborragia desmedida, optou pelo silêncio. Àquela altura, ganhava as redes sociais a suspeita de que a primeira-família da República estaria por trás da ação, num caso clássico de queima de arquivo. O silêncio só foi rompido depois de VEJA revelar imagens do corpo de Adriano e, com base nelas, a avaliação de peritos de que ele pode ter sido executado, e não morto numa troca de tiros, como alega a polícia.

Aliás, quando lhe convém, Bolsonaro dá crédito à imprensa profissional. “Quem é o responsável pela morte do capitão Adriano? PM da Bahia, do PT”, disse o presidente num evento público no sábado 15. No mesmo dia, o Palácio do Planalto soltou a seguinte nota: “A atuação da PM-BA, sob a tutela do governador do estado, não procurou preservar a vida de um foragido, e sim sua provável execução sumária, como apontam peritos consultados pela revista VEJA. É um caso semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito Celso Daniel, onde o seu partido, o PT, nunca se preocupou em elucidá-lo”. A nota oficial provocou reação imediata. Vinte governadores criticaram a manifestação do presidente, que teria se “antecipado a investigações policiais para atribuir graves fatos à conduta das polícias e seus governadores”. Entre os signatários estavam Rui Costa, da Bahia, e Witzel, que são pré-candidatos à próxima sucessão presidencial.

Durante a campanha ao governo do Rio, Witzel, ex-juiz e neófito na política, transformou-se no candidato do senador Flávio Bolsonaro. O Zero Um costuma dizer que carregou o atual governador nas costas e, quando este assumiu o cargo, foi traído por ele, que teria se associado ao Ministério Público e à Justiça do Rio para dar fôlego à investigação do caso da rachadinha. Convertido de aliado em conspirador, Witzel teria como objetivo desestabilizar o governo Bolsonaro e enfraquecer sua candidatura à reeleição. A morte de Adriano estaria de alguma maneira ligada à intenção de fazer certas conexões entre pessoas e situações. Até o primeiro turno, o principal braço político de Flávio Bolsonaro era Fabrício Queiroz, amigo de longa data e parceiro de ronda de Adriano da Nóbrega na Polícia Militar. Depois que o caso da rachadinha se tornou público, Queiroz chegou a declarar que recolhia parte dos salários dos servidores do gabinete de Flávio na Assembleia do Rio para custear a ação política do chefe. A ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça da Costa, e a mãe dele, Raimunda Veras, foram funcionárias do gabinete do então deputado.

Morto aos 43 anos, Adriano valorizava a lealdade e a palavra empenhada. No seu entorno, enquanto sobram críticas e acusações a Witzel, impera o silêncio sobre a família Bolsonaro. Na última terça-feira, o presidente declarou: “Poderia interessar a alguém a queima de arquivo. O que ele teria para falar? Contra mim, não teria nada. Se fosse contra mim, tenho certeza de que os cuidados seriam outros, para preservá-lo vivo”. O fato é que Adriano da Nóbrega, que já se sentia no meio de uma disputa política quando estava vivo, virou definitivamente motivo de um cabo de guerra depois de morto. “Talvez seja um problema tão grave que ele deve acordar, almoçar, jantar e pensar nisso 24 horas por dia”, disse o governador Rui Costa, comentando as manifestações diárias do presidente sobre o caso. “É como se ele tivesse receio de que alguma coisa fosse descoberta.” A provocação do petista pega carona numa preocupação externada pelo próprio Bolsonaro.

Durante a ação policial que resultou na morte do ex-capitão do Bope, a polícia recolheu treze celulares. “Quem fará a perícia nos telefones do Adriano? Poderiam forjar trocas de mensagens e áudios recebidos? Inocentes seriam acusados de crime”, escreveu o mandatário no Twitter. Desde o ano passado, há no entorno do presidente o temor de que sejam vazadas conversas que impliquem o clã Bolsonaro com milicianos, pecha que é usada pelo Ministério Público para definir Adriano da Nóbrega. Em dezembro, quando a pauta se restringia apenas ao esquema da rachadinha, o presidente disse em entrevista a VEJA que outro escândalo estava prestes a estourar e teria como origem interceptações telefônicas que mostrariam o envolvimento dele e dos filhos com o crime organizado no Rio. “Pegaram dois milicianos, sei lá quem, conversando, e a Polícia Civil gravando. Tem vários diálogos falando que no passado eu participava das milícias, pegava dinheiro das milícias e agora, presidente, não participo mais. Um papo de vagabundo.”

O catalisador da disputa política são as dúvidas sobre as circunstâncias da morte de Adriano: se ele foi executado, como alega sua família, ou morto numa troca de tiros, conforme a versão oficial. Na semana passada, a Justiça determinou a realização de uma nova perícia no corpo a fim de dirimir essa questão. Também pode contribuir para o esclarecimento do caso a coleta de depoimentos de personagens que foram cruciais para que as forças policiais encontrassem o ex-capitão do Bope. Um deles é o fazendeiro Leandro Abreu Guimarães, que deu guarida a Adriano em sua fazenda no município baiano de Esplanada. Os dois eram amigos pelo menos desde 2017. Já como foragido, Adriano se hospedou várias vezes na fazenda de Leandro, inclusive com a mulher e a filha mais nova. Quando fugiu de um cerco policial na Costa do Sauípe, foi a Leandro que pediu ajuda. O fazendeiro foi resgatá-lo. Também foi Leandro que, na véspera da morte, o levou da fazenda para o sítio onde Adriano seria alcançado pela polícia. Em depoimento formal, o fazendeiro declarou que fora obrigado por Adriano, sob ameaça de morte, a transportá-lo até o sítio.

Seus parentes contam outra história: “Ele foi torturado dentro da própria casa. Por isso contou para onde tinha levado o Adriano”. Na semana passada, repórteres de VEJA foram detidos pela polícia baiana quando tentavam entrevistar Leandro no município de Pojuca. “Como vocês acharam esse endereço?”, perguntou um dos agentes. Outro personagem fundamental para a compreensão do enredo é o motorista José Alves de Macedo Neto, o Zezinho. Depois da frustrada batida policial para prender Adriano da Nóbrega na Costa do Sauípe, Leandro indicou Zezinho para levar a mulher e a filha mais nova do ex-capitão da Bahia para o Rio de Janeiro. No trajeto, eles foram parados pela Polícia Rodoviária Federal. Os policiais perguntaram a Zezinho quem o indicara para prestar o serviço a Júlia Lotufo. Ele respondeu que tinha sido Leandro e, assim, deu aos policiais a pista definitiva para a descoberta do esconderijo de Adriano da Nóbrega.

Desde a operação policial em Esplanada, Zezinho está desaparecido. O motorista fazia bicos para Leandro, mas era funcionário do vereador Gilsinho de Dedé (PSL), dono do sítio onde Adriano foi morto. Gilsinho alega que não conhecia o ex-capitão do Bope, apesar de Adriano ter pernoitado várias vezes em sua propriedade, inclusive na companhia da mulher, Júlia. “Eu acredito na minha inocência. A do Zezinho, não tenho como falar”, declarou o vereador. Na pequena Esplanada, a lei que vigora é a do silêncio — e não apenas lá. As testemunhas, acuadas ou não, protegidas ou não pelo anonimato, continuam escondendo um pedaço da verdade.

Publicado em VEJA de 26 de fevereiro de 2020, edição nº 2675