Recado pra Paulo Guedes pic.twitter.com/AwWwITpksi
— Gregorio Duvivier (@gduvivier) April 30, 2021
sábado, 1 de maio de 2021
Recado pra Paulo Guedes
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Choronavirus, pãodemia e cloroquiners deveriam entrar para o dicionário
Na pandemia da Covid-19, nós ressuscitamos uma dezena de palavras moribundas e mortiças
Você deve ter lido esta matéria: a língua alemã criou mais de mil palavras na pandemia. Chamam de “coronaangst” o medo da pandemia, e de “impfneid” a inveja das pessoas que já se vacinaram. Tem nome até praquele corte de cabelo que você fez em si próprio: “coronafrisur”, ou coronacorte.
“Até nisso os alemães trabalham mais que a gente!”, pensei, invejoso, antes de perceber que não ficamos pra trás. Não criamos mais de mil palavras, claro. Em português não é assim que funciona.
Palavra aqui não é mosquito, que basta um pouco de água parada pra se reproduzir. Nosso léxico, romântico, precisa de clima pra acasalar. Não se faz uma palavra assim: coronarraiva. Tá vendo? Não rolou. Em português tem que ter química pra dar match. Mas quando rola é bonito de ver. E aconteceu diversas vezes nessa pandemia.
À proliferação de padeiros deram o nome brilhante de pãodemia. Chamamos de choronavírus a tristeza pandêmica e as crises de choro tão comuns no confinamento.
Quarenteners são os que ainda acreditam nas recomendação da OMS, em contraponto aos cloroquiners, que confiam mais no general Pazuello. Os participantes de uma festa pandêmica são os covidados.
Já o imunizante chinês foi batizado por seus detratores de Vachina. Repleto de bonecas e brinquedos, o lugar em que escrevo virou um ex-critório. Esse acabei de inventar. Perdão.
Não só de palavras novas se encheu nossa boca. Ressuscitamos uma dezena de palavras moribundas, mortiças como a palavra mortiça. Os alemães, tão atentos à sustentabilidade, deveriam se perguntar: por que fabricar palavras com tantas encostadas, apodrecendo no armário? Lavou, tá nova.
"Assintomático” constava nos compêndios médicos, nunca tinha frequentado conversa de WhatsApp. A palavra “imune” pertencia ao Big Brother, assim como “confinamento” e “casa de vidro”. “Genocida” pertencia aos livros de história (que saudade) e hoje está em todas as goelas do país.
“Pandemia” morava nos cafundós do dicionário, perto da palavra “quarentena” —outra palavra mortiça que voltou a nos assombrar. Ou “platô”, antes restrita aos geólogos, e “cepa”, antes restrita aos enólogos. Disso também tenho saudades.
Não devemos nada aos gringos na abundância vocabular. Talvez só nisso, mesmo. Deve existir em alemão uma palavra pra inveja de alguém por algo que nós já temos. Em português existe: complexo de vira-lata. Aliás: vira-lata, que palavra.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Bolsonaro é paradoxo do genocídio, falar dele é insuportável e necessário
Gregorio Duvivier
Um presidente como o nosso torna chatos todos aqueles que não foram assassinados por ele
Difícil dizer que o presidente não é ladrão. Para além das milhares de vidas ceifadas, dos funcionários fantasmas e das rachadinhas, Bolsonaro nos levou o sorriso e o assunto.
Ninguém aguenta mais falar da carnificina, e ao mesmo tempo, tudo parece pequeno quando paramos de falar dela. É o paradoxo do genocídio: não falar dele é impossível, mas falar dele é insuportável.
Taí um efeito colateral ridículo perto da matança que está em curso: o sequestro temático —efeito minúsculo, claro, mas que afeta diretamente a vida de um cronista, garimpeiro de temas sem importância.
Quando um presidente condena uma população a morrer, ele não está tirando só vidas, mas também o direito dos vivos de pensar em outra coisa. Deveria existir na Constituição uma cláusula que garantisse o direito à distração. “Todo poder emana do povo, que tem o direito de esquecer disso de vez em quando.”
Para que esse direito seja exercido, o presidente não pode estar receitando cloroquina para a população, dando remédio a uma ema, boicotando a vacina, atrapalhando investigação, coagindo o Kajuru.
A receita de sucesso (até aqui) de Bolsonaro parece incluir o acúmulo de crimes diversos, nunca antes combinados, transmitidos ao vivo por ele mesmo à luz do dia. “Não pode ser crime”, você pensa, “se é ele mesmo quem divulga.”
“O jeito de esquecerem o significado de um crime de responsabilidade é praticar vários por dia”, resumiu Conrado Hübner Mendes. A estratégia funciona: se Dilma empregasse a Val do Açaí, não reclamariam de pedalada. Se David Luiz tivesse feito cocô em campo, não seria famoso pelo 7 a 1.
Bolsonaro age como um cozinheiro que salgou demais a sopa e põe uma barata e uma orelha humana para disfarçar: “duvido que reclamem do sal”.
Já não dá para saber se o genocídio é para disfarçar a rachadinha ou vice-versa. Cada crime novo amortece a notícia do crime anterior e imuniza nossos corpos para os crimes que estão por vir. Os crimes vão se empilhando e assim jantamos, diariamente, esse rocambole de bosta.
Um presidente genocida tem esse efeito colateral, dentre tantos outros. Torna chatos todos os que não assassina. “Eles só pensam naquilo!”, mas aquilo é intenção deliberada do presidente de matar a sua população. Já diz o ditado: o que não te mata te entristece.
sábado, 10 de abril de 2021
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
Bolsonaro fez com os generais o mesmo que Boninho com Karol Conká
Presidente cercou os militares de câmeras e deixou o povo concluir sozinho
Nada do que vou relatar a seguir é ficção. Bolsonaro, desde a mais tenra idade, odeia o Exército. Seu sonho era ser jogador de futebol.
Foi seu pai que o obrigou a entrar no quartel. Lá, foi humilhado: um coronel reprovou a “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio”, e outro condenou a “excessiva ambição em realizar-se financeiramente”.
Humilhado, tentou explodir quartéis. Seu plano foi descoberto pela imprensa. Condenado à reserva, ficou tarde pra tentar o futebol. Sobrou a política. Melhor assim.
O tempo livre permitiria que ele arquitetasse a vingança. Dedicaria a vida a demolir a instituição que moeu sua juventude e lhe roubou todos os sonhos. O povo precisava saber a verdade sobre o alto escalão do Exército brasileiro.
Quando Bolsonaro chegou à Presidência, os generais ainda gozavam de alguma popularidade —devido sobretudo à memória curta do povo brasileiro.
Palestravam na GloboNews como se não tivessem falido o país 30 anos antes. O novo presidente, no entanto, tinha um plano em mente: dar a eles cargo de confiança. Colocá-los em posições estratégicas. Distribuir ministérios e microfones. O resto, eles fariam sozinhos.
Dito e feito. O general Pazuello fez, de livre e espontânea vontade, um estrago maior para a imagem do Exército do que a esquerda em décadas de propaganda antimilitar.
Bolsonaro realizou o sonho de todo brasileiro: desmascarou a incompetência dos chefes em rede nacional.
Esta semana, um general no comando da Petrobras, mudo, fez ela perder mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado.
Bolsonaro fez com os generais a mesma coisa que Boninho fez com Karol Conká: cercou de câmeras e deixou o povo concluir sozinho.
A esquerda precisa reconhecer nele um aliado. O presidente está fazendo o que Lamarca não conseguiu. Destruiu qualquer chance de os militares voltarem ao poder no país. Sobretudo porque não haverá mais país depois dele.
Resta saber como é que um sujeito limítrofe conceberia um plano tão brilhante. Fácil: o plano pode não ter sido dele.
Ainda adolescente, Bolsonaro diz que ajudou os militares a encontrarem Lamarca. Aqui, e só aqui, entra uma especulação. O guerrilheiro, encurralado na floresta, encontrou o jovem Jair e lhe fez um pedido: “Jovem, falhei. Pode me entregar. Mas tenho um plano pra você. Será preciso paciência.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
O corrupto que chefia quadrilha passou a ser tratado como desbocado
Dois anos de um governo irônico resultaram nessa terra arrasada, e nunca uma piada ruim foi tão longe
Seu motor é a provocação. Quando dá cloroquina pra uma ema, está fazendo uma paródia de si mesmo —adianta a cena que um humorista faria ao imitá-lo, tornando a profissão obsoleta. Não tem graça rir do seu gesto, porque rir é precisamente o que ele queria que você fizesse. Mesmo quando fala sério, finge que faz piada. Quando disse que acabou com a Lava Jato, alegou, no dia seguinte, que estava sendo irônico.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Bolsonaro, era tão fácil sair grande dessa pandemia —bastava não ser você
Bolsonaro, era tão fácil você sair grande dessa pandemia. Não precisava nem trabalhar. Era só confiar na ciência. Só. Era só escutar os cientistas —e não o Olavo de Carvalho.
Tinha uma corrida de cavalos, e você apostou todas as nossas fichas no jumento.
Era tão fácil não deixar morrer tanta gente. Era só seguir as recomendações da OMS. “Ah, mas seria impopular.” Olha pro Kalil em BH, pro Gean em Floripa. Eles são de direita, igual você. Mas fizeram o básico. Escutaram os médicos. E foram reeleitos no primeiro turno.
O eleitor gosta de ter a impressão de que tem alguém no comando. Bastava parecer que você faz alguma ideia do que está fazendo. Mesmo que você não faça a menor ideia. Era só fingir.
Era tão fácil não quebrar o país. O vírus chegou ao Brasil com dois meses de atraso. Você teve tempo de planejar. Era só ter imitado o que já estava dando certo lá fora. Era só copiar. Não estou falando de salvar vidas. Sei que você não se importa com vidas. Estou falando de salvar seu mandato. Jacinda Ardern, na Nova Zelândia, foi reeleita com folga. Era só imitar.
Você escolheu copiar o Trump, a pior gestão da pandemia —até você conseguir superá-lo. Você zoou a China, xingou a Venezuela, não reconheceu o presidente dos Estados Unidos: você conseguiu pôr toda a comunidade internacional contra o seu próprio país, quando a gente mais precisava dela.
Era tão fácil investir na vacina. Não precisava entender de imunologia. Bastava não atrapalhar os institutos de pesquisa, não apostar na hidroxicloroquina —contra todos os cientistas do mundo, menos um (que já se arrependeu). Era tão fácil usar máscara. Era tão fácil pedir que as pessoas usassem. Não precisava nem trabalhar.
Era tão fácil não ser responsável por um genocídio. Seu país tem o SUS —era só confiar nele. Investir nele. Ouvir o que os médicos pediam: pras pessoas ficarem em casa.
Bastava confiar naqueles mesmos médicos que salvaram a sua vida. Naqueles mesmos médicos em quem você confiou na hora em que sua vida corria risco. Eles só queriam salvar vidas, do mesmo jeito que salvaram a sua. Você podia ter salvado a vida deles. Você escolheu incentivar os seguidores a invadir hospital de campanha.
Era tão fácil evitar um genocídio. Bastava nascer de novo, com o coração no lugar.
Bastava escutar. Enxergar. Aprender. Era tão ridiculamente fácil. Bastava não ser você.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Tudo o que presta num ser humano é o que não cabe num post de Instagram
Faz meses que só temos acesso à pior versão das pessoas
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Em caso de derrota, Trump pode pedir refúgio no Brasil
O Brasil é a Flórida dos cancelados, uma espécie de resort pra psicopatas
Somos um Eldorado escravocrata, destino final de todos os dejetos do norte, do Dr. Rey ao glifosato à cloroquina
Escrevo de um lugar estranho: o dia de ontem. Por aqui, ainda não fazemos ideia do que terá dado na telha do famigerado eleitor da Pensilvânia, esse enigma que o mundo há meses tenta decifrar.
Tudo indica, daqui de ontem, que Trump vai perder. Mas não significa que nossos problemas acabaram. Temos, no Brasil, longa tradição em receber, de braços abertos, ditadores, genocidas e escravocratas.
O Brasil é a Flórida dos cancelados, um resort pra psicopatas. Mengele, o nazista conhecido como anjo da morte, morreu velho, na praia de Bertioga, nadando tranquilamente.
Stroessner, ditador sanguinário do Paraguai, veio curtir uma aposentadoria tranquila, onde morreu de velho.
Somos uma espécie de Xanadu dos psicopatas, uma Shangri-lá dos genocidas, um Eldorado escravocrata, destino final de todos os dejetos do norte, do Dr. Rey ao glifosato à cloroquina.
Tudo que o americano considera lixo tóxico tem brasileiro que vai considerar ouro.
Quando o norte venceu o sul na Guerra de Secessão, muitos confederados não se adaptaram ao fato de que não poderiam mais ter escravos.
“Agora eu vou ter que pagar pela mão de obra? E em quem vou bater? Somente nos meus filhos? Desculpem, não tem a mesma graça.”
Vieram, então, pro Brasil, onde ainda podiam ter escravos à vontade.
Convidados pelo imperador dom Pedro 2º, milhares deles se mudaram pro Brasil —entre eles Robert e Mary McIntyre, bisavós do meu avô— sim, se não fôssemos tão receptivos ao refugo, eu não estaria aqui.
O imperador não só lhes deu incentivos fiscais como foi recebê-los no porto. Criaram a cidade de Americana, onde viviam a realidade paralela em que o sul tinha vencido. Promoveram linchamentos, pra não perder o hábito. Espancaram até a morte Joaquim Firmino, delegado que se recusava a prender escravos fugidos.
Tenho medo de que Trump, impopular e ameaçado de prisão, não tenha outro lugar senão o Brasil pra se refugiar. E que junto dele venha uma corja.
Já vejo o Brasil invadido por estupradores de cabelo laranja, policiais sanguinários, fazendeiros armados até os dentes, todos à procura de um país onde violência policial, assédio sexual e combustível fóssil ainda estejam na moda.
Imagino as ruas com zumbis de boné vermelho, dando cloroquina pras nossas crianças, linchando ativistas, tomando Lysoform até morrer. E o pior, tendo filhos, que terão filhos, e seus bisnetos vão ter que fazer terapia duas vezes por semana pra tentar expiar a culpa herdada dos seus ancestrais.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
Tínhamos que votar nas eleições americanas porque vão definir a nossa
Bolsonaro é uma filial mal acabada de Trump, como maquete de isopor feita por uma criança, às pressas, no caminho da escola
Não sei se haveria Bolsonaro se não tivesse havido Trump. Os dois têm muito em comum: o senso de humor tosco, a síndrome de perseguição, o desprezo pela ciência, a comunicação pelo Twitter, o saudosismo difuso, os filhos empregados, o fato de nunca, em hipótese alguma, pedirem desculpas, o descaso com a Covid, os cinco filhos de três mulheres diferentes, as mulheres sucessivamente mais novas, os conflitos com a polícia, a desconfiança das urnas, a lógica desconexa, o negacionismo climático.
Nossa versão, claro, é uma espécie de filial mal acabada. Ambos ganharam popularidade no submundo da televisão, mas enquanto Trump apresentava um programa de sucesso, Bolsonaro despontou como um alívio cômico da Rede TV!, uma espécie de Louro José da Luciana Gimenez. Importamos uma imitação capenga do produto original, uma espécie de DVD pirata, cheio de bugs, de um filme que já era ruim. Bolsonaro está pra Trump como "Os Mutantes" da Record estão pro "X-Men" —uma espécie de maquete de isopor feita por uma criança, às pressas, no caminho da escola.
Tudo indica que uma vitória de Biden deixaria as coisas complicadas pra nossa maquete em 2022 —e pra todos os seus filhotes mundo afora. Nosso destino, hoje, está nas mãos do famoso eleitor indeciso do Wisconsin —esse excêntrico, que tem o mundo nas mãos, mas não sabe o que tem pra além do muro. O planeta depende da vontade que ele terá de sair de casa pra votar. Se nevar, ferrou.
Pra piorar, na "maior democracia do mundo", todos os votos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros. À vezes o menos votado ganha, numa pedalada eleitoral, prevista na Constituição. Todas as vezes em que isso rolou favoreceu um republicano. A gente tá à mercê de um sistema feito pra conservador ganhar —e ainda assim, por muita incompetência, às vezes ele consegue perder.
Isso é que dá viver numa colônia. Assistimos às eleições do país que define nossas eleições sem poder fazer nada —como um time que depende da vitória dos outros pra escapar do rebaixamento.
Achei que nunca fosse conseguir torcer pelo Biden, mas quando eu vi já tinha me apaixonado. Quando me dei conta, estava vibrando por um velhinho gago, péssimo de debate, mas que parece uma pessoa adorável, que escuta as pessoas, e a ciência, isso já significa tanta coisa hoje em dia. Aguardamos, ansiosos pela nossa maquete.
sábado, 19 de setembro de 2020
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Não há brasileiro mais inocente que o carioca
Gregorio Duvivier
Carioca cai em qualquer conto, do jogo do bicho à bitcoin, passando pelo frozen yogurt e teologia da prosperidade
Precisamos lidar com a terrível realidade. Por trás da fama autogerada de malandragem, o carioca é o otário do Brasil. Soa duro, eu sei. Mas enquanto nativo da Guanabara, posso garantir: não há ninguém mais ingênuo no país —quiçá no planeta.
Não faz sentido atribuir a corrupção dos nossos líderes à esperteza local. Os operadores nem sempre são daqui. Witzel veio de Jundiaí, Cláudio Castro nasceu em Santos, Queiroz é de BH. O ponto em comum: todos encontraram no carioca um alvo perfeito.
Todo golpista adora um malandro. Só quem se acha mais esperto que os outros entra num esquema de pirâmide. O carioca, por excesso de malandragem, cai em qualquer conto, do jogo do bicho à bitcoin, passando pelo frozen yogurt e pela teologia da prosperidade.
Por aqui se paga duas vezes mais caro por qualquer coisa: da pipoca ao aluguel. Alguém convenceu o carioca de que a zona sul fica na Europa, por isso o preço londrino do metro quadrado. Na política, a gente se põe como vítima de uma quadrilha, como se a democracia não fosse representativa. Ou o carioca não acredita na urna eletrônica ou ele precisa acreditar na própria estupidez.
Durante muito tempo tentaram culpar o resto do estado, como se a cidade estivesse sendo tragada pra miséria pelos seus arredores —sim, o carioca já se comportou como se fosse basco ou gaúcho e chegou a propor um movimento chamado Autonomia Carioca, cujo slogan era “não quero ver o Rio nesse estado”.
A eleição do Crivella provou o absurdo dessa distinção. Crivella nem se esforçou pra enganar ninguém. Sobrinho de Edir Macedo, faltou à sabatina da Globo, obrigando a jornalista a entrevistar uma cadeira vazia. O malandro achou divertido. Votou na cadeira vazia. Hoje se mostra surpreso com uma prefeitura catastrófica.
Só me resta defender a Autonomia Carioca. A transformação do Rio em cidade-estado livraria o resto do país do peso morto de milhões de moradores que puseram o país no maior esquema de pirâmide jamais visto —por pura malandragem.
Foi o mesmo carioca que inventou o Bolsonaro. Apostou nele. Nos filhos dele. Foi a gente que olhou pra esse capitão limítrofe envolvido em rachadinha e falou: “voa, bruxão”.
Mas agora tudo vai mudar. Eduardo Paes quer livrar o Rio da corrupção —numa grande aliança com o PSL. O carioca é tão malandro que acredita.
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
sábado, 29 de agosto de 2020
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da Michelle?
Gregorio Duvivier
Oitenta e nove mil motivos
Entendo a raiva do presidente ao ser perguntado sobre as finanças da sua esposa. Também fico chateado quando me perguntam algo que eu não posso responder. “Por que seus olhos estão vermelhos?” ou “Você já deixa sua filha assistir televisão?” Se não queres ouvir uma mentira, não perguntes um segredo.
Mas pra isso serve a imaginação, e pra isso servimos nós, ficcionistas. Cabe a nós imaginarmos quais seriam os motivos possíveis pra um cheque tão generoso. Inúmeros são os motivos pra se fazer um depósito dessa quantia —muito embora tão pouca gente o tenha feito pra mim.
O primeiro que me ocorre é o ágio. O presidente já afirmou ter emprestado R$ 40 mil ao melhor amigo e ex-motorista. Os R$ 49 mil restantes correspondem, obviamente, aos juros —a Selic pode ter baixado, mas o spread continua alto— especialmente entre agiotas. O presidente mostra que trata a todos como iguais: não é por se tratar de um amigo que há de se emprestar sem ágio. Alguém precisa pagar o leite condensado das crianças.
Não podemos tampouco descartar a hipótese do adultério. Isso justifica a revolta do presidente: é chato ficar sabendo pela imprensa que um marmanjo anda depositando somas altas na conta da conje. Isso explica também o nascimento da única filha mulher do presidente. Quem conhece o presidente sabe que ele não fraquejaria. Seus cromossomos são YY. Dali não sai nenhum XX.
Queiroz, pelo contrário, tem duas filhas mulheres, provando que tem por hábito fraquejar. O pagamento corresponderia, obviamente, à pensão da varoa. Ninguém espera que o presidente pague pela fraquejada alheia.
Pode, também, se tratar de um golpe complexo, muito comum entre parlamentares, famosos pela ingenuidade. Acontece mais ou menos assim: a pessoa fica anos trabalhando como motorista do seu filho, consegue o número da conta da sua esposa e, quando você menos espera, bum! Deposita R$ 89 mil. Pronto. Daí você tem que se virar pra gastar esse dinheiro.
Chocolate. Quem já foi a uma loja da Kopenhagen sabe que a Nhá Benta está pela hora da morte. Pode ser que Queiroz tenha ido tomar um cafezinho com a patroa e, na hora de pagar a conta, tenha esquecido a carteira, a generosa patroa convidou, e os R$ 89 mil coincidem com o combo: expresso e Nhá Benta de maracujá. Isso justifica também os R$ 400 mil que ele depositou na conta do Flávio. Tenho a impressão que a soma corresponde a um pacote de Língua de Gato.
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Cancelando a cancelada do cancelamento
Cancelando a cancelada do cancelamento: estamos importando até as tretas
Não conheço ninguém que tenha sido cancelado, de fato, do lado de baixo do Equador
Acho que foi no falecido Facebook que li uma amiga sem filhos advogar contra o uso do termo “childless”, pra se referir a quem não tem filhos. “O sufixo ‘less’”, argumentava, “denota algo a menos —como se à pessoa sem filhos faltasse, necessariamente, algo. Por isso hoje prefiro o termo ‘childfree’, que não tem essa carga negativa.”
Um pai logo surgiu argumentando contra o uso do “childfree”, termo que, por sua vez, faria parecer que filhos aprisionam —como se a paternidade fosse um fardo. Logo começou uma longa treta entre pais e não pais, mães e não mães, childlessers e childfreers.
A discussão me espantou, e lembro dela até hoje, não porque não fosse interessante, mas porque eram todos brasileiros e estavam discutindo em português sobre um problema que a língua portuguesa já resolveu. Dizemos: “Sem filhos”, e pronto: agradamos a todos —nesse quesito.
Estávamos importando uma treta gringa, tão útil por essas bandas como um snowboard. Será que não somos autossuficientes nem no quesito treta? É preciso valorizar o problema nacional, pensei, são tantos os pepinos dessa terra que em se plantando tudo dá.
Desde então tenho visto uma série de tretas “fora do lugar”. A questão do cancelamento me parece uma delas. Defendi, por aqui, que se tratava de um meme gringo. Sérgio Rodrigues refutou num belo artigo —citando o caso Pinker, linguista cancelado nos Estados Unidos. Sérgio Rodrigues está certo. Errei ao dizer que era um meme, mas acho que não errei ao dizer que era gringo.
Continuo achando que se trata de uma treta alheia. Não conheço ninguém que tenha sido cancelado, de fato, do lado de baixo do Equador. Pra ficar num exemplo só: o desembargador sem máscara continua desembargador, e continua sem máscara.
Sérgio citou, como exemplo brasileiro, a tentativa de boicote do Malafaia contra a Natura, que fez um comercial com Thammy Miranda, pai trans. Hoje vemos que o boicote não pegou. As ações da Natura
dispararam e as vendas não parecem ter diminuído, provando que o Malafaia já não comprava muitos cremes pra pele antes do boicote.
No entanto vou discordar de mim mesmo antes que façam melhor do que eu: muitos fenômenos nascem lá e vem pra cá depois de um tempo, piorados —como a cloroquina, o crossfit e o KFC. Não teria sido Trump um prenúncio de Bolsonaro? Sérgio tem razão: é sempre bom ficar atento à bosta que nasce lá, já que importamos até os dejetos.
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Vai demorar pra pandemia sair da gente
Saudade da aglomeração deu lugar a uma aflição da proximidade, a uma preguiça de gente nova
sábado, 1 de agosto de 2020
quarta-feira, 29 de julho de 2020
"Cultura do Cancelamento" não passa de um mal entendido geracional
Cancela-te a ti mesmo e jamais serás cancelado por outrem
Gregorio Duvivier
Quando eu fizer um textão refutando um meme, desliguem os aparelhos











