domingo, 8 de dezembro de 2019

Os delírios do maestro


Bernardo Mello Franco
Os desvarios do novo presidente da Funarte preocupam servidores e artistas. No primeiro discurso no cargo, ele adotou tom pastoral e exaltou “a fé no nosso senhor Jesus Cristo”
Numa fauna repleta de lunáticos e teóricos da conspiração, Dante Mantovani tem conseguido se destacar pelo exotismo. Não é pouca coisa. Antes de pousar no governo Bolsonaro, o novo presidente da Funarte fez questão de registrar seus delírios em vídeo. Num deles, associou o rock ao satanismo e ao aborto.

“O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que ele fez um pacto com o diabo”, divagou.

Em outra gravação, o maestro disse que agentes soviéticos infiltrados na CIA distribuíram ácido para os hippies em Woodstock. Num terceiro vídeo, ele garantiu que a Terra é plana. Devia ser convocado para uma acareação com o ministro da Ciência e Tecnologia, que já foi ao espaço e viu o planeta de cima.

Até outro dia, as parvoíces de Mantovani eram problema dele e de quem o seguia na internet. Agora viraram problema do país, porque o olavista vai comandar políticas públicas e pilotar um orçamento de R$ 123 milhões anuais.

O maestro fez seu primeiro discurso na quinta-feira, em solenidade no Paço Imperial. Quem passou por lá relatou um clima de constrangimento e incredulidade.

“Estou responsável pela arte no governo federal”, começou Mantovani. Em tom pastoral, ele disse que o Brasil foi “abençoado por Deus desde o princípio”. Depois informou que o país teria sido “civilizado”, e não colonizado por Portugal.

“Devemos a nossa cultura, sim, a Portugal. E Portugal saiu para desbravar os mares, para levar a fé no nosso senhor Jesus Cristo. Precisamos lembrar que nós vivemos num país que tem origem cristã”, emendou.

No fim do discurso, o maestro disse que sua gestão ajudará a “elevar a moral e a autoestima, de modo que o nosso povo alcance voos cada vez maiores” (sic). Pareceu se referir à autoestima do povo, não à dele próprio.

Criada em 1975, a Funarte chegou a ser extinta no início do governo Collor, em outro momento de perseguição às artes e à cultura. Agora se vê rebaixada à condição de playground de extremistas.

Os desvarios de Mantovani preocupam servidores e ex-dirigentes do órgão. “O pessoal está bastante assustado”, conta o ator (direitista e golpista) Stepan Nercessian, que presidiu a Funarte durante o governo Temer. “Aquilo pode virar uma coisa de louco. Vão ter que montar um departamento de efeitos especiais lá dentro”, ironiza.

O maestro terraplanista integra um time da pesada. Nos últimos dias, o governo entregou a Biblioteca Nacional, a Secretaria do Audiovisual e a Fundação Palmares a outros bolsonaristas de carteirinha. Todos recrutados pelo teatrólogo Roberto Alvim, que anunciou o plano de montar uma “máquina de guerra cultural” com verbas públicas. Na primeira chance, ele tentou contratar a mulher sem licitação.

“O problema não é ser reacionário. É uma questão de lucidez mesmo”, diz Nercessian sobre os novos gestores. “É uma coisa inacreditável. Não sabia que o ódio que eles sentem pelos artistas era tão grande”.

2 comentários:

  1. A filósofa alemã Hannah Arendt ficou perplexa com o comportamento do carrasco nazista Adolf Eichman durante o julgamento de Jerusalém. Eichman acreditava firmemente que não tinha feito nada de errado — organizar a logística para assassinar milhares de judeus nas câmaras de gás — pois estava “apenas cumprindo ordens”.
    Arendt havia sido contratada pela revista The New Worker especificamente para acompanhar o famoso Julgamento de Jerusalém, e todos esperavam que ela rotulasse Eichman como um monstro, porém, ela chocou a todos ao afirmar que Eichman não era sequer antissemita, mas apenas um sujeito raso e medíocre que agia de forma irrefletida. Era alguém absolutamente normal; um mero burocrata.
    Nascia assim o famoso conceito de “mal banal“, onde Arendt nos mostra como são possíveis as grandes tragédias de nosso tempo graças à massa de pessoas que vivem sem pensar, conformando-se com a violência e a injustiça, como se fossem coisas normais.
    O mal de nosso tempo, então, repousa naqueles que não se espantam diante do absurdo óbvio, já é compreendido como corriqueiro e normal.

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  2. A filósofa alemã Hannah Arendt ficou perplexa com o comportamento do carrasco nazista Adolf Eichman durante o julgamento de Jerusalém. Eichman acreditava firmemente que não tinha feito nada de errado — organizar a logística para assassinar milhares de judeus nas câmaras de gás — pois estava “apenas cumprindo ordens”.
    Arendt havia sido contratada pela revista The New Worker especificamente para acompanhar o famoso Julgamento de Jerusalém, e todos esperavam que ela rotulasse Eichman como um monstro, porém, ela chocou a todos ao afirmar que Eichman não era sequer antissemita, mas apenas um sujeito raso e medíocre que agia de forma irrefletida. Era alguém absolutamente normal; um mero burocrata.
    Nascia assim o famoso conceito de “mal banal“, onde Arendt nos mostra como são possíveis as grandes tragédias de nosso tempo graças à massa de pessoas que vivem sem pensar, conformando-se com a violência e a injustiça, como se fossem coisas normais.
    O mal de nosso tempo, então, repousa naqueles que não se espantam diante do absurdo óbvio, já é compreendido como corriqueiro e normal.

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