sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Viagem no tempo em marcha à ré



Artur Araújo

A capa da FSP conta que a queda nas exportações brasileiras em 2019, com destaque negativo para a redução de 11% na venda de manufaturados para o exterior, provocou, em um ano, uma diminuição de 20% no saldo da balança comercial.

Os US$ 46,7 bilhões de superávit são o pior resultado desde o início da recessão em 2015.

Já o portal G1 anunciava, desde a noite anterior, que pela primeira vez em quarenta anos nossas exportações foram majoritariamente de produtos primários (53%), com velocidade de deterioração acentuada (50% em 2018).

No curto prazo, estes números sinalizam riscos crescentes de retorno ao cenário dos anos 1980/90, da chamada restrição externa, de crise cambial, porque o saldo comercial cada vez cobre parte menor da perda de divisas originária de um balanço de pagamentos sempre desfavorável (projeção otimista de saldo em transações correntes de -3,2% do PIB para 2020).

Esdruxulamente, se o PIB crescer a situação piora, porque dependemos cada vez mais da importação de insumos e de produtos industriais intermediários para fabricarmos o que quer que seja. Mais produção, mais importação sem correspondência de exportações que gerem os dólares para pagar a conta.

Estruturalmente, a dependência da demanda de outros países por commodities agrominerais e dos hipervoláteis preços internacionais de produtos primários - pedras de ferro, barrigas de porco, grãos de soja, quartos de boi, barris de petróleo, carcaças de galinha e, talvez, as cestas de bananas e abacates que tanto seduzem o presidente da República - leva à intensificação de uma desindustrialização precoce já gritante.

Teremos que vender cada vez mais primários para fora para sustentar o próprio consumo interno de manufaturados importados.

Tudo indica que demos um salto tecnocientífico esplendoroso, dominamos a viagem no tempo.

Tudo indica, também, que só sabemos executá-la rumo ao passado, voltando a quando éramos um enorme fazendão com buracos de minas, regredindo mais de século e anulando mais de 100 anos de esforço nacional concentrado pela industrialização, diversificação e competitividade mundial da economia brasileira.

As relações de trabalho do presente já marcham celeremente para o pré-1888... parece que o sórdido caminho é mesmo o completar da jornada.

Ou trocar a gerência antes que seja tarde demais.

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