terça-feira, 9 de junho de 2020

Um engano em bronze é um engano eterno

Moisés Mendes

Podem me convidar para laçar e colocar abaixo estátuas dedicadas a escravocratas e racistas.

Depois da pandemia, me convidem para pegar numa ponta do laço, puxar, deitar a estátua, pisar, testemunhar e assinar o que for preciso. Quero estar junto e, se for o caso, acusado como cúmplice da derrubada. 

Já aproveito e digo que é completamente furada a tese de Laurentino Gomes, segundo a qual monumentos a escravocratas devem ser mantidos, em nome da preservação da História. 

É furada porque qualquer monumento a uma figura humana é, na essência, uma homenagem pública a quem deve ser admirado em espaço de convívio coletivo.

Um monumento pretensamente eterno a alguém é um reconhecimento, nem sempre de todos, mas de uma maioria ou de consensos. 

Imaginem um monumento erguido a Hitler ser preservado em nome da História. É um argumento sem qualquer fundamento. 

Um monumento em bronze dedicado a alguém não pode, como parece que Laurentino sugere, ser comparado a um Coliseu, por exemplo, ou às ruínas de uma charqueada que explorou escravos. É uma bobagem. 

Muito menos pode ser equiparado a um livro sobre um racista. Não há comparação. Derrubem tudo. Limpem as cidades.

Mario Quintana escreveu que um engano em bronze é um engano eterno. Os jovens europeus provaram que não são mais.

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