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sexta-feira, 14 de maio de 2021

Há cada vez mais evidências de que o golpe de 2016 atrasou a recuperação da economia


Queda no PIB pode ser, em parte, atribuída à Operação Lava Jato e às pautas-bomba de 2015

Nelson Barbosa

O afastamento de Dilma Rousseff completou cinco anos. Volto ao assunto para comentar um fato pouco mencionado na mídia: a economia brasileira parou de cair antes do golpe parlamentar de 2016 e mergulhou novamente depois dele.

A recessão de 2014-16 começou no segundo trimestre de 2014 e durou até o fim de 2016. Houve queda total de 8% do PIB, o que os críticos do PT atribuem somente à política econômica da época, mas o pessoal se esquece de dizer que a economia voltou a crescer no início de 2016, ainda no governo Dilma. Vamos relembrar.

Já escrevi neste espaço que a política econômica foi um dos determinantes da recessão de 2014-16, não o único determinante. Estudos econométricos indicam que 40% da queda do PIB veio de choques adversos no resto do mundo (juros e preços de commodities).

Dos 60% restantes, parte veio de choques políticos, que, apesar de domésticos, não são resultados somente de política econômica. Falo da Lava Jato e das pautas-bomba de 2015.

No caso da Lava Jato, em 2016, estudo da consultoria de Gesner Oliveira disse que os efeitos econômicos da operação derrubaram o PIB em 2,5%. Mais recentemente, estudo semelhante da CUT/Dieese estimou que o impacto negativo da Lava Jato tenha sido de 3,6% do PIB.

É difícil dizer quanto dos investimentos e empregos destruídos pela Lava Jato se deveu aos excessos da operação e quanto foi resultado da má alocação de recursos pela corrupção.

Os estudos continuam, mas, diante das revelações de que a Operação Lava Jato foi mais política do que jurídica, creio que pelo menos 20% da recessão de 2014-16 tenha decorrido dos excessos da força-tarefa de Curitiba. Teoricamente, esse “custo” será compensado pelos ganhos de eficiência trazidos pelo combate à corrupção a longo prazo.

O segundo choque político veio das pautas-bomba de 2015, que atrasaram a correção de rumo da política econômica quando ficou claro o tamanho da recessão. Mais precisamente, o segundo governo Dilma começou com ajuste fiscal e monetário, baseado na expectativa de que a economia cresceria em 2015.

Porém, diante do colapso dos preços da commodities no mundo e do impacto da Lava Jato no Brasil, ficou rapidamente claro que a dose de ajuste tinha sido excessiva, sobretudo que o realinhamento abrupto das tarifas de energia tinha sido um erro.

Em meados de 2015, para adaptar a política econômica ao novo contexto, o governo Dilma propôs flexibilização fiscal, com redução do resultado primário em 2015 e 2016, o “Orçamento com déficit”. Porém, devido às pautas-bomba daquela época, a proposta só foi aprovada em dezembro de 2015, atrasando o combate à crise.

A flexibilização fiscal só começou no início de 2016, quando o BC também parou de subir a Selic. As duas ações, juntamente com a melhora do cenário internacional, contribuíram para que a economia brasileira parasse de cair e voltasse a crescer ainda no governo Dilma. Quanto? Os números do IBGE mostram crescimento de 0,4% do PIB no segundo trimestre de 2016 (sobre o período anterior com ajuste sazonal).

Será que a economia teria se recuperado mais rápido com Dilma? Acho que sim, mas nunca saberemos. Sabemos, apenas, que a recessão voltou depois do golpe. Houve novo mergulho do PIB no segundo semestre de 2016 e, quando o crescimento novamente voltou, ele ficou abaixo dos 3% anuais alardeados pelos golpistas. A expansão média do PIB foi de 1,4% em 2017-19, antes da Covid.

Passados cinco anos, há cada vez mais evidências de que o golpe de 2016 atrasou a recuperação da economia brasileira.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O erro da inserção pelo consumo


Nelson Barbosa

As críticas ao PT por seu governo de "inserção do consumo" são muito curiosas.

Lula é condenado pelos "iluministas" porque teria se ocupado apenas do consumo! Lembro-me de que seu maior projeto era que o brasileiro tivesse ao menos três refeições por dia, porque o cenário era de fome e miséria. 

Essa crítica é calhorda, porque sabemos bem das muitas universidades e institutos federais criados, O Programa Sem Fronteiras, o SAMU e as UPAS, o MCMV, as Cisternas, Lei Maria da Penha, Aumento real do salário mínimo, Bolsa Família, Luz no Campo, Combate ao desemprego, O Brasil como 6ª economia mundial... e por aí vai... 

Daí vem a pandemia e o país, já mergulhado nas trevas do fascismo, das perdas de direitos, e governado por um genocida resultado do ódio ao PT, fica clamando para o quê? Para o CONSUMO, ora!

Até por decreto já encerraram a pandemia para que o Dia das Mães seja um sucesso de... CONSUMO!

Ah, mas o contexto histórico não importa. A escravidão também acabou por decreto, não foi? 

Segundo o aspirante Huck, para que ficar olhando para o passado?

Vamos olhar para o presente.

Quem morreu, morreu. 

Aliás, todo dia morre gente.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Chega de perseguição a Lula!


A incerteza econômica atual tem nome e endereço. Ela está nos terraplanistas do Palácio do Planalto e nos austríacos de circo do Ministério da Economia.
Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.


Os eventos desta semana comprovaram que o ex-presidente Lula foi vítima de perseguição política, com o objetivo de retirá-lo da corrida presidencial de 2018. A decisão do ministro Fachin, invalidando todos os processos da Lava Jato contra Lula, atendeu a uma demanda da defesa... com três anos de atraso!

Nestes três anos, Lula foi preso injustamente, por 580 dias, tivemos uma eleição censurada e sofremos sob o atual desgoverno. Nada que o STF decida agora será capaz de reparar o dano sofrido por Lula e todos nós, mas vamos em frente. Parte da atual crise humana e econômica era inevitável.

A Covid-19 é doença grave e derrubou vários países. Por aqui não foi diferente, mas uma comparação internacional indica que poderíamos estar bem melhor. Na economia, por pressão do Congresso, o governo até foi bem em 2020, com injeção fiscal de R$ 524 bilhões (7% do PIB) na economia.

Devido a esse estímulo, a recessão foi bem menor do que a maioria de nós, economistas, previa em maio. O déficit público subiu menos do que se esperava, e a dívida pública terminou o ano passado bem abaixo das expectativas do próprio governo.

Diante de tamanho sucesso fiscal keynesiano, o que fez nossa equipe de ideologia econômica? Resolveu que a crise tinha acabado e cortou o “oxigênio” da economia. Houve parada súbita do auxílio emergencial e de outras medidas de transferência de renda, com retorno prematuro à consolidação fiscal.

O resultado é a queda provável do PIB no primeiro trimestre, com risco de recessão técnica no primeiro semestre. O fracasso da política econômica no início deste ano é grave, mas parece brincadeira de criança comparado ao que aconteceu na saúde pública.

O atraso da vacinação já custou milhares de vidas, sem sinal de arrefecimento no ritmo de novos casos e mortes a curto prazo. O descaso federal com medidas básicas de proteção (usar máscara para todos e distanciamento social para quem pode fazer distanciamento social) provavelmente contribuiu para outros milhares de mortes adicionais.

Diante de mortes em alta e PIB em baixa, o que alguns colegas economistas resolveram enfatizar nesta semana? Que a justiça feita à Lula seria ruim ao país, pois isso aumentaria a incerteza econômica e, pasmem, restringiria a escolha dos eleitores em 2022!

Esse tipo de análise me desperta sentimentos não cordiais, mas é preciso ter serenidade, mesmo diante de boçalidades. A incerteza econômica atual tem nome e endereço. Ela está nos terraplanistas do Palácio do Planalto e nos austríacos de circo do Ministério da Economia. O PT já não é governo há cinco anos, logo sugiro que a Faria Lima pare de criar espantalhos para cobrir a incompetência do governo que apoia.

A estratégia econômica de Guedes tem problemas devido às suas próprias fragilidades e inconsistências. Segundo, Lula, como qualquer um de nós, tem direito a um julgamento justo independentemente de ser ou não candidato em 2022. Misturar uma coisa com a outra só comprova o Estado de exceção sob o qual parte de nós vive desde 2016.

Por fim, sobre “polarização”, Lula já demonstrou ser um líder de centro, que preza pela democracia e governa para todos. Mesmo que não fosse assim, apresentar candidatura de “A” ou “B” não impede a candidatura de “C”.

Se “C” acha que pode ser eleito, que ele ou ela faça sua campanha e deixe os eleitores decidirem. Choramingar que outro potencial candidato deve desistir ou ser impedido de concorrer para que seu nome preferido seja eleito é coisa de gente mimada, ou de quem deseja cercear a escolha dos eleitores.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Quem apoiou ou trouxe Bolsonaro para o protagonismo do Estado não pode ser perdoado jamais


A ditadura militar na Argentina recebeu historicamente o tratamento que merecia: os ditadores foram presos e as instituições restauradas pela democracia, com a certeza de que aquilo nunca mais acontecesse ou fosse jamais perdoado.

No Brasil, o tratamento foi outro: uma lei de anistia foi suficiente para se passar pano nessa barbárie e permitir, agora, a volta daquele mesmo Estado autoritário e torturador, pelas mãos de muitos dos mesmos protagonistas de então.

Nossa história precisa nos ensinar alguma coisa. Quem apoiou ou trouxe Bolsonaro para o protagonismo do Estado não pode ser perdoado jamais. Não basta agora dizer que retirou o apoio ao fascista genocida com as mãos sujas desse sangue nacional.

Lembrem-se de Doria em sua campanha a governador do estado de SP. Ele é um desses que têm as mãos com sangue nacional.

Nelson Barbosa

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Piquenique na beira do vulcão

Milhões ainda não sabem o que farão após o fim do auxílio emergencial
A crise da Covid elevou e elevará ainda mais a dívida pública do governo brasileiro. Mas qual é conceito relevante de dívida pública? Durante o governo do PT, vários analistas passaram a enfatizar a dívida bruta, no sentido de que os ativos do governo não eram muito líquidos e, também, para ignorar a queda da dívida líquida sob o comando de Lula.

Mais recentemente, os pagamentos antecipados do BNDES ao Tesouro (Guedes quer mais R$ 100 bi, em janeiro) e a alta liquidez das reservas internacionais diminuíram a ênfase da Faria Lima na dívida bruta. Hoje até o BC de Bolsonaro voltou a enfatizar a dívida líquida.

Do ponto de vista econômico o critério correto é mesmo a dívida líquida, a diferença entre passivos que pagam juro e ativos que recebem juro, pois ela representa o valor presente dos superávits primário futuros.

Neste ano, considerando “Governo Geral” e Banco Central, nossa dívida líquida atingiu seu maior valor em proporção do PIB desde o final do governo Fernando Henrique (FH).

Segundo o IPEADATA, em setembro de 2002 a dívida líquida de União, estados, municípios e Banco Central atingiu 59,5% do PIB. Em agosto deste ano o mesmo conceito de dívida chegou a 59,8% do PIB.

Será que estamos tão mal quanto no final da era tucana? A resposta depende do que cada um prefira enfatizar.

Começando pelo lado positivo, hoje nosso governo tem muito mais reservas internacionais do que em 2002. Desde 2006, o Estado brasileiro é credor em dólares e, portanto, quando a taxa de câmbio sobe, o governo tem um ganho patrimonial que alivia sua restrição fiscal. No final do mandato de FH a situação era completamente oposta. O governo estava quebrado em dólares, dependendo do FMI para fechar suas contas externas. Ponto para a situação atual.

Ainda pelo lado positivo, apesar da aceleração recente, nossa inflação está baixa e sob controle. Em contraste, no final de 2002, a inflação atingiu 12,5% ao ano e continuou a acelerar, exigindo que o BC, no início do governo Lula, elevasse a taxa Selic real para 16% ao ano.

Agora, mesmo que o BC suba o juro para combater o repique dos preços dos alimentos, a taxa de juro real de curto prazo deve ficar abaixo de 2% ao ano nos próximos anos. Dois a zero para a situação atual.

Mas vamos às más notícias. A dívida líquida do governo começou a cair nos últimos meses do governo FH, quando o “mercado” abandonou o terrorismo contra Lula e constatou que haveria estabilização nos anos seguintes.

Hoje a perspectiva é que a dívida suba ainda mais, pois o crescimento do PIB não se recuperará rapidamente, as consequências da pandemia não permitem retirada abrupta das “medidas emergenciais” e o governo simplesmente não tem plano de saída crível da pandemia. Ponto para o final do governo FH.

Para empatar o jogo. Em 2002 os tucanos ainda não tinham enlouquecido, havia alguma civilidade na vida pública e não tínhamos a “idolatria da auditoria”, com poderes não eleitos (como TCU e Ministério Público) formulando política econômica.

Hoje, depois dos golpes de 2016 (impeachment de Dilma) e 2018 (prisão de Lula), o cenário político é bem mais incerto. Há grande polarização política, perda de governança com o “apagão das canetas” e um comando do Congresso fazendo piquenique na beira do vulcão para decidir quem serão os novos presidentes da Câmara e do Senado, enquanto milhões de pessoas não sabem o que farão após o
fim do auxílio emergencial.

Queria terminar este texto de modo otimista, mas a postura recente de Maia-Alcolumbre tornou isso difícil.

Nelson Barbosa
Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

domingo, 8 de março de 2020

Jornalistas de programa, incluindo os pés-rapados, chamam o patrão de colega


Nelson Barbosa

A prática de igualar Bolsonaro a Lula é corrente dentro dos órgãos da imprensa. E o que é lamentável, é alimentada e divulgada por funcionários desses órgãos da imprensa, mesmo os mais precarizados.

Há um senso comum de que tanto Lula quanto Bolsonaro despejaram ou dispensam verbas para serem enaltecidos na imprensa.

Quanto a Bolsonaro, estamos tendo a prova cabal disso com o modo como alguns setores da mídia se portam como vassalos de seu governo: há os chiqueirinhos onde os jornalistas são confinados, as contínuas bananas dadas à imprensa, o escândalo das verbas públicas despejadas nos canais da Record, do SBT... e também a forma borderline com que a Globo e a Folha, por exemplo, lidam com essas situações, avançando e recuando, conforme o fluxo do dinheiro vai alimentando a máquina midiática.

Já com relação a Lula, basta uma consulta aos jornalões e à mídia em geral durante seu mandato para se perceber que a relação governo / imprensa não era exatamente como hoje querem fazer crer esses precarizados.

Muitos hão de se lembrar, por exemplo, do papel de José Dirceu quanto à pulverização das verbas de publicidade para um número muito maior de veículos, o que, à época, gerou aquele "editorial" comprometedor da Folha se queixando justamente dessa prática passando o recibo de que essa democratização das verbas públicas comprometia o monopólio da "informação". Outro não foi o motivo do inferno de Dirceu desde a época do suposto "mensalão" ainda no primeiro mandato de Lula.

Houve também aquela polêmica dos chamados "blogues sujos", aos quais se dizia serem mantidos por Lula para enaltecimento de seu governo, o que se revelou uma falácia comprovada sobretudo nos casos dos blogues do Azenha, do Eduardo, do Amorim... Enfim...

Ainda como cereja desse bolo todo, pode-se citar a famosa intervenção de Judite Brito em sua fala de que a imprensa no Brasil tinha como função fazer oposição ao governo Lula, numa clara demonstração de que de de fato Paulo Henrique Amorim estava certo ao nomear o famoso PIG: Partido da Imprensa Golpista.

Só para lembrar. Porque a idade, ao avançar, ajuda a gente a guardar informações que podem muito bem demonstrar essa mentira que grassa nas redações entre os empregados que adoram chamar o patrão de "colega", como já dizia M. Carta.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Para não perder a década na política


Nelson Barbosa
Iniciamos 2020 com queda do gasto social e tentativa de intervenção nas universidades
Entramos nos anos 20. A virada simultânea de ano e indicador decenal levou vários analistas a avaliar nossa nova “década perdida”, pois os anos 80 e 90 do século passado também não foram bons em crescimento econômico.

Porém, se utilizarmos o padrão histórico correto, o século 21 começou em 2001 e a segunda década deste século só acabará no final de 2020. Dado que a expectativa média do mercado é de crescimento de 2,3% neste ano, cabe perguntar: será isto suficiente para salvar a década? A resposta é não.

Tomando o PIB per capita como referência, a atual expectativa de crescimento pouco alterará a estagnação prevista para 2011-20. Traduzindo do economês, em 2020 a renda média por habitante do Brasil retornará ao nível de 2010. Para piorar, como houve aumento da desigualdade no período, isto significa redução da renda real dos mais pobres.

Mesmo que a economia surpreenda positivamente (tomara), crescendo 3% neste ano, ainda assim teremos nossa segunda pior década desde que temos dados sobre o PIB per capita do Brasil.

Coloquei todos os números no blog do Ibre/FGV. Nesta coluna me concentrarei no período pós 1980.

Com base nos dados do IBGE, o PIB per capita teve queda acumulada de 3,9% em 1981-90. Em outras palavras, em 1990 estávamos quase 4% mais pobres do que em 1980.

O retrocesso econômico foi parcialmente compensado pelo avanço da democracia, dado que voltamos a ter eleições diretas para presidente nos anos 1980 e encerramos o período com uma nova Constituição e previsão de ampliação da rede de proteção social.

Apesar dos pesares a situação melhorou nos dez anos seguintes, em 1991-00, quando houve expansão de 18,1% na renda real por habitante.

O crescimento foi facilitado pelo cenário externo favorável durante a maior parte do período, que por sua vez viabilizou a estabilização da economia (Plano Real).

Como a redução da inflação beneficiou relativamente mais os mais pobres, também houve redução da desigualdade na “década tucana”. Difícil considerar os anos 1990 como década perdida neste aspecto.

A situação melhorou mais ainda na primeira década deste século, em 2001-10, quando registramos expansão de 27,8% (o “milagrinho” econômico) novamente em um cenário externo quase sempre bem favorável.

Na “década petista” houve aceleração da renda e redução mais rápida da desigualdade, com materialização de vários direitos previstos na Constituição de 1988, via aumento da rede de proteção social e maior acesso a crédito, educação e a empregos com carteira assinada (o “Brasil de Todos” do PT).

Diante do quadro acima, nosso desempenho em 2011-20 é decepcionante, sobretudo quando consideramos o retrocesso político dos últimos anos. Enquanto na década perdida de 1981-10 tivemos redemocratização e “Constituição Cidadã”, hoje temos tendências autoritárias e desmonte da rede proteção social.

Como exemplos, lembro que iniciamos 2020 com previsão de nova queda real do gasto social do governo por habitante, tentativa de intervenção do Planalto nas universidades federais (MP 914) e retomada da guerra jurídica contra a esquerda, vide a nova decisão da Justiça contra o ex-Presidente Lula e a ação da CGU contra Sergio Gabrielli (ex-Presidente da Petrobras).

Diante destes sinais, podemos esperar por mais ataques à democracia neste ano. Para não perder a década também na política, precisaremos de mais mobilização social, pacífica e dentro da lei, contra o obscurantismo em curso. O primeiro passo é repelir a intervenção na educação.

Nelson Barbosa
Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A grande recessão de 2014-16


Nelson Barbosa


Na semana passada cobrei da direita o que sempre cobram da esquerda: autocrítica. Como de costume, alguns próceres demo-tuca-novos fugiram do tema listando questões econômicas que, na sua visão, requerem penitência da esquerda. É diversionismo, mas vamos lá.

A recessão de 2014-16 teve quatro grandes causas.

Houve choques exógenos, com queda abrupta dos preços das commodities e os efeitos econômicos da seca no Sudeste. Quem mora em São Paulo se lembrará do “volume morto”.

Houve também erros de política econômica, sobretudo em 2012-14, vários dos quais já abordei em minhas colunas e textos. Escrevo isto com tranquilidade, pois deixei o governo em 2013, em parte, por discordar do rumo da política econômica daquela época.

Retornei em 2015, para ajudar a corrigir os problemas.

Para resumir uma história longa, quando a situação internacional virou, em 2012, o governo deveria ter diminuído formalmente seu resultado primário e iniciado reformas estruturais do gasto e da tributação, deixando os preços se ajustarem e lidando com os efeitos inflacionários desses ajustes via taxa de juro. Isso foi debatido, mas não aconteceu.

O governo optou por retomar a agenda de estímulos para combater a desaceleração, uma vez que isso tinha dado certo em 2009-10. Porém, diferentemente do final do governo Lula, a partir de 2012 houve mais ênfase em desonerações e incentivos financeiros do que em investimento público.

E o governo também decidiu represar o reajuste de alguns preços administrados, na expectativa de que as pressões inflacionárias seriam passageiras. Como as condições iniciais de 2012 eram bem diferentes das de 2008, a estratégia fracassou e começou a ser corrigida no fim de 2014.

A terceira causa da recessão foi o holocausto de empregos e empresas pelos efeitos de curto prazo da Operação Lava Jato, cujas consequências sofremos até hoje, com diminuição de investimentos. Já disse e repito: é perfeitamente possível combater a corrupção sem destruir a economia, desde que se tenha mais responsabilidade e menos busca por holofotes.

Em quarto lugar houve o “quanto pior, melhor” de 2015-16. Seja por revolta do PSDB ao perder a quarta eleição seguida, seja pela retaliação do PMDB ao PT pelo espaço dado à Polícia Federal e ao Ministério Público para conduzir suas investigações, o fato é que a agenda de política econômica do governo Dilma foi bloqueada justamente quando era necessário fazer correções de rumo, e isso aprofundou a recessão.

Também houve erros em 2015-16. Por exemplo, o reajuste abrupto dos preços de energia e a parada súbita de crédito pelo BNDES empurraram a economia mais para baixo no exato momento em que o Brasil sofria os efeitos adversos dos choques internacionais e da Lava Jato. Quando isso ficou claro, em meados de 2015, o “quanto pior, melhor” impediu correções de rumo.

Assim, dizer que a recessão de 2014-16 foi consequência somente de erros de política econômica é uma desonestidade equivalente a dizer que ela foi consequência somente de choques exógenos. Os dois fatores contribuíram, juntamente com a deterioração do quadro político, que é meu último ponto.

Devemos debater economia, mas, adaptando o slogan de James Carville, hoje nosso maior problema é a política... vocês sabem o resto. A direita errou ao apoiar a utilização de dois pesos e duas medidas para perseguir seus adversários de esquerda.

Não basta repudiar o AI-5. Também é necessário reconhecer todos os outros ataques à democracia feitos em nome da “boa política econômica” e do combate à corrupção.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Autocrítica é urgente e fundamental para salvar o que resta do país


Nelson Barbosa

A direita precisa reconhecer seus erros 
Se preocupem com a Caixa de Pandora que vocês mesmos abriram e não sabem como fechar
A recente liberação do ex-presidente Lula atiçou os analistas de sempre a pedir, mais uma vez, autocrítica por parte do PT. Acho engraçado, pois, como já disse em outra coluna, se tem uma coisa que a esquerda adora fazer, é autocrítica.

Já estamos na autocrítica da autocrítica. Para quem duvida, recomendo participar de alguma reunião interna do PT. O processo não é divertido nem agradável, mas ele ocorre periodicamente em partidos verdadeiramente democráticos.

No caso específico dos governos Lula e Dilma, dos quais tenho orgulho de ter participado, a mais recente cobrança de autocrítica parece desespero diante do fracasso do golpe de 2016 em recuperar o crescimento e fortalecer a democracia.

Do lado da economia, passados mais de três anos desde o afastamento de Dilma Rousseff, aquilo a que assistimos é o lento crescimento da renda e dos salários, com alto desemprego, redução do emprego formal e aumento da desigualdade.

Sim, a inflação e os juros caíram, refletindo correções iniciadas ainda no governo do PT (olha a autocrítica aí), mas, a partir de 2016, com Temer e depois Bolsonaro, o que temos visto é um ajuste desequilibrado, que pune mais quem pode menos.

Do lado da política, a luta contra a corrupção demonstrou, mais uma vez, ser cortina de fumaça daqueles que não prezam pela democracia e sonham com o retorno de práticas autoritárias.

A revelação de conversas entre os membros da Operação Lava Jato, publicadas pelo portal Intercept Brasil e por outros veículos, indica que as investigações adotaram dois pesos e duas medidas e desrespeitaram as normas básicas do Estado democrático de Direito, contra lideranças de esquerda.

Mais recentemente, manifestações de membros do governo, da família e de apoiadores de Bolsonaro flertam semanalmente com a ruptura institucional, sem resposta à altura por parte daqueles que sempre foram rápidos em criticar qualquer coisa da esquerda.

Para fechar o pacote, no último fim de semana, grupos de extrema direita saíram às ruas para atacar o Supremo Tribunal Federal. Um deles, sob o pretexto de defender a nação, chegou a prestar continência a uma réplica da Estátua da Liberdade, em frente a uma loja de departamentos. Só faltou cantar o hino norte-americano.

Diante dos excessos de nossos nacionalistas de Miami, já passou da hora de os líderes e intelectuais "demo-tuca-novos" fazerem autocrítica em relação ao que patrocinaram desde 2016. Será um processo difícil para quem acha que só existe um modelo de economia e sociedade, mas cobro mesmo assim, pois sou brasileiro e não desisto nunca (olha outra autocrítica aí).

Nossa direita deve fazer autocrítica por ter sabotado o governo Dilma e aumentado a recessão em 2015, por ter apoiado a ruptura institucional e piorado ainda mais a economia em 2016, por defender a destruição desnecessária de empresas e empregos em nome do combate à corrupção, que se revelou perseguição política, por fazer vista grossa à violação das normas básicas da democracia contra seus adversários, por politizar o Judiciário e judicializar a política, por minimizar o papel das fake news e da censura contra a esquerda na eleição de 2018 e por patrocinar um projeto de desenvolvimento para poucos, que reduz a rede de proteção social do Estado muito além do que seria justificado por considerações fiscais.

Não se preocupem com a autocrítica do PT, ela continua viva e aberta ao debate, inclusive com a direita. Se preocupem com a Caixa de Pandora que vocês mesmos abriram e não sabem como fechar.

Nelson Barbosa

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

domingo, 6 de outubro de 2019

A ascensão do fundamentalismo


Não é certo, penso, sempre atribuir às esquerdas a responsabilidade pela ascensão do fundamentalismo e o estado de coisas lamentáveis que hoje vivemos.

O cidadão (burguês) de modo geral, não quer ter compromissos políticos (não digo nem partidários), não quer ter que dividir seu tempo (menos ainda o de lazer e TV) com problemas de seu bairro ou comunidade, com discussões sociais, com busca de soluções "políticas" etc. e tal., que são prerrogativas de consciência política, sobretudo à esquerda. Com isso, procura sempre terceirizar esses compromissos jogando-os nas mãos de "despachantes" de toda natureza: o professor, o vereador, o político profissional, o líder comunitário ou religioso etc. Cria, assim, um vácuo social para o qual somente discursos e narrativas que não o solicitem podem trazer "vantagens", desde que não o comprometam - donde se torna inviável qualquer discurso "à esquerda" que exija mobilização. Daí o campo aberto a discursos religiosos que terceirizam, por sua vez, as ações a um suposto poder divino que tudo pode, tudo resolve na sua enorme onipotência e onipresença, ou discursos mantenedores do status quo que apostam na letargia, quando não no risco da obrigação de assumir compromissos "desagradáveis".

Entendi isto quando, por muitos anos, atuei junto a associações de bairro e de região. Ninguém queria entender o que era Conselho Tutelar, Conselho Participativo, Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal, Ministério Público, Subprefeituras, Vigilância Sanitária, Secretaria de Ação Social... Para tudo isso, queriam que fôssemos apenas "despachantes", desses que a classe média paga (reclamando, mas paga) para resolver problemas de cartórios, Detran etc...

domingo, 8 de setembro de 2019

De chorar


Um brevíssimo contato com a classe média paulistana permite concluir que: a) ela não tem sequer noção do que sejam os vazamentos do Intercept Brasil; b) que não toma o menor conhecimento do que significam os atos vazados da Lava Jato; c) não há nenhum cruzamento das informações vazadas com a reputação dos lavajatistas; d) desconhece profundamente o que seja ética na justiça (porque não a pratica, claro); e) quando sabe dos vazamentos, entende que as armas usadas para prender Lula e tirar o PT do poder foram necessárias; f) não foi minimamente afetada pelos vazamentos das conversas...

Isso explica, creio, o fato indicado pelas pesquisas de que Moro continua intacto na sua popularidade.
E essa percepção é real porque a VazaJato em nenhum momento trata da imagem de Bolsonaro, que se esfarela por si só, no seio da classe média que, no entanto, ainda acredita não ser culpa dele a situação em que nos encontramos. Essa imagem se esfarela por conta exclusivamente do histrionismo do Bozo, e não por compreensão de sua incapacidade.

Nelson Barbosa

sábado, 6 de julho de 2019

A classe média é uma abominação

A gente fica indignado com as revelações que provam nossa percepção do processo político, achando que a classe média vai finalmente tomar consciência do embuste que elegeu como herói e do golpe que sofreu com a eleição do presidente mais estúpido que se podia ter.

Que nada, a classe média sempre soube de toda a farsa, ela não se indigna com isso porque ela se vê refletida neste espelho. Ela, sempre que possível e que julga necessário, age exatamente assim, corrompendo o Estado, acobertando crimes, falsificando dados e informações, passando rasteiras no seu próximo, dando jeitinho nos bastidores...

Nelson Barbosa

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O ideal democrático não faz parte do imaginário brasileiro

Na mente fantasiosa de Bolonsaro e dos que nele votaram o papel do presidente é o mesmo de um rei absolutista, avesso a qualquer outro valor (democracia) que venha fazer-lhe sombra. Basta ele querer e seu desejo se torna lei ou realidade: é assim nas suas decisões, nas suas posições a respeito do trânsito, das regras sociais, dos direitos do cidadão, da educação etc.

Com muita tristeza vejo esta configuração na mentalidade do brasileiro comum, com sua mania e adoração por figuras de reis e imperadores que efetivamente imperam, mandam, ordenam. Essa figura mítica resvala invariavelmente para a fantasia de carnaval, para o futebol, o time que se torce, os atributos artísticos de alguém... Temos sempre, em todas as nossas manifestações culturais ou recreacionais a figura imponente de um rei absoluto dominando seus súditos. 

É uma sina demente esta nossa, e parece, lamentavelmente, que não terá fim tão cedo. É um elemento cultural fortíssimo que será preciso muita desconstrução para que abra caminho para uma ideia de república ou de democracia.

Nelson Barbosa

sábado, 4 de maio de 2019

O ódio que o PT suscitou na "elite" do país ao incluir o povo no orçamento e na vida da nação

Tudo o que temos visto no Brasil de hoje tem a exata medida do ódio que o PT suscitou na "elite" do país ao incluir o povo no orçamento e na vida da nação.

Não basta à elite e à ignorância terceirizada demolir as conquistas: é preciso também salgar os campos para que pobres e pretos não ousem mais pisar nos aeroportos, nas universidades, nos ambientes mantidos à exaustão da massa trabalhadora sem nenhum futuro.

E não importa que os comandados sejam pessoas da mais baixa humanidade: eles foram "empoderados" para sujarem suas mãos de sangue e de vergonha.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Reforma BolsoGuedes é o fim da Previdência

Nelson Barbosa

Sobre Previdência, vários colegas do PT apontaram que a reforma BolsoGuedes (BG) representa a destruição da previdência. Os colegas estão certos devido à possibilidade de criar um sistema de capitalização em substituição ao de repartição que temos hoje. Explico em partes.

Segundo o artigo 201-A da PEC BG, o governo criará novo regime de previdência social, baseado na capitalização, de caráter obrigatório para quem aderir. Haveria, então, duas opções para o trabalhador: capitalização ou repartição.

A ideia parece democrática, pois o trabalhador escolheria o regime. Porém, como o novo sistema também deve ter menores contribuições por parte das empresas, tudo indica que empregos serão oferecidos somente no novo regime.

A capitalização como alternativa à repartição também é detalhada nas disposições transitórias da PEC, onde o governo apresenta as características da capitalização como alternativa à repartição.

Do jeito que está o texto, a previdência social como entendemos (repartição ou contribuição definida) irá acabar. No seu lugar teremos previdência individual a la Chile (capitalização ou benefício definido).

A legislação atual já permite capitalização como complemento à previdência social. Tanto é assim que existem os fundos de estatais (Previ, Petros, etc), dos servidores (Funpresp, etc) e a previdência complementar (BrasilPrev, etc).

Colocar capitalização como alternativa ao invés de complemento, e dizer que a opção, quando feita, será irrevogável, é decretar o fim da previdência social. Novos empregos tendem a ser oferecidos somente no novo sistema.

Teoricamente bastaria mudar a redação, substituindo a palavra “obrigatório” por “complementar”, mas aí não precisa ser matéria constitucional. A legislação em vigor já permite ao governo oferecer capitalização de modo complementar.

O artigo 201-A da PEC BG é o Cavalo de Tróia para destruir a previdência social. Caso aprovado, teremos apenas previdência individual, com as consequências desastrosas que vemos no Chile hoje.

Sou favorável ao aumento da poupança via capitalização de modo complementar ao regime de previdência social. É assim na maioria dos países desenvolvidos. Por que BG querem mudar isso? Só pode ser lobby do mercado financeiro.

Assim, a proposta BG só deve prosperar se for retirado o artigo 201-A do texto e todos seus desdobramentos. Melhor se concentrar em aperfeiçoar o sistema que temos ao invés de destruí-lo mais à frente.

Os colegas do PT estão certos. O texto do artigo 201-A da PEC BG representa o fim da previdência social. Logo, se ele não for retirado, o resto da proposta de reforma da previdência não deve ser discutido.