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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Não existe pluralismo na imprensa brasileira

Renato Janine Ribeiro

Não me espanta nada que o jornal O Globo, ao consultar 7 economistas sobre a declaração de Bolsonaro segundo a qual "o Brasil está quebrado", só tenha chamado defensores da agenda privatizante, tucana, liberal, neoliberal, como quiserem chamar.

Pluralismo, na imprensa brasileira, não existe. E se não há na cobertura de economia, pensem que é difícil haver na política.

O que contrasta com a simpatia que a imprensa mostra pelas pautas de direitos humanos, ainda bem - mas é como se fossem direitos humanos sem carne.

Dá para imaginar que se possa melhorar a situação de quem mora em favelas, de quem é negro, de quem é a maior parte dos assassinados pela polícia, sem investimentos pesados na área social?

Eles até podem dizer, OK, mas tirem isso dos salários dos professores e pessoal da saúde pública. O que não resolve nada, na verdade piora, porque corta o futuro.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A civilização exige respeito pela morte

Restaurante em Gramado debocha de coronavírus com meme do caixão

Renato Janine Ribeiro
Cenas de gente simulando defuntos e caixões são chocantes
Como muitos brasileiros, fiquei chocado com a cena de um restaurante em Gramado (RS), curiosamente chamado “Divino”, no qual um cliente e três garçons se exibiram dançando o meme do caixão, conforme noticiou a Folha na terça-feira (12). Também impressionou ver, nas manifestações pró-governo, gente simulando defuntos para brincar com a morte, obviamente, alheia. E jamais imaginei que uma atriz famosa, hoje secretária nacional de Cultura, se recusaria a prantear os colegas artistas mortos e, pensando só em si mesma, diria que está “leve, viva!”.

Por que este choque ante o prazer (ou descaso) com a morte do outro, choque que tantos sentimos e felizmente, mostrando que ainda há sentimentos de humanidade entre nós, despertam reações de repúdio? (Um guia de viagem prontamente retirou o estabelecimento de de Gramado (RS) de seu site e acrescentou: “Pedimos desculpas aos leitores por já termos indicado este restaurante algum dia”).
Como muitas pessoas, aprendi, adolescente, que não se fala mal de quem acabou de morrer —mesmo das pessoas detestadas ou detestáveis. Passados os anos, até podemos criticá-las. Mas a hora da morte exige respeito aos familiares do falecido e ao próprio mistério do fim da vida. Aí está – ou estava?— um traço essencial da boa educação: respeitar a morte. Esse respeito sinaliza que nossas divisões e mesmo ódios precisam ter limites. É isso, a civilização. Sabe-se que, na Primeira Guerra Mundial, em vários fronts da Europa tropas inimigas celebraram o Natal de 1914 juntas! Os soldados estavam se matando, mas, no dia sagrado do cristianismo, se abraçaram. (Talvez seja esse o verdadeiro significado de “Deus acima de tudo”: a paz, algum tipo de paz, de amor).

Ou pensemos no Brasil: Getúlio Vargas, o mais impopular dos brasileiros em 23 de agosto de 1954, no dia seguinte, após sua morte, era o mais querido de nossos compatriotas. E isso apesar de ter se suicidado, o que, para o catolicismo, então a religião de mais de 95% dos brasileiros, constitui pecado mortal.

Podemos também lembrar a ficção: tomemos Don Juan, o conquistador frio que coleciona mulheres, seduzindo-as e abandonando-as. Ele não teve existência real, é um personagem da literatura. Pois de seu criador, Tirso de Molina (1579-1648), até Mozart (1756-1791), que fez a ópera mais célebre sobre ele, Don Juan é condenado ao inferno, mas não devido a suas aventuras amorosas —e sim porque zombou de um morto, o Comendador, convidando-o, zombeteiramente, para um jantar.

Lamentavelmente, esse desrespeito não deveria nos espantar. Afinal, temos um presidente que, em 1999, lastimava que a ditadura não tivesse matado 30 mil brasileiros (“Se vão morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, disse, na ocasião) e no ano passado afirmava friamente, a propósito do contestável excludente de ilicitude, que “os caras vão morrer na rua igual barata, pô”.

Até o século 18, a morte dos outros podia ser um espetáculo prazeroso. As execuções eram públicas, ofereciam um entretenimento barato e frequente, às vezes incrementado por tormentos demorados. Mas, com a democracia e os direitos humanos, o prazer ante a morte alheia se tornou obsceno. Rir do sofrimento das pessoas é hoje marca segura de desumanidade.

A banalização do mal, mostrou Hannah Arendt em seu livro sobre o carrasco nazista Eichmann, é uma segura porta de entrada para a destruição do humano em nós. Precisamos assegurar nossas conquistas civilizatórias. Uma das principais é o respeito pela dor e pela
morte alheias.

sábado, 14 de março de 2020

Vai piorar ainda mais


Renato Janine Ribeiro

Se o governo atual não tivesse assumido uma agenda reiteradamente de ódio, perto da qual nossas experiências passadas de conflito (exceto as propriamente bélicas) empalidecem, ele teria maior confiança dos cidadãos. Vejam a morte inesperada do ex-ministro Bebbiano, esta madrugada. Praticamente todos os que a comentam supõem que seja queima de arquivo. A situação se torna tétrica quando o normalíssimo conflito sobre as interpretações de um fato se radicaliza para chegar à divergência sobre a realidade desse mesmo fato.

Em boa parte isso se deve às “verdades alternativas” de Trump, eufemismo para a mentira. Quando o presidente do Brasil, em vez de agradecer por estar livre do coronavírus, dá uma “banana”, ele transforma até uma questão humana - que seria todos estarmos satisfeitos com ele não estar doente – em polêmica e ódio.

Cada vez mais, o governo se porta como um governo só para os seus, não como um governo do Brasil.

No que vai dar isso, agora que o coronavírus está chegando?

domingo, 1 de março de 2020

Estados Unidos admitem derrota depois de 18 anos de guerra contra o Afeganistão


Acabou.

Trump assinou a paz com os Talibãs.

O governo de Kabul, mantido graças aos EUA e aliados, nem foi chamado para a cerimônia.

As intervenções no Afeganistão, Iraque e Síria custaram 6 trilhões de dólares aos EUA, sendo que uma parte disso eles subtraíram dos próprios países.

São 750 dólares por ser humano do planeta.

Esse dinheiro resolveria praticamente tudo o que é problema existente no mundo.

Os EUA perderam a guerra, assim como a do Vietnã. Resta ver como vão salvar a face.

Diplomata americano que negociou o acordo, aperta a mão de líder do Talibã

EUA e Talibã assinam acordo de paz histórico

Tratado prevê retirada de todas as tropas americanas do Afeganistão no decorrer dos próximos 14 meses e abre caminho para encerrar 18 anos de guerra no país.

domingo, 15 de dezembro de 2019

A mentira como diversão


Fake news tiram sua força do entretenimento
O mundo real e a verdade podem ser enfadonhos
Renato Janine Ribeiro

Fake news é uma expressão charmosa para o que sempre foi chamado de mentira. Só que há algo mais aqui. Podemos mentir mil vezes em coisas pontuais, mas as fake news fazem parte de um sistema, de uma estratégia. Uma mentira sozinha não é fake news. Só é fake news quando integra um sistema de mentiras, organizado para obter vantagens políticas e/ou econômicas.

Uma andorinha só não faz verão; nem fake news. Precisa haver organizações ou grupos, que podem ser visíveis (como um partido em campanha); escondidos, mas que depois são denunciados (a agora célebre Cambridge Analytica ou as equipes que, segundo ex-bolsonaristas, teriam atuado na eleição passada); ou ainda, e talvez para sempre, bem ocultos.

Fazer fake news é um empreendimento, é coisa de quem se organiza como empresa. Não é para amadores. Mas não sei se um dia sairá um manual para ensinar “engane bem com fake news”. O sucesso delas está em passar por verdade. A mentira só dá certo quando acreditam nela, quando pensam que não é o que é, e sim que é verdadeira. 

Tudo indica que o paraíso das fake news é o WhatsApp. Por que ele, e não as outras redes sociais? Porque o Facebook, embora você possa configurá-lo para apenas poucas pessoas verem suas postagens, é, em princípio, público.

Já o WhatsApp se dirige estritamente a grupos fechados e, segundo alega, suas mensagens são protegidas de qualquer olhar, até de seu dono, Mark Zuckerberg, ou do governo americano. Não há como quebrar o sigilo do “zap”, submetê-lo às leis de proteção da honra, exigir direito de resposta. Não há contraditório, não há escrutínio público —elementos essenciais da informação veraz e da disputa democrática.

Mas a grande pergunta é: por que as fake news têm tanto sucesso? Por que seus conteúdos fascinam? Sustento que o maior sucesso no WhatsApp é quando se recorre ao entretenimento, em particular ao audiovisual. A assustadora reportagem do The New York Times sobre a campanha antivacina mostra que ela emplacou no Brasil graças a vídeos difundidos em grupos do aplicativo.

As imagens seduzem. Mais que isso, imagens dão uma impressão (um especialista diria talvez um efeito) de verdade, com o qual palavras não podem competir. Sabemos da facilidade de criar imagens ou mesmo filmes fakes. Há aplicativos que fazem isso. E o espectador acredita. Mais que isso, tem prazer.

Difícil competir com o prazer, com o entretenimento, quando ele toma o lugar da notícia, da análise. O mundo real e sua cobertura, jornalística ou acadêmica, são prosaicos. Podem ser enfadonhos. O Jornal Nacional só tem grande audiência, e mesmo assim abaixo da novela, porque trata o espectador como um Homer Simpson (na frase atribuída a William Bonner). Entretém.

Como enfrentar essa orgia de mentiras, que entre outros promoveu o sucesso do Brexit e de Trump? Como fazer a prosa jornalística e acadêmica vencer o entretenimento fantasiado de informação? Como fazer a palavra racional refutar imagens que mentem direto à emoção? A pergunta não é nova; o assunto já foi discutido por Platão, em “Banquete”, mais de 2.000 anos atrás; mas é o grande desafio hoje, sobretudo para a imprensa e para a democracia.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Os outros elementos do fascismo


Renato Janine Ribeiro 
Não se salva a democracia terceirizando sua defesa
Afirmei nesta Folha, em meu artigo “A Flip e o fascismo” (16.jul), que a principal diferença entre o fascismo e outros autoritarismos de extrema-direita é que ele tem militantes ativos, empenhados, empolgados: quem o apoia não se envergonha de usar a violência de forma banal e corriqueira. Foi o caso dos ataques a Glenn Greenwald, durante a Flip, e das ameaças a Miriam Leitão, convidada a outra feira literária.

Mas há mais dois fatores, pelo menos, que distinguem o fascismo do restante da extrema-direita: um é o desgaste ou destruição das instituições; o outro, a invasão totalitária da vida privada. Mussolini dizia: “Nada acima do Estado, nada contra o Estado” —e, pior ainda, “nada fora do Estado”. Ora, numa democracia o Estado tem várias instituições que se equilibram, fazendo o que chamamos de pesos e contrapesos. No Brasil, por forte que seja o presidente, seu poder é limitado por ao menos quatro instituições civis que pertencem também ao Estado. Como vão elas?

O Supremo Tribunal Federal, instituição decisiva por resolver as pendências em última instância, oscila. Se é verdade que limitou (poucas) medidas inconstitucionais de Jair Bolsonaro (PSL), dizem que o presidente Dias Toffoli teria alertado seus colegas a não enfrentarem um poder que comanda “300 mil homens armados”. Se a cúpula do Judiciário tem medo, o que devemos nós, simples cidadãos, sentir?

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) receia que um veto à indicação do deputado Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington (EUA) leve o Planalto a congelar emendas senatoriais. E a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, evitou atritos com o presidente.

A rigor, das quatro grandes instituições civis do Estado, apenas a Câmara, por seu presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), cumpre o papel de contrapeso a um presidente que pesa demais. Isso para não citar ataques aos órgãos que pensam, como universidades e institutos de pesquisa, enfraquecidos quando Judiciário e Legislativo não exercem plenamente seu papel constitucional.

O outro fator do fascismo é a invasão da vida privada. Uma das bases da democracia é o respeito às escolhas e modos de ser diferentes. Não se pode impor religião, opção filosófica, política, vocação, casamento a outrem. É o que Benjamin Constant chamou de “liberdade moderna”, numa conferência de 1819.

Aqui estaríamos mais protegidos do fascismo? O problema é que assistimos a uma forte pressão sobre a verdade, os fatos e as escolas. Quando pais de alunos não querem que seus filhos conheçam a cultura africana —da qual descende mais de metade da população brasileira—, ficamos perto do fascismo. Ou quando se corta o financiamento da pesquisa, em especial daquela que não agrada ao governo de plantão, seja na sociologia, seja na biologia.

O que nos protegerá do fascismo? Instituições são elemento positivo da democracia, mas não bastarão se não houver empenho forte dos cidadãos em defender não só suas vidas privadas como o caráter democrático dessas instituições. E a própria vida privada, que certamente não se curvará ao fascismo, traz um problema —que Constant apontava há 200 anos: o risco de nos fecharmos nela, nos desinteressando da política. É a nossa grande diferença dos gregos antigos, que podiam passar o dia debatendo a coisa pública.

Porque ninguém pense que, terceirizando a defesa da democracia para as instituições, se salva a democracia. Não há República que sobreviva se os cidadãos não tiverem, como dizia Montesquieu, virtude: no caso, a disposição de lutar pelo bem comum, contra um poder que se desmede.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O que os entrevistadores do Roda Viva mostraram desconhecer


Os entrevistadores do Roda Viva, ontem, mostraram desconhecer o que é:

1) Estado de Direito, que significa: direito a um julgamento justo, presunção de inocência, juiz imparcial, equidistante entre a acusação e a defesa, última palavra com a defesa, em suma: proteção contra o aparelho de Estado.

(Na hipótese mais generosa, eles defenderiam uma “moral” utilitarista, em que todos os meios são válidos para condenar um culpado. O problema é que, assim, não se prova culpa.)

2) Imprensa. Se no tópico acima defenderam os ilegalismos da LavaJato, no caso da imprensa negaram o direito - e o dever - de publicar o que é de forte interesse público. Pareciam nunca ter estudado os Pentagon Papers, não ter visto o filme The Post, não conhecer o que é grande jornalismo.

Substituíram esse conhecimento, mais que necessário, pela ideia de que ser jornalista é acuar o entrevistado. Se é bom cobrar deste último (o que normalmente não se faz por essas bandas), questionar é um meio, não um fim. 

(A entrevista de FHC à BBC, uns dez anos atrás, disponível online, é um exemplo de cobrança implacável, mas - como diria Kant - dentro dos limites da razão).

Reconheço que Felipe Recondo foi exceção, e que algumas perguntas de outrxs faziam sentido. Mas ver jornalistas tentando quebrar o sigilo da fonte e confundindo eventual crime do hacker com o dever jornalístico de informar deixa um gosto amargo quanto à profissão no Brasil.


terça-feira, 16 de julho de 2019

A Flip e o fascismo


Mediocridade procede ao desmonte de conquistas 
Renato Janine Ribeiro

Vários amigos, embora tenham horror ao atual governo, não se preocupam muito: pensam que em quatro anos as eleições o substituirão. Alguns acrescentam que o Brasil assim aprenderá melhor o valor da democracia.

De minha parte, entendo que eles subestimam a destruição do tecido social e político, a liquidação da vida inteligente e da vida mesma, que está sendo efetuada prioritariamente nas áreas da educação e do meio ambiente.

Debate-se muito o que é fascismo. Porém alguns pontos são fundamentais nesse regime, talvez o mais antidemocrático de todos, que não é apenas um exemplo de autoritarismo.

Primeiro, o fascismo conta com ativo apoio popular. Tivemos uma longa ditadura militar, mas com sustentação popular provavelmente minoritária e seguramente passiva. Mesmo no auge de sua popularidade —o período do “milagre”, somando general Médici, tortura e censura, tricampeonato de futebol e crescimento econômico— não houve movimentos paramilitares ou massas populares saindo às ruas para atacar fisicamente os adversários do regime.

Hoje, há.

Daí, segundo, a banalização da violência. Elas deixam de ser, na frase de Max Weber, monopólio do Estado, por meio da polícia e das Forças Armadas: os próprios cidadãos, desde que favoráveis ao governo, sentem-se autorizados a partir para a porrada.

O ataque à barca em que estava Glenn Greenwald em Paraty é exemplo vivo disso.

O que distingue o fascismo das outras formas de direita é ter uma militância radicalizada, ou seja, massas que banalizam o recurso à violência. O fascismo já estava no ar uns anos atrás quando um pai, andando abraçado com o filho adolescente, foi agredido na rua por canalhas que pensavam tratar-se de um casal homossexual.

Terceiro: essa violência é usada não só contra adversários do regime —a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil, hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância (“fritar hambúrguer” é um bom exemplo, até porque hambúrguer não se frita, se faz na chapa).

Quarto: o ódio a tudo o que seja inteligência, ciência, cultura, arte. Em suma, o ódio à criação. Não é fortuito que Hitler, que quis ser pintor, tivesse um gosto estético tosco, e que o nazismo perseguisse, como “degenerada”, a melhor arte da época. É verdade que os semifascistas Ezra Pound e Céline brilham no firmamento da cultura do século 20 —mas são agulha no palheiro.

Antonio Candido uma vez escreveu um manifesto dos docentes da USP criticando a “mediocridade irrequieta” que comandava a universidade. Um colega discordou: a mediocridade nunca é irrequieta! Mas Candido tinha razão. A mediocridade procede hoje, sem pudor, ao desmonte de nossas conquistas não só políticas e sociais, mas culturais e ambientais.

A irracionalidade vai a ponto de algumas dezenas de paratienses tentarem sabotar a Flip, que dá projeção e dinheiro para a cidade. Essa é uma metáfora de um país que namora o suicídio.

Salvemos a vida, salvemos a vida inteligente! Construamos alternativas e alianças para enfrentar essas ameaças. Não temos tempo de sobra.

terça-feira, 11 de junho de 2019

A brilhante estratégia de Glenn Greenwald


Renato Janine Ribeiro

Brilhante, a estratégia de Glenn Greenwald:

1. Assumiu o protagonismo do jogo. Seus alvos estão fazendo exatamente o que ele quis ou previu. Ele controla o tabuleiro. Pela primeira vez desde 2015, a extrema-direita perdeu a iniciativa.

2. Os procuradores e Moro responderam a ele justamente o que ele queria: confirmaram a autenticidade das fitas. Foram debater a forma, não o conteúdo. Assim disseram: você, Glenn, diz a verdade.

3. Ele previu até o argumento que iam usar: a defesa da lei e da privacidade. E respondeu a isso domingo, antes mesmo da reação do grupo: vocês não fizeram isso com Dilma? Que moral têm? Assim, tirou deles o argumento moral, que era o principal da Lava Jato e que esta conduziu para a ideia de que os fins justificam os meios.

4. Enquadrou a mídia pátria. A imprensa internacional caiu matando. A Folha de hoje tem um relato bom das reações no estrangeiro. E os jornais de fora que li chamam todos nosso governo de exceção de “extrema-direita”. Nenhum usa o eufemismo “direita” (direita é Merkel, cara-pálida!) ou “liberal” (liberal é o Economist, stupid!). Vai ser difícil passar pano por muito tempo.

5. Ao dizer que não divulgaria as intimidades dos membros do grupo , mostrou-se superior a eles (que publicaram conversas privadas de dona Mariza - sem falar na subtração do iPad do pequeno, hoje falecido, Artur) - e deve ter causado medo de que divulgue. Acuou-os.

6. Finalmente, anunciou que soltará mais dados a conta-gotas. Tornou-se senhor do tempo ou, se quiserem, é quem decide quais serão as próximas etapas, o desdobramento do assunto (até porque ninguém sabe o que ele sabe).

domingo, 2 de junho de 2019

Se o STF não defender a Constituição, para que ele serve?


Renato Janine Ribeiro

Por volta de 2006, fui convidado a falar na AGU. No fim da palestra me apresentaram o ministro Toffoli. Faziam um trabalho bom de inclusão de crianças em condições difíceis. Mesmo assim, estranhei um video de uma ação deles em cooperação com alguém em Cubatão (SP), que incluía a formação de adolescentes uniformizados marchando em pelotões. Não achei educativo.

Foi a única vez que o vi.

Mas me surpreende que neste momento, em que sai uma norma inconstitucional do governo por dia (praticamente), o presidente do STF esteja fazendo pacto com o presidente em vez de defender a Constituição.

Hoje, o deboche de um sucessor meu, falando em tom de piada do Museu Nacional, patrimônio destruído pelas chamas. (Nem interessa se ele tem razão. A Leilane Neubarth, sem coragem de dar nome aos boys, o desmentiu na GNews mais tarde. Contou que o corte de 12 milhões, atribuído pelo ministro à bancada do Rio, foi determinado por Paulo Guedes).

Ou a proibição de protestos por parte de professores, alunos e funcionários.
Ou a proibição de universidades federais terem seus sites.

E Toffoli, não diz nada? Apenas adia o julgamento do processo sobre homofobia, que já tem votos suficientes para proclamar a criminalização desse preconceito desprezível?

Se nesta hora difícil o STF não defender a Constituição, para que ele serve?