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quinta-feira, 29 de abril de 2021

O Brasil é presidido por um sujeito acusado de crimes que vão de peculato, terrorismo, genocídio, assassinatos, fraude eleitoral e associação com milicianos

Crise? Vocês não viram nada ainda

Brasil afunda sem futuro à vista

Ricardo Melo


Vamos às premissas.

O Brasil é presidido por um sujeito transtornado, acusado, ele e sua famiglia, de crimes que vão de peculato, terrorismo, genocídio, assassinatos, fraude eleitoral eletrônica e associação com milicianos, entre tantos outros.

O Congresso é um lupanar político à cata de verbas para manter currais. Pouco se importa com a destruição acelerada do país. Seus integrantes disputam o dinheiro do povo como urubus farejam o cheio de cadáveres.

O Judiciário funciona como biruta de aeroporto. Decide de acordo para onde sopra o vento. Acerta de vez em quando, erra na maioria das vezes. Vossas Excelências estão mais preocupadas em salvar suas próprias biografias embora seja um pouco tarde.

Vamos aos resultados.

O Brasil mantém-se como um dos top five das mortes e contaminados pela Covid-19. Não há política de saúde nem saúde na política. 400 mil mortes, fora os óbitos habituais. Ministros de alto coturno tomam vacina escondidos para não melindrar o chefe que até hoje considera tudo como uma “gripezinha”.

A economia está nas mãos de um especulador barato (ou caro...). Os indicadores, quando lidos de forma isenta, exibem uma derrocada generalizada, mas Paulo Guedes enxerga o pôr do sol onde o mundo e os brasileiros veem o Brasil dissolvido nas trevas.

Nem Guedes acredita no que ele fala, vamos combinar. Tanto que já trocou, e vem trocando, sua “equipe” de auxiliares. Não é bobo. Prepara o desembarque para manter seu patrimônio individual.

A miséria se espalha. A quantidade de pobres e famintos se multiplica no país. Quem consegue sair às ruas vê isso a céu aberto. O novo auxílio emergencial é uma piada.

Não satisfeito em desprezar a pandemia e ignorar a doença, o capitão terrorista resolveu quebrar o termômetro. Cancelou o censo. É como subir num avião sem plano de voo nem destino.

Vamos ao futuro.

Criaram a CPI da Covid. Mais um balcão de negociatas. A única coisa certa é que o capitão ficará ainda mais acuado. Nem tem para onde fugir, exceto usar o dinheiro público para salvar o seu pescoço e da famiglia.

O povo, ora o povo.

Crise? Preparem-se.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Órfão de Trump, Bolsonaro sobe na prancha e tem os dias contados


Que país aguenta até 2022 com mais de 3.000 mortes causadas pela Covid-19 por dia?

Houve muita gente que apostou em Jair Bolsonaro como vacina contra os avanços sociais das gestões do PT. O dinheiro gordo; tucanos arrepiados; a escumalha parlamentar de sempre e a chusma de fanáticos que existe em qualquer país.

Essa mescla de interesses tinha por trás o apoio do grande capital financeiro, o americano principalmente. Bolsonaro foi eleito com base numa fraude digital gigantesca, arquitetada por gente como Steve Bannon, o Olavo de Carvalho de Donald Trump. Impediram Lula de concorrer às eleições com a ajuda do serviçal Sergio Moro.

Dispensável recordar as evidências de que a Lava Jato ignorou todas os protocolos de um processo legítimo e agiu como comparsa do Departamento do Estado americano para transformar Lula em inimigo público número um.

O “serviço” foi feito. Mal feito, porém.

Bolsonaro começou a cair de fato quando Donald Trump foi expelido da Presidência americana. O capitão expulso do Exército como terrorista e considerado “mau militar” por gente até como o ditador Ernesto Geisel ficou pendurado na brocha.

De lá pra cá, uma derrota atrás da outra. Os processos que mostram a roubalheira orquestrada por ele, Jair, e sua família ao longo da carreira de 30 anos como parlamentar são claros como a luz do sol. A desmoralização do Brasil no cenário internacional em todos os sentidos fala por si só.

Bolsonaro é medíocre. Pior: se orgulha disso, como seu ex-chanceler que festejava a condição de pária internacional. Identifica isso como “voz do povo”. Trata o Exército como “meu exército”, o que envergonha até o recruta recém-alistado. É imprestável. Serviu durante algum tempo, enquanto Trump esteve no poder, como aqueles pinchers que celebridades duvidosas seguram no colo em fotos de revistas.

Mas o fogo da batata começou a assar mais alto. A história tem suas leis e os cozinheiros fazem diferença. A turma que comandou o golpe contra uma presidenta legitimamente eleita está hoje contra a parede. O manifesto recém-publicado pedindo mudanças, assinado por banqueiros, empresários, economistas, é de uma hipocrisia exemplar.

Querem que Bolsonaro deixe de ser Bolsonaro. Durante 30 anos ele sempre disse o que defendia. Está pondo mãos à obra: “Vim para destruir, não para construir”. A parte dele ele está cumprindo...

O desgoverno chegou ao ponto de a grande mídia transformar as Forças Armadas em avalistas da democracia! Leiam a Constituição, por favor, cujos defeitos aparecem a céu aberto. O presidente da República é o comandante em chefe desta turma. Ao endossarem Bolsonaro nas eleições, o capital especulativo, o Judiciário subserviente, o Parlamento obediente e a grande mídia legitimaram o que vinha pela frente.

Se o país chegar ao ponto de aceitar que a democracia depende das Forças Armadas, pouco pode ser feito. Os militares estão infiltrados em todos os escalões. Militares de segunda categoria, da linha “uns mandam, outros obedecem”. O povo, ora o povo.

As Forças Armadas, que têm as armas na mão, “obedecem aos que mandam”. Analogias sempre são complicadas quando se comparam momentos diferentes. Em 1964, João Goulart, presidente, era o “comandante em chefe” da turma verde oliva. Mesmo assim foi deposto pelos golpistas através de Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara. Mazzilli foi chamado de “canalha” pelo então parlamentar Tancredo Neves quando destituiu um presidente eleito que estava em território brasileiro e jamais atentou contra a Constituição em vigor.

Muito cuidado nessa hora.

Transformar as FFAA em fiadoras da democracia é apertar a corda em torno do pescoço. Ou a sociedade civil verdadeira começa a se mexer a favor da liberdade, da diversidade, da defesa da vida, da luta contra a pandemia, do combate ao autoritarismo e ao arbítrio; ou então os dias serão piores do que já estão.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

O 1% que nem está aí para pandemias


É revoltante ver 'formadores de opinião' posando em ilhas paradisíacas, hotéis de luxo, fazendas aconchegantes, 'a salvo do vírus' 
Preso em um confinamento compulsório, tenho sido quase que obrigado a viajar diariamente pelas internets da vida.

Isto tem me ajudado a compreender por que milhares de seres humanos têm sido sacrificados sem dó nem piedade.

Cálculos de autoridades americanas e internacionais relativamente sérias estimam em milhares as vidas que poderiam ter sido poupadas caso medidas de prevenção estivessem sido adotadas.

Aqui no Brasil, a mesma coisa –ou pior.

O negacionismo transformado em política pública pelo governo Bolsonaro enterrou milhares de brasileiros que não precisavam morrer de forma precoce.

Além dos escândalos de cloroquina, declarações e aparições genocidas, o capitão expulso do Exército deixou apodrecer milhares de testes que poderiam evitar a agonia de tantos outros.

Mas não quero me ater a isso.

Para mim, quase tão revoltante quanto isto é ver "formadores de opinião" posando em ilhas paradisíacas, hotéis de luxo, fazendas aconchegantes.

Geralmente é gente de dinheiro farto conquistado à custa de fãs capturados com a ajuda de mídia e TVs (e sabe-se lá de mais o quê), truques em rede sociais e relacionamentos selecionados.

As descrições são assustadoras. Um passeio pelos instagrams da vida nos brinda com coisas como: "A salvo do vírus"; "aqui estou fora de perigo"; "obrigado pelo carinho"; "vamos sair desta".

Cínicos. Fingem não saber que enriqueceram à custa daqueles que são obrigados a viver em cômodos lotados e a morrer dentro de casa por falta de leitos.

Eu me pergunto: quanto tais milionários doaram do dinheiro que ganham do povo para amenizar a pandemia de suas "galinhas de ovos de ouro"?

Lemann, o brasileiro rico que mora na Suíça (!), chegou a dizer que as crises criam oportunidades. Portanto, dá-lhes pandemia. Justiça seja feita, ele doou algum para fornecer álcool gel. Menos mal.

O mais patético, porém, são os "artistas", "celebrities" e "influencers" exibindo-se em mansões de luxo, piscinas, resorts e refúgios onde ficar a salvo. Cercados de funcionárias e funcionários que arriscam a própria vida.

Pergunto: com quantos centavos esta gente contribuiu para ajudar o povo de Manaus, por exemplo, a não morrer de falta de ar? Por que não declaram o que fazem para ajudar a combater a pandemia que assola o Brasil e não apenas a eles mesmos?

Apenas uma diária de um hotel chique onde eles se resfestelam teria salvo dezenas de pessoas. E não faria nenhuma falta a eles.

Não, não tenho nenhum preconceito contra quem ganha dinheiro com seu próprio trabalho. Não sou a favor da socialização da miséria, mas sim da distribuição mais justa da renda.

Tampouco deixo de admitir que o principal responsável pela tragédia que vive o Brasil chama-se Jair Bolsonaro.

Mas um pouco de decoro pega bem.

Há algum tempo isso se chamava sociedade civil.

Hoje chama-se de cumplicidade. Numa ilha, mansão ou boa piscina de dezenas de mil dólares diários.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A boiada contra os humanos


Episódios de ataques de ódio, feminicídios, assassinatos de vulneráveis se acumulam pelo país

Jornalista e apresentador do programa ‘Contraponto’ na rádio Trianon de São Paulo (AM 740), foi presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação)

Está em curso uma ofensiva criminosa contra os direitos humanos no Brasil.

A ministra Damares Alves, seguindo os ensinamentos de seu companheiro Ricardo Salles, da metade do ambiente, resolveu passar a boiada enquanto a pandemia concentra as atenções de uma população simplesmente aterrorizada com o desgoverno que controla o país.

Damares é conhecida de todas e todos. Além de falsificar o currículo e invocar diplomas que ela nunca teve, é aquela que viu santidades numa goiabeira. Nada mais seria preciso para desqualificá-la.

Mas não. Ela continua firme e forte como ministra da destruição dos humanos.

Agora ela quer mudar a “política de direitos humanos”. Edita decretos, age na surdina e vai rasgando o pouco que foi feito nessa área nos últimos anos.

Um exemplo: entre outros tantos, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos indeferiu o pedido de anistia formulado por Markus Sokol. Ele é membro da Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores.

O processo foi aprovado há quase quatro anos em uma audiência no Salão Negro do Ministério da Justiça. Direito a parcela única como reparação pela Lei de Anistia. Quem abriu a sessão foi o então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Feredal).

Ninguém precisa concordar com as opiniões de Sokol, um militante pela democracia desde a adolescência. Foi preso, torturado e mesmo assim até hoje continua lutando pelas suas convicções.

Merece reparações pelas atrocidades cometidas contra ele. Ou apenas o general Eduardo Villas Bôas merece ser tratado como humano apesar de ter ameaçado um golpe se o STF não obedecesse a suas orientações?

A situação é mais grave do que se pensa. Pela via de decretos, Jair Bolsonaro vai armando suas milícias, liberando a venda e posse de armas a torto e a direita. Sua bandeira é a dos “confederados” que tentaram invadir o Capitólio a mando do “Deus Trump”.

Erra quem imagina que tudo se esgota em canetadas para satisfazer fanáticos em redes sociais. Os episódios de ataques de ódio, feminicídios, assassinatos de vulneráveis se acumulam pelo país.

O “guarda da esquina” sente-se empoderado para fazer a lei pelas próprias mãos.

Vimos em São Paulo, há pouco tempo, um acontecimento tenebroso. A administração municipal resolveu plantar pedras debaixo de viadutos para impedir que se transformassem em dormitórios de sem-teto.

O padre Júlio Lancelloti escancarou o escândalo país afora. Solitariamente, apareceu em fotos mostrando o descalabro.

A prefeitura de Bruno Covas (PSDB) assoviou e fingiu que não tinha nada a ver com isso. Estamos combinados, então: qualquer um pode fazer o que quiser nas ruas da cidade com um crachá. Ou mesmo sem.

A pandemia, claro, é a preocupação de todo o povo —menos dos assaltantes do poder ora no Planalto. Mas a “fórmula Salles” vai se impondo nos bastidores, nos decretos, na escuridão das negociatas.

A prosseguir a apatia da sociedade que se pretende esclarecida, quando a luz se acender de novo o que se vai ver não será bom.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Brasil está desgovernado, no regime do salve-se quem puder

Ricardo Melo

Parece que ninguém está vendo o que ocorre no país. Manaus é o Brasil amanhã

Vamos falar sério. O Brasil está desgovernado. Estamos no regime do salve-se quem puder.

O Helinho (assim eu o chamava quando começou a trabalhar na Folha, com cachimbo e caneta tinteiro, que eu adoro) às vezes transita pelo ambiente nefelibata em suas colunas. Escreveu um artigo que hoje lhe vale um processo. Usou um raciocínio consenquencialista para dizer que Bolsonaro seria mais útil morto do que vivo.

Fazendo as contas, ele tem razão. Bolsonaro vivo custa mais de mil mortes diárias ao país. Hélio, porém, tem uma frieza "filosófica" que eu não tenho. Mas os números lhe dão razão. Esse processo contra ele não passa de bazófia.

Impeachment? Bolsonaro nem deveria ter sido eleito. Ele fraudou as eleições. Patrícia Campos Mello que o diga. Mas hoje vemos supostos luminares dizerem que não há condições políticas, que a popularidade deste capitão terrorista ainda é alta.

Política não se faz com o fígado como dizem os "especialistas" de plantão a serviço de qualquer governo. Estão espalhados pela mídia como praga. Mas também não se faz com neurônios alimentados por trapaças e verbas escandalosas para afagar acólitos.

A confiar nas "pesquisas", Bolsonaro tem cerca de 30% de aprovação. Suponha-se que os dados estejam corretos. Aí temos o seguinte: 2/3 do Brasil estão sendo governados por alguém que nem de longe representa a maioria. Precisa desenhar?

Bolsonaro é um bandido. Sim, um bandido. As fotos e os discursos não deixam dúvidas. Criou-se a si mesmo e sua família na mesma forma. Uma quadrilha que sobrevive à custa de chicanas judiciais. Para alimentá-las, o pretenso presidente parte para xingamentos a esmo. "Ah, ele fala a linguagem do povo". De que povo esta gente fala? Certamente não é o povo brasileiro. Mas sim o dos porões dos piores momentos que este país já viveu. Ou do pessoal que andou invadindo o Capitólio em Washington.

Nesta segunda-feira (1º) vai ocorrer o cerimonial de eleições para as duas Casas do Congresso. Todos sabem que isso se decide no dinheiro raso. Todos? Nem todos. Não há oposição de fato. O PT, maior bancada do Congresso, parece ter decidido se afundar na lama definitivamente. Uma decepção para quem procura uma saída para estes tempos tenebrosos. Seu apoio a Baleia Rossi etc. é um atestado de óbito autoassinado do partido.

Parece que ninguém está vendo o que ocorre no país. Manaus é o Brasil amanhã. O ministro da Saúde, "especialista em logística", não seria contratado como trainee de contabilidade em nenhuma empresa de garagem. É um paspalho que se orgulha de ser paspalho.

Os donos do dinheiro aos poucos parecem perceber isso. Ainda não o suficiente para mandar Bolsonaro para a lata do lixo de onde ele nunca deveria ter saído.

Mas o principal não é isso. O Brasil só vai mudar de fato quando as forças democráticas verdadeiras se movimentarem. Enquanto isto não acontecer, o destino é o desespero. Com sabor de leite Moça.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Pede para sair, Bolsonaro


Ricardo Melo

Presidente, ele mesmo, confessa que não pode fazer nada

“O Brasil está quebrado e eu não consigo fazer nada.” Se a frase viesse de um pedestre, um cidadão qualquer, um brasileiro casual, já seria dramática. Mas quando ela sai da boca de um presidente da República mostra a que estado chegamos.

Bolsonaro é daqueles acidentes que dificilmente algum historiador poderia prever mesmo em seus momentos mais alucinados. Em torno dele, vicejam teorias de todo tipo. “Desencanto com a política”, “fracasso da esquerda”, “insegurança pública” e por aí vai. Não faltarão outras. A grande mídia precisa de assunto e páginas de jornais não podem sair em branco.

Eu sou adepto da teoria de que a existência determina o ser. Mas o ser interfere na existência. Pensamento fora de moda, eu sei. Mas que se confirma a cada momento da história. Sem Hitler, certamente a Alemanha humilhada em Versailles após a Primeira Guerra teria um destino diferente. Sei lá qual.

O Brasil está diante de um dilema parecido no que se refere aos indivíduos, não à situação, totalmente distinta no tempo, espaço e momento histórico. Nem Bolsonaro é Hitler, nem a situação política se compara. Não vivemos o fascismo, talvez um neofascismo.

A semelhança, mesmo distante, é que os dois foram “eleitos” —embora Bolsonaro tenha tomado o Planalto de assalto com base numa fraude monumental alimentada pelas tais redes sociais. Outro paralelo: ambos foram a tábua de salvação do grande capital ameaçado pela ira popular traída pelos que se diziam seus representantes.

Existem no Congresso cerca de 60 pedidos de impeachments contra Bolsonaro. Seus crimes de responsabilidade crescem a cada dia. Desfila sem máscara, faz troça das vacinas, incentiva aglomerações.

Usa o aparelho de Estado para defender sua família da cadeia, destino certo caso por aqui as “instituições’’ funcionassem de verdade. Em que lugar do mundo democrático um juiz de primeira instância ousa dar uma banana para uma determinação do STF sobre a entrega de arquivos sobre o processo de Lula?

Ninguém com algum poder de mando neste país move uma palha para acabar com isso. Participam, como cúmplices, do assassinato de quase 200 mil inocentes —na verdade, muito mais a se considerar as subnotificações.

Bolsonaro, ele mesmo, confessa que não pode fazer nada. Puxou o carro. Então que se ponha em seu lugar alguém que possa fazer alguma coisa. Alô, Congresso, Judiciário, OAB, “oposição”, grande mídia, movimentos populares.

O que não se pode admitir é que o Brasil inteiro assista ao seu próprio abate.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Sob domínio dos genocidas


Brasileiros poderiam escapar da morte caso houvesse a testagem em massa

Jornalista e apresentador do programa ‘Contraponto’ na rádio Trianon de São Paulo (AM 740), foi presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação)

Não chega a ser novidade que o Brasil está à deriva nas mãos de uma casta genocida. Mesmo os setores mais conservadores e covardes já perceberam que deram vida a um monstro, Jair Bolsonaro, em troca da salvação de lucros gordos. Agora não sabem o que fazer com o extermínio sem anestesia. Não pega bem nos ambientes aristocráticos.

Vivemos uma pandemia. Dez entre dez cientistas com mais de um neurônio funcionando sabem que a testagem da população é peça-chave para controlar e dimensionar a doença. O que vemos no Brasil? Kits de testes apodrecendo em armazéns. Cadê os milhões de testes prometidos pelo bufão Paulo Guedes meses atrás?

Basta? Bastaria não fosse o Brasil presidido pelo homicida Jair Bolsonaro e sua corja. Notícias se multiplicam dando conta de pacientes mortos em casa ou em filas à espera de leitos que não existem. Brasileiros que poderiam escapar da morte precoce caso tivessem à disposição uma testagem em massa.

Engana-se, porém, quem acha que isso afeta apenas os mais humildes —sem dúvida, as maiores vítimas desta desgraça. A máfia de laboratórios e “hospitais de ponta” mostra o quão “democrática” é a pandemia.

Tomo a liberdade de expor um caso particular. Soube que estive em contato com alguém que testou positivo para a Covid-19. Por precaução e respeito diante dos que convivem comigo em padarias, bares, farmácias e bancas de jornais, resolvi fazer o teste. Sem plano de saúde, juntei uns trocados para agendar o exame. Laboratório Delboni Auriemo: marcou data, horário e preço: R$ 340! Apareceu? Adivinhe a resposta. Laboratório Fleury: data só no final do mês. Lavoisier: ah, só dá para marcar em outro lugar.

Sou usuário do SUS há algum tempo. Nunca fui tão bem tratado quando precisei, apesar das condições ordinárias a que são submetidos os funcionários do sistema. Só não recorri ao SUS desta vez para não correr o risco de infectar esses heróis que vêm salvando milhares de pessoas.

A opinião pública brasileira, o Congresso, o STF e a grande imprensa envergonham o país. Jair Bolsonaro não é caso de impeachment, apenas. É caso de incapacidade para o cargo, qualquer cargo —a não ser o de planejar explosão de quartéis e adutoras. Um caso patológico. É um criminoso confesso ao condenar vacinas, máscaras, isolamento e promover aglomerações suicidas e homicidas sob os olhares complacentes de “governadores” e da mídia timorata.

Pobre Brasil.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Um vagabundo no Planalto

Brasil está às vésperas de uma explosão social
Ricardo Melo

Não, não se assustem. Não estou cavando processos, nem desafiando decoros, liturgias ou normas legais. Tampouco comprometendo esta Folha. Apenas reproduzo no título palavras literais do então líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir.

Antes, as conversas divulgadas pelo site The Intercept mostraram um ambiente pior do que muitos imaginavam. Escolha o crime: promiscuidade judicial, um magistrado indigno desse nome, articulações com potências estrangeiras, delações selecionadas a dedo, atos de troça e desumanidade diante de tragédias de indiciados, manipulação de “provas”, desrespeito ao que deveria ser um Supremo Tribunal Federal, monetização de informações sob segredo judicial, procuradores que só encontram o que querem achar (desde que valham “400 k”). 

Tudo invocado em nome do “combate à corrupção”. Deixo as risadas ao sabor dos leitores.

Mesmo jornalistas iniciantes são capazes de identificar o jogo jogado desde a Lava Jato. Assim como os motivos. Governos de alguma preocupação social ameaçaram séculos de hegemonia do 1% mais ricos.

Ameaçar nem seria bem o termo. Arranhar soa mais adequado. Acusar os governos Lula e Dilma de “vermelhos”, “socialistas” e “bolivarianos” serviram de hipérboles típicas dos arautos de um sistema em que liberdade, fraternidade e igualdade são anátemas a riscar dos dicionários. Pergunte aos banqueiros, senhores da mídia, colunistas de aluguel e capitalistas internacionais apavorados com a nova crise mundial que se avizinha.

Jair Bolsonaro, o “vagabundo” aplaudido por exploradores de lenocínio como Oscar Maroni, empresários que devem os tubos à Receita, milicianos armados, tubarões de mídia beneficiários de concessões públicas —Bolsonaro foi o que restou a uma elite apodrecida após a perseguição a Lula e o impeachment industriado de uma presidenta. Dilma pode ser criticada por muita coisa, inclusive por um governo pífio e desorientado no segundo mandato —menos de ter avançado sobre um único centavo do povo trabalhador.

No lugar dela, assistimos agora a um governo carcomido por roubalheiras, laranjais, amigos de um capitão medíocre e obscurantista, chefe de uma família decomposta —todos orientados por um astrólogo caçador de ursos e saudoso da ditadura.

Impressiona que ditos intelectuais e “oposicionistas” refrigerados a ar condicionado reajam a tudo com entrevistas emasculadas. 

Limitem-se a considerar “polêmicas” declarações sobre torturas, massacre de presos e extermínio de crianças e pobres indefesos. Conformem-se (ou até festejem) ao ver um “vagabundo” sentado no Planalto.

Observem sem maiores dramas um réu confesso como Sergio Moro pontificar sobre “porretes e cenouras” depois de abusar da delinquência ao grampear ilegalmente uma presidenta e um ex-presidente da República.

Mas isso também tem sua explicação. Por trás do histrionismo dos “quebra-queixos” temperados por baixo calão, parcos direitos sociais vêm sendo exterminados na surdina de acordos espúrios do velho Congresso de sempre. 

Como bem disse o presidente do maior banco privado do Brasil, deixa o cara falar. Importantes são as contrarreformas destinadas a retroagir o país ao estágio pré-colonial. Uma nação de boias-frias que trabalham por um prato de comida para não desmaiar ou enfartar no meio da rua; sobreviver com migalhas recolhidas em latas de lixo. 

Esse é o ponto. Forma e conteúdo não se separam. O Brasil está às vésperas de uma explosão social. Quando? Não há mal que sempre dure. Mas está demorando demais.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O pavio



Bolsonada é o pavio da explosão social



Ricardo Melo

É no mínimo perigoso subestimar a crise institucional aberta com as ações ditatoriais do Supremo Tribunal Federal. A sensação generalizada é a de que o Brasil não tem governo digno desse nome. 

A famiglia Bolsonada já provou, em atos e fatos, não ter condições de gerir uma quitanda, quanto mais uma das maiores economias do mundo. É uma sucessão de ordens e desordens.

Aumenta o diesel, abaixa o diesel, sobe de novo. Gasolina agora tem que ser comprada em doses, não em litros, tal o preço do combustível. A política externa é um roteiro de trevas vexatório sob o comando de um desmiolado. Nem fósseis ou garçons de restaurantes de Nova York querem em suas cercanias gente como Bolsonada, um homofóbico, racista, apologista de torturas, eliminação de pobres, complacente até com o holocausto. Se decidir ir aos EUA para receber afagos de lobbystas, é bom que leve sua marmita de pão com leite moça sob o risco de passar fome.

O estratégico ministério da Educação virou palco de rinha de galos. Chegou-se ao ponto de nomear um delegado de trânsito para cuidar do ENEM. O meio ambiente está entregue a um espertalhão acusado de falsificar mapas para favorecer achacadores. A política indígena visa exterminar povos e territórios em favor do capital abutre. O ministro do Turismo é um laranjal ambulante.

No Congresso, uma derrota atrás da outra. A bancada de extrema-direita do PSL, partido de Bolsonada, funciona como uma torre de Babel. A tal reforma da previdência afunda a olhos vistos. O “posto Ipiranga”, tchutchuca Paulo Guedes, colhe sucessivas derrotas. Virou um bobo da corte, embora não se importe muito com isso. Está com o cofre particular empanturrado graças a negociatas com fundos de pensão e outras tramoias.

Aí voltamos à área institucional. Sérgio Criminoso Moro baixou decreto para blindar a esplanada dos ministérios de protestos populares. O ex-juizeco nada fala de importante sobre os 20 mortos em prédios de celofane construídos por milicianos idolatrados pela famigilia Bolsonada ou o fuzilamento covarde de uma família com 80 tiros. Moro prefere brigar com a língua portuguesa em entrevistas tão patéticas quanto inúteis a investigar a fundo Fabrício Queiroz, braço direito da famiglia Bolsonada. Aliás, por onde ele anda?

Simultaneamente, assiste-se à reação ditatorial do Supremo diante de reportagens até inocentes envolvendo o nome do presidente do STF José Toffoli. Auto investidos no papel de delegados, promotores e julgadores, a dupla Toffoli/Moraes decidiu que o supreminho não pode ser criticado. Nem a inquisição reuniu tantos poderes.


Na origem do caos institucional está o golpe de 2016, quando uma quartelada midiática-executiva-militar-judiciária, financiada pelo grande capital, derrubou uma presidente legitimamente eleita e jogou a Constituição no lixo como um jornal do dia anterior. Na sequência, encarceraram o maior líder da história popular brasileira com base num processo reprovado mundialmente. O ovo desta serpente produziu Bolsonada.

Há mais, porém. O ministério público brasileiro está dominado em sua maioria por uma casta de coxinhas ineptos que “se acham”. Indigentes intelectuais. Pense bem: em que país civilizado gente como Dalanhol poderia ter algum protagonismo? Como um power point como aquele transmitido ao vivo em rede nacional poderia ser levado a sério?

Hoje vemos coisas ainda mais escandalosas. Toffoli, encharcado de brilhantina, nega ter havido ditadura militar e posa como devoto de igrejas evangélicas num país laico, como se estivesse diante de jesus pendurado num pé de goiaba citado por aquela ministra.

Pior: a reação a supostas fake news de meia dúzia de extremistas inexpressivos detona uma operação de guerra do STF. Pergunta: e a máquina de mentiras, comprovada em documentos nas reportagens irrefutáveis da jornalista Patrícia Campos Mello, esquema que caluniou Lula, Haddad e ajudou a eleger Bolsonada de modo fraudulento? Cadê o processo? Que medidas foram tomadas? Madame Raquel Dodge com a palavra. Mas só se ouve o silêncio neste caso.

O supreminho virou motivo de chacota. Com escassas exceções, é um clube de amigos interessado em defender a si próprio e seus privilégios, não a Constituição, o direito básico e interesses do povo brasileiro. Em vez de zelar pela liberdade de manifestação e expressão, dedica-se agora à censura e à atividade policial. Ninguém de bom senso e de convicções democráticas quer fechar o tribunal –tirando um rebotalho de aloprados--, mas sim restaurar pelas vias legais seu papel de Supremo com S maiúsculo, capaz de honrar a memória de personalidade como Evandro Lins e Silva, Paulo Brossard e tantos outros.

O objetivo maior dos poderosos de plantão é conhecido de todos: manter Lula na cadeia para impedir que a ira popular tenha um ponto de referência para lutar contra o desmonte do Brasil como país soberano. Não fosse assim, por que o engomado Toffoli, tão irritado e veloz contra uma citação verdadeira num processo, ressuscitou a censura e adiou para nunca o julgamento sobre prisões ilegais em segunda instância? Desde 2016, vale tudo para desviar a pauta do assunto que interessa.

O futuro é incerto. A verdade é que o Brasil está à deriva, sangrando com 40 milhões de desempregados de fato, milhões de famílias relançadas à miséria, economia no chão sem horizonte de melhora e sob o comando subserviente do imperialismo americano em crise. Uma explosão social é questão de tempo. Podem assinar embaixo e me cobrar depois.


Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)