sábado, 26 de dezembro de 2020

Nazismo de afeto


Que vergonha, excelências!


Cristina Serra

Ainda nem temos vacinas aprovadas e liberadas, e STF e STJ já estavam prontos para furar a fila da imunização

No Brasil, existem cidadãos comuns, como você, leitor, e eu. E existem castas, como o Judiciário, sustentadas com o dinheiro dos nossos impostos e adubadas com privilégios e mordomias que ofendem o simples bom senso. Ainda nem temos vacinas aprovadas e liberadas e suas excelências do STF e do STJ já estavam prontas para furar a fila da imunização. As duas mais altas cortes enviaram os pedidos à Fundação Oswaldo Cruz, que os rechaçou.

Num momento de emergência sanitária e com autoridades incompetentes no comando da saúde dos brasileiros, as maiores instâncias do Judiciário deveriam ser as primeiras a dar o bom exemplo e aguardar sua vez na escala de prioridades, a ser definida de acordo com critérios científicos e levando-se em conta a vulnerabilidade de grupos mais expostos ao vírus. Mas as cúpulas do Judiciário preferiram se orientar pelo adágio mesquinho: farinha pouca, meu pirão primeiro. O que me lembra também o salve-se quem puder da primeira classe no convés do Titanic.

O STF pediu uma reserva de 7.000 doses para ministros e servidores do tribunal e do Conselho Nacional de Justiça. O STJ disse que enviou um “protocolo comercial”, que se refere à “intenção de compra” das doses para imunizar magistrados, servidores e seus dependentes. Sim, você leu direito. O STJ alegou que pretendia comprar as vacinas que, até onde se sabe, serão distribuídas gratuitamente pelo Plano Nacional de Imunização (vai saber quando). Seria um auxílio-vacina?

Não fosse a revelação pela imprensa e a negativa contundente da Fiocruz, talvez outras categorias já estivessem a reivindicar tratamento “isonômico”. A mentalidade da aristocracia do setor público brasileiro opera uma rota de colisão com qualquer projeto de sociedade menos desigual e mais justa. Regalias de toda sorte para uma elite “diferenciada” transformam em uma quimera o ideal de cidadania já alcançado por outros países. Data vênia, excelências, que vergonha!

O irrealismo trágico de Donald Trump


A cada dia, Trump se afasta mais da realidade e da decência. As próximas semanas, até 20 de janeiro, serão muito perigosas.

José Eduardo Agualusa

Quando dois universos paralelos colidem, o desastre é inevitável. O melhor exemplo de um desastre assim chama-se Donald Trump.

A saída passaria por isolar o epicentro da colisão, no caso esse espantoso alienígena cor-de-laranja. Não sendo possível remetê-lo de volta ao bizarro universo de onde escapou, um mundo semelhante ao nosso, mas no qual os valores estão invertidos — a verdade é a mentira, o bem é o mal, o feio é o belo, etc. —, seria desejável mantê-lo totalmente isolado e incomunicável. Eventualmente, enviando-o para a lua, ou para uma estação orbital sem qualquer comunicação com a Terra.

Caso contrário, existe um risco severo de contaminação. O alienígena acabará corrompendo e distorcendo o nosso próprio universo. É, aliás, o que está acontecendo. A reunião do passado dia 18, no Salão Oval da Casa Branca, juntando figuras como Sidney Katherine Powell, o general reformado Michael Flynn (condenado por ligações ao regime russo e depois perdoado por Trump) e Rudolph Giuliani (ao telefone), deverá dar origem a muitos filmes de ficção política nos quais os nossos netos se recusarão a acreditar. No momento mais dramático do encontro, Flynn, com o apoio de Powell, terá defendido pura e simplesmente um golpe de Estado. Outros conselheiros, ainda não contaminados pela irrealidade trumpeana, reagiram aos gritos. Antes ou depois disso (já me perdi), Trump divulgou um apelo a uma manifestação “selvagem”, agendada para o próximo dia seis de janeiro.

Conseguirá a nossa realidade resistir ao brutal assalto da irrealidade trumpeana? Não tenho a certeza. É certo que alguns dos conselheiros de Donald Trump ainda não foram totalmente engolidos pelo irrealismo. Esses reagiram, dia 18, gritando de terror. Sabem que quando tudo isto serenar (se serenar) responderão perante a justiça por terem colocado em causa a reputação de pessoas, empresas e instituições.

Diante de um vasto ciberataque, que poderá ter comprometido um número ainda indeterminado de computadores em diversos departamentos federais, incluindo o Departamento do Tesouro e o Departamento de Comércio, Donald Trump preferiu ignorar informações consistentes dos seus próprios serviços secretos, que apontavam o dedo à Rússia — acusando a China. Após a embaixada norte-americana no Iraque ser atacada por foguetes de fabrico russo, Trump ameaçou o Irã. Na passada quarta-feira, recusou-se a ratificar o pacote de ajuda para aliviar os efeitos da pandemia, dividindo ainda mais o seu próprio partido.

A cada dia, Trump se afasta mais da realidade e da decência. As próximas semanas, até 20 de janeiro, serão muito perigosas.

Joe Biden esforça-se por aparentar calma, mas por detrás de algumas das suas declarações mais recentes é possível perceber um princípio de pânico. Analistas tentam adivinhar os próximos passos de Trump. É como tentar prever a direção do voo de uma barata. Essa imprevisibilidade, ou irracionalidade, torna Trump ainda mais perigoso.

Esperemos que 2021 nos devolva tudo de bom que 2020 nos roubou — e que eu nunca mais volte a escrever sobre Trump. Seria um bom sinal.

Moro, voto, cinema: gentes e coisas que acabaram junto com o ano infame

Mario Sergio Conti

Também na lista, Odebrecht, Alcolumbre, Silvio Santos e Livraria Francesa 

Odebrecht. A empreiteira campeã em corrupção mudou o nome para Novonor. Alguém imaginaria um nome mais horrível? Ou uma artimanha tão primária para disfarçar a ladroagem da empresa? Emilio e Marcelo Novonor, dois gatunos, continuam tratar os brasileiros como idiotas.

Oposição. Os partidos contra Bolsonaro se uniram para eleger um presidente da Câmara que apoie Bolsonaro incondicionalmente, impedindo a tramitação do seu impeachment. A casta política disputa a tapa com o Planalto e o Supremo a primazia em esculhambar a República.

Alcolumbre. Foi do anonimato ao ridículo num estalar de dedos. Apoiou Bolsonaro para se reeleger presidente do Senado e eleger o irmão prefeito de Macapá —e ambos se estatelaram justamente porque Bolsonaro os apoiou. Como consolo, ganhou o tão cobiçado troféu de paspalho do ano.

Silvio Santos. Completou 90 anos e se consolidou como caricatura do empresariado pátrio. Está grudado no Estado como craca; incensa os governantes irrestritamente; difunde o baixo nível mais abjeto; topa tudo por dinheiro; chegou ao requinte de pôr o genro para endeusar o presidente dia e noite; tem-se em alta conta, é claro: “Dou empregos!”.

Voto. Ao somar as abstenções com nulos e brancos, constata-se que 38% dos aptos a votar não o fizeram nas eleições municipais. É um recorde. Repetiu-se até cansar que os eleitores minguaram devido à peste. É meia verdade: a participação nas eleições vem caindo no Brasil desde 2008.

O fenômeno é mundial. Para que votar, se os partidos traem os eleitores e não resolvem problemas? Mas o número de votantes aumentou em duas eleições recentes, concomitantes do populacho: a chilena, no ápice de meses de agitação pela Constituinte; e a americana, simultânea ao levante contra o racismo, a polícia e Trump.

Doria e Covas. Arrocharam os alquebrados de 60 a 64 anos. Também eles terão que pagar pelo trem, o ônibus e o metrô. Com grande coragem, a dupla tucana deixou passar as eleições e esperou o Natal para apunhalá-los pelas costas. Covas aumentou o próprio salário em 46%. De fato, votar pra quê?

Revolta. Coisa de povos atrasados. Aqui, estamos satisfeitos com nossa ordem desordenada e progresso a passo de cágado: o voto nos basta. Mas como a crise é grave, é preciso, com urgência, não fazer absolutamente nada —a não ser falar, falar sem parar até que as palavras percam todo sentido.

Radicalismo. O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, disse que o partido “está ressignificando a radicalidade”. Huummm... Está bem cotado para o prêmio Embuste Vernáculo, concedido por Madame Natasha a iniciantes na arte de aderir.


Sergio Moro
. Descolou uma boca numa empresa americana que lhe deposita na conta um salário mensal estimado em R$ 110 mil. A hipocrisia é do jogo; já a insistência em dizer que combate a corrupção é má consciência de quem trabalha pelo dinheiro, mas se acha herói. Vide Millôr: desconfie de quem lucra com seu ideal.

Testes. Os países que melhor protegeram seus povos da peste aplicaram em massa testes para detectar o coronavírus. Não só isso: os contaminados eram isolados e monitorados.

No Brasil, os kits de testes foram comprados, enriqueceram os espertalhões de sempre, são aplicados só a quem paga e apodrecem sem que o povo tenha acesso a eles.

A responsabilidade é do presidente, do capadócio à frente do Ministério da Saúde e dos governadores. Mas ninguém deu um pio contra o descalabro.

Cinema. Sair de casa para ver um filme não tem nada a ver com vê-lo na televisão. Menos pela nitidez das imagens e do som, e mais pelo ritual. Pauline Kael resumiu-o assim: quando as luzes se apagam e todas as nossas esperanças se concentram na tela. No mais das vezes, a esperança se frustra, mas entretê-la é uma liberação. Oxalá se possa um dia ir ao cinema de novo.

Livraria Francesa. Fundada há 73 anos, no começo não destoava do entorno. Mas com o tempo virou um oásis no centro de uma São Paulo miserável, de crueldade e feiura estridentes. Com suas luzes de neon, era clara e ordenada: aqui os livros da Pléiade, ali os de bolso, lá os lançamentos.

A livraria da rua Barão de Itapetininga foi fechada pela indigência paulista e pela perda de prestígio da cultura francesa para a várzea globalizada. Urbana e histórica, a perda também é pessoal porque, como diz Proust, a recordação de certa imagem é a saudade de certo instante, e as casas, as ruas, as livrarias, são fugidias, hélas, como os anos.

Desobediência senil


A vacina comunista da China


Debate sobre saúde pública em Campo Limpo Paulista

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Negacionismo


Duke 

Rockin'1000 full concert at Stade de France, Paris 2019


THE SETLIST

  • AC/DC ‐ Highway to Hell - 00:12:20
  • The Clash - Should I Stay Or Should I Go - 00:16:00
  • Nirvana ‐ Smells Like Teen Spirit - 00:19:19
  • Red Hot Chili Peppers ‐ Suck My Kiss - 00:24:53
  • The Ramones - Blitzkrieg Bop - 00:29:06
  • The Kinks - You Really Got Me - 00:31:53
  • Oasis - Supersonic - 00:34:17
  • Philippe Manœuvre Speech - 00:39:05
  • Johnny Hallyday - Allumer Le Feu - 00:41:58
  • Téléphone - Un Autre Monde - 00:47:40
  • Queen - We Will Rock You - 00:52:57
  • Deep Purple - Smoke on the Water - 00:56:42
  • David Bowie - Rebel Rebel - 01:01:38
  • The Rolling Stones - Jumpin’ Jack Flash - 01:06:30
  • The Stooges - I Wanna Be Your Dog - 01:10:48
  • Fabio Speech  -01:14:55
  • The Pixies - Where is my Mind? - 01:19:00
  • The White Stripes - Seven Nation Army - 01:23:10
  • Blur - Song 2 - 01:31:00
  • Foo Fighters - Learn To Fly - 01:35:44
  • Led Zeppelin/Hendrix - Medley - 01:45:40

Utilidade Pública

 


A escravagista liberal

A concepção dela de terceira idade reflete sua posição de classe, mas não admite concepções baseadas em outras posições. A suposição de ute não sejam politicamente questionados.


O Brasil Abaixo de Todos, A Milícia Acima de Tudo


As melhores manchetes da semana de Natal


Vanzo News

"Pastor unge tornozeleira de Oswaldo Eustáquio um dia antes de blogueiro ser preso"

"Agente do Detran espanca mototaxista durante ação educativa de trânsito"

"Ana Vilela desiste dos conselhos de Trem-Bala: 'O mundo é horrível'"

"Ator Rafael Cardoso cuida de horta, e Gal Gadot pede esperança aos seguidores"

"Brasília lidera ranking de traição na quarentena"

"China dá aval para Doria chamar Coronavac de 'vacina do Brasil'"

"Clientes, seguranças e garçons brigam em bar após homem pagar champanhe para mulher casada"

"Dois detentos são flagrados com mais de 140 latas de cerveja em presídio no Recife; bebidas foram jogadas por cima do muro"

"Doria pede desculpas por viagem a Miami"

"Dragão-de-komodo ataca operário em obras de resort com tema 'Jurassic Park'"

"Em homenagem no STF, Fux lê falso poema de Drummond"

"Embarque de mamão cai, e receita fica 12% menor"

"Filho ganha ação após os pais destruírem sua coleção pornô de R$ 127 mil"

"Frank Aguiar diz que Simone e Simaria jogaram água nele no meio de uma noite de sexo"

"Garoto do 8º ano leva aparelhos de DJ para a escola e faz festa no banheiro"

"Homem é baleado ao tentar furtar bode da Universidade Federal da Paraíba"

"Jornal da Record erra e apresenta notícias da semana passada" 

"Mãe vira notícia na Inglaterra ao encontrar Jesus na couve-de-bruxelas"

"MC Bin Laden sobre filhos: 'Se for menino, Neymar, e se for menina, Bruna'"

"Morador de Santa Catarina convive com ratão-do-banhado há 4 meses"

"Novo coordenador da Operação Greenfield propõe encerrar investigações: 'Não estou aqui para trabalhar muito'"

"Opositor russo diz que foi envenenado pela cueca"

"Papai Noel é resgatado após voo de paramotor terminar mal nos EUA"

"Pastor que disse que CoronaVac tem HIV dentro dela é intimado a depor pelo MP do Ceará"

"Pazuello convida Zezé Di Camargo para estrelar campanha de vacinação: 'Zezé Gotinha'"

"Porco batizado de Kevin Bacon recebe ajuda do xará na busca por um lar"

"Rede de fast food anuncia console mais poderoso que PS5 e Xbox Series X"

"Vereador de SP pede um minuto de silêncio para Beth Goulart e é advertido"

Então é Natal...

(2018)

 ♪ Então é Natal...e o que você fez? ♫

♪ Votou num fascista e fodeu o Brasil de vez...♫

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Renas do Apocalipse


Bimbolem os sinos

Verissimo 

Dizem que Papai Noel foi visto fazendo churrasco das renas na beira de uma estrada no Norte, sob a neve, e vendendo os presentes das crianças com desconto

É Natal! É Natal! Bimbolem os sinos. Neva em Caruaru, onde nunca nevou antes, um feliz prenúncio de cocacolização total da nossa maior festa, depois do carnaval e das pernas de fora da Ivete Sangalo. 

Tartaruguinhas recém-nascidas correm na direção do mar, não para seguir seu destino biológico, como se pensa, mas para fugir do governo Bolsonaro antes que seja tarde, acenando bandeiras verde e amarelas como disfarce. Mas nem tudo é estados unidos no novo Brasil das queimadas, do ministro do meio ambiente que cuida só do meio porque o ambiente cuidará de si mesmo e do ministro da saúde que ainda não decorou o endereço do ministério. Chegam notícias inquietantes do nosso interior. Dizem que Papai Noel foi visto fazendo churrasco das renas na beira de uma estrada no Norte, sob a neve, e vendendo os presentes das crianças com desconto.

Mas é Natal! É Natal! Tudo se perdoa, tudo se esquece e tudo se justifica. O Brasil é o único país do mundo que é sua própria explicação. O único incomparável, pois só é comparável a si mesmo, dispensando exemplos, metáforas e alusões vindos de fora. O único que se basta como autoparódia. Você, brasileiro amador que ainda não se entendeu, pode evocar o Brasil que quiser sem medo de exagerar: é só imaginá-lo que ele se torna verossímil. Quem, anos atrás, acreditaria num governo Bolsonaro? E no entanto aí está ele, governando ou coisa parecida, sem máscara, o incrível homem elástico que, diariamente, desmente a si mesmo e todo o mundo aplaude. Imagine o seguinte: o Rodrigo Maia é um dos dezessete filhos do Bolsonaro, um parentesco que ninguém conhecia e o presidente nunca revelou. O desentendimento entre os dois é, na verdade, apenas um racha normal entre pai e filho. Impossível? No Brasil, “impossível” é apenas o outro nome de “vamos ver”.

É Natal, gente! É Natal! Um dia o país acordou e deu com o Planalto cheio de generais sem voto postos lá por um capitão no meio da noite, o único golpe militar secreto da história dos golpes militares. Nem seu comportamento na tragédia da pandemia acabou com o mito da eficiência militar. Se um general não der certo, ponha-se outro no seu lugar, e que bimbolem os sinos.



O morismo jurídico da esquerda de internet

Fernando Horta 

Parte da esquerda de internet aderiu ao "morismo jurídico".

Para Moro, o crime de corrupção inverte o ônus da prova. O réu tem que "provar" que não é corrupto. E como isso é impossível (epistemologicamente não existe prova em contrário) todos os que Moro quer são culpados.

A esquerda de internet faz o mesmo com os crimes de racismo e assédio.

Ao que eu saiba, não atacar a vítima ou não desmoralizar a vítima é um princípio de admissibilidade institucional da denúncia, e não um salvo-conduto para a condenação (e linchamento) antecipado.

Pensem, por favor.

Edit 1: Quem vier aqui me acusar de racismo ou coisa parecida será sumariamente bloqueado. Seja lá quem for. Estou cansado de acéfalos, com ou sem título de doutor ...

Brasil tem mais mortes por covid em 1 semana do que 63 países juntos na pandemia inteira

BBC

Com 212 milhões de habitantes, o Brasil registrou mais mortes por covid-19 no espaço de uma semana do que outros 63 países juntos ao longo da pandemia inteira — esse grupo de nações soma 634 milhões de habitantes.

Entre 14 e 20 de dezembro, 5.233 pessoas morreram no Brasil em decorrência da doença. Foi o número mais alto desde setembro, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

Esse total é superior à soma de mortes registradas desde janeiro em 63 países juntos, entre eles Tailândia, Islândia, Vietnã, Uruguai, Taiwan, Cuba, Botswana, Gabão, Nova Zelândia, Cingapura e Estônia.

O mais populoso deles, o Vietnã, tem 97 milhões de habitantes e 35 mortes por covid-19 em 2020. O Brasil tem 212 milhões de habitantes e 189 mil mortes pela doença em 2020.

As 5.233 mortes no Brasil em uma semana representam quase o dobro do que o Japão registrou durante a pandemia inteira (2.877). O país asiático tem 126 milhões de habitantes.

É possível também comparar o número de casos registrados, mas esse dado pode ter distorções porque nem todos os países realizam testes em massa na população. O Brasil, aliás, é um exemplo internacional da falta de exames.

Em uma semana, o país registrou 333 mil casos, um recorde desde o início da pandemia. Essa cifra é superior à soma de casos notificados desde janeiro em 76 países.

Brasil é o 2º em número de mortes

Até agora, o Brasil registrou 189.220 mortes por covid-19 neste ano. Isso coloca o país em segundo na lista de países com mais óbitos até agora, atrás apenas dos Estados Unidos, com 328 milhões de habitantes e 326.217 mortos.

Nenhum dos dois países adotou medidas severas de distanciamento social, como os lockdowns (bloqueios quase totais à circulação de pessoas e fechamento de lojas, restaurantes etc.).

Logo em seguida aparece a Índia, que tem 1,35 bilhão de habitantes e 146.756 mortes por covid-19.

Se a comparação levar em conta o tamanho da população, o Brasil tem a 19º maior taxa, com 89,9 mortes a cada 100 mil habitantes. Os EUA têm 98,65 e a Índia, 10,83.

1 milhão de pessoas internadas

Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que neste ano mais de 1 milhão de pessoas foram internadas com casos confirmados ou suspeitos de covid-19.

A título de comparação, o número mais alto dos últimos anos havia sido registrado na pandemia da gripe H1N1, em 2009, com 202 mil hospitalizados com uma doença respiratória grave.

Atualmente, mais de 31 mil pessoas ocupam leitos de hospitais no Brasil, e a situação tem piorado em diversos lugares. Na região Sul do país, o número diário de infecções já superou o primeiro pico da doença, no primeiro semestre.

Ao todo, 18 Estados e o Distrito Federal têm alguma região com tendência de aumento nos casos.

Férias e festas de fim de ano

O avanço da pandemia no país não dá sinais de desaceleração, e há dois fatores relevantes que podem piorar bastante a situação.

O primeiro é a “sincronia” entre a pandemia no interior e nos grandes centros urbanos do país. O segundo são as festas de fim de ano.

No dia 8/12, a Fiocruz alertou para o risco do sistema de saúde do país entrar em colapso com o possível agravamento da alta de casos de covid-19 após o fim do ano.

Reportagem da BBC News Brasil explicou que isso se deve ao estágio da pandemia no país. Se antes as epidemias nos grandes centros e nas cidades menores tinham intensidades diferentes e inversas, o que permitiu atender a população por meio da redistribuição de pacientes, o mesmo não ocorre agora.

E o agravante aqui é o período de festas de fim de ano. No Brasil, embora não haja recomendações oficiais específicas para as datas festivas, infectologistas se preparam para a possibilidade de, poucas semanas após as festas, o país se ver diante de novos aumentos de casos e mortes.

"Se fossemos reproduzir os encontros natalinos da forma que tradicionalmente ocorrem, neste momento epidemiológico (de alta dos casos), o que espero é um repique brutal no número de casos, devido à contaminação que vai ocorrer neste momento", disse à BBC News Brasil Jaques Sztajnbok, supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, sugerindo que as pessoas evitem festas de fim de ano em 2020.

No resto do mundo, diversos países têm emitido advertências contra aglomerações e deslocamentos nos períodos festivos.

E a mensagem dos médicos é clara em todos esses lugares: qualquer encontro, por mais cuidado que se tenha, representa um risco de transmitir e contrair coronavírus, principalmente para os idosos.

O Espírito do Natal


Angeli


Vai, Carlos, ser coach na vida!

Sérgio Rodrigues

Brasil não entende, mas está inteiro nos versos natalinos de Drummond 

Fux you, Carlos! Quem mandou escrever palavras tão afiadas, tão eternas, disfarçadas mineiramente de simplicidade e cheias de ironia diante da grandeza, o que só torna tudo ainda maior?

Perdeu, Carlos. No país que chega todo estropiado ao fim deste ano da peste, seu legado se dissolve no ácido da autoajuda rastaquera, do coaching fuleiro, da banalidade emproada e perucosa: "Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo..."

Isso da falsa autoria na internet bota a gente intrigado como o diabo, Carlos. Talvez as Clarices burrinhas, os Verissimos grosseirões, os Saramagos piegas, os Borges analfabetos e os Machados lobotomizados lhe sirvam de consolo --o Drummond pateta tem boa companhia.

No entanto, nenhum desses seus ilustres colegas jamais foi citado em vão por tão alta autoridade na hierarquia pátria. Que nossos medalhões costumam ser ocos, adeptos da erudição ornamental, isso já sabíamos. Mesmo assim, double Fux com bacon e salada, Carlos!

Na furiosa fábrica de memes distópicos em que o Brasil se transformou, absurdos e tristezas andam tão fartos que a gafe (vamos chamar assim) do presidente do STF nem mereceria ser lembrada aqui, tantos dias depois de cometida.

Menos ainda, dirão alguns, na véspera do Natal, quando deveríamos nos dar as mãos e perdoar, enchendo nossos corações de esperança, coisa e tal.

Tentei, poeta. Também achei que seria de mau gosto apontar de novo ao leitor sofrido o que ele está exausto de saber --que o Brasil virou um país inteiramente demente, dividido entre a alucinação e o luto.

Em busca de inspiração, fiz o que Fux deveria ter feito: abri um livro seu. Calhou de ser o primeiro que você publicou, "Alguma Poesia", no qual há um poema chamado "Papai Noel às avessas", do qual eu tinha me esquecido.

Difícil entender essa falha de memória. "Papai Noel entrou pela porta dos fundos/ (no Brasil as chaminés não são praticáveis),/ entrou cauteloso que nem marido depois da farra."

O que acontece aqui? Só vamos entender o sujeito sorrateiro ao vê-lo afanar os brinquedos das crianças adormecidas, "soldados mulheres elefantes navios/ e um presidente de república de celuloide".

Papai Noel joga os brinquedos num lenço vermelho, faz uma trouxa e vai embora pela mesma porta dos fundos por onde entrou. O verso final é um escândalo: "Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes".

Tendo lido isso, como passar pano na superfície turva das coisas para tirar delas um brilho falso? Melhor reconhecer que Papai Noel é ladrão de futuros e que nosso país é vítima de um analfabetismo literário tão denso que até sua elite, ou uma grande parte dela, ignora a diferença entre seu maior poeta e um legume.

Depois dessa, os 37% de aprovação ao abominável "presidente de república de celuloide", aliado número 1 do vírus no mundo, ficam mais compreensíveis. Feliz Natal --e não se esqueçam de trancar a porta dos fundos.

Três leitores, todos jornalistas, me escrevem para contar que esbarraram com a palavra "passaralho" antes de 1974, ano em que Joaquim Campelo a transformou em verbete cômico, conforme relatei na semana passada. Há até quem situe o termo nos anos 60. Sendo assim, e enquanto a investigação não avança, fica combinado que Campelo foi apenas dicionarista --e não inventor-- quando aprisionou o passaralho na gaiola.