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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Uma imensa Fox News


Globo: os aprendizes de feiticeiro que colocaram o monstro nas ruas 

Por Luis Nassif

No início foi o gozo, o exercício do jornalismo sem limites, a exposição do poder extraordinário de colocar multidões nas ruas fantasiadas de verde e amarelo. Convocam-se multidões por todo o país, usavam-se politicamente as estatísticas manipuladas pela Polícia Militar, que tratava seletivamente números e a distribuição de pancadas pelos manifestantes: à esquerda, pau; à direitam abraços.

Não se tratava de uma mídia a reboque, como foi a americana no macarthismo. Era uma mídia comandando as multidões, varrendo para baixo dos tapetes verde-amarelos da Paulista sua incapacidade de enfrentar os novos tempos e encarar a invasão estrangeira, não a de bolivarianos, castristas e o escambau, mas a dos novos veículos que surgiam nos rastros das redes sociais.

Foi bom enquanto durou, pá! Empresas jornalísticas, por algum tempo, tornaram-se mais relevantes que partidos políticos, conseguiram uma influência que não tinham desde os tempos do impeachment de Collor. Um título de reportagem já servia de álibi para prisões arbitrárias. O esgoto jorrado das manchetes espalhava-se por todos os poros da República. Faziam dobradinha com procuradores inescrupulosos, que  passavam alguma suspeita, que era transformada em manchete, com fontes em off, permitindo ao procurador parceiro consumar prisões, humilhações, relevância.

A mídia conseguiu transformar o país em um valhacouto de dedos duros. Nos Estados Unidos, seu modelo de atuação, a Fox News, enfrentava os anticorpos da imprensa mais séria, New York Times, Washington Post, CNN. Por aqui, foi uma imensa Fox News, com todos os veículos repetindo os mesmos mantras e estimulando o ódio e a delação.

Os alvos passavam a ser ameaçados nas ruas, o mero uso de uma camisa vermelha podia resultar em agressão. As personalidades mais doentias da sociedade, dos salões da Vila Olimpia aos comendadores de periferia, tornaram-se protagonistas políticos, estimulados pela brava mídia brasileira.

Ignorantes até a medula, sem noção de história, sequer da história recente do país, os herdeiros colocaram a besta nas ruas, julgando que manteriam para sempre o controle sobre ela. 

A besta gerou Bolsonaro, que assumiu o controle da besta através de algoritmos nas redes sociais.

Ontem houve manifestações pró-Bolsonaro por todo o país. A imprensa encolheu, não ousou estimativas de quantidade de pessoas. Nos editoriais defendiam a democracia fraturada. Colunistas que ajudaram a espalhar o ódio se tornaram mensageiros da paz, enquanto que zumbis sem máscara e sem cérebro invadiam as avenidas.

Agora, o país se volta para a vítima maior desse período de trevas – o ex-presidente Lula – esperando que ajude na operação de salvamento de um país destruído pela falência da informação.

domingo, 4 de abril de 2021

As três bestas do apocalipse bolsonariano e a nova crise institucional


Kássio, Mendonça e Anderson, a nova face do estado de exceção


O Ministro Kássio é a prova inconteste dos males que as decisões monocráticas dos Ministros do Supremo trouxeram para a casa. Em nome de boas causas, Ministros ganharam o poder de mandar prender. Em nome da esperteza, Ministros pediram vistas eternas de julgamentos em que seriam derrotados. A Lava Jato consolidou o jogo da loteria das instâncias

Agora, chega-se o ponto mais alto da desmoralização do Supremo, não por coincidência através de um advogado indicado por Bolsonaro. E, a julgar por seu nível novos recordes de desmoralização deverão ser batidos.

Primeiro, Kassio vai contra o entendimento do Supremo, que cabe a prefeitos e governadores decidirem sobre e manda liberar cultos, no momentos mais grave da pandemia. Não se pense em apoio espiritual após fiéis. O país aprendeu a se comunicar virtualmente. O grande problema é que os templos ainda não naturalizaram o dízimo online. A decisão do Ministro Kássio teve inspirações pouco evangélicas, de dar ao pastor o que é do pastor. Pior, baseou-se em ação que tramitava desde 2020, de uma tal Associação dos Juristas Evangélicos.

É claramente uma decisão que afronta todas as recomendações médicas e aumenta os índices de mortalidade do Covid-19. 

Houve uma reação do prefeito de Belo Horizonte, protegendo seus cidadãos. Ai, Kassio aciona o Pazuello da Advocacia Geral da União (AGU), André Mendonça, e o gendarme do Ministério da Justiça, delegado Anderson Torres, e ameaçam Kalil com a Polícia Federal.

Confirma-se, assim, o cenário de que Bolsonaro passaria a exercitar o estado de exceção por dentro. Os três são candidatos certos à Justiça de Transição que se seguirá a esse pesadelo. Que a decisão de Kássio lhe custe uma condenação com execração pública.

Mas, enquanto isto, as três bestas do apocalipse ajudarão no trabalho genocida de seu patrono, enquanto as instituições dormem e os idiotas da objetividade garantem que elas estão funcionando.

Alem de tudo, Kassio é uma zebra provinciana. Resolveu intimidar o mais voluntarioso dos políticos brasileiros, o prefeito de BH. Kalil bancará a aposta, e Kassio não poderá voltar atrás.

terça-feira, 16 de março de 2021

O festival de mentiras e meias verdades do caso do não-convite a Ludhmila Hajjar para o ministério


A médica que enfrentou Bolsonaro ou, quem quiser que conte outra

É evidente que ela aceitou o convite de Bolsonaro pensando que se tornaria Ministra da Saúde. Ocorre que Bolsonaro já tinha seu candidato há tempos, o médico Marcelo Queiroga, bolsonarista de raiz, líder da ala médica defensora de Bolsonaro.

Por Luis Nassif

Tudo bem. O manto diáfano da fantasia é produto jornalístico bastante requisitado. Brigas na família real inglesa, heróis sem mácula enfrentando vilões inescrupulosos, tudo isso ajuda na grande mistura da dramaturgia da notícia.

Então, viva a doutora Ludhmila Hajjar, que foi levada por Mefistófeles até o alto da montanha e, em nome de suas convicções científicas, recusou a oferta de fama e glória, como Ministra da Saúde de Jair Bolsonaro. Saiu do Palácio distribuindo entrevistas em que dizia que recusara o convite por ser a favor da ciência. Depois, relatou como foi perseguida por vilões noturnos, que tentaram invadir seu apartamento no hotel. Tudo bastante verossímil com o que se conhece de Bolsonaro e seus milicianos.

Antes de comprar a história, que tal submetê-la a alguns testes de verossimilhança:

Teste 1 – a médica iludida por Bolsonaro

Alguém poderia supor que Bolsonaro, o ogro, mudaria seus princípios anti-isolamento, anti-ciência? A doutora Ludhmila, sim. Agarrada a essa esperança iluminista, aceitou o convite para conversar com Bolsonaro para, só aí então, cair na real, de que nada mudaria.

Digamos que passa raspando no teste de verossimilhança.

Teste 2 – Bolsonaro convidando mesmo após o vídeo com Dilma

Quando encontrou-se com Bolsonaro, ele já havia recebido uma montanha de vídeos nos quais aparece Ludhmila proseando, como velhas amigas, com Dilma Rousseff; em outro, aparece chamando Bolsonaro de louco. Ela negou, disse que a voz não era dela.

Tá bom!, vamos reformular o teste. Bolsonaro recebeu um vídeo no qual Ludmilla aparece conversando com alguém que diz que Bolsonaro é louco.

Alguém, em sã consciência, vai acreditar que, depois de receber esse material, Bolsonaro, o paranóico, o obcecado, manteria o convite a Ludhmila. É evidente que não.

Portanto, a versão mais verossímil é a do Ministro das Comunicações que, em um Twitter educado, elogiou a médica mas garantiu que ela jamais poderia ter recusado um convite que jamais lhe foi feito.

Teste 3 – bárbaros ululantes tentando entrar no apartamento de Ludhmila

Segundo a médica, por três vezes bárbaros tentaram invadir seu apartamento no hotel em que estava hospedado.

O Estadão foi conferir com o hotel. A resposta: 

“O B Hotel informa que durante toda a estadia de Ludhmila no hotel, período compreendido entre os dias 14 e 15 de março de 2021, nenhuma ocorrência foi relatada nas dependências do empreendimento e nenhuma queixa, sobretudo por parte da vítima, foi repassada à administração”, diz a nota do estabelecimento.

“Além do exposto acima, o B Hotel esclarece ainda que após tomar conhecimento das alegações concedidas por Ludhmila, consultou imediatamente o circuito interno de câmeras e não encontrou nenhuma ‘anormalidade’ nas imediações da suíte ou em qualquer outra área do empreendimento. Funcionários e colaboradores do B Hotel também foram ouvidos e nenhuma ocorrência similar foi constatada”.

Teste 4 – o perfil de Ludhmila

Ludhmila é figura polêmica na comunidade médica, considerada excessivamente ambiciosa. Começou na área de infectologia, passou para a cardiologia, foi promovida precocemente, passando por cima de outros médicos, mais velhos e mais preparados. Algum tempo depois, promoveu ataques pesados contra o próprio diretor que a promoveu precocemente, chocando a comunidade médica.

Além disso, tem uma carga horária de trabalho, junto ao Hospital das Clínicas, que não cabe em uma semana. E protagonizou episódios polêmicos no Hospital Sirio Libanês.

No dia 4 de dezembro de 2019, um abaixo assinado de médicos do Hospital das Clínicas cobrava providências da direção em relação a supostas faltas cometidas por Ludhmila.

Hipótese mais razoável

Com seu trabalho, Ludhmila conseguiu se aproximar de políticos do centrão. Não é o primeiro caso de médico especializado em políticos e celebridades. Como tal, seu nome foi levado a Bolsonaro por seus antigos pacientes. Pelo Google é possível levantar a enorme quantidade de políticos atendidos pessoalmente por ela. Quem patrocinou sua indicação foi o governador de Goiás Ronaldo Caiado. E houve um amplo trabalho prévio de mídia, levantando sua bola, provavelmente bancado por José Seripieri Jr, o polêmico fundador da Qualicorp e, agora, com outra empresa a QSaúde, que tornou-se patrocinadora do programa médico de Robert Kalil na rede CNN. Kalil e Ludhmila são estreitamente ligados.

É evidente que ela aceitou o convite de Bolsonaro pensando que se tornaria Ministra da Saúde. Ocorre que Bolsonaro já tinha seu candidato há tempos, o médico Marcelo Queiroga, bolsonarista de raiz, líder da ala médica defensora de Bolsonaro.

Bolsonaro recebeu ambos, com a decisão já tomada. Entre a médica amiga da Dilma e o médico bolsonarista, quem iria escolher? Conversou normalmente com Ludhmila e não lhe fez nenhuma proposta. Aliás, é impossível que tenha feito qualquer proposta, ele que vê inimigos e comunistas até em suco de melancia. Ainda mais para uma médica que taxou de “vergonha” a citação de uma pesquisa científica da Alemanha, sobre máscaras. Quem citou a pesquisa foi Bolsonaro.

Aí, Ludhmila sai do Palácio e transforma o não convite em uma recusa. E se torna a heroína da mídia, substituindo por um dia o casal Megan e Harry. Afinal, uma história de fadas sempre ajuda a superar o baixo astral da tragédia brasileira.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A genial intuição política de Bolsonaro


Gen Pazuello diz como o governo vai reagir a Doria:

1. Tem a vacina da Oxford, fabricada pelo Fiocruz que, como Bolsonaro diz, é um amontoado de esquerdistas.

2. Outra instituição no projeto é a Unifesp, universidade federal que, como se sabe, planta maconha industrial.

3. O acordo com a Organização Mundial de Saúde,  cuja extinção foi defendida pelo Itamaraty bolsonarista, por seus impulsos esquerdistas.

4. E a Saúde vai ter que comprar na marra a vacina chinesa.

E ainda existem os que sustentam a genial intuição política de Bolsonaro.


Luis Nassif

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

TV GGN: Covid dispara, CADE acerta tiro no coração da Globo, Doria continua o monstro de sempre


CADE acerta tiro no coração comercial da Globo é tema Jornal GGN 20h desta quarta-feira, (2/12). 

Confira os destaques da análise de Luis Nassif no fio a seguir.


Covid-19 Brasil: Foram registrados 49.863 novos casos e 698 novos óbitos. No Ceará houve aumento de 501% nos números da doença nos últimos sete dias. Há um alto crescimento em 15 estados nas duas últimas semanas. 

Nassif comenta o destaque do dia: o Reino Unido se tornou o primeiro país no mundo a aprovar uma vacina contra a Covid-19. Mas ele lembra que no Brasil “nós dependemos da logística, tem que fechar contratos com as empresas, encomendar equipamentos e montar a distribuição”, diz. 

“Mas, tudo isso é com o General Pazuello, que hoje deu um depoimento no Congresso vergonhoso, hoje, realmente, houve um desnudamento da insuficiência técnica do ministro”, diz Nassif.

Nassif comenta a questão do governador de São Paulo, João Doria, que interrompeu os jantares dos restaurantes populares alegando queda de demanda. “Se esse número cai, você reduz as refeições e não corta.

Para Nassif “Doria não tem jeito, tenta ganhar uma feição mais democrática, mas ele tem a mesma falta de empatia de Bolsonaro em relação aos pobres e desassistidos". 

Nassif fala sobre oo juiz federal do Rio de Janeiro, Sérgio Bretas, e o decreto que muda educação inclusiva suspenso por Toffoli. 

A Comentarista e advogada Maria Eduarda alerta para o escândalo da contração de Moro pela consultoria que administra a Odebrecht. 

Nassif exibe trecho do debate Brasil Milênio desta quarta, com Waleska Batista, Ana Paula Guidolin e Luiza Nassif Pires, que discutiram os impactos da austeridade em meio à pandemia da Covid-19 sobre as questões de raça e gênero. 

Nassif destaca o fato do CADE acertar tiro no coração comercial da Globo. “Hoje a Globo manifestou, em particular, o profundo arrependimento pelo impeachment da presidente Dilma Roussef”, diz.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Crimes de Bolsonaro destroem a imagem das Forças Armadas


As críticas de Gilmar Mendes e os desastres à vista das Forças Armadas

Resumindo, duas áreas centrais para a segurança nacional - saúde e Meio Ambiente - estão sob responsabilidade de militares sem nenhuma experiência no setor (caso da saúde) ou com uma visão oposta à missão que foram incumbidas (o meio ambiente).
O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, acusou os militares de estarem promovendo um genocídio no país, pelo descontrole na área da saúde. Os militares reagiram, através de nota conjunta do Ministro da Defesa e do Comandante das Forças Armadas, mostrando o envolvimento das FFAAs em ações por todo o país, de combate ao coronavirus.

Ambos os lados têm razão. Mas a razão invocada pelas FFAAs não responde às críticas de Gilmar.
Uma coisa é seu envolvimento com questões de saúde, montando hospitais de campanha, chegando aos mais distantes rincões do país. 

Em várias pandemias passadas, montaram ações de inegável importância regionais e social, articuladas com o Ministério da Saúde. Mas obedeciam a uma estratégia sanitária, desenvolvida por especialistas em saúde, com grande conhecimento de causa. Essa estratégia foi responsável por projetar o Brasil como referência no combate às grandes pandemias.

O que está ocorrendo agora é diferente. Trata-se da apropriação do Ministério da Saúde por um oficial da ativa –  general Eduardo Pazuello – que está promovendo o desmanche da equipe técnica e a ocupação de cargos por outros militares. Está militarizando a saúde, sem ter conhecimento sobre o tema, em um campo que mexe com o destino de milhões de brasileiros.

É esse o tema, e as FFAAs não podem fugir desse assunto.

Poderiam poderiam alegar que não têm nada com isso, que é decisão pessoal do Presidente da República. É argumento falacioso. Se o Presidente convoca militares, que empregam militares, que ocupam cargos para os quais não têm nenhuma experiência, e essa ocupação resulta em desarticulação das ações de saúde e aumento da morte de brasileiros, é uma questão militar, sim. Envolve diretamente a imagem das FFAAs, e os interesses da corporação, mesmo que esses militares obedeçam a um comandante desnaturado – o Presidente da República.

A melhor resposta do Alto Comando seria soltar um comunicado regulando de forma clara a ida de militares ao governo. E deixando de forma clara os limites de sua responsabilidade no combate ao Covid-19.

O general Pazuello foi indicado como interventor do Ministério da Saúde por ser militar, não por seus atributos de especialista em saúde – que, decididamente, não é. Seu currículo foi dourado com a informação de que é especialista em logística. Tal especialidade o torna apto para trabalhos de logística, não para planejamento da saúde. E poderia ser de grande utilidade se fizesse o meio campo com as FFAAs para maior sinergia com as ações de saúde. Em outras pandemias, havia essa colaboração, mas sob o planejamento de técnicos especializados em saúde.

Até o governo Temer, a Saúde nunca foi território político ou de partidos. Todos os Ministros pós-Constituinte eram especialistas ligados à bancada da saúde, mesmo alguns tendo feito carreira política. E a política de saúde foi sendo implementada no país através do mais bem sucedido pacto federativo contemporâneo, articulada com o Conselho de Secretários Estaduais de Saúde, definindo papéis claros para estados e municípios, organizando programas de apoio à saúde da família.

O início da destruição desse arcabouço começou no governo Temer, com a entrega do Ministério ao deplorável deputado Ricardo Barros, e foi ampliada no governo Bolsonaro, com o fim injustificável do Mais Médicos. 

Responsável por esse transtorno, no entanto, a partir de determinado momento o Ministro Luiz Eduardo Mandetta se cercou de quadros técnicos da Saúde. E montou um eficientíssimo sistema de comunicação com o público, que poderia ter transformado o Ministério em um agente de coordenação das ações de estados e municípios contra o coronavirus.

Foi defenestrado por Bolsonaro e a estratégia ruiu. 

Com Pazuello, o quadro deteriorou de vez, fruto de características militares típica, essenciais para a guerra, inadequadas para a governança civil, ainda mais em um país federativo.

A visão militar é do comando unificado. Tem que haver uma hierarquia e um comando cego às ordens que vêm de cima. Só se confia em agentes da própria força. E há uma solidariedade total com os companheiros alvos de ataques. Aliás, não há outra maneira de conduzir uma guerra.  Informações são armas estratégicas, que devem ser tratadas como tal. É o oposto de políticas de saúde, nas quais a boa informação é o melhor agente coordenador de ações.

Quando se traz essa visão para o terreno da gestão pública, é um desastre. Especialmente na gestão da Saúde, há a necessidade imperiosa de se articular com a ponta – estados e municípios – e se embasar em argumentos técnicos, fundados em informações confiáveis.

O próximo desastre 
Não apenas na saúde. O próximo capítulo de desmoralização das FFAAs ocorrerá na ação comandada pelo general Hamilton Mourão, de defesa do meio ambiente.

Mourão montou um conselho da Amazônia composto apenas por militares. Não há governadores, prefeitos, ONGs ambientais, especialistas da Universidade. Isso porque quer controle absoluto sobre a estratégia.

Pior, Mourão compactua com a  mesma visão do Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, de exploração da Amazônia, de abertura para o garimpo e para a pecuária. E enxerga  na defesa do meio ambiente uma estratégia de apropriação da Amazônia por interesses externos.

É significativo o apoio dado por Mourão ao Ministro Ricardo Salles.

No ano passado, Salles indicou para superintendente regional do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) no Pará, o coronel da Polícia Militar Evandro Cunha dos Santos. Ele foi exonerado tempos depois por ter cometido uma inconfidência: recebera ordens de Brasília para não mais destruir equipamentos de garimpeiros retidos pelo órgão. Sua informações jamais foi desmentida.

Meses atrás, Salles demitiu Renê Luiz de Oliveira, coordenador-geral de fiscalização ambiental, e Hugo Ferreira Neto Loss, coordenador de operações de fiscalização, logo após uma operação de combate ao garimpo ilegal na Amazônia. Para o lugar de Oliveira, Salles indicou Walter Mendes Magalhães Júnior, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, e ex-comandante da ROTA.

É esse o Ministro abertamente defendido por Mourão.

Como dois e dois são quatro, Mourão montará algumas políticas para evitar queimadas. Mas fechará os olhos para o desmonte da fiscalização, para o afrouxamento das regras ambientais, para a invasão do garimpo. Mais à frente, quando se tornarem mais nítidos os sinais dessa política, o país será jogado definitivamente no limbo das nações civilizadas.

Resumindo, duas áreas centrais para a segurança nacional – saúde e Meio Ambiente – estão sob responsabilidade de militares sem nenhuma experiência no setor (caso da saúde) ou com uma visão oposta à missão que foram incumbidas (o meio ambiente).

O passivo cairá na conta das FFAAs. E não adiantará mostrar cenas de militares na Amazônia, em operações contra queimadas, ou em rincões, em operações de apoio à saúde. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Governador que odeia o povo "lamenta" morte de Aldir Blanc

Perdemos Aldir Blanc para a Covid-19. Um dos maiores letristas brasileiros, eternizado nas vozes de Elis Regina, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, entre outras, parceiro de João Bosco e Guinga, era o carioca em sua perfeita essência. Meus sentimentos à família e a admiradores e amigos.
Wilson Witzel

Aldir cantava as pessoas que se tornaram alvos dos assassinos que você estimulava mirar na cabecinha.
Luis Nassif

sábado, 25 de abril de 2020

Moro recebeu dinheiro para apoiar Bolsonaro?


Seria interessante que a imprensa amiga de Moro levantasse mais dados sobre essa pensão. Seria uma maneira de comprovar (ou não) que ele não vendeu seu apoio a Bolsonaro.
Por Luis Nassif

Em sua declaração, de ontem, Sérgio Moro disse que a única exigência a Bolsonaro, para aceitar o Ministério da Justiça, seria uma garantia de pensão para sua família, caso alguma coisa acontecesse com ele, já que abriu mão de sua carreira de juiz.

O que seria esse “alguma coisa”? Atentado, morte, ou demissão do cargo?

No caso de receio da morte, o correto seria um seguro de vida. Um contrato com pagamentos mensais, em caso de morte? Quem seria o avalista? De quem a viúva iria cobrar? E qual seria o risco de um contrato desses vir a público?

O mais provável é que Sérgio Moro quisesse um seguro contra eventual demissão, quando ele se veria privado dos proventos de Ministro e da aposentadoria de juiz. Mas não bate. Ele tem formação de advogado, a esposa é sócia de escritórios de advocacia. A alegação de que seria para amparar a família cabe em qualquer proposta de suborno. Basta o sujeito alegar que fez aquilo para garantir a família.

O que houve, de fato, é que Moro vendeu seu passe de avalista do governo Bolsonaro. Quanto foi? Quem pagou?

Ao trazer o tema em seu pronunciamento, provavelmente Moro estava apenas se antecipando a eventuais indiscrições de Bolsonaro. Ou a comentários maliciosos de que o dinheiro teria sido pagamento dos serviços prestados nas eleições – como divulgar o vídeo de Pallocci dias antes das eleições.

Seria interessante que a imprensa amiga de Moro levantasse mais dados sobre essa pensão. Seria uma maneira de comprovar (ou não) que ele não vendeu seu apoio a Bolsonaro.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Áudio de dono da Prevent Senior mostra a enorme gravidade da pandemia

Outro problema é a lotação do sistema de saúde. Ele está começando a ficar lotado e vai piorar. E, aí, será difícil até atender a outros casos de emergência.

O áudio é de Fernando Parrillo, um dos proprietários da operadora de saúde Prevent Senior, onde morreu a primeira vítima do coronavirus.

Foram coletados exames em 365 pessoas. Nos seus hospitais há 50 internados, 30 em UTI e, desses, 20 entubados.  O restante está sendo atendido em domicílio.

O plano tem uma boa base de dados do histórico dos pacientes e, a partir delas, conseguiu identificar o desenvolvimento da coronavirus. Ela danifica muito rapidamente o pulmão, que fica fosco e as bordas se unem. Com isso, quem tem doença de base – hipertensão, diabetes etc -, com pulmão afetado fica muito difícil reverter o quadro, e acaba afundando em outras doenças. E tudo acontece de forma muito rápida.

O plano já teve 6 óbitos com as mesmas características. Como a causa apresentada são as outras doenças, as estatísticas acabam prejudicadas, virá óbito normal. E, segundo Parrillo, é o que irá acontecer nos levantamentos nacionais, devido às próprias características da pandemia. Irão morrer e não se saberá que a causa foi a coronavirus.

O plano tem feito os testes, mas o tratamento não muda, independentemente dos resultados.

Se o vírus chegar forte no inverno, sem essa compreensão sobre a forma como afeta o pulmão, vai ser uma catástrofe.  Como estamos no verão, ainda há tempo de preparar o país. E o único caminho é o isolamento total.

Se for medida extremamente radical, em um mês a rede conseguirá entender o padrão, haverá um controle mais organizado. E aí se consegue voltar à vida mais ou menos normal, porque o vírus vai perder força.

O problema é se não houver esse controle. Aí, será catástrofe geral.

Segundo ele, não são apenas os idosos que serão afetados. No seu hospital há dois casos, de médico de 33 anos e enfermeira de 22 anos. Se o médico sair do tubo, será dependente de oxigênio, porque lesa de forma radical o pulmão. Por isso, os jovens também estão sujeitos a pegar.

Outro problema é a lotação do sistema de saúde. Ele está começando a ficar lotado e vai piorar. E, aí, será difícil até atender a outros casos de emergência.

Informação final do médico – cuja mãe também foi contaminada: as informações de óbito mudam a cada hora.

sábado, 14 de março de 2020

A morte de Bebianno e as técnicas de assassinato simulado em ataque cardíaco

Conforme vimos mostrando em várias reportagens, Bolsonaro é apoiado pelo que existe de mais barra-pesada na indústria da contravenção internacional e nas organizações criminosas internas. É cedo para avançar em qualquer conclusão. Mas a morte de Bebianno é um capítulo a mais na tenebrosa história do país rumo à era do crime institucionalizado.


Vamos por partes.

É cedo para qualquer conclusão sobre a morte do advogado Gustavo Bebianno. Ressalve-se o fato de que o filho estava com Bebianno na hora de sua morte, o que reforçaria a ideia de causa natural. Mas,

Adriano da Nóbrega e Gustavo Bebbiano eram testemunhas centrais, capazes de produzir um terremoto político no país, em função das informações que detinham sobre a família Bolsonaro.
Adriano foi executado no interior da Bahia, em uma operação mal explicada até agora.

Bebianno morreu esta noite, vítima de infarto.

Em conversas com jornalistas, no final da entrevista ao Roda Viva, Babianno evitou responder algumas perguntas, alegando receio de sofrer algum atentado.

O know how da CIA

No dia 14 de novembro de 1975, o New York Times publicou reportagem vinculando a CIA a assassinatos cometidos dentro dos Estados Unidos. A técnica utilizada era da simulação de ataque cardíaco.

As investigações foram conduzidas pelo Comitê de Inteligência do Senado, investigando um assassinato ocorrido em Nova Orlens no final dos anos 50, ou início dos anos 60.

As investigações estavam sob comando do respeitado senador Frank Church, democrata de Idaho e uma das vozes mais influentes da política americana dos anos 70.

Pela descrição da vítima, tratava-se de alguém que havia trabalhado na agência em Washington e Las Vegas. O funcionário morreu em um hotel local, onde ele e a família estavam hospedados.

A CIA tentou qualifica-lo apenas como um “oficial de suprimentos”. Mas a comissão apurou que ele havia participado da invasão da Normandia e chefiado operações de combate realizadas pela CIA em Taiwan.

O relatório do Senado juntou 400 páginas com evidências de tentativas da CIA em atentar contra a vida de lideranças estrangeiras, principalmente Fidel Castro. O caso McNamara foi o primeiro que revelaria “como a agência lida com pessoas que tentam chantageá-la”.

O relatório de Frank Church se tornou um marco na tentativa do Congresso de controlar os poderes da CIA, que se transformara em opder autônomo dentro dos EUA.

Um dos capítulos do relatório era sobre os diversos instrumentos de assassinato da CIA.

Foi convocado o então diretor da CIA, William Colby que, pressionado, acabou trazendo uma das últimas armas desenvolvidas: uma pistola desenvolvida especificamente para assassinar seres humanos de forma silenciosa.

Aqui, o senador Church mostra a arma.



Depois de aposentado, Colby escreveu um livro sobre a CIA, revelando seus segredos mais sombrios. Colby era de formação católica e achava que a CIA só iria se salvar se confessasse todos seus pecados, conforme seu necrológio.

No dia 27 de abril de 1996 foi encontrado afogado em um afluente do rio Potomac.

A morte dividiu a própria família. Em 2011, um de seus filhos, Carl Colby, produziu um documentário, “O homem que ninguém sabia”, mostrando o pai cheio de culpa por suas ações na guerra do Vietnã e cuja vida adabou quando deixou a CIA em 1975. Sugeria que teria se suicidado. O laudo policial não permitia ir nessa direção. O filho mais velho, Jonathan Colby discordou do irmão.

A indústria do crime

É possível que tenha sido vítima de um AVC ou um ataque cardíaco e tenha se afogado. Para nosso caso interessa saber que, desde 1974, já se sabia de armas que permitiam assassinar pessoas e simular ataques cardíacos. É evidente que essa tecnologia não ficou, desde aquela época, restrita à CIA.

Conforme vimos mostrando em várias reportagens, Bolsonaro é apoiado pelo que existe de mais barra-pesada na indústria da contravenção internacional e nas organizações criminosas internas.

É cedo para avançar em qualquer conclusão. E há circunstâncias que reforçam a ideia de morte natural. Em todo caso, a morte de Bebianno é um capítulo a mais na tenebrosa história do país rumo à era do crime institucionalizado.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A farsa da fakeada continua sem nenhuma investigação



Xadrez da facada de Adélio, o enigma político da década, que permanece sem solução


A facada de Adélio Bispo Oliveira  em Bolsonaro ainda é um mistério à procura de uma explicação. É o fato político mais importante da década, porque viabilizou uma mudança radical na política brasileira.

Os efeitos políticos da facada nas eleições eram tão óbvios que, no dia seguinte, Bolsonaro já havia se tornado o franco favorito.

Seria possível simular um atentado tão arriscado, a ponto de a vítima correr um risco de vida calculado para viabilizar um projeto político?

Há duas versões para o atentado.

  • A versão oficial é que um sujeito, desequilibrado óbvio, decidiu matar Bolsonaro e foi mal-sucedido.
  • A versão conspiratória é que foi um ato planejado visando garantir a vitória eleitoral de Bolsonaro.
Bolsonaro comparecia a todos os eventos com um colete à prova de balas e de facadas e tinha uma cirurgia marcada, para remover um câncer. Portanto, bastaria simular a facada, conduzir Bolsonaro com segurança a um hospital local e depois transferi-lo para um hospital em São Paulo, para efetuar a cirurgia contra o câncer.

Após o atentado circularam vídeos pelas redes sociais mostrando a extraordinária desenvoltura com que Adélio infiltrou-se pela multidão e passou pelos seguranças até enfiar a faca em Bolsonaro.

Há um complicador nessa versão: o fato de duas equipes de hospitais conceituados, a do Sírio Libanês e a do Alberto Einstein. Ambas foram a Juiz de Fora e Bolsonaro optou pelo atendimento no Alberto Einstein.

Há uma explicação para o ferimento: a de que a faca resvalou por uma brecha no colete, ferindo efetivamente Bolsonaro. O que seria, nessa versão, um acidente de percurso.

Entre essas duas hipóteses, há uma série de evidências que não batem com a versão do crime comum bancado por um psicopata.

São os seguintes fatos.

  1. A ida anterior de Adélio ao Clube de Tiro frequentado por Eduardo Bolsonaro.
Como um sujeito limítrofe, que trabalhava em um açougue, localiza o clube de tiro em Santa Catarina e vai até lá. E vai para quê? Até agora não houve uma resposta satisfatória.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foi até lá combinar os detalhes do atentado: 70% de probabilidade
  • Hipótese 2 – Foi até lá para conhecer o ambiente de treinamento do filho de Bolsonaro, sabe-se lá para quê: 30% de probabilidade
  1. A ida de Adélio à Câmara Federal para uma visita a um deputado do PSOL.
O sujeito, que hipoteticamente planeja um crime de repercussão nacional, vai até a Câmara e deixa um registro oficial de visita a um parlamentar do PSOL. Depois, se descobre que ele nunca teve nenhuma relação com o PSOL.

Análise de probabilidade:

  • Hipótese 1 – foi com a intenção de criar um falso vínculo com o PSOL para estabelecer uma motivação política para o atentado: 50% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – tinha uma simpatia política pelo PSOL: 50% de probabilidade.
  1. O papel dos advogados de defesa.
Da noite para o dia aparecem advogados de Belo Horizonte, indo de jatinho a Juiz de Fora, para defender Adélio. Fazem mais do que isso: isolam-no completamente de qualquer contato com a imprensa. E demonstram tal influência, que conseguem manter o isolamento total até hoje.
Ou foram bancados por grupos bolsonarista, visando manter Adélio a salvo da óbvia falta de vontade de cobertura da mídia; ou por grupos ligados à Igreja de Adélio, que jamais foram identificados.
Tempos depois, o deputado federal Fernando Francisquini, uma das pontas de lança do bolsonarismo, entrou com ação na Justiça para impedir Adélio de dar uma entrevista.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foram bancados por grupos bolsonaristas: 70% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – foram bancados por grupos que queriam a morte de Bolsonaro: 25% de probabilidade. Se houvesse qualquer indício de conspiração contra Bolsonaro, não haveria como não ser descoberta.
  • Hipótese 3 – foram bancados por grupos ligados à igreja de Adélio: 5% de probabilidade.
  1. O papel da Polícia Federal.
As investigações concluíram pela ação individual de Adélio. Bolsonaro reagiu com fúria, não aceitando as conclusões do inquérito – mas nada fez para avançar nas investigações.

Não bate. O presidente controla completamente a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Qual a razão, até agora, para jamais ter se chegado aos financiadores dos advogados de Adélio? Respeito às prerrogativas de advogados? Com Sérgio Moro? Conte outra!

O carnaval de Bolsonaro, exigindo novas investigações, criticando o fato de não se chegar aos financiadores dos advogados, não bate com o poder de polícia quase ilimitado de seu Ministro da Justiça. Se houvesse vontade política, o caso seria resolvido e a identidade de quem contratou os advogados seria levantada em dois tempos. E não haveria nenhuma força oculta capaz de demovê-lo dessa empreitada. Não se levantaram os nomes dos responsáveis porque não é de interesse de Bolsonaro levantar. Simples assim.

A versão da conspiração contra Bolsonaro seria muito complexa de administrar porque envolveria outros personagens e situações, incluindo inúmeras variáveis que poderiam ser desmentidas, em qualquer falha de narrativa. Apontar Adélio como único responsável resolveria a questão e mataria qualquer tentativa de aprofundar o inquérito.

Análise de probabilidade.

  • Hipótese 1 – ocultar as motivações políticas pró-Bolsonaro: 70% probabilidade.
  • Hipótese 2 – aceitar como verdadeiras as conclusões do inquérito, de ação individual de um alucinado: 30% de probabilidade. `
Pode ser que tudo não passe uma teoria da conspiração. Mas a sucessão de fatos sem respostas sugere que há mais segredos entre o céu e a terra do que supõe a vã teoria dos idiotas da objetividade.

sábado, 23 de novembro de 2019

O fascismo caminha em marcha acelerada


Xadrez da marcha acelerada para o fascismo


O fascismo caminha em marcha acelerada.

Há possibilidade, dentro em breve, do Brasil se transformar no caso mais emblemático, por selvagem, das ditaduras de direita que passaram a proliferar pelo planeta. E não há sinal da resistência das instituições.

São nítidos os sinais de agravamento do clima político.

Peça 1 – O Partido 38 de Bolsonaro

A partir de sua formalização, haverá a articulação nacional e a ampliação das milícias armadas espalhadas pelos quatro cantos do país. A violência difusa se tornará articulada.

Reedita-se o fenômeno das SSs nazistas. No início, era uma organização paramilitar incumbida de proteger as lideranças nazistas, mas já tendo como método infundir terror nos adversários. No auge do nazismo, as SSs chegaram a ter um milhão de filiados e passaram a controlar a Gestapo, a polícia, os serviços de inteligência. Moviam-se pela bandeira única de exterminar as minorias, políticas ou étnicas.

Só um cego absoluto para não enxergar esse modelo, dos camisas negras do fascismo, na construção do Partido 38 de Bolsonaro.

Peça 2 – a distribuição de armas

Além das milícias propriamente ditas, há ampla aceitação de Bolsonaro entre os seguintes grupos armados:

  • Baixa patente das Polícias Militares em vários estados.
  • Clubes de tiro
  • Ruralistas
  • Desajustados de toda espécie, organizados em torno de grupos de “cidadãos de bem”, espalhados por todo o país, com apoio das Igrejas evangélicas.

Desde o primeiro dia de governo, Bolsonaro tratou de ampliar o armamento para a população. Ou através de medidas econômicas, como a liberação da importação e do porte de armas. Ou através de manobras explícitas pró-contrabando, como foi o caso de sua ofensiva sobre a fiscalização no porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, entrada principal das armas no país.

Peça 3 – Aparelhamento das instituições

Existe ampla simpatia por Bolsonaro nas principais instituições do país, Judiciário Estadual, Federal, Eleitoral, Ministérios Públicos, Justiça Eleitoral, Polícia Federal e associações empresariais em geral. O novo partido irá dar organicidade a essa atuação.

Atualmente, já está em curso um amplo lawfare contra críticos do governo, denúncias e ações a granel, tanto no âmbito do Judiciário quanto dos Conselhos profissionais da Justiça e do Ministério Público. Há juízes, procuradores, delegados da Polícia Federal, uma minoria legalista submetida a constrangimentos e ameaças de sanção.

Peça 4 – a blindagem de Bolsonaro

O caso Marielle é o exemplo mais escarrado da manipulação dos principais órgãos de controle do país – do Ministério Público e Polícia Federal à mídia. No caso da mídia, tenta-se um equilibrismo temerário, de acuar Bolsonaro sem ir às últimas consequências.

Em suma, com o Partido 38 Bolsonaro começa sua Marcha Sobre Brasilia – repetindo a Marcha Sobre Roma que consagrou Mussolini como o imperador da Itália. A última barreira é a investigação sobre a morte de Marielle Franco. E, no momento, o inquérito está sendo alvo de uma manipulação escandalosa e aceita como natural pela imprensa.

O depoimento do porteiro do Condomínio, que registrou a entrada de Élcio Queiroz na casa de Bolsonaro, foi manipulado publicamente. Antes mesmo de analisar o inquérito, o Ministro da Justiça Sérgio Moro ameaçou invocar a Lei de Segurança Nacional contra o porteiro. A revista Veja o expôs de forma temerária. E a Polícia Federal o interrogou de forma intimidatória, para que revisse sua declaração inicial. Procuradores do Ministério Público Estadual trataram de desqualificar o depoimento, com uma falsa perícia no equipamento.

Finalmente, os jornais escondem o fato central de toda a investigação: na hora em que Élcio e Ronnie Lessa se reuniam no Condomínio, o vereador Carlos Bolsonaro estava lá, conforme ele próprio mostrou, no segundo vídeo que gravou sobre o sistema de registro das chamadas do condomínio.

Lá, em um vídeo que o país inteiro assistiu, ele mostra que às 17:58 horas estava de saída do condomínio e pediu um Uber que foi busca-lo. Se Élcio chegou às 17:10, é óbvio que ficaram ao mesmo tempo no condomínio por no mínimo 48 minutos.

Inexplicavelmente, no seu balanço sobre o caso Marielle, a Folha teima em ignorar uma informação pública.

Segundo a matéria:

Onde ele estava naquele dia?

Segundo o Diário da Câmara do Rio, Carlos participou de sessão no plenário e votou em um projeto por volta das 16h30. A sessão terminou às 17h30, mas não é possível precisar o horário de saída do vereador. Nesta faixa de horário, leva-se de 45 minutos a 1h40 para percorrer o caminho entre a Câmara e o condomínio de Bolsonaro na Barra da Tijuca. Assim, seria improvável que Carlos estivesse em casa quando Élcio chegou ao condomínio, por volta das 17h10. No mesmo dia, Carlos também fez um post nas redes sociais em que dava uma entrevista no seu gabinete para a Federação Israelita.

Se o vídeo apresentado por Carlos era, de fato, do dia 14 de março, dia da morte de Marielle, ele estava presente no condomínio no mesmo momento que os assassinos. Mais que isso, deixou uma sessão da Câmara exclusivamente para ir ao Condomínio e sair 48 minutos após a chegada de Élcio. Se ele comprovar que estava, de fato, na Câmara, significa que o arquivo do dia 14 de março foi manipulado. E aí as suspeitas voltam novamente para o pai Jair.

Como é que se ignora uma evidência desse porte?

O que parece estar em jogo é uma aposta temerária do mercado: manter Bolsonaro sob fogo brando enquanto o Congresso aprova as tais reformas e se concretizam os grandes negócios de Paulo Guedes. É uma aposta contra o demônio.

Ontem, Bolsonaro enviou ao Congresso um decreto estendendo o excludente de ilicitude a todo militar ou policial que matar em serviço. Se a onda de protestos que varre a América Latina chegar ao Brasil, seria um morticínio da população civil.

Provavelmente o caso Marielle é a última oportunidade para se barrar essa escalada para o fascismo à brasileira. Se as instituições falharem na apuração de um crime óbvio como esse, não haverá força que resista a Bolsonaro.

O que mais incomoda é que, no maior furacão, no momento mais decisivo da história do Brasil, esses movimentos recentes, que tiraram o PT momentaneamente do jogo político, não revelaram uma liderança de peso sequer. E o futuro da democracia continua a depender de um sapo barbudo que se tornou referência mundial dos direitos humanos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Bolsonaro é a própria personificação da estupidez do homem comum


Bolsonaro é a revanche do homem comum

Por Luis Nassif

A grande questão: existe bolsonarismo sem Bolsonaro?

O bolsonarismo é um agregado de grupos fundamentalistas, de evangélicos fundamentalistas, ultradireita terraplanista, lavajatistas, milícias do Rio de Janeiro, milícias digitais, uma massa disforme juntada apenas pelo cimento do antiesquerdismo e do antipetismo.

Está infiltrado nos Ministérios Públicos, na administração pública, nas polícias e na base das Forças Armadas, no meio empresarial, no Judiciário, especialmente entre juízes criminais, mas provavelmente não de forma orgânica.

Tem pontos em comum, que caracterizam como movimento:

– Crença de que não apenas o PT é comunista-revolucionário, como qualquer pauta identitária ou qualquer laivo de modernidade nos costumes.
– Crença em todas as fake news disseminadas, do Foro de São Paulo ao comunismo do Papa.
– Desconfiança absoluta nas instituições, especialmente no Supremo Tribunal Federal e na mídia. 

Anos atrás, bem antes da campanha do impeachment, quando o jornalismo de esgoto estava a pleno vapor, ouvi, em uma mesa de juízes estaduais de São Paulo, que Veja e Jornal Nacional eram dominados pelos comunistas.

Bolsonaro foi a expressão máxima desse estado de espírito, não por qualidade intrínsecas a Estadistas, mas pelo fato de representar a barbárie em estado puro.

A história do mito foi aceita sim. Bem antes da facada, tive a oportunidade de estar em alguns locais do interior que receberam ou receberiam sua visita. E o clima era de entusiasmo próximo ao paroxismo.

Lula era visto como o pai dos pobres. Bolsonaro é a própria personificação da estupidez do homem comum. Essa identificação direta de Bolsonaro com estúpidos de todas as classes sociais produz fenômenos de solidariedade inéditos. Quando seu despreparo é destacado, o bolsonaristas comum se sente pessoalmente atingido. Quando um ignorante bolsonarista é desqualificado por um especialista, todos os ignorantes bolsonaristas se sentem atingidos, o ignorante empresário, o ignorante motorista de táxi, o ignorante classe média do interior. A ignorância gera o complexo de inferioridade mais universal que existe, porque pega todo tipo de pessoa, independentemente de sua classe social.

Quando Bolsonaro mostra saídas simples (e falsas) para os problemas nacionais, todos os ignorantes se sentem contemplados: não falei? É isso o que penso.

Esse simplismo mistificador é praticado, revestido do manto diáfano da fantasia, pelos procuradores da Lava Jato, por Sérgio Moro, pelo Ministro Luis Roberto Barroso, e por uma legião de oportunistas que valem-se do desmonte das instituições para lançar fórmulas salvadoras. 

Aqui em Montreal, conheci pesquisadores de porte investigando o fenômeno do “regressismo” no mundo e, particularmente, no Brasil. Não será difícil mostrar as relações de causa e efeito entre o “novo iluminismo” pregado por Barroso, e o seu resultado final, o “regressismo” atual no Brasil.

Por todos esses fatores, minha opinião é que o bolsonarismo não sobrevive sem Bolsonaro.

Quem seria o substituto? Dória, o almofadinha, cuja representação pública da violência são os chiliques e o menosprezo a tudo o que não seja Avenida Faria Lima? Wilson Witzel, que só conseguirá atrair sociopatas com seu o discurso da morte e da violência?

A única liderança capaz de substituir Jair Bolsonaro é Eduardo Bolsonaro. Mas Bolsonaro sem presidência será apenas uma milícia no Rio, com órfãos pelo Brasil.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A herança de ódio e sangue da Lava Jato


Luis Nassif

Lava Jato não foi apenas a operação que arrebentou com a engenharia brasileira, deixou milhões de desempregados, atuou politicamente, destruindo o sistema político e permitindo a ascensão da ultradireita – da qual sempre foi parte integrante, ajudando a organizar as milícias digitais.

Foi responsável pela consolidação do fascismo no aparelho repressor, do qual o fruto mais ostensivo foi a Operação Ouvidos Moucos, que levou ao suicídio o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier.

Na Folha de hoje, o filho do reitor, Mikhail Cancellier, relata a perseguição de que está sendo alvo por parte do procurador André Bertuol e da juíza Janaína Cassol Machado.

Para a Operação, a delegada Erika Melena requisitou mais de uma centenas de policiais de todo o país. Apresentou números altissonantes da suposta corrupção, R$ 84 milhões, dos quais se soube, que era o valor total do programa investigado.

Valeu-se para trás de um funcionário desequilibrado da UFSC, indiciado por violência do transito, que a Controladoria Geral da União colocou como um quase interventor na UFSC. De perfil violento, passou a perseguir alunos que se manifestavam nas redes sociais, delatou o reitor por supostas irregularidades nos programas de educação à distancia.

No fim, a acusação na qual se baseou a Polícia Federal e o MPF foi que o reitor tinha conseguido um empréstimo de R$ 7 mil reais de um colega professor, para ajudar a bancar as despesas do filho, que estudava fora. E o professor ministrou aulas no curso. Foi o que bastou para que se fizessem as correlações, conforme ensinado por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol na Lava Jato.

7 mil reais, um valor irrisório que se adequava muito mais à versão de empréstimo entre amigos, mas que foi transformado em lavagem de dinheiro por dois agentes da lei mergulhados na banalidade do mal. Foi o que bastou para que o reitor fosse levado preso, colocado nu, humilhado, deixando cicatrizes que o levaram ao suicídio.

Não apenas isso. Depois, os abusos continuaram na invasão da Universidade Federal de Minas Gerais, conduzida pela PF, ou na invasão pela Polícia Militar de mais de uma dezenas de campus universitário nas vésperas das eleições, em ação concatenada por juízes eleitorais, na Operação Carne Fraca. E todos eles têm a marca de Sérgio Moro, direta ou indiretamente.

Até agora as críticas têm se concentrado mais nos desastres macro conduzidos pelos procuradores, que atingiram políticos. Falta levantar os abusos da Polícia Federal contra seus próprios companheiros, que ousaram questionar a Lava Jato.

Durante algum tempo, a PF primou pelo profissionalismo. Há um corpo de delegados e policiais que prezam as investigações planejadas, a isenção, o profissionalismo, e que não se conformavam com o estilo rombudo da Lava Jato, valendo-se apenas de bancos de dados e de ilações vazias, em vez do trabalho de inteligência.

No Paraná, especificamente, os delegados que ousaram questionar os métodos da Lava Jato foram submetidos a perseguição implacável pelo time que Moro levou para Brasilia. Pressionou-se uma das prisioneiras para que delatasse um delegado crítico, que mostrara as vinculações da PF do Paraná com Aécio Neves. Outro delegado foi perseguido pelo relatório que produziu sobre o grampo na cela de Yousseff.

Eu mesmo depus como testemunha em um inquérito armado para apurar suposta “venda de dossiês”, na verdade reportagens sobre as relações de Rosangela Moro com a APAE do Paraná, que o GGN havia publicado em primeira mão.

Nomes como Erika Marena, Igor Romário de Paula, Maurício Moscardi Grilo, Márcio Anselmo, na verdade, se constituem em risco muito maior para a democracia do que procuradores deslumbrados. Eles investiram implacavelmente contra jornalistas, colegas e, especialmente, contra suspeitos, humilhados, apresentados à opinião pública algemados nas mãos e pés, produzindo autenticas farras com dinheiro público, para convocar centenas de policiais, fantasiados de guerreiros ninjas, para operações sem risco, na qual os suspeitos eram apenas professores universitários ou fiscais sanitários. Enquanto os verdadeiros policiais enfrentam os perigos reais, narcotraficantes, milícias, contrabandistas, sem reconhecimento e sem as facilidades desses heróis sem risco.

E é a eles que Moro conferiu o poder de conduzir a Polícia Federal.