quinta-feira, 28 de março de 2019

O silêncio dos bolsomínions


Leandro Fortes

Aos poucos, eles estão desaparecendo. Velhos amigos cheios de razão, parentes furiosos, vizinhos valentões, madames maquiadas de ódio, estão todos em silêncio, à beira do abismo.

Não há mais arminhas nas mãos, nem chola-mais nas redes. Até os kkkkk se escondem na timidez. Rufam, aqui e ali, uns poucos tambores de ódio pelas mãos de meia dúzia de fanáticos, mas nem os mais selvagens dos antipetistas encontram forças para defender o indefensável.

Não estão arrependidos, o arrependimento requer uma força moral distante da personalidade da maior parte dos eleitores do Bozo. Estão apenas paralisados, diante da sucessiva quebra de expectativas relacionadas ao admirável mundo novo que se anunciava.

Há superministros com superpoderes inúteis. Paulo Guedes faz mais grosserias do que contas. Sergio Moro, sabe-se agora, entrou no governo para tornar o cigarro mais barato. O primeiro, um Chicago Boy com 30 anos de atraso, o segundo, uma nulidade cuidadosamente construída para parecer um herói.

Há um ministro da Educação que cita Pablo Escobar. Outro, de Relações Exteriores, corrobora com a tese do nazismo de esquerda. A ministra da Mulher, ao pé da goiabeira, teme o que chama de "armadilhas do feminismo".

Não houve, a rigor, um único dia de governo.

Em meio a esse desalento, Bozo e os filhos continuam no Twitter, frenéticos, um esforço comovente para parecerem vivos, funcionais, sem entender que já estão mortos.

São burríssimos.

Vices nas crises recentes do Brasil

Vice

Veríssimo

Dan Quayle foi vice-presidente dos Estados Unidos na gestão do Bush pai. Não tinha credencial aparente para o cargo e era um político tão medíocre e inexpressivo que logo surgiu um boato: caso acontecesse alguma coisa com o presidente Bush, o Serviço Secreto tinha ordens para sequestrar Quayle imediatamente e mantê-lo escondido até que fizessem novas eleições. Quayle também mereceu uma frase solidária do Nixon, segundo o qual os medíocres do país também precisavam ser representados.

A história política do Brasil a partir de Vargas tem sido uma sucessão de crises de sucessão, com vices influenciando diretamente a confusão —Jango substituindo Jânio, governando sob tutela e, finalmente, abatido, os generais de 64 se sucedendo mutuamente, a melancólica figura de Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva, preparando-se para assumir a Presidência com a doença do general, uma ilusão que não durou 15 minutos, o Sarney substituindo o Tancredo Neves, o Itamar substituindo o Collor, o Temer substituindo a Dilma...

É sempre bom lembrar o que os vices significaram no nosso passado, e o que ainda podem aprontar no futuro. A perspectiva de sermos governados pelo general Mourão só obriga o Bolsonaro a zelar muito pela sua própria saúde, vacinar-se contra a gripe e controlar o colesterol. Se bem que há uma certa injustiça na reação ao que o general disse sobre a indolência dos índios e a malandragem dos negros, estereótipos antigos, simplistas, racistas e lamentáveis, certo, mas redimidos por uma triste realidade: grande parte da população branca do Brasil pensa a mesma coisa. E há os que veem na figura do simpático general uma alternativa para o presidente errático que ainda não acertou o passo.

Entre as conspirações circulando por aí, a mais bacana é a teoria do policial bom — o general Mourão só esperando a vez de substituir o policial mau, o Bolsonaro, que ninguém acredita que vá durar. Já estaria tudo combinado.

Botafogo da Odebrecht aposta tudo no confronto com a Lava Jato


A reforma vira o milagre da fé


O presidente da Câmara dos Deputados ouviu de um conselheiro ao pé do ouvido: "Dos três homens que mais ajudaram a pauta do mercado, dois (Michel Temer e Moreira Franco) foram presos e um terceiro (Romero Jucá) perdeu o mandato e está no mesmo rumo. Nenhum deles jamais recebeu uma nota de desagravo ou solidariedade dos titulares da pauta. É esse o caminho que você vai escolher?"

O ingresso de Rodrigo Maia na vida pública desautoriza a aposta no divórcio com os pauteiros. Estudante da Faculdade Cândido Mendes do Rio, Maia estreou no Icatu aos 23 anos. O pai, prefeito do Rio à época, queria o filho longe dos balcões da política, mas os chefes viram que o rapaz, estudante de economia de curso inconcluso, não dava para a coisa. Só tinha olhos em Brasília. Foi mandado pra lá e, da casa do presidente da Câmara, Inocêncio Oliveira, onde ficou em seus primeiros dias de capital federal, monitorava a movimentação do Congresso para o banco.

Rodrigo Maia não entrou em colisão com a pauta dos capitães do PIB. Estivesse, colocaria em votação o projeto que tributa fundos exclusivos de investimento e aquele que reonera setores beneficiados no governo Dilma Rousseff. Na audiência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado ontem, o ministro Paulo Guedes disse ser favorável a ambos. Renderiam R$ 18 bilhões por ano para o Tesouro, mas um e outro foram engavetados por Maia na legislatura passada.

Maia dobra aposta no divórcio entre o governo e a Lava-jato

O caminho que o presidente da Câmara escolheu trilhar foi o de atender seu tropa para enfrentar o embate com o governo e se firmar como primeiro-ministro de um governo em desvario. Para isso, atropelou todos os prazos regimentais para aprovar a proposta de emenda constitucional que estende, para as emendas de bancada, a execução impositiva já prevista para aquelas de parlamentares. A PEC compromete, com o novo gasto, 1% da receita corrente líquida, patamar que havia sido fixado em 0,6% na Lei de Diretrizes Orçamentárias.

O gasto, calculado em R$ 8 bilhões, está sujeito a cortes, mas sua aprovação, às vésperas do envio de um projeto de desvinculação do Orçamento, é um recado sem qualquer sutileza. O Brasil não começa nem acaba na Previdência. O Congresso também tem sua própria agenda, a de aumentar os recursos disponíveis para obras de interesse de parlamentares, a maioria dos quais desalojada da farta distribuição de cargos que, no governo Michel Temer, lhes permitiu intervir mais livremente na alocação de recursos.

Não foi um recado apenas para um presidente da República que começou no cinema uma semana imprensada entre duas viagens internacionais. Maia mirou também em seu companheiro de armas, o titular da Economia. No seu discurso de que a responsabilidade pela alocação de recursos seria dos parlamentares, noves fora, é claro, seu fantasioso trilhão, Paulo Guedes adota um tom parecido com o da garotinha do restaurante na crônica de Drummond. O maître avisou ao ministro que não é batendo o pé que os garçons da casa vão lhe servir a lasanha.

A proposta que constitucionaliza a execução obrigatória das emendas de bancada foi no rumo da apropriação do Orçamento pelo Congresso mas colidiu com a desvinculação orçamentária pretendida pelo governo, como o próprio ministro da Economia reconheceu ontem durante a audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Foi depois da articulação de Maia pela nota assinada por 13 líderes da base governista que Guedes cancelou a ida à Comissão de Constituição e Justiça. A nota, que reafirma apoio a "tão importante e necessária reforma", insurge-se contra mudanças no Benefício de Prestação Continuada, na aposentadoria rural e contra a desconstitucionalização generalizada da Previdência, mas não tem uma linha sobre o fim do abono salarial de 23 milhões de trabalhadores que recebem entre um e dois salários mínimos.

A reação nervosa da bolsa e do dólar ao embate crescente entre os Poderes obrigará o governo a buscar uma convergência com Maia. Quanto mais cresce, entre investidores, a impaciência com a inabilidade do governo em lidar com o Congresso, mais o presidente da Câmara lhes é estratégico. A Casa virou a meca de peregrinação de comitivas de investidores cuja arregimentação pela reforma, vai do patrocínio de campanhas nas redes sociais, seminários e pesquisas de opinião até a intermediação de encontros entre formuladores da proposta e jornalistas. É assim que os parlamentares são lembrados que a lei eleitoral mudou sem que os antigos financiadores tenham perdido sua capacidade de arregimentar apoio às causas da política.

Sem confrontar o mercado nem seu conselheiro, o caminho do Botafogo da lista da Odebrecht para evitar o destino de seus antecessores é o confronto com a Lava-jato. Cada vez mais próximo do presidente do Supremo, Dias Toffoli, e não apenas nas pautas de suas instituições, Maia parece disposto a dobrar a aposta no divórcio entre o governo e a turma de Sergio Moro como preço para a aprovação da Previdência. Pelo bate-boca de ontem entre o genro abalado e o desbocado chefe da nação, a reforma parece o verdadeiro milagre da fé, ainda longe da superação.

Bolsonaro não é um estrategista, é um imbecil sem qualquer projeto


Cada vez que leio alguma análise de alguém de esquerda dando às ações do Bolsonaro uma interpretação de extrema inteligência, morro um pouco por dentro. Não, amigos, o Bolsonaro não está mandando o exército comemorar o Golpe Militar por ser um grande estrategista que quer seduzir os militares que se opõem aos desmandos dele, ele quer a comemoração porque ele é um tosco mesmo.

Ele é um burro, um idiota. A burrice é seu maior defeito, e também sua maior aliada. Pois o discurso vago e raso é facilmente comprado por muita gente, pois se adapta a cada realidade e cada um dá a ele sua própria interpretação, seu próprio sentido. Ele “joga pra galera”.

O Bolsonaro é um burro. Um idiota. Um tosco. Um imbecil. E sua trupe também (filhos, ministros etc). A esquerda precisa entender isso de uma vez por todas, para saber usar a sua maior vantagem: a inteligência.

Temos que mostrar que o rei está nu, e não cair no jogo do discurso raso e ficar imaginando roupas para vesti-lo.

Nina Paduani

A cultura golpista é intrínseca à classe dominante brasileira

Cultura de golpe

Os banqueiros e seus amigos na política, que apostaram tudo em Bolsonaro, já começam a mostrar impaciência com sua incapacidade de aprovar essa trágica reforma da previdência no Congresso Nacional.

O mercado financeiro e a FIESP já falam abertamente em impeachment e no vice Mourão – o mesmo que defende o fim do 13º salário, o fim do adicional de férias, o fim da carteira de trabalho, o fim do Bolsa Família e o fim do aumento real do salário mínimo.

O vice, que a cada dia, parece mandar mais que o presidente, já incorporou o discurso e os interesses do Sistema – não importa se por ignorância, por ideologia ou por oportunismo.

Para os poderosos, Mourão seria a solução para aprovar essa reforma da previdência que vai acabar com a aposentadoria do povo.

Eles querem que o Brasil corte o pagamento dos aposentados e de outros direitos previdenciários para que o governo possa continuar transferindo recursos públicos para o setor privado, setor financeiro, diminuindo o Estado de proteção social, para mais a frente reduzir os impostos de quem já é muito, muito rico.

A cultura golpista é intrínseca à classe dominante brasileira. Impressionante!

Gleisi Hoffmann

Bolsonaro é um caso de interdição, não de impeachment



À primeira vista, a legislação brasileira pune com o impeachment apenas os casos de crimes de responsabilidade e não se presta, ainda, para punir com a perda de mandato um presidente que, às escâncaras, comete o “crime de falta de responsabilidade” ao exercer o cargo que o povo, por artes da Justiça e da mídia, lhe confiou.

Talvez fosse  aplicável uma extensão política do Código de Defesa do Consumidor, ao lidar-se com o caso de alguém que cumula várias infrações: propaganda enganosa, produto defeituoso, riscos à saúde pública e “venda casada” de diversas bugigangas instaladas na Esplanada dos Ministérios. Aí sim, a Constituição prevê remédio: até dois anos depois da trapaça, devolve-se o voto e o lesado pode escolher um novo, de outra marca.

O precedente mais adequado, porém, parece vir de um pequeno país, que incomoda Bolsonaro por nos ter exportado, ano passado, três carretas de banana: o Equador.

Foi lá que aconteceu, há 23 anos, a história de Abdala Bucaram, o  El Loco aí da foto,  eleito presidente e, seis meses depois, interditado como mentalmente incapaz pelo Congresso. Bucaram fez, também, uma campanha onde prometia acabar com a corrupção, tinha um filho, Jacobo, mandando no Governo e acusado de desvios de verbas. Bucaram, ao menos, não fazia “arminhas”, fazia “dancinhas” em shows de rock e em programas de televisão e ficou 20 anos foragido da justiça equatoriana.

Certamente mais manso, o equatoriano era menos perigoso, porque o nosso El Loco flerta descaradamente com a memória do autoritarismo e não se furta a incitar os militares a se exporem em louvações ao que eles próprios sabem já não caber nos tempos atuais.

Não é possível fazer oposição ao governo Bolsonaro, porque não há como se falar que, neste momento, exista um governo no Brasil, o que ainda existe é uma máquina administrativa que funciona, ainda que mal, apesar dele.

Do que se trata é de fazer uma política de contenção de danos, evitando que ele possa até isso destruir e serenar os ânimos no sanatório geral que ele mobilizou, em cordões de fanáticos, porque os loucos são magnéticos.

Machado de Assis, há 130 anos, ensinou em seu O Alienista: é internar Simão Bacamarte e libertar todos os outros, porque loucura foi entregar o governo aos loucos.

De pior a pior


Com quase três décadas na vida de parlamentar, Bolsonaro nada aprendeu
Janio de Freitas

Nas últimas 48 horas, a atmosfera esquentou no território da política muito além do agravamento esperado. As frentes de turbulências acirraram-se ao mesmo tempo. Como são muitas, formaram um todo capaz de prenunciar, ou mesmo de introduzir, um estado de crise aguda. Neste caso, uma situação que tanto pode se resolver em prazo razoável, como se estender com as características dos últimos meses.

O dia político se encerrou, nesta quarta (27), sem indício algum de ação eficaz do governo para recuperar alguma energia política. Tarefa que é pior para Jair Bolsonaro porque, além de sua falta geral de qualificação, em seu governo não há quem tenha a competência e a experiência para induzir uma acomodação dos desentendimentos. Na área oposta, há vários.

Nenhuma formação do Congresso aceita ser publicamente desprestigiada. Nos últimos plenários da Câmara, e em menor grau no Senado, houve sempre a reação da chantagem, sendo aumentado o pagamento a cada pacificação ilusória e temporária.

Com quase três décadas enriquecendo na vida de parlamentar, Bolsonaro nada aprendeu dela. Mesmo que a índole do atual Congresso venha a continuar a do antecessor, o que parece difícil, Bolsonaro recebeu-o e o manteve sob pontapés verbais sem ideia de como seriam recebidos. E a nova legislatura não estava disposta a desmoralizar-se logo de saída: os acusados de "velha política" decidiram mostrar novidades ao acusador.

Mais do que sucessivas derrotas, Bolsonaro foi posto sob desafio pela Câmara, com os 453 votos que aprovaram, contra míseros 6, o projeto que obriga o governo a liberar as verbas incluídas no Orçamento pelos congressistas. O projeto diminui muito os recursos financeiros do governo. Em termos políticos, reduz a compra de congressistas, cujas propostas de verbas dispensam o compra-e-vende com o governo.

Bolsonaro não esteve sozinho no agravamento das turbulências. Paulo Guedes e Sergio Moro deram as outras contribuições mais importantes. O ministro da Economia expôs o seu desprezo pelo Congresso, não pela primeira vez, mas como um insulto de alcance amplo. Mandar um assessor à Comissão de Constituição e Justiça, quando o convidado a falar da Previdência era ele, será inapagável por muito tempo.

Em seu favor, Guedes não tem nem sequer a imagem positiva como ministro da Economia. Está à vista de todos que, ou não sabe por onde começar, ou não sabe o que fazer. São três meses de imobilidade em um ministério que tomou muitas atribuições alheias, como se ansioso para enfrentá-las. Guedes também achou que o desprezível Congresso não seria problema, tratando-o com sua costumeira arrogância. À distância. Do alto. De onde está vendo o seu engano desastroso.

Moro engoliu o trompaço de Rodrigo Maia, mas a docilidade não lhe serviu. Maia não se mostra disposto a desgastar-se, e queimar seu futuro político, por domar a Câmara para Bolsonaro & cia. A motivação de Maia era outra, mas é hora, mesmo, de acabar com a redução da presidência da Câmara a coordenadoria de bancadas, para servir a governos ou a fins políticos. A presidência é da Câmara, é de tudo e todos que a componham, e nisso se destina servir a todos os que elegeram seus pretensos representantes. Maia, quando quer, sabe ser carne de pescoço —como, aliás, suas fotos informam— e agora quer.

Desses conflitos básicos saíram extensões e ânimos não extinguíveis por si mesmos nem atacáveis com a necessária competência política. Em meio ao tumulto, Bolsonaro sai para dar ajuda eleitoral ao seu congênere Binyamin Netanyahu. Aproveite enquanto pode.

Quanto custa o mito

Vinicius Torres Freire :
Bolsonaro não dá sinal de se importar com crise; mercado se irrita com Guedes
A pororoca no mercado financeiro parece feia, mas as baixas por ora são apenas espuma. A reincidência do governo em erros, despropósitos e arruaças é lama.

Menos de 24 horas depois de ficar explícito que não dispõe de coalizão partidária para sobreviver no Congresso, Jair Bolsonaro voltou a provocar parlamentares e discórdia. Em entrevista na TV, fez comentários de escarninho colegial sobre o presidente da Câmara. Em resposta, Rodrigo Maia (DEM-RJ) disse que Bolsonaro está "brincando de presidir o Brasil". Nas redes insociáveis, voltou a incitar rixas ideológicas sinistras (1964).

No Congresso, não houve tentativa organizada de criar uma mesa de conversa para valer entre governo e parlamentares. No DEM, há gente empenhada em levar Bolsonaro para a luz mínima da política, como Ronaldo Caiado, governador de Goiás. Será um esforço em vão caso Bolsonaro não crie uma equipe, no governo e no Congresso, experiente e com poderes de organizar uma coalizão, o que significa ceder à "velha política".

Como se não bastasse, causou má impressão a audiência do ministro Paulo Guedes (Economia) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Para os senadores, mesmo os simpáticos a reformas, Guedes se comportou de modo "arrogante", "agressivo", "ignorante dos modos da política" e "desavisado" por levantar a hipótese de que pode deixar o governo caso as reformas sejam bloqueadas. Trata-se de possibilidade óbvia, mas isso não se antecipa em público.

No mais, gente da praça do mercado se irrita loucamente com Guedes porque o ministro "não controla" Bolsonaro. "O mito saiu caro", diz um financista.

A maioria dos preços desabou no mercado financeiro, em parte por reação estereotipada, em parte porque o clima na finança mundial não está bom, faz semanas.

Os maus humores podem se dissipar em dias, sem deixar efeito na economia real, mera espuma. Mas a persistência de condições financeiras degradadas por uns dois meses deve multiplicar vetores de estagnação.

Por exemplo, a confiança de empresários e consumidores está em queda, provavelmente devido à frustração das promessas de recuperação econômica. O tumulto político pode engrenar um círculo vicioso.

É difícil entender ou encontrar alguém que explique os objetivos de Bolsonaro.

Um general conselheiro acredita que o presidente espera com otimismo exagerado ver o Congresso "se dobrar às necessidades do país", mas que vai se tornar mais maleável aos poucos.

Visto de fora, Bolsonaro e seu núcleo puro, filhos e assessores, não parecem diferentes da campanha: vieram para "quebrar o sistema". Trata-se de uma crença rude, entre fantástica e autoritária, de que governará "fora do mecanismo", apoiado por pressão popular permanente.

A paranoia parece, no entanto, agravada, em particular pela opinião pública de elite cada vez mais favorável ao vice-presidente, Hamilton Mourão.

Por ora, não parece haver força que demova Bolsonaro. No Congresso, não há ordem, recursos ou impulsos para tirar a política do impasse, o que em tese não é difícil.

Não há racha essencial na elite econômica, que quase toda colaborou com a vitória de Bolsonaro, na crença de que o capitão seria "business as usual", com um tempero amargo de ferocidade inócuo em termos materiais, "reformas" etc.

Assim, um mero acordo de divisão de poder do governo com alguns partidos resolveria a parada. Mas Bolsonaro acha que é uma revolução 

Cigarro brasileiro não dá câncer, diz Moro


Fui precipitado ao julgar as intenções do ministro Moro na questão dos cigarros. Foi o que concluí ao ler a manchete "Moro defende redução do imposto de cigarros e diz que foco é saúde". Pensei que o corte camarada dos impostos era um mole para a indústria do tabaco. Não, nada disso. O foco é a saúde do fumante! Com o cigarro mais barato aqui dentro, acredita-se que as pessoas vão fumar mais o produto nacional, evitando o que vem do Paraguai. Como não pensei nisso antes? Claro, o cigarro paraguaio dá câncer mas o brasileiro não dá! É até bom para a saúde dos brônquios, cura asma e enfizema! Ainda bem que existe o Moro para zelar pela nossa saúde...

quarta-feira, 27 de março de 2019

Sérgio Moro quer aumentar a mortalidade para cortar gastos públicos



Quando li a matéria sobre Sérgio Moro instituindo grupo para discutir a redução dos impostos sobre o tabaco, me lembrei logo dos "causos" inusitados na época da Lei Seca, que faziam exatamente o que pretende Moro: tratar unha encravada cortando fora o dedo. Não lembra? Segue o fio:

Pouco depois que foi instituída a Lei Seca, o Ministério da Saúde começou a receber cartas inusitadas. Numa delas, uma das associações de portadores de hepatites questionava a lei, por diminuir o número de Fígados disponíveis para transplantes!

Em outra carta, entidades que representavam o setor de órteses e próteses também questionavam a Lei, dizendo que iria reduzir a demanda do setor, gerando impacto na economia, afinal, menos pessoas iriam depender de cadeiras de rodas e muletas, já que se acidentariam menos.

Estão percebendo como é a lógica? Para manter a indústria de órteses e próteses de vento em popa, ou a disponibilidade de fígados para transplante crescente, essas entidades pouco se importavam com os mortos por acidente de trânsito, ou com os sequelados por eles!

Essa é a MESMA lógica de dizer que vai combater o contrabando de cigarros reduzindo a taxação! LITERALMENTE A MESMA! Você pouco se importa se a Ciência em TODO O MUNDO tem toneladas de dados provando que AUMENTAR A TAXAÇÃO do cigarro tem um ENORME impacto ECONÔMICO e de saúde!

Estima-se que são gastos ANUALMENTE 1 TRILHÃO de dólares em todo o mundo com gastos em saúde e impactos de produtividade decorrentes do tabaco. Apenas!

As mais recentes diretrizes (publicadas na semana passada!) da American Heart Association para prevenção primária de Doença cardiovascular elege a CESSAÇÃO do tabagismo com uma das medidas MAIS EFETIVAS para reduzir o risco de morte por Infarto ou Insuficiência cardíaca!

Quando tivemos o fim da propaganda de TV dos cigarros, o número de brasileiros fumantes caiu em pouco tempo em 33%, gerando uma ECONOMIA enorme para o SUS e gastos de saúde em geral, principalmente o "out-of-pocket", ou seja, desembolso direto do paciente  com medicamentos.

E o que diz a OMS sobre a questão do contrabando? "O Protocolo da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da OMS para Eliminar o Comércio Ilegal de Produtos do Tabaco aplica ferramentas, como um sistema internacional de rastreamento, para proteger a cadeia de fornecimento de tabaco. A experiência de muitos países mostra que o comércio ilícito pode ser combatido com sucesso, mesmo quando os impostos sobre o tabaco e os preços são aumentados, resultando em um incremento das receitas fiscais e redução do uso."

Seu Moro, não é o senhor que vai assinar o atestado de óbito dos pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva, Câncer de pulmão, Infarto, Insuficiência Cardíaca, Dissecção de aorta e tantos outros desfechos (leia-se: causas de morte). Tenha mais responsabilidade!

Renuncia, Vélez!

"Nós vamos ai comer vocês. Ele segura e eu como.", diz desembargador a juízas

Bolsonaro passou a apostar no caos


Moisés Mendes

O CAOS DELIBERADO

Circula desde a semana passada a teoria de que Bolsonaro passou a apostar no caos deliberado. 

Sem competência para governar, sem respaldo dos militares, sob pressão do Congresso (ontem a Câmara engessou os investimentos previstos em Orçamento), com Rodrigo Maia enfraquecido como mediador, sem apoio popular (como dizem as pesquisas) e sem perspectiva de reação, Bolsonaro estaria diante de uma única saída: apostar na confusão como solução.

E que solução seria esta? Os Bolsonaros (dizem que o pai e os filhos) apostam que é possível arriscar a fazer o que Jânio tentou e não deu certo: advertir o país de que há uma conspiração da velha política contra as boas intenções do bolsonarismo e assumir o controle de tudo a ferro a fogo, enquanto exaltam os feitos do golpe de 64.

O problema é saber se há ferro e fogo e se o bolsonarismo ainda existe, se é que existiu um dia como fenômeno com base popular consistente.

Que povo iria se mobilizar em defesa de Bolsonaro, como prega o filho Carlucho?

O povo está sabendo que, na hora do aperto, Bolsonaro vai ao cinema.

Anarquia em Brasília


Não há governo

Vinicius Torres Freire
Rebelião na Câmara empareda governo, reformas naufragam, há anarquia em ministérios
O Congresso está à deriva, no que diz respeito aos interesses do governo. Alguns ministérios implodem em anarquia vexaminosa. A Câmara aprovou uma pauta-bomba nuclear, que na prática impede o governo de conter déficits —falta apenas a aprovação do Senado. Manter o teto de gastos talvez agora dependa da paralisação de parte da máquina pública.

Sem o serviço de bombeiro em tempo integral de Rodrigo Maia, foram detonadas várias bombas. Nada mais se pode dizer do que será feito da política e, pois, da economia, pois Jair Bolsonaro se omite, quando não agrava a crise.

No Congresso, havia ameaças de derrubar decretos do governo ou de chamar ministros às falas. Tudo isso, porém, virou picuinha, pois à noite a Câmara aprovou emenda constitucional que impede o Executivo de cortar certas despesas (como investimentos e emendas parlamentares).

Em menos de duas horas, maioria massacrante de deputados votou em dois turnos uma PEC que vai emparedar o governo, caso seja aprovada também no Senado.

De manhã, lideranças de partidos que juntam uns 300 dos 513 deputados até propuseram um novo pacto, mas com uma faca no pescoço do Planalto. Podaram da reforma previdenciária as mudanças nos benefícios para idosos muito pobres (BPC) e na aposentadoria rural. É um adeus para o trilhão de reais de economia em uma década, plano do ministro Paulo Guedes (Economia). Mas os deputados disseram ao menos que aceitam conversar, nessas novas bases.

O governo, porém, não tinha ordem ou capacidade nem de reagir a esse manifesto que na prática junta a Câmara inteira, afora oposição, o PSL e uns gatos pingados.

Os deputados não querem levar a fama de esfoladores de idosos, ainda mais porque os atingidos pela barragem da reforma da Previdência andam nas calçadas em que ficam os escritórios regionais dos parlamentares. Querem dividir a conta com o Planalto. O governo não está nem aí.

Ainda nesta terça-feira de naufrágio, Guedes ouviu dos governadores que a reforma não anda sem que o governo crie um grupo de negociação, bancado por Bolsonaro. O ministro prometeu garantias para empréstimos estaduais, antecipação de receitas de privatizações e dinheiro do petróleo (royalties, participações e parte das concessões). Mas governador tem pouco voto no Congresso.

Vendo o tamanho do desarranjo, Guedes reuniu seu pessoal e o que resta de articuladores governistas a fim de nomear ao menos um relator para a reforma previdenciária. Não vai adiantar muito, pois a Comissão de Constituição e Justiça, onde a reforma tem de começar a tramitar, está em pé de guerra, interna e com o resto da liderança bolsonarista. O governo é omisso.

Deputados governistas faziam troça da desordem. "O cabaré pegou fogo e o Bolsonaro está lá resolvendo os problemas do Carluxo [Carlos, filho do presidente] na Secom [Secretaria de Comunicação] e recebendo o Flávio [o filho senador], que virou um zumbi", dizia um deles.

Um parlamentar próximo de Rodrigo Maia se dizia espantado com a ausência presidencial em assuntos críticos. Falava da anarquia no Ministério da Educação e o "risco" do Ministério do Turismo, "que está para explodir a qualquer momento". O ministro Marcelo Antônio é acusado de montar um esquema de candidatos-laranjas do PSL, na eleição de 2018.

Era difícil de entender se o governo espera um milagre, não entende a gravidade do vácuo ou quer um colapso, de propósito.

terça-feira, 26 de março de 2019

Toma que o filho é teu, Bozo

Alberto C. Almeida

ANÁLISE 

PROBLEMAS QUE BOLSONARO TERÁ DE RESOLVER, NÃO HÁ DELEGAÇÃO PARA LIDAR COM ELES


1 - Ministro do Turismo: por um fio de cair, terá de escolher outro;

2 - Ministro da Educação: está paralisado, não poderá continuar assim;

3 - Onyx: é rejeitado por seus ex-pares, e é o único ministro civil com gabinete no Palácio do Planalto;

4 - Líder do governo no Congresso: a falta de controle de Joice só aumenta os conflitos e cria mais arestas;

5 - Líder do governo na Câmara: é ingênuo e inexperiente, um ilustre desconhecido;

6 - Suspeitas que recaem sobre os Bolsonaro acerca do assassinato de Marielle;

7 - Cheque de 24 mil de Queiroz para a primeira dama;

8 - Queiroz, o braço direito, pode ser uma bomba relógio por causa de seus "rolos";

9 - Flávio Bolsonaro pode ser colocado no corredor do Conselho de Ética do Senado;

10 - WhatsApp pró-Bolso fora de controle.


Bolsonaro não tem uma entourage de confiança. Assim, não há como delegar. Ele próprio terá que lidar com estas situações. Ele não tem estatura para isso. Portanto, a entropia do governo tende a aumentar.

Canalha!


O Brasil teve dois presidentes que sofreram impeachment, a Dilma em bases completamente estapafúrdias, mas o crime de responsabilidade mais acintoso sob a égide da CF/1988 acaba de ser cometido por Bolsonaro ao incitar comemorações de um golpe que fechou o Congresso, torturou e matou cidadãos

Enquanto parlamentar, Bolsonaro até poderia ter imunidade ou licença poética para ecoar esses despautérios. Era parte da mesma democracia que ele despreza. Mas como presidente, sua conduta não tem guarida jurídico-institucional. Ao contrário, representa uma violação da lei e um ataque à nossa Carta política

Canalha!

Fábio Sá e Silva

Bostonazi pode ser cassado por festejar ditadura

NOTA PÚBLICA

É incompatível com o Estado Democrático de Direito festejar um golpe de Estado e um regime que adotou políticas de violações sistemáticas aos direitos humanos e cometeu crimes internacionais

A Presidência da República recomendou ao Ministério da Defesa que o aniversário de 55 anos do golpe de Estado de 1964 seja comemorado. Embora o verbo comemorar tenha como um significado possível o fato de se trazer à memória a lembrança de um acontecimento, inclusive para criticá-lo, manifestações anteriores do atual presidente da República indicam que o sentido da comemoração pretendida refere-se à ideia de festejar a derrubada do governo de João Goulart em 1º de abril de 1964 e a instauração de uma ditadura militar.

Em se confirmando essa interpretação, o ato se reveste de enorme gravidade constitucional, pois representa a defesa do desrespeito ao Estado Democrático de Direito. É preciso lembrar que, em 1964, vigorava a Constituição de 1946, a qual previa eleições diretas para presidente da República. O mandato do então presidente João Goulart seguia seu curso normal, após a renúncia de Jânio Quadros e a decisão popular, via plebiscito, de não dar seguimento à experiência parlamentarista.

Ainda que sujeito a contestações e imerso em crises, não tão raras na dinâmica política brasileira e em outros Estados Democráticos de Direito, tratava-se de um governo legítimo constitucionalmente. O golpe de Estado de 1964, sem nenhuma possibilidade de dúvida ou de revisionismo histórico, foi um rompimento violento e antidemocrático da ordem constitucional. Se repetida nos tempos atuais, a conduta das forças militares e civis que promoveram o golpe seria caracterizada como o crime inafiançável e imprescritível de atentado contra a ordem constitucional e o Estado Democrático previsto no artigo 5°, inciso XLIV, da Constituição de 1988. O apoio de um presidente da República ou altas autoridades seria, também, crime de responsabilidade (artigo 85 da Constituição, e Lei n° 1.079, de 1950). As alegadas motivações do golpe – de acirrada disputa narrativa – são absolutamente irrelevantes para justificar o movimento de derrubada inconstitucional de um governo democrático, em qualquer hipótese e contexto.

Não bastasse a derrubada inconstitucional, violenta e antidemocrática de um governo, o golpe de Estado de 1964 deu origem a um regime de restrição a direitos fundamentais e de repressão violenta e sistemática à dissidência política, a movimentos sociais e a diversos segmentos, tais como povos indígenas e camponeses.

Transcorridos 34 anos do fim da ditadura, diversas investigações e pesquisas sobre o período foram realizadas. A mais importante de todas foi a conduzida pela Comissão Nacional da Verdade - CNV, que funcionou no período de 2012 a 2014. A CNV foi instituída por lei e seu relatório representa a versão oficial do Estado brasileiro sobre os acontecimentos. Juridicamente, nenhuma autoridade pública, sem fundamentos sólidos e transparentes, pode investir contra as conclusões da CNV, dado o seu caráter oficial.

A CNV confirmou que o Estado ditatorial brasileiro praticou graves violações aos direitos humanos que se qualificam como crimes contra a humanidade. A igual conclusão chegou a Corte Interamericana de Direitos Humanos, ao julgar o caso Vladimir Herzog, em 2018. Também a Procuradoria Geral da República assim entende, conforme manifestação na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n° 320 e outros procedimentos em trâmite no Supremo Tribunal Federal.

De fato, os órgãos de repressão da ditadura assassinaram ou desapareceram com 434 suspeitos de dissidência política e com mais de 8 mil indígenas. Estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas foram presas ilicitamente e torturadas. Esses crimes bárbaros (execução sumária, desaparecimento forçado de pessoas, extermínio de povos indígenas, torturas e violações sexuais) foram perpetrados de modo sistemático e como meio de perseguição social. Não foram excessos ou abusos cometidos por alguns insubordinados, mas sim uma política de governo, decidida nos mais altos escalões militares, inclusive com a participação dos presidentes da República.

A gravidade desses fatos é de clareza solar. Mais uma vez, é importante enfatizar que, se fossem cometidos atualmente, receberiam grave reprimenda judicial, inclusive por parte do Tribunal Penal Internacional, criado pelo Estatuto de Roma em 1998 e ratificado pelo Brasil em 2002. Também à luz do direito penal internacional, os ditadores brasileiros cometeram crimes contra a humanidade. Essa Corte, porém, não pode julgar as autoridades brasileiras pelos crimes da ditadura, porque sua competência é para fatos posteriores à sua criação.

Festejar a ditadura é, portanto, festejar um regime inconstitucional e responsável por graves crimes de violação aos direitos humanos. Essa iniciativa soa como apologia à prática de atrocidades massivas e, portanto, merece repúdio social e político, sem prejuízo das repercussões jurídicas.

Aliás, utilizar a estrutura pública para defender e celebrar crimes constitucionais e internacionais atenta contra os mais básicos princípios da administração pública, o que pode caracterizar ato de improbidade administrativa, nos termos do artigo 11 da Lei n° 8.429, de 1992.

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão – PFDC, órgão do Ministério Público Federal, confia que as Forças Armadas e demais autoridades militares e civis seguirão firmes no cumprimento de seu papéis constitucionais e com o compromisso de reforçar o Estado Democrático de Direito no Brasil, o que seria incompatível com a celebração de um golpe de Estado e de um regime marcado por gravíssimas violações aos direitos humanos.


Deborah Duprat

Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão

Domingos Sávio Dresch da Silveira

Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Substituto

Marlon Weichert

Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Adjunto

Eugênia Augusta Gonzaga

Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão Adjunta

Diário do Capitão Pateta

Diário do Bolso

Diário, o dia 31 de março está chegando. Precisamos fazer uma grande festa para comemorar a Gloriosa! Eu já mandei que todos os quartéis comemorassem a data histórica. Mas os generais estão meio devagar. Dizem que a coisa tem que ser suave. Suave nada! Tem que ser festão!

Aqui no Brasil o pessoal fez um acordo de paz meio fajuto, que nem quando marido bate em mulher e os dois acabam se acertando. Mas agora chega dessa paz de covarde. A gente tem que mandar brasa! Aposto que o Toffoli vem pra festa. Até já planejei umas coisas.

Pra começar, vou encomendar uma estátua do Ustra. Já pensou, Diário, que lindo ia ser ele em frente a um torturado numa cadeira de dragão, tudo em bronze? Ou pode ser uma coisa mais moderna, que nem aquelas estátuas com água. Por exemplo, o Ustra podia estar afogando um barbudo num chafariz. Ou podia ser uma estátua com luzes. Tipo ele dando choques numa grávida. Uns fios luminosos em volta da mulher iam imitar a eletricidade. Maravilha!

Também pensei num baile de gala. Mas tem que ser diferente. Pensei em todo mundo entrar de cavalo. Só pra mostrar quem manda. Ia ser ruim de limpar o salão depois, mas tudo bem. É o preço.

Um torneio de tiro ao alvo é outra boa ideia. Podia se chamar Troféu Araguaia. E em vez de alvo a gente podia usar umas cabeças de guerrilheiros. De papel machê, é claro, que guerrilheiro está em falta.

31 de março de 1964...

Ah, Diário, se a gente pudesse voltar no tempo... Na verdade, esse é meu maior sonho: voltar para a década de 60. Naqueles dias homem era homem, mulher era mulher, tinha filme de bang-bang, todo mundo cantava o hino na escola, a imprensa não enchia o saco, existia comunista de verdade pra gente combater, e combater não era só no verbo, era na bala.

Que saudade, viu?

Vou te contar, Diário: no fundo eu sou um Simca Chambord. Só que com uma metralhadora no capô.

@DiariodoBolso

Pacote "Anticrime" de Moro deveria ser chamado de "Mais Mortes"


Nessa thread que segue, um breve jogo de sete erros do Pacote Moro, que está indo (por seus próprios deméritos) pra geladeira. Há razões bem mais consistentes para refutar o monstrengo, mas aqui só pra mostrar contradições, inépcias e atecnias.... E só algumas delas.

O projeto usa indevidamente e sem rigor técnico expressões jurídicas conhecidas, o que só virá a causar problemas: “insignificantes”, fora da concepção do princípio da insignificância; “revisão de condenação” (como resultado de recursos especial é extraordinário)...

A descrição de organização criminosa é tão mal redigida que chega a tipificar: a associação de 4 ou mais pessoas, estruturalmente ordenada com divisão de tarefas que .... seja de caráter transnacional (ou seja qualquer empresa)....

O efeito suspensivo a recurso pode ser dado se atendidas exigências CUMULATIVAS: a-) não ter propósito meramente protelatório e b-) levantar questão substancial que pode resultar em absolvição (se exige questão substancial, já é óbvio que não é só protelatório)....

Texto iguala consequências da reincidência (que é objetiva e provada com certidão) com a de “elementos que indiquem habitualidade”, que não é circunstância objetiva e mal exige prova. Juiz poderia assim aumentar pena e fixar regime mais severo só por indícios....

Exposição de motivos é quase toda baseada em “fatos notórios”, com rala doutrina e chega a dizer que o projeto não teria impacto financeiro: o aumento das prisões vai ser custeado como pelos Estados? Pela Fundação Lava Jato?

Entre as pérolas do projeto está também a providência de proibir a saída temporária de condenado em regime fechado por CRIME HEDIONDO e TERRORISMO, como se fosse um gravame. Mas a saída temporária na Lei de Execução é instituto apenas afeto ao regime semiaberto...

Moro usou o enorme volume de homicídios e sua pouca elucidação como pretexto para o Pacote Anticrime. Mas a primeira providência do Pacote é justamente aumentar a isenção de responsabilidade penal no homicídio. Poderia, então, mudar o nome para “Mais Mortes”...


Juiz em SP e escritor. Membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia. Autor de Entre Salas e Celas (Aut.Literaria) e Certas Canções (7 Letras).

A Revolução de 1964