Kennedy Alencar
O procurador-geral da República, Augusto Aras, não está à altura do cargo. Fazendo um papelão, preferiu se omitir ao dizer que retirada de presidente do poder se dá via Congresso. Não apenas. A Constituição permite que o procurador-geral da República denuncie o presidente por crime comum. Bolsonaro comete quase todo dia uma infração que pode ser enquadrada em crime de responsabilidade ou delito comum.
Segundo Aras, o presidente tem o direito de se posicionar contra o isolamento social e teria até o poder para mudar regra. Segue trecho da decisão: “As incertezas que cercam o enfrentamento, por todos os países, da epidemia de covid-19 não permitem um juízo seguro quanto ao acerto ou desacerto de maior ou menor medida de isolamento social, certo que dependem de diversos cenários não só faticamente instáveis, mas geograficamente distintos, tendo em conta a dimensão continental do Brasil”.
Se algo se provou correto, foi o distanciamento social. Um país continental como os EUA mostra que está funcionando. Aras age como engavetador-geral da República. Não dava para esperar nada de diferente de quem negociou a ida para o cargo atropelando a votação da própria categoria.
O jogo de brincar de política do Ministério Público Federal, especialmente de figuras pobres intelectualmente como Deltan Dallagnol mas sedentas de poder, acabou levando Bolsonaro a atropelar a lista tríplice da categoria e nomear um engavetador-gera da República. Essa lista foi respeitada nos governos Lula, Dilma e Temer. A Lava Jato, que tanto contribuiu para eleger Bolsonaro, recebeu uma banana do presidente por quem Dallagnol rezou na campanha.
Ora, bolsonaro contraria diretrizes de saúde pública do próprio governo ao dinamitar o distanciamento social e ao fazer propaganda enganosa sobre uma droga, a cloroquina. A imprensa americana publicou reportagens dizendo que um estudo brasileiro sobre cloroquina no Amazonas foi suspenso por causar arritmia cardíaca. A imprensa nos EUA é bem mais cautelosa ao noticiar a droga. Não há campeonato de reportagens contra ou a favor.
Trump e Bolsonaro tratam tal droga como a salvação da lavoura. Cometem um crime ao induzir as pessoas a achar que já haveria tratamento comprovado para curar covid-19. Não há. O que Bolsonaro faz no Brasil, ao defender cloroquina e dar exemplos contra o isolamento social, só desinforma as pessoas de modo irresponsável e ajuda a aumentar a tragédia que se abaterá sobre o país com o crescimento dos casos de covid-19.
Como diria o Romário, se Augusto Aras ficasse calado seria um poeta.

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