Luis Felipe Miguel
Nós, humanos, buscamos padrões e relações causais em tudo. Se uma pessoa doente toma uma substância e tempos depois está curada, atribuímos a cura àquela substância. Se um gato preto passa na nossa frente e depois acontece algo ruim, foi o gato que deu azar. Se eu rezo para ir bem num exame e sou aprovado, foi aquele deus que me fez passar.
Também tendemos a generalizar a partir da nossa experiência pessoal. Se estou cercado de fumantes saudáveis, posso achar que fumar não faz mal à saúde - mesmo que as estatísticas provem que aquele grupo é exceção, não a regra.
Muitas vezes, porém, há apenas uma coincidência. Em outras vezes, a relação é específica daquela situação e não pode ser generalizada.
A pessoa pode ter sido curada por outra substância que estava tomando em paralelo ou por remissão espontânea. Pode ser que a tal substância tenha efeito positivo em uma pequena quantidade de casos, e nenhum efeito ou mesmo efeito negativo em outros, de acordo com características diferenciadas dos pacientes.
O método científico existe para discriminar quais relações de causa e efeito são reais e qual o grau de generalidade pode ser atribuído a cada uma delas.
Não é perfeito, mas se aprimorou ao longo de séculos e hoje nos fornece um grau bastante razoável de segurança para descartar falsas associações. Ele serve para controlar nossos vieses.
Ninguém torce contra a descoberta de uma cura. O que se quer é evitar as consequências da aposta cega em um remédio errado. Vamos desperdiçar recursos escassos na produção de algo que pode não ser eficaz, vamos prejudicar a atenção aos doentes seguindo um tratamento que não se comprovou que dá certo, vamos relaxar as medidas de prevenção por acreditarmos falsamente que existe uma solução.
Só pesquisas feitas do jeito certo, respeitando o método científico, podem indicar quais são os tratamentos mais promissores.
Elas demoram um pouco mais, mas não há alternativa. Se fôssemos nos guiar pela pressa, devíamos ir na farmácia, fazer uni-duni-tê e proclamar o remédio vencedor. Bem rápido, sem dúvida, mas quase certamente ineficaz.
E lembrando: o que vale para a cloroquina, vale para a homeopatia.

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