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domingo, 2 de maio de 2021

Deputado Arthur Lira quer fraude, caos e golpe em 2022


Fernando Horta

Arthur Lira pautou a sandice do tal "voto impresso" que Bolsonaro e outros querem implantar no Brasil. Vi gente progressista defendendo esta bobagem. Vamos analisar aqui no fio os argumentos dessa gente e, ao final, mostrar porque é uma enorme bobagem. 

Em primeiro lugar, vamos deixar assentado algo que parece óbvio: não existe nada inviolável. Nem do ponto de vista físico, nem do digital ou lógico.

E vou deixar isso claro porque vamos voltar a esse ponto diversas vezes na argumentação. 

Quem acompanhou escrutínio eleitoral ao vivo sabe que mesmo ali fraudes se davam. Os partidos tinham que ter fiscais para CADA MESA APURADORA porque as ilegalidades eram absurdas. Desde mesário riscando votos válidos (para torná-los nulos) até mesário comendo votos de papel. 

Ou seja, a apuração manual em nenhum momento ofereceu 100% de certeza. Ocorre que ali a fraude (quando feita) era localizada, de pequena abrangência e, em sendo detectada, fazia a anulação da urna. Veja, e este ponto é importante, a fraude podia, no máximo, anular a urna. 

A urna eletrônica é um dispositivo físico, lógico e digital que conta com vários níveis de processos de segurança redundantes. Tomados separadamente, cada processo poder ser violado. Você pode romper a integridade física da urna. Você pode romper a integridade digital da urna. 

E rompendo a integridade digital (acesso) romper a integridade lógica dela (o programa). Depois, você pode alterar os dados dela e tentar reconstruir a integridade física e etc. Mas há dispositivos que vão deixar marcada essa violação e sinalizar pela anulação da urna. 

não tenho dúvida nenhuma que um monte de jovens gênios com tempo e disposição conseguirão entrar no programa da urna. Mas eles conseguirão ter acesso a ele? E conseguirão depois repor a integridade física? e conseguirão fazer isso dentro do tempo do protocolo administrativo? 

ou seja, não se trata de um "programa" inviolável. Trata-se de um dispositivo com processos redundantes de controle que estabelece um nível gigantesco de dificuldade para a fraude. E se ela acontecer é detectável. E se isso acontecer a urna (somente aquela) é anulada. 

Quem já foi mesário sabe que a urna não tem wifi, bluetooth ou outra entrada física aos seus dados. Sabe que no seu início e no seu fim de funcionamento são emitidos recibos com uma série de números que devem fechar indicando a correção do processo. 

Sabem também que o tempo entre o encerramento da urna e a inserção dos dados no sistema é cronometrado e tudo isso é controlado. Portanto, além dos protocolos físico, digital e lógico de segurança, há o protocolo administrativo-legal. São muitas etapas que juntas atestam a urna. 

Vamos falar da urna. O programa lógico é entregue, de tempos em tempos, para estudantes de universidade e quem mais quiser se habilitar para ser "testado". Teste Público de Segurança

Ou seja, o TSE disponibiliza o programa rodando num computador, com todas as entradas permitidas fisicamente e pede que quebrem o código e alterem a urna. Tudo isso como controle institucional. As falhas descobertas são arrumadas e controladas. 

É óbvio que só o programa é violável. Mas a urna NÃO É SÓ SEU PROGRAMA LÓGICO. E mesmo assim o programa lógico é testado e melhorado a cada ano. E isto é tudo o que um programa lógico pode oferecer de segurança. E se isso é bom para bancos e a NASA, acho que é para nós também.

Vamos falar da loucura do voto impresso. Primeiro ele se dará de forma AMOSTRAL. Ou seja, não serão todas as urnas que utilizarão o "controle" do voto impresso. E aí chegamos à primeira pergunta: quantas terão voto impresso de controle?

Vamos imaginar que seja 5% delas. Os paranóicos terão certeza que NESSES 5% NÃO HOUVE FRAUDE. Mas continuarão a vociferar pelos outros 95%. E assim com qualquer número que você coloque. A amostra nunca dará 100% de certeza sobre a eleição e só trará mais um nível de debate.

Mais ainda, segundo alguns, a pessoa votará na urna eletrônica e ela imprimirá um voto físico que após ser conferido será depositado na urna controle física. Imaginem a quantidade de bolsominion que vai votar em Lula e depois sair gritando na sessão com o impresso acusando fraude.

Vimos o que aconteceu em 2018. A propaganda de rede fazia com que os eleitores não soubessem de que estado era o candidato que queriam votar. Teve gente querendo votar no 02 lá no RS. Ao inserir o número do energúmeno lá aparecia outro candidato. Aí chovia gritos de fraude.

A conclusão é que o voto impresso dará milhares de motivos para os mal-intencionados alegarem fraude. Os vídeos de gente dizendo que seu voto é diferente do que apertaram na urna aparecerão aos milhares, e se colocará em xeque a lisura do processo.

Ao invés de segurança, o voto impresso nos dará mais um ponto para a fraude política das eleições, com milhares de fascistas alegando terem votado num candidato e mostrando o impresso em outro.

Agora vamos imaginar uma sessão correta. Em que tudo ocorra bem e os votantes sejam de boa fé. Basta um sistema para violar UMA URNA FÍSICA DE CONTROLE para colocar TODA A ELEIÇÃO SOB SUSPEITA. Agora imagina o nosso brioso exército transportando as urnas físicas por todo país...

Ao invés de ter que fraudar TODO UM COMPLEXO SISTEMA com proteções redundantes, basta fraudar UMA URNA CONTROLE. Ao invés de segurança, o voto controle impresso nos trará mais insegurança.

Mas como resolve esta insegurança? como tornar as urnas "auditáveis" APÓS a votação? Isso porque antes da votação TODAS AS URNAS SÃO AUDITÁVEIS. E a resposta é: não se pode tornar as urnas auditáveis após a votação.

Isso porque para se ter 100% de certeza o voto teria que ser individualizado. Ou seja, teria que ter uma tabela com o CPF de cada um e o voto que deu. E isso é não só contra a lei (do voto secreto) como também um perigo. Já pensou a milícia (que coincidência) com essa informação?

Já pensou o miliciano sabendo em que as pessoas na periferia o RJ votaram? O risco que essas pessoas estariam correndo? O risco de toda a eleição ser fraudada ANTES DA VOTAÇÃO?

Então coloque algumas coisas na sua cabeça:

1) a "urna eletrônica" não é só seu programa lógico. E ainda que se consiga invadir o programa lógico, existem outros processos de segurança, a começar pela inviolabilidade física da urna.

2) Qualquer sistema de "voto impresso de controle" trará mais insegurança e tornará a eleição mais facilmente fraudável. Isso para não falar nos fascistas mal intencionados que não se importarão em votar em outro candidato para acusar a urna de fraude.

3) Se alguém desconfia da lisura do TSE nas urnas eletrônicas, eu desconfio mais do "exército do Bolsonaro" carregando urnas e documentos eleitorais pelo país todo. O verde-oliva hoje tem a legitimidade de uma lata de leite condensado ou picanha e cerveja para na pandemia

4) Nada nos dará 100% de certeza. Nem o voto impresso dava. Tudo é uma questão de aumentarmos os controles e individualizarmos a consequência das fraudes. Hoje, qualquer problema em qualquer urna é rapidamente identificado e não mancha a eleição.

5) o voto impresso de "controle" só trará mais incerteza, maior facilidade de fraude e colocará TODA a eleição em dúvida. Hoje as fraudes eleitorais acontecem ANTES DA VOTAÇÃO E o que bolsonaro e os fascistas estão fazendo é desviar o foco dos esquemas de whatsapp e etc.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Bolsonaro mata. Bolsonaro é genocida. Mas não tire a responsabilidade de governadores e prefeitos.


Vamos fazer algumas comparações?

Veja o que faz um governo genocida. Os números se referem ao período de 13 a 19 de março, então quer dizer que tudo o que você achar ruim nesta thread, já piorou e vai piorar por conta de Bolsonaro. 
  • Uruguai: 10 mortos/dia, população 4 milhões, 2,5 mortes diárias/milhão de habitantes
  • Argentina: 132 mortos/dia, população 45 milhões, 2,9 mortes diárias/milhão de habitantes
  • Rio Grande do Sul: 279 mortos/dia, 11 milhões, 25,3 mortes diárias/milhão de habitantes 
  • Paraguai: 32 mortos/dia, população 7 milhões, 4,5 mortes diárias/milhão de habitantes.
  • Paraná: mortos/dia 220*, população 11 milhões, 20 mortes diárias/milhão de habitantes.
  • Mato Grosso do Sul, 35 mortos/dia, população 2,6 milhões, 13,5 mortes diárias por milhão de habitantes.
  • Bolívia: 16 mortos/dia, população 11 milhões, 1,5 mortes diárias por milhão de habitantes 
  • Amazonas+Roraima: 40 mortes/dia, população 4,5 milhões, 8,9 mortes diárias por milhão de habitantes.
  • Colômbia: 104 mortes/dia, população 50 milhões, 2 mortes diárias por milhão de habitantes.
  • Venezuela: 8 mortes/dia, população 29 milhões, 0,3 mortes diárias por milhão de habitantes. 
Bolsonaro mata. Bolsonaro é genocida. Mas não tire a responsabilidade destes governadores e prefeitos. Negacionista existe nas três esferas. 

Porto Alegre é o pior lugar do mundo para se estar hoje



O pior lugar do mundo para se estar na Pandemia de COVID é no Brasil.

O pior lugar do Brasil para se estar é na cidade que faz um alinhamento de negacionistas: Porto Alegre. Bolsonaro, Leite e Melo. 

Este alinhamento vai transformar Porto Alegre num cemitério a céu aberto.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Normalização




Sabe o que é "normalização"? É uma técnica discursiva que busca alterar o padrão de comparação da realidade de forma a tornar imperceptível ou "normal" algo que seria inaceitável e absurdo. Quer exemplos?

Mandetta foi normalizado por Pazuello.

Um ministro que desmonta o sSUS e defende a diminuição do estado de proteção pública à vacina seria considerado absurdo e inaceitável, mas é aceito e comemorado em comparação com um general genocida na Saúde. 

Um governador que oferece ração em farelo para a população pobre, que ordena a retirada de cobertores de populações em estado de rua no inverno seria considerado inaceitável a qualquer padrão social, mas é endeusado perto de um capitão negacionista e genocida. Vira quase um herói .

Uma empresa farmacêutica cobrar fortunas por uma vacina e ainda "vender a quem pagar mais" no meio de uma pandemia, seria considerado inaceitável e quebrariamos as patentes SE durante os últimos 20 anos não tivessem normalizado a exploração e o abuso via "propriedade intelectual".

Um policial matar uma criança negra com tiro pelas costas seria considerado inaceitável pela sociedade se pelos últimos 500 anos as populações brancas não tivessem normalizado o discurso do "negro ladino e violento", um selvagem inicializado que não aceita a moral social. 

Um homem matar uma mulher por rejeição sentimental ou por ciúmes não seria aceito se nossa literatura machista por mais de 2000 anos não tivesse relegado à mulher o espaço de submissão social e normalizado a violência como forma de ação social quando se trata de manter a "posse".

Um juiz julgar e condenar alguém sem provas não seria aceito pela sociedade se a mídia e determinados partidos políticos não tivessem criado a narrativa do "mal maior" (a corrupção). Aceitaram até um deputado homenagear um torturador estuprador em plenário, ao vivo. 

Miriam leitão sofreu destas violências por naturalização explicadas acima, mas se vendeu aos violentadores e integrou a normalização contra Dilma. Dilma sofreu TODAS, e o PSDB representa, incentiva e comemora TODAS acima. Dilma sabe que foi golpe e o PSDB continua a normalizar. 

domingo, 17 de janeiro de 2021

É hora

Fernando Horta 

Seria melhor que Bolsonaro seguisse o exemplo de Adolf Hitler e não o de Donald Trump.

Bolsonaro deve cair. Mais ainda, Bolsonaro precisa cair. A diferença entre um processo de impeachment há 3 meses atrás e um agora é colossal. Agora, Bolsonaro pode cair. E as razões para isto são várias. 

Bolsonaro não tem mais força para fazer as reformas que o capital quer. Gastou capital político numa velocidade maior do que poderia ganhar. O fascismo é um sistema de curta duração. Ele se consome em sua própria ignorância. Cada piada homofóbica, cada mentira em "live", cada mentira em rede nacional somou-se aos inúmeros indícios de crime de corrupção e à incompetência fascisto-militar em todas as áreas. O capital abandonou Bolsonaro enfraquecido. Sem utilidade, a elite sabe que é melhor livrar-se do entulho autoritário.

Os crimes de Manaus foram a gota d'água na classe média urbana. As cenas horrendas de mortos asfixiados pela negligência completa do governo federal foi o soco de empiria que faltava para uma boa parte sair do transe. Bolsonaro hoje não vale uma bicada de Ema, e com Trump ensinando o caminho da presidência à prisão, o restante de capital simbólico de Bolsonaro se foi.

O exército, que vinha rachando desde a demissão de Santos Cruz, percebeu que sai desta aventura completamente no chão. As suas "estrelas" (Mourão, Heleno e Pazuello) mostram ao Brasil que até mesmo para pintar meio fio, o custo para manter esta tropa de incompetentes é muito alto. Salvo os golpistas de sempre, o exército brasileiro não moverá uma palha por Bolsonaro. A última gota de brio na cara de qualquer oficial caiu com as transferências às pressas de bebês para que não morressem sem ar nos hospitais de Manaus.

Não é exagero dizer que se o país tivesse sido atacado militarmente, os danos seriam menores. São 205 mil brasileiros mortos, uma grande parte encharcados de cloroquina e ivermectina que Bolsonaro produziu, induzindo o Exército a cometer crime de responsabilidade. 

Os ofícios do ministério da saúde, CONFISCANDO seringas de empresas privadas e vacinas dos estados colocaram empresários e governadores em desespero ao perceberem que o autoritarismo parece se ser superado apenas pela ignorância deste governo. Hoje, Bolsonaro só é defendido por alucinados como Bia Kicis e Carla Zambelli. Nem mesmo os blogueiros, arregimentados pelo gabinete do ódio, estão ao seu lado. Foram deixados na estrada, como Bolsonaro ameaça fazer com Pazuello, colocando-lhe todas as culpas de um governo de apedeutas e perversos. Não há mais como esconder que as atitudes de Bolsonaro levaram o Brasil a ter 10% das mortes mundiais da pandemia, e com Guedes calado e suas promessas desfeitas Bolsonaro é um morto-vivo esperando que lhe empurrem para a cova.

A briga agora é saber quem será o "heroi" que matará o monstro. As elites apressam-se a aproveitar que Lula não está no país e a última imagem do PT é abraçado em acordos nada bons com Rodrigo Maia. O PSOL se apressa a buscar os flashes, vendo a derrapada petista e a proverbial verborragia sem efetividade de Ciro Gomes. Luciano Huck e Doria disputam com Maia que dará a última estocada no monstro moribundo. E, o mais importante para eles, quem tirará a foto já de olho em 2022.

Bolsonaro não durará muito. A dúvida é quem dará o último golpe. Talvez Mourão no intuito de salvar alguma oliva do uniforme verde-vômito que o exército passou a usar quando se ombreou com o fascista. Talvez a Globo e o garoto-propaganda dos institutos neoliberais tabatianos. Talvez Doria buscando a ressurreição do PSDB.

A verdade é que quem empurrar Bolsonaro ladeira abaixo unirá o país e deve ser o próximo presidente. Com a esquerda desbaratada, o neoliberalismo sente a oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada só. Neste momento, Maia articula-se para ser o cajado e o PT trabalha ardentemente para ocupar a posição de coelho. 

Quanto a Bolsonaro, seria melhor que seguisse o exemplo de Adolf Hitler e não o de Donald Trump. Para o Brasil seria melhor que Bolsonaro saísse da vida para entrar na (lata de lixo da) história. E ele tem armas de sobra para fazer o serviço. 

2021 nos fará sentir saudades da Peste Negra no século XIV...

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O ataque fascista em Criciúma

Fernando Horta

Sobre o incidente em Criciúma, fiz uma postagem relacionando com os grupos fascistas da região e gente zarolha veio tirar sarro. Então vamos falar sério

A polícia acredita que cerca de 30 pessoas participaram da ação que durou 1 hora e 45 minutos. Isso nos diz que são pessoas próximas, que convivem juntas e pensam da mesma forma. 

Isso porque as teorias de tomada de decisão mostram a dificuldade de os sujeitos acreditarem e confiarem nas atitudes dos outros em grandes números. Grupos de 2 ou 3 são ok. Grupo de 30 é extremamente complicado sem ligações muito mais próximas do que o intuito de roubar. 

Quem roubou não quis simplesmente roubar. Há o interesse pedagógico na cidade. Criar o medo. Assaltantes de banco não querem ser vistos atirando, não querem causar explosões, não querem colocar fogo em nada nem colocar gente de refém no chão. Aliás o intuito é roubar e sair. 
 
Uma ação espalhafatosa de uma hora e 45 min com fogos, explosivos, reféns pelas ruas e diversas vezes saindo do carro para dar tiros é uma ação para causar medo e dar um "recado" para a população. 

A polícia não sabe o quanto foi roubado mas foram encontrados 300 mil nos carros e mais 810 mil nas ruas. Imaginemos que levaram 10 vezes mais do que isso. Este dinheiro não pode ser gasto dentro do período de um ano sob pena de ser detectado. 

Assim, estamos tratando com um grupo que se conhece, convive junto e confia uns nos outros de 30 pessoas, com interesse de colocar medo além de simplesmente roubar e que saiba que só vai usar o fruto do roubo dentro de um ano ou mais. 

Além disso, fortemente armado, com treinamento e conhecimento no uso até de bazucas, carros de luxo para fuga e creio que as placas são todas falsas. 

Não eram, assim, simples assaltantes de banco. Queriam passar um recado. Não eram uma quadrilha, confiam e convivem uns com os outros a ponto de confiarem numa ação monumental destas. Tinham conhecimento e treinamento policial ou militar. 

Então juntem as peças.

Este tipo de ação é comum na história. IRA, ETA e etc. Levantar fundos para causas políticas é bastante comum. Meu palpite é que tais ações midiáticas vão aumentar em número e intensidade de agora até a eleição. 

E quem tem ligação com grupos paramilitares, na região sul, com interesse de gerar terror na região e com acesso a armamentos, treinamento e destemor (foram 1 hora e 45 de ação) com um enorme grau de confiança entre 30 pessoas? 

sábado, 15 de agosto de 2020

O contexto e a chantagem

Fernando Horta

Vi muita gente tentando explicar o ganho de aprovação do governo fascista de Bolsonaro. Primeira capa da Folha estampa que a aprovação dele “é a maior em todo o período”. O pessimismo tomou conta de todos que tenham qualquer traço de humanidade. E junto com o pessimismo, vieram algumas análises totalmente equivocadas a respeito da pesquisa.

O que significa o “aumento de popularidade” de Bolsonaro? Nada. Absolutamente nada para nós. Está em curso a maior ferramenta de chantagem das elites brasileiras. É mais importante compreender o PORQUÊ de a Folha colocar tal informação na primeira página, do que a informação em si. Contexto e chantagem. É disso que se trata.

Em primeiro lugar há que se ressaltar a metodologia da tal pesquisa. Foi feita com pouco mais de duas mil pessoas, entrevistadas por telefone em dois dias. Há meios estatísticos de se validar amostras pequenas, mas há também meios estatísticos de se esconder eventual deformação da amostra. Pesquisa são produto comercial, que adquirem valor ainda maior se forem feitas para medir questões de enorme interesse político. Eis o caso.

Vamos admitir que está tudo bem com a metodologia. É preciso contextualizar a pesquisa. Juntamente com a pesquisa, oito notícias importantes apareceram nos jornais. Primeiro, Paulo Guedes anunciou que vai privatizar “cinco ou seis” grandes empresas públicas. Em seguida o MP do Rio de Janeiro passou a investigar Carlos Bolsonaro que, ao que parece, é um “vereador adido diplomático em Brasília”. Ainda, o cerco se fecha sobre o esquema de “rachadinha” que enriqueceu o clã por décadas. Os filhos e as ex-mulheres-laranjas de Bolsonaro entraram na mira da justiça. O STJ pede revogação da prisão domiciliar do Queiroz e Gilmar Mendes deixa o papagaio mais um tempo em casa. Tudo isso no campo jurídico. Jurídico-político, claro.

Ao mesmo tempo o Ministério da Economia se desfaz. O time dos ultra-liberais, que tinha em Mansueto (o homem que criou a mentira das “pedaladas fiscais” contra Dilma) o grande nome, abandonou o barco e eles saíram dizendo para todos que “a economia não vai entregar nada”. Ou seja, a gestão Paulo Guedes naufraga até na visão “dos de dentro”. Na tentativa de conter o tsunami que se avizinha pós-pandemia, os militares passaram a lutar por um plano populista de recuperação. Essencialmente baseado na intervenção maciça do Estado. Crédito, obras públicas, controle do mercado e etc. Para os liberais, tanto Bolsonaro, quanto o plano militar são o inferno na sua terra ideológica. Eles estão fora. 

Guedes segura a batuta ainda por puro interesse argentário. Aliás, também foi noticiado que os tribunais superiores travaram as investigações de seus crimes. Na mesma onda das decisões político-jurídicas.

Então recapitulemos. Os filhos de Bolsonaro são atacados pela Justiça e Guedes é mantido intocável. Isso no momento em que Bolsonaro ameaçava um golpe no STF, como publicou a Piauí. As mesmas instituições que por décadas esconderam os crimes de FHC, Serra, Aécio e Alckmin e que promoveram devassas ilegais contra todos os petistas, voltam a utilizar dois pesos e duas medidas e fazer a política das togas e dos martelos.

Por outro lado, a imprensa passou quase 60 dias batendo em Bolsonaro. De repente, parou. Nos quase 60 dias de marteladas (não muito incisivas) o fascista perdeu apoio incessantemente. Era preciso que a Globo e os outros veículos monopolistas mostrassem a sua força frente à internet. Junto com o avanço das agressões da mídia monopolista brasileira, vieram as decisões de controle, banimento, prisão e desmonetarização dos canais de redes sociais que o bolsonarismo usava. Olavo de Carvalho foi atingido em cheio e parece que o blogueiro do Terça Livre passou a quarta preso.

Tão logo Bolsonaro calou a boca, a imprensa parou o ataque. Agora, ela apresenta os termos da chantagem.

O fato de a tal pesquisa ter saído na capa da Folha é bastante elucidativo. A grande imprensa está dizendo a Bolsonaro: “nós ainda podemos te sustentar ou te fazer cair”. Ao mesmo tempo. O nosso judiciário-político passa a fazer aquilo que desde 1988 faz bem: proteger as elites, assegurar seus projetos de poder e afastar as “ameaças”. A velha e boa luta de classes que o velhinho barbudo lá no século XIX denunciava.

O que está em curso é a maior focinheira que já se tentou colocar no fascista. As elites apertam juridicamente onde mais lhe dói, oferecem trégua no campo da comunicação, retomam a hegemonia através do ataque e banimento das redes fascistas e apresentam em primeira página o resultado da trégua: “a popularidade de Bolsonaro é a maior desde o início do seu governo”.

Pouco importa o resto. Todas as análises que não levarem em conta isto estão totalmente erradas. Sou dos que defendem que a eleição de Bolsonaro se deu por vilania e ignorância. Ou o voto dos perversos que enxergam nele a si mesmos, ou os ignorantes que não enxergam nada. A pandemia, contudo, tem mostrado que os efeitos práticos da vilania ou da ignorância são os mesmos e por isso, coloco-os todos no mesmo balaio dos culpados.

Vi muita gente escrevendo como “merecemos” o fascista e toda sua imoralidade e desumanidade. Muita gente dizendo que “o povo não aprende” e, de fato, isso, agora, tem pouca importância. Se a pesquisa está certa ou errada também importa pouco. O que se deve ter em mente é o contexto e a chantagem. Para o capital não é interessante destruir Bolsonaro porque abre-se porta inconteste para Lula. Na visão deles – porca e macabra – Bolsonaro é melhor do que Lula. Melhor por ser ignorante e incapaz. A violência que o fascismo dirige contra o povo pouco lhes importa. Lula sim é o alvo.

O “alvo”, porém, não pode ser descartado. Afinal, é através do balanço das forças que a balança mostra a sua eficácia. Além de acenar com a prisão dos filhos de Bolsonaro, com a destruição possível de sua popularidade e com a possibilidade de ataques incessantes ao fascismo, o complexo oligárquico composto pela mídia monopolista e o judiciário-político guarda na manga a carta Lula. Os julgamentos da suspeição marcados para antes da aposentadoria de Celso de Melo são uma espada no pescoço do fascista. Se ele resistir o mundo lhe cairá sobre a cabeça, e Lula lhe cairá na eleição. A chantagem é construir o inferno para Bolsonaro.

Caso o fascista se cale, ouça Guedes em tudo e se submeta, seus filhos serão poupados, Lula será mantido inelegível e Bolsonaro poderá sonhar com a reeleição. 

E tudo isso foi dito na capa da Folha de São Paulo. Basta saber ler.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Que morram todos!

Algum deles faria falta?

O grito que não cabe mais no peito

Por Fernando Horta

Ando afastado das redes sociais e da escrita e, por isso, peço desculpas. Não que eu ache que minha opinião mude alguma coisa no país perverso que nos tornamos, mas há um grupo de pessoas com alguma sanidade e um senso de humanidade que se sente completamente perdida e muito têm me dito que ler um texto crítico a este estado de coisas faz com que estas pessoas se sintam vivas. Faz com que se sintam capazes de seguir resistindo e faz com que mantenham a sanidade.

Chegamos a mais de 100 mil mortos e o governo comandado por militares argentários e um fascista insano diz: “vida que segue”. É bem verdade que a vida nunca foi um valor importante, nem para o exército e nem para o capitão-fascista. Mas dizer “vida que segue” é colocar esta abominação de governo num patamar de monstruosidade que jamais pensamos em vivenciar no Brasil.

E quando falo “jamais pensamos”, me refiro à população branca e de classe média urbana. Isto porque, a bem da verdade, as pessoas que vivem na periferia ou que tem a “cor errada” para o nosso país escravocrata convivem por décadas com um Estado que valora as mortes de forma positiva e suas vidas como um custo para o Estado. É o custo da bala que os mata e do burocrata que os transforma em números.

Este estado de coisas explodiu nos EUA, país mais racista do mundo. Aqui, a morte de dezenas de crianças com tiros pelas costas não coloca a sociedade em condição de acabar com a gangue que mais mata pessoas neste país: a Polícia Militar.

Em um país em que a vida nada vale, era de nada se esperar numa pandemia. Cem mil mortos pela gripezinha e o governo gastou 54% dos recursos destinados pelo Congresso. Isso, em qualquer parte civilizada do mundo, renderia impeachment. No Brasil, Maia e Alcolumbre protegem Bolsonaro tanto quanto seus generais asseclas com seus filhotes em cargos de confiança.

Todos são cúmplices neste morticínio que não se restringe apenas às áreas rurais. Indígenas estão morrendo e sequer o cuidado da burocracia – para os transformarem ao menos em números – este governo tem. Deliberadamente esconde números. Esconde os perigos da pandemia. Mantém a população mal informada e patrocina ações de incitamento ao fim do isolamento que – no fundo – significam o incitamento à morte. Nada de novo faz, contudo, o Exército brasileiro. Esconder mortos, enganar a população e proteger facínoras é expertise corrente dos nossos militares desde 1964, pelo menos.

O que espanta é o Parlamento. Certo que Maia e Alcolumbre servem de cães protetores do inferno que jogam a população brasileira, mas eu pensava o motivo disto. Aí, dei-me conta que toda pressão sobre Bolsonaro arrefeceu quando Guedes disse as palavras mágicas: “Vamos vender cinco ou seis empresas estatais no segundo semestre”. Neste governo cem mil vidas valem muito menos do que cinco ou seis empresas estatais a serem privatizadas. E tudo dá conta da morte de dispensáveis (nós, o povo) em troca do enriquecimento dos bilionários.

Esta situação me deprime, assim como deve fazer com toda pessoa que retenha um pingo de humanidade.

Dos monstros eu não esperava mais nada, até ver a notícia hoje de 110 mil crianças voltarão às aulas na região norte. Nos EUA vários estados declararam o fim do ano letivo e os que tentaram voltar no último mês estão apavorados com o contágio. No Brasil os filhos de militares seguirão protegidos que já o nosso “valoroso exército” (e pelo que ganham é realmente um valor alto) não vai consentir com o retorno das escolas militares. Quem volta é o filho do pobre. São os mesmos dispensáveis que morrem. E agora vemos que Bolsonaro trouxe a democracia à morte. Talvez dos 220 milhões de brasileiros, uns 20 milhões sejam defendidos pelo Estado de Bolsonaro. O resto, se morrer, “vida que segue”.

Uma coisa me chamou à atenção. Sou professor. Minha vida, minha formação e minha paixão é ensinar. Os professores que voltarem às aulas – mesmo com turmas reduzidas – terão contato diário com cerca de 120 pessoas. Isso é mais que médicos que não atendem em seus consultórios 120 pessoas por dia. É mais que um vendedor que não têm 120 compradores todo dia. É mais que burocratas que trabalham em andares de empresas que não tem 120 colegas por dia. Os professores do Brasil serão expostos a um nível de contágio semelhante aos médicos que trabalham em UPA’s e hospitais. Com a diferença que o governo não vai dar EPI ou qualquer proteção.

O genocídio agora será das crianças e dos professores. E até que morra um familiar dos generais canalhas que apoiam este governo ou um filho-fascista dileto tudo o que se espera do governo é “vida que segue”.

A situação é tão terrível que desejo, todo dia, que morram todos. O fascista, seus filhos e todos os que o apoiam. O cinismo do bom-mocismo não tem espaço mais quando atingimos mais de cem mil mortes e agora estes canalhas vão matar crianças e professores.

Que morram todos. Está na hora do “olho por olho, dente por dente”. Nos tornamos um dos lugares mais bestiais e monstruosos da Terra. E com o voto de 57 milhões de “compatriotas”. Que morram todos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Bando de Filha da Puta




O Brasil tem 57.797.847 de filhas da puta. E isso é preciso que entendamos bem.

São 57.797.847 de filhas da puta que jogaram o país nas mãos de um psicopata imbecil que seria incapaz de governar uma cocheira sem que as mulas precisassem buscar uma forma de sobreviver por elas mesmas, em desespero pela incompetência do idiota.

Que fique bem claro, são 57.797.847 de filhas da puta que continuam achando que fizeram "o certo" mesmo quando 94.130 brasileiros morreram da maior pandemia dos nossos tempos. Morreram deixando filhos, filhas, irmãos, irmãs, esposas e maridos sozinhos neste mundo com o país governado pelo pior e mais incapaz ser que andou sobre a Terra.

São 57.797.847 de filhas da puta que trocaram um país com algo próximo ao pleno emprego em 2014 por um país com quase 13% de desemprego. Entre esses 57.797.847 de filhas da puta certamente há jovens. E o desemprego entre eles deve atingir quase 40% durante o governo daquele que relincha.

Esses 57.797.847 fizeram tudo isso por "não querer o Pêtê". E por pura vilania obtusa e burrice congênita elevaram um ruminante ao posto de presidente que, além de patentemente corrupto e incompetente, ainda transmitiu isso aos filhos. Prole geneticamente incapaz que aquele que relincha acha que pode colocar inclusive como embaixador.

Veja, não sei se já disse, mas são 57.797.847 de filhas da puta que mesmo com todas as ligações daquele que relincha com grupos criminosos e assassinos no RJ seguem defendendo o impossível. São 57.797.847 de filhas da puta que por pura vaidade não reconhecem que jogaram o país no maior buraco da sua história e são responsáveis DIRETOS pela morte dos mais de 94 mil brasileiros.

A pandemia era inevitável, mas ser governado por um ungulado ruminante foi uma escolha "soberana" de 57.797.847 de filhas da puta que fariam melhor ao país se se declarassem incapazes para qualquer coisa que não for fazer suas próprias necessidades. Até porque fizeram-nas na urna eletrônica naquele fatídico dia. E como 57.797.847 de filhas da puta incapazes, são os adultos responsáveis - o resto da população - que terão que limpar a merda que esses idiotas fizeram.

Não sei se fui claro, o país tem 57.797.847 de filhas da puta que são DIRETAMENTE responsáveis pela ruína da nossa economia, pelo galopante desemprego, pela destruição dos nossos biomas e florestas, pela ruína da nossa política externa, pelo crescimento da violência contra a mulher, contra a população lgbt e a destruição da nossa educação pública.

São 57.797.847 de filhas da puta que são completamente responsáveis pelo genocídio brasileiros que ocorre em todo território quando aquele que relincha se mostra cada dia mais incapaz de cuidar de sua própria bunda, que dirá do país.

São, volto a dizer, 57.797.847 de filhas da puta que DEVEM ser responsabilizados totalmente pela morte de 94.130 brasileiros até hoje. E, provavelmente, pela morte de mais 94 mil até que este criminoso recalcado e incapaz que nos governa seja apeado do poder.

De Bolsonaro tenho certeza que nos livraremos e, não sou cínico, espero que ele morra em agonia desesperada. A pergunta é: conseguiremos nos livrar dos 57.797.847 de filhas da puta que o elegeram?

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O que o Marco do Saneamento vai nos trazer?



O que a aprovação do PL privatizando água e esgoto pode nos dizer? 

Qualquer manual conservador e liberal de economia (daqueles que defendem o mercado acima de tudo) vai te dizer que o caso da água e esgoto é um caso especial em que a livre concorrência não funciona.

É um caso especial em que o monopólio estatal não apenas se justifica na ótica da segurança e necessidade social da água e esgoto, mas também pela ótica do mercado.

É simplesmente impossível que existam 5, 6 ou 12 empresas "concorrentes" para água e esgoto.

Isso porque apesar do intenso consumo do bem, há um custo fixo para a realização do serviço que é altíssimo e o que torna o ganha marginal com demanda agregada muito baixo, por isso não compensa.

Funciona assim: quando uma empresa de internet resolve expandir, ela calcula o custo fixo do cabeamento para uma região e tem o número de assinantes que precisa conseguir para viabilizar. Ela compara com o número de assinantes potenciais (depois de pagar o custo fixo).

Se depois de pagar o custo fixo de expansão o número de assinantes potenciais (demanda agregada) for alta o investimento é feito. Mas se a empresa gastar 100 milhões em cabeamento e o potencial de clientes que podem ser agregados for, por exemplo, 10 milhões de reais, ela não faz.

Daí que os manuais mostram que empresas não podem passar diversas tubulações de água e esgoto para poder concorrer em si. O custo fixo inviabiliza o negócio. Se houvesse concorrência, nem a questão de engenharia seria possível.

Imagina a cidade esburacada toda a vez que um consumidor resolver trocar o serviço de água e esgoto da empresa A para a empresa B que ofereceu um preço melhor. Isso é impossível. Logo a "concorrência" deixa de ser um argumento pela privatização.

Mas então porque há interesse do mercado nisso?

Bom, em primeiro lugar é preciso dizer que EM QUASE TODOS os países em que esta insanidade aconteceu (a privatização) ela está sendo revertida.

O modelo de negócio que interessa ao capital é o tempo. Quer ver?

Imagina uma cidade fictícia com 15 habitantes, em que dez tem água e esgoto tratados. O "empresário" que ganhou a privatização gasta ZERO de investimento para atender esses dez, certo? Isso pq o custo fixo das tubulações, estações de tratamento e etc. JÁ FORAM PAGOS PELO ESTADO.

O "empresário" tem uma demanda fixa de dez e descobre que pode reduzir custos em 10%, diminuindo salários do pessoal técnico e achatando pagamentos porque afinal os trabalhadores entram via CLT precarizada.

Faz os cálculos: se a conta média era de 50 reais e o "empresário" consegue baixar em 10%, com a demanda fixa isso significa que o lucro dele SEM FAZER INVESTIMENTO NENHUM é de 50 reais por mês sobre os dez usuários da nossa cidade fictícia.

Antes o serviço custava 50 reais para cada um dos dez. E agora custa 10% menos, indo 5 reais de cada cliente para o bolso do capitalista TODOS OS MESES e SEM UM REAL DE INVESTIMENTO.

Agora faz o mesmo cálculo para a população de SP, por exemplo.

Agora imagina que o "empresário" vai ficar ganhando isso por dez anos até que o estado se dê conta que o modelo não dá certo. A sociedade perdeu mas o capitalista embolsou o valor da precarização por DEZ ANOS sem investir nada.

Ele ganha PELO TEMPO que durar a BURRICE dod cidadãos. E sabemos que no Brasil que elegeu Bolsonaro, a burrice é farto item.

"Ain, mas Fernando, ele vai ter que investir em saneamento para atingir aqueles 5 da cidade fictícia que não tinham o serviço!"

Não vai!

O modelo dos pedágios mostra isso. Mesmo que na lei venha EXPLÍCITO que precisa investir. Com um ano de concessão o "empresário" entra na justiça alegando "desequilíbrio" contratual e consegue na nossa alva justiça liminar para parar o investimento.

Depois, consegue decisão para aumentar em 30% as tarifas DE TODO MUNDO para financiar os "investimentos". E enquanto durar estas idas e vindas da justiça o "empresário" está recebendo aquele lucro mensal CERTO e sem investimento vindo da precarização do trabalho.

Ele ganha portanto no tempo da burrice. E ganha na precarização. E oferece água com cocô para a população. Como foi em SP. E oferece descontos para o uso da indústria que aumenta o consumo mesmo em tempo de racionamento. E a indústria consome quase 75% da água.

E o empresário não precisa fazer obras para evitar os prejuízos da seca. E não precisa investir em estudos climáticos para se antecipar aos problemas nem nada disso. Faz o cálculo para a população da sua cidade. Vê quanto de dinheiro limpo entra no bolso do "empresário"...

E isto PELO TEMPO QUE DURAR A CONCESSÃO. Depois ele devolve (com o ESTADO RECOMPRANDO) e diz que "infelizmente o modelo não deu certo"...

É isto o que vai acontecer no Brasil...

sábado, 20 de junho de 2020

Use as redes sociais ao invés de ser usado


Sabe como enfraquecer as redes de esquerda? Sabe como fazer a mensagem da esquerda ser praticamente inócua e ficar circulando em meios cuja eficácia é praticamente zero? Com o tal "SDV"

Veja como as pessoas que fazem o SDV, mesmo sem saber prejudicam as redes de esquerda.

Levei algum tempo para entender o "SDV". Quando comecei a usar o twitter não conhecia esta "estratégia", mas - para que fique bem claro - ela atrapalha e prejudica as redes de esquerda.

Existe um erro comum às pessoas que falam de redes sociais. Elas acham mesmo que o protocolo de informação é organizado em "rede". Isso admite erroneamente que cada "nó" tem o mesmo peso do outro e que todos os participantes estão entrelaçados de forma horizontal (sem hieraquia).

Manuel Castells, por exemplo, celebrou esta problemática visão como se as redes fossem um protocolo quase desabando num mundo sem hierarquias. As redes foram ditas por ele como um avanço para uma sociedade mais justa e solidária.

Mas, depois de mais de dez anos de redes sociais por que, afinal, o mundo está mais autoritário, mais injusto e a democracia e os movimentos sociais com risco real de serem riscado das possibilidades políticas do século XXI?

Mais ainda, por que, afinal, tantos e tão diferentes agentes se apossam das redes para subtrair-nos os bens públicos mais preciosos que são a diversidade de informação, a participação política e o processo de representação também político?

Como é possível, num ambiente em rede - em que as múltiplas conexões entre os indivíduos fariam com que o controle da informação fosse praticamente impossível, conforme pensaram os criadores inicias da internet lá na década de 80 do século XX?

Como podem pessoas tão tecnicamente pobres formarem milícias digitais e com recursos tão pequenos alterarem o funcionamento "democrático, horizontal e anárquico" das redes para favorecer fascistas, criminosos e etc.?

A resposta é uma só: AS REDES NUNCA FORAM ORGANIZADAS EM FORMA DE "REDE", mas em forma de pirâmide.

Para o capitalismo poder lucrar com as redes sociais o algoritmo precisa diferenciar grupos de receptores e grupos de geradores de mensagens. E isso forma um fluxo.

Fluxo tem sempre direção determinada. E é aí que as redes se tornam "pirâmides". Ao contrário do que se imagina, o algoritmo é feito para "incentivar" os que já produzem conteúdo a produzirem cada vez mais e apenas marginalmente os que não produzem produzirem.

Isto porque é virtualmente impossível - mesmo com a tecnologia de hoje - as redes monitorarem os fluxos de informação que crescem exponencialmente mês a mês. O que eles fazem é organizar grupos de geradores e incentivá-los a produzir mais para poder ganhar na agregação.

Vamos explicar: se você produz conteúdo e este né valorado positivamente pelas suas redes, o twitter ou facebook, passa a ver nisso um produto. Mas o produto não é o seu conteúdo, mas o conteúdo e as ligações que você já tem. É o conjunto todo.

Uma vez reconhecido o valor da produção do conteúdo (mediante a medição do engajamento) o algoritmo passa a vincular ela com anúncios e outras coisas para conseguir "abrir" informações de outros nós (pessoas) e aumentar a mercantilização delas.

Dito de outra forma, se você não curte nada na internet nem responde a coisa alguma você é um custo para as redes. Apenas. Mas se você curte, comenta e engaja, você oferece informações e se tem "seguidores" se torna um "nó" que gera valor de propaganda.

Isso significa que eles usam todas as táticas para "tirarem informações" suas e o transformarem em um nó com seguidores. E tudo isso com "faceapps", com "curtidas", selos de reconhimento dos perfis, comemorações públicas quando se atinge 1000 seguidores e etc.

Bom, mas onde está o problema do SDV?

Toda esta construção em rede é organizada para dar lucro. Então se alguém da esquerda resolver PAGAR para enviar uma mensagem, provavelmente vai atingir MUITA GENTE porque esse é o negócio. Se Lula ou Boulos quiserem PATROCINAR uma mensagem, as redes vão fazer. COBRANDO.

A grande questão é conseguir amplitude SEM PAGAR o preço. E aí o SDV ferra com tudo. Isto porque se todos na "esquerda" resolverem "seguir esquerdistas" qual será o ponto de amplitude da mensagem? Apenas e tão somente a Esquerda!

Ou seja, uma mensagem produzida pela bolha da esquerda e que fica reverberando nos perfis de esquerda faz o conhecido "pregar para convertidos". E o algoritmo NÃO reconhece nela valor. NÃO passando de uma corrente interna que vai ser oferecida apenas aos que já concordam com ela.

Se você olhar os robôs usados por bannon, filipe martins, carluxo e etc. eles são organizados da forma lucrativa do algoritmo, ou seja em pirâmide. São MUITOS ROBOS com poucas ligações entre eles e MUITAS LIGAÇÕES A ESMO com um número grande de pessoas SEM LIGAÇÕES EVIDENTES.
E isto é feito para burlar o algoritmo e não ser reconhecido como parte de uma bolha DIMINUINDO o valor do conteúdo replicado por este perfil. Se a esquerda continuar acreditando que "fortalecer" as suas redes é "seguir esquerdista", vamos nos tornando para o algoritmo uma seita.

E como "seita", ou o termo técnico é "cluster político-cultural estável", temos que nossas mensagens ficam presas dentro dos limites que o algoritmo impõe e só saem mediante pagamento. Pagamento que nós não temos condições de fazer.

Além deste problema de logística informacional há também o problema cognitivo-psicológico. Nos tornando um "cluster político-cultural estável" estamos propensos ao viés de confirmação. Só ouvindo, acreditando ou valorando o que o "grupo" permite circular. Nos corta a realidade.

Mensagens e informações podem (e frequentemente são) valoradas de forma errada em bolhas. Nos parecendo maiores e mais importantes do que são ou, ao contrário, menores e desimportantes quando na realidade têm outro peso. Este é o viés de confmação que nos leva à deprê ou euforia.
Usar as redes com sabedoria implica em fazer quatro coisas essencialmente:

1) diversificar as fontes pelas quais você recebe informações, tendo em mente que elas devem fugir das "bolhas", quaisquer que sejam.

2) organizar-se em forma de pirâmide com emissores e transmissores claramente colocados. Há quem produza conteúdo e há aqueles que estão na ponta e na guerra. Transmitindo (inoculando) aquela mensagem nos campos áridos (em que os receptores não a toleram), burlando o algoritmo

3) replicar conteúdos de esquerda que tenha a origem mais longa e distante de você. Portanto se você seguir diretamente o Lula, o Boulos, o Haddad ou a Fundação Rosa de Luxemburgo (por exemplo), dê prioridade às mensagens que vêm de mais longe e as impulsione sempre.

4) NÃO replicar mensagens da direita, ainda que de forma jocosa, para efeito de piada ou crítica. Seja um anteparo à continuidade dos fluxos de mensagens deles. Não cite, não replique e não comente.

Um último ponto é ser ANTI-ALGORITMO. Inocule as mensagens da esquerda NOS LUGARES em que o algoritmo não faria. Nos locais que as pessoas são refratárias a ela. É ali a briga. É ali a disputa e em nada o "SDV" contribui. Somente para adular o ego e nos tornar bolhas fechadas.

Como regra básica faça as redes replicarem uma realidade plural, ampla e diversificada quando escolher seus receptores e faça as redes serem arma de comunicação quando for replicar as mensagens. Você é o filtro e o amplificador e isso tem que ter um uso social e não apenas egóico

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bolsonaro destruiu o Brasil e nossas elites preferem que ele continue destruído a ver Lula na presidência outra vez



O fim de um casamento de dois anos


Bolsonaro está sob intenso ataque. E atacam todos os seus pontos fracos: os filhos, a incompetência, o autoritarismo e a vilania. Por quê, afinal, ocorreu o casamento e agora acontece o divórcio? E qual será a reação do “macho-alfa” (como Bolsonaro se vê) diante do divórcio?

Há algumas pessoas que veem uma relação causal entre a eleição de Bolsonaro e a manutenção das posições elitistas e de concentração de renda no Brasil. Este é, aliás, o argumento primeiro que se fez com o fenômeno do fascismo: que ele seria pura e simplesmente um reflexo da luta de classes. De Palmiro Togliatti a Karl Polanyi, passando por Antonio Gramsci e Clara Zetkin, o argumento da luta de classes foi sendo refinado. Perdeu seu vinco mecanicista e paulatinamente foi ganhando cores sociológicas, culturais e até psicológicas. O que nunca a historiografia marxista a respeito do tema abandonou foi a relação causal, a mesma que estamos a repetir no Brasil: Bolsonaro é uma cria das elites preocupadas em manter seu status e afastar o projeto “perigoso” de transformação social representado pelo PT e seus aliados.

Aprendi que nada na História é assim simples. E quando vem embalado de forma direta, causal e claramente delimitada, ainda que me seduza politicamente o argumento, eu costumo ficar com os dois pés atrás.

São pouquíssimas as relações causais que a História de forma clara consegue delimitar. Aliás, esta é uma das diferenças entre o historiador e o cientista político ou o sociólogo. Quase constantemente o historiador tropeça em pedras que o cientista político e os sociólogos tinham jurado terem asfaltado. No Brasil estamos numa condição favorável para analisar TODA bibliografia fascista eis que o processo se desvela sobre nossos olhos desde 2013, pelo menos.

Há, o ressentimento da classe média pela ascensão dos “subalternos”. Há um “mal estar” do fim do século, associado às demandas de incorporação de novos direitos e novas práticas sociais que antes ficavam “escondidas” na vida privada das pessoas. Há um ranço autoritário em nossa história. Há, também, um anticomunismo que grassa no mundo desde o grande medo capitalista provocado por 2008. Há, finalizando, um elitismo que vai desde nosso urbanismo até as formas mais básicas de compreender educação no Brasil.

Tudo isso há, e deve ser colocado no caldeirão que, aquecido com ódio de classe, colocou esta coisa fétida e nojenta na presidência do país.

O que não há é a relação causal. Estamos mais para “A marcha da insensatez”, parafraseando Barbara Tuchman, do que uma relação causal.

Entre 2013-2014 o objetivo era claramente enfraquecer o PT para permitir a eleição de Aécio Neves, cujo ministro da fazenda era o alardeado Armínio Fraga e sua teoria sobre “o crescimento do valor da mão de obra o Brasil impede nosso desenvolvimento”. Ante o fracasso de Aécio, o movimento se reorganizou no impeachment e apoio de Michel Temer e sua famigerada “Ponte para o futuro”. É forçoso reconhecer que Bolsonaro era um “subnitrato de pó de cocô”, neste momento. Entendido como sendo do “baixo clero” que sequer era convidado para as grandes negociatas e precisava recorrer à corrupção de pingado (como rachadinhas e outras coisas pequenas) para conseguir aumentar seu patrimônio.

Houvesse alguém dito a Temer e Cunha que Bolsonaro seria presidente e uma estrondosa risada teria tomado o rosto “polido” e contido do eterno vice-golpista.

Entre 2017 e 2018, todas as apostas eram para Geraldo Alckmin com o establishment tendo gerado ainda, Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meirelles como reservas de primeira mão, e Ciro Gomes e Marina Silva como possibilidades palpáveis e preferíveis ante aos temidos Haddad e Boulos. Bolsonaro era o bobo da corte. Alguém cuja missão era embaralhar as coisas, falar asneiras e até socar alguém se fosse para debates. Bolsonaro era como o bode na sala que deveria feder para normalizar as outras perversidades de terno e gravata vindas do mundo financeiro.

Foi somente na passagem do primeiro para o segundo turno de 2018 que a direita liberal noivou com Bolsonaro. Nos meios acadêmicos e financeiros Guedes era visto como incompetente, preguiçoso e sempre metido em negociatas, no mínimo, questionáveis. Não era uma figura assentada como Fraga ou Meirelles. Não tinha conhecimento suficiente sequer para falar em nome dos “liberais”. Mas, como sempre faz o capitalismo, quem não tinha Armínio Fraga, latia com Paulo Guedes. E Bolsonaro era o estorvo que tinha que ser aturado junto.

Esta postura é, em tudo, idêntica aos erros de avaliação que fizeram os liberais italianos e alemães no entre-guerras. Hitler e Mussolini eram entulhos esdrúxulos de pouca socialização e caricatos politicamente. Quase como macacos amestrados que se acreditava fossem mantidos alimentados e fazendo suas estripulias não dariam maior prejuízo.

O divórcio do capital para com Bolsonaro se dá pela incapacidade de Guedes de minimamente se parecer com um ministro da economia e pelo fato de terem compreendido (como também ocorreu no entre-guerras) que o fascismo não pode ser contido pelas instituições. A pandemia apenas tornou esta percepção mais rápida. O que levaria quatro anos de idas e vindas, destruição e incompetência de Bolsonaro-Guedes, levou apenas dois. Rodrigo Maia em breve terá que entender que ou ele abre o parlamento contra Bolsonaro ou vai ser também rifado.

As “elites financeiras” ou “o grande capital brasileiro” só não querem pagar o preço político de acabar com Bolsonaro. Eles sabem que o fascismo ainda tem cartas na mão, como os aloprados de verde-oliva e os sádicos incompetentes das polícias militares em todos os Estados. Ainda não é claro para o capital onde isso tudo vai dar. Se Bolsonaro vai aceitar sair do poder rápida e institucionalmente ou se vai precisar ver seus filhos esmagados e sua vida destruída para se dar conta de que tem que abandonar a política.

Minha aposta é que Bolsonaro só sai com sangue. Vai mobilizar o fascismo em toda sua extensão e o Brasil como conhecemos vai morrer. O sangue para tirar Bolsonaro é que hoje “as elites” tentam convencer os trabalhadores e a esquerda a ofertarem, mediante os movimentos “somos 70%”, “basta”, “chega” e etc. Como um grande pedido de ajuda mudo, as elites colocam seu arsenal midiático a atacar quem não aceitou ser usado como bucha de canhão contra a monstruosidade que eles deixaram crescer. Ou, pelo menos, Lula deixou claro que para entrar na briga quer o campo limpo para concorrer politicamente, e um acordo de reconstrução nacional.

As cartas estão na mesa e os lances são claros. Bolsonaro somente se salva e salva os filhos se assumir-se ditador, colocar as tropas na rua, e emudecer o farrapo de instituições que nos restam. Precisa do apoio dos militares e a conivência do capital.

Os liberais esperam sangrar Bolsonaro, evitar o impeachment, conter a idiotia do governo e preparar uma chapa Dória-Moro para terem uma chance eleitoral que já é maior do que qualquer coisa que tiveram nos últimos vinte anos.

A esquerda é que está esperando civilidade, racionalidade e complacência do capital. De alguma forma, Lula quer ser reconhecido como o maior presidente deste país, também por quem controla os tribunais e as instituições. Este é o sentido do “pedido de desculpa” que ele sempre manifesta. Com isso, espera que a racionalidade material volte a falar, e que ele possa reorganizar um “acordo nacional” para reconstruir o país. Aposta que as perdas das elites serão maiores que seu ódio de classe e que se retome – em termos brasileiros – o consenso que permitiu a vitória na segunda guerra sobre o nazismo.

Penso que este é o grande erro. Os empresários brasileiros de hoje não têm nem sombra das capacidades intelectuais dos empresários capitalistas das décadas de 40 e 50, e os liberais brasileiros carecem de um mínimo de condições cognitivas para compreender o país que vivem. E falo isso porque se tivessem capacidade de compreender o Brasil, teriam sido contra o impeachment de Dilma Rousseff quando o desemprego era em torno de 5%, a relação dívida/PIB era da ordem de 60%, o dólar estava antes da barreira dos três reais e o déficit nas contas públicas era algo em torno de vinte bilhões de reais.

Hoje, temos 100% da relação da dívida/PIB, um déficit projetado de mais de 800 bilhões, um dólar que bateu seis reais, e um desemprego que se espera será maior do que 20%.

Bolsonaro destruiu o Brasil e nossas elites preferem que ele continue destruído a ver Lula na presidência outra vez.

Trocando em miúdos, estamos ferrados. Por mais duas décadas pelo menos.

sábado, 30 de maio de 2020

Não somos nem perto de 70%!

Fernando Horta

Não somos 70%!

Não somos nem perto disto. Dispostos a ir acampar na frente do palácio como os tais "trezentos" fazem? Dispostos a ir para a frente da casa de ministro chamar ele de FDP? Dispostos a sair no soco com policial pela defesa do que acreditamos? Dispostos a invadir o Congresso caso eles continuem a proteger o fascista??? Não somos nem 10% e é esta toda a diferença.

Levanta hashtag aí que eles fazem cartas de repúdio lá, e o fascista continua bebendo leite e arrotando na nossa cara ...

Somos um monte de merdas.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A lógica da socialização das perdas em tempos de pandemia




Uma das mais conhecidas técnicas de enriquecimento, e que nunca se diz que é imoral ou ilegal, é a chamada política da socialização das perdas. Ela acontece em todo o sistema capitalista e em todos os tempos. No Brasil, ocorre desde a República Velha, quando os grandes cafeicultores de São Paulo conseguiram acordos para que o governo comprasse a produção de café caso o preço internacional caísse abaixo de um determinado valor. Na prática, quando a produção de café desse prejuízo, este prejuízo era absorvido pelo ente público,. Quando desse lucro, o lucro ia para as mãos dos agentes privados. A mesma política existiu nos EUA, Inglaterra e França (e outros) nos processos de industrialização e no colonialismo e neocolonialismo. Qualquer historiador demonstra e denuncia tais relações como a base do sistema de enriquecimento capitalista. Concorrendo lado a lado com a produção "meritória" e o livre comércio.

A História mostra que não há capitalismo sem Estado, e isto também porque o capital privado precisa do público para acomodar suas próprias perdas. A situação é tão comum que é possível delimitar uma série de mecanismos que o capital força o Estado a criar para exatamente dividir os prejuízos. O controle cambial, por exemplo, é um deles. Ao amarrar-se ao Estado, o capital se assegura que as perdas serão socialmente distribuídas e assim o prejuízo será tão grande que recursos públicos virão para socorro. Foi assim EM TODAS as crises do capital desde a segunda metade do século XIX.

O exemplo mais recente foi a grande crise de 2008, quando os Estados mobilizaram um valor que poderia ERRADICAR a fome no mundo para salvar meia dúzia de grandes empresas. "Meia dúzia" eu exagerei, mas o total não chega a 35 empresas que receberam mais de 75% dos valores. No Brasil, a bancada ruralista vive desta política. É possível dizer-se que desde o regime militar que não se passam sete anos sem uma anistia tributária ampla que concede aos latifundiários brasileiros perdão pelas centenas de milhões em impostos atrasados. O sistema é tão comum que latifundiários ja contabilizam ajuda eleitoral de campanha a determinados candidatos como "custo fixo" de seus negócios.

Na indústria acontece o mesmo. Tudo que o capital não aceita é o "risco". O mesmo risco que os jovens apedeutas liberais brasileiros endeusam como distinção da riqueza capitalista. Pela politica da socialização das perdas ele é zero. As grandes empresas exigem doações de áreas para se instalarem. Diminuição ou mesmo concessão plena dos impostos por vários anos. Exigem que o Estado crie locais de moradia, escolas para treinar a mão de obra, infraestrutura de comunicação, estrada e - ainda - no final buscam financiamento público para suas empreitadas. Se você somar tudo o que estes "empreendedores" recebem de graça, no final o risco de perdas é zero ou muito perto disso.

O que ninguém previa era uma pandemia.

Deixado o "mercado" trabalhar e teríamos o imenso aumento do custo da mão de obra e a redução do custo relativo do capital. Seria o momento dos trabalhadores aumentarem seus ganhos, afinal, ninguém está arriscando mais do que o trabalhador indo trabalhar. Os salários deveriam aumentar, as empresas deveriam pagar adicional de risco, insalubridade e tudo mais. Porém, aí entra a política de socialização das perdas. O desmonte da legislação trabalhista, a assistência pública aos trabalhadores e os bilionários repasses que Guedes e sua trupe de liberais fizeram aos sistemas bancários, se somados passam de 2,5 trilhões de reais. E tudo isso para o enriquecimento e acumulação dos milionário e bilionários.

Quando Bolsonaro obriga a reabertura e ordena os trabalhadores voltarem ao trabalho é a necropolitica de socialização das perdas. Ele força a baixa do valor da mão de obra e coloca todo o risco nas costas do trabalhador. "Se morrer, paciência". E cada família brasileira joga uma roleta russa, todo dia, com seus entes se submetendo às exigências do governo para que se arrisquem. Enquanto com uma mão empunham o porrete sobre a classe trabalhadora, com outra garantem dinheiro público a bancos e grandes empresas. Não há nenhuma dúvida que pela ação de Guedes e Bolsonaro, após a pandemia os estudos vão mostrar que houve um enriquecimento das elites e o processo de empobrecimento dos trabalhadores.

Se o mercado quer trabalhadores que aumente os salários a ponto de o risco de morte valer o salário pago. Ocorre que o que se vê é o estalo do chicote do Estado nas costas do trabalhador enquanto bancos aumentam seus juros e recebem recursos públicos de "ajuda", e empresários que já sonegam normalmente agora recebem incentivos para não pagar impostos.

Não houvesse na base do capitalismo a política de socialização das perdas e figuras como o "véio da Havan" não existiriam. O que os liberais exaltam como "livre mercado" e "iniciativa privada" é, na realidade, uma política de "risco zero" financiada pelo Estado com uma das mãos, enquanto com a outra mantém a força de trabalho miserável e violentada.

O "tempo de oportunidades" que o dono da AMBEV previu na pandemia só existe para os banqueiros, grandes indústrias e funerárias. Eles ganham, enquanto os bancários os trabalhadores de fábricas e os coveiros só enxergam aumentar a oportunidade de morrer na pandemia.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A BOSTAPO brasileira


Fernando Horta

Em 1934, um ano e seis meses após a chegada de Hitler ao poder, Hermann Göering (militar alemão e fundador da Gestapo em 1933) juntamente com Heinrich Himmler incentivaram Hitler a realizar o que foi chamado de “Noite das Longas facas” ou “Noite dos punhais”. Em termos mais técnicos, a operação militar lançada contra dissidências internas do próprio partido nazista se chama “Operação Beija-Flor” (Hummingbird) ou “A purga de Röhm”.

Himmler e Göering estão entre os apoiadores mais diretos de Hitler. Ambos eram oficiais medíocres antes de se associarem ao partido nazista, e também ambos demonstraram estar entre os mais fiéis apoiadores do Führer. Desde 1922, o partido nazista defendia o armamento da população como forma de “defender a liberdade”. As milícias paramilitares nazistas então se organizaram com o nome de SA (“Tropas de Assalto”), e de 1922 a 1933 tiveram um reinado de terror na Alemanha, investindo contra trabalhadores, estrangeiros, minorias e mesmo contra alemães que supostamente “traíram” os ideais da “pátria”.

Em 1934, Hitler achou que alguns de seus antigos apoiadores estavam preparando-lhe “golpes” e o queriam atacado. A si e à “sua família”. Hitler utilizou a segunda milícia criada, as SS, para desarmar e matar as primeiras. A "Noite das Longas Facas" terminou com algo entre 700 e 1000 assassinatos de membros do partido nazista que competiam com Hitler realmente ou apenas no seu mundo de alucinações. A operação foi toda construída juridicamente depois com “provas” dos golpes ou traições que os assassinados estariam por cometer.

Ernst Röhm era um nazista de primeira hora. Fundador do partido em 1922 e amigo de Hitler. Havia criado as SA e competia pela liderança do aparelho todo. Röhm não diferia em nada das ideias de Hitler. Havia apoiado e comandado ações de violência e insubordinação armada pelos últimos dez anos. Foi um dos responsáveis pela consolidação do poderio do amigo Adolf e executado em 1934.

Outro nome morto na operação foi Gregor Strasser. Também nazista de primeiros momentos, fundador do movimento na Bavária e um dos participantes do golpe nazista fracassado de 1923. Strasser havia defendido uma maior participação da “velha guarda” do partido no governo recém montado por Hitler, e o ditador publicamente havia declarado que Strasser "não fazia mais um serviço que ajudasse à nação".

Com a destruição das SA pelas SS, Hitler consolidava o poder na Alemanha e o assassinato de Strasser e Röhm deixava o partido submisso. A partir daí, a polícia política (GESTAPO) seria uma ferramenta-chave na mão do nazismo, prendendo, matando e torturando opositores mesmo dentro das fileiras da extrema-direita. Mesmo dentro do partido nazista.

Se chamavam Strasser e Röhm, mas poderiam ser Witzel e Doria. Se chamava GESTAPO, mas, depois da intromissão de Bolsonaro, talvez fosse melhor chamar de BOSTAPO, ao invés de Polícia Federal.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Ato fascista teve apoio da PM, sim


Sobre o ato da PM fazer continência ontem. Pouco importa a nota da PM. Importa como os presentes viram o ato. E ele foi, SIM, FASCISTA COM o apoio da PM. Na ditadura, velório virava reunião política. Na copa, jogo era manifestação de ofensa à Dilma. Isto chama ressignificação. 

Recentemente Bolsonaro foi "levar a palavra de empresários para o STF". Na prática foi uma marcha autoritária contra o STF. Bolsonaro mandou a esquerda "tomar tubaína" que é um refrigerante. Na realidade mandou tomar no cu. 

Todo o fascismo são atos aparentemente normais ressignificados para o anti-democratico, o anti-humano e o anti-institucional.

Basta ver o que foram as olimpíadas de 38 e os vídeos da Leni Riefenstahl. Não caiam na bobagem das explicações oficiais. Foi fascista. 

2013 era, supostamente, um protesto democrático contra o aumento de passagens no Brasil.

Foi um ato de conservadorismo unido (fascistas + neoliberais) para um golpe de estado.

2016 parecia que era apenas o cumprimento constitucional dos ritos da retirada de uma presidenta do poder.

Foi um linchamento de TODA a esquerda brasileira, transmitida em tempo real pela rede Globo para todo o país.

Em 2018, parecia apenas o cumprimento de decisão judicial de réu condenado à prisão, em São Bernardo do Campo.

Foi o maior ato de libertação de um indivíduo vivo para a História que o Brasil já viu.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Moro não provou nada, Bolsonaro venceu



O que o vídeo da tal reunião mostra??

Mostra muito pouco.

A verdade é que Moro tem uma visão completamente distorcida do que seja "prova". Talvez fruto da má formação acadêmica dele, talvez de anos empregando mal a ideia de prova e abusando do seu poder de juiz. O que se sabe é que Moro é traiçoeiro e Bolsonaro fascista.

Nesta briga, ganha o fascista.

Moro arquitetou a gravação. Deixou a prova ali para quando precisasse. Deu um depoimento sem "denunciar nenhum crime" de Bolsonaro, mas apontou para a gravação. O que Moro fez foi exatamente o que ele fazia nos tempos de Lava a Jato. Ele "esquentou" a prova que já sabia existir.

A questão é: a tal "prova" de Moro existe?

A reunião é um caos. Desrespeito institucional, falta de preparo, covardia, ignorância, bagunça e tudo o que a população brasileira minimamente cordata não gostaria de ver no momento em que morriam mais de 2600 brasileiros por COVID.

No meu entendimento a fala de Bolsonaro sobre "trocar ministro" era claramente para o Moro e sim ele fala em intervir na PF. O problema é que o contexto todo da fala é passível de ser flexibilizado, minorado, amainado e tornado bem sem importância. A tal "reunião ministerial" parecia um trabalho em grupo de alunos de sétimo ano que não sabiam muito bem o que pesquisar.

Salles é eticamente um criminoso. Damares uma alucinada. Guedes serve a seus patrões (bancos) fielmente. Onyx consegue ser mais alucinado que o chanceler Ernesto e Bolsonaro é um incapaz que jamais poderia ter sido votado para síndico, quanto mais a presidente. Mas crime mesmo, preto no branco, bala de prata, inquestionável? Não tem.

O que o vídeo prova é que Bolsonaro fala do mesmo jeito com a imprensa e com seus subalternos. Ele é aquele bronco incapaz mesmo, que repete chavões psicóticos sem nenhum sentido. Seus apoiadores ficarão ainda mais contentes. O fascismo ganha força no Brasil. E o general Heleno, aquele acusado de chacinas no Haiti, ameaçou o Supremo. Celso de Mello recuou.

No final das contas, Bolsonaro marcou um estrondoso gol, Moro segue seu caminho para a desimportância, o Brasil continua um país à deriva, e hoje morreram mais 1001 brasileiros de "gripezinha".

Fique em casa e se não acreditar em Deus, reze mesmo assim.

Genocídio planejado por Bolsonaro e Guedes não está acontecendo da forma que eles desejavam


A campanha de inverno de Jair Bolsonaro
O plano de Bolsonaro e Guedes para a resposta ao coronavírus dependia da velocidade. Mas não da velocidade de ação do governo, e sim da velocidade com que o vírus aconteceria, mataria “todos os que tivessem que morrer” e “retomaríamos a normalidade”.
Fernando Horta

“Operação Barba-Ruiva” (Unternehmen Barbarossa) foi o nome escolhido por Adolf Hitler para a campanha de invasão da URSS, cujo início foi em junho de 1941. O exército alemão sabia-se melhor equipado, melhor treinado e com uma imensa capacidade industrial por trás. Além disso, as táticas de conquista rápida inauguradas com nome de “blitzkrieg” e acompanhadas com a superioridade aérea da Luftwaffe (força aérea alemã) davam aos nazistas a quase certeza de que a conquista da URSS seria rápida.

A velocidade era essencial ao plano. Tanto porque a Alemanha tinha a experiência de ter lutado em dois fronts (leste e oeste) durante a primeira guerra – e isso seria um pesadelo para o exército alemão – quanto pela experiência histórica da derrota de Napoleão. O inverno russo cobraria um preço impagável caso a guerra se estendesse demais.

O plano do general Wilhelm von Leeb era atacar por três eixos: Leningrado (atual São Petesburgo), Moscou e Stalingrado (atual Volgogrado). Com isso o exército alemão se apossaria da maior parte das indústrias soviéticas deixando a capacidade de reação dos invadidos tremendamente diminuída. Tudo seria rápido.

Sem reação, e com o leste dominado, a máquina de guerra nazista rumaria para o oeste tendo encampado toda a capacidade de produção dos soviéticos.

A vitória era certa. A velocidade era essencial.

Jair Bolsonaro pensa da mesma maneira. Assim como para Hitler, para Bolsonaro os fatos e o mundo real têm pouca importância. Tudo o que interessa é como ele e seus alucinados ministros definem o mundo. O covid é uma “gripezinha”, a crise econômica por ele provocada é “vontade de não trabalhar” da população, e os problemas sociais daí decorrentes são “um plano da oposição para derrubar” o fascista. Claro, que no meio deste surto psicótico de dois anos, ele e Guedes achavam que faziam um bom governo, que estaria “decolando” antes do “comunavírus”, nas criminosas palavras do chanceler bolsonarista.

O plano de Bolsonaro e Guedes para a resposta ao coronavírus dependia da velocidade. Mas não da velocidade de ação do governo, e sim da velocidade com que o vírus aconteceria, mataria “todos os que tivessem que morrer” e “retomaríamos a normalidade”. Todo o planejamento – tal qual o de Hitler – era para que tudo acontecesse rápido. E por isso Bolsonaro incitou o contágio aberto e irrestrito, tanto com ações diretas (seus minicomícios e passeadinhas), como com ações indiretas (“lives”, declarações de minimização dos perigos do covid e etc.). Tudo o que parecia uma “loucura” era, em realidade, pensado para matar o maior número de brasileiros possível, o mais rápido possível.

Acontece que – assim como no caso do líder nazista – o tempo da vitória de Bolsonaro não era nem perto do que ele previa. Quando Hitler se deu conta de que os soviéticos se recusavam a morrer, a se render ou a serem dominados, os líderes alemães com algum discernimento previram a derrota. Os brasileiros, “abandonaram o barco”.

Assim como os povos violentados pelos nazistas (judeus, eslavos, ciganos e etc.) os brasileiros também se recusam a morrer de covid para que Bolsonaro “retorne a sua normalidade”. Lá, como aqui, o plano que se baseava na velocidade começa a fazer água. Guedes atrasou burocraticamente o pagamento do auxílio às pessoas e os repasses a estados porque esperava que em 30 dias não fosse mais necessário pagar. A economia neoliberal se baseia sempre na morte das pessoas (depois de exploradas). O covid apenas desnudou isso. O recuo da economia seria “breve”, de acordo com Guedes, e ele se colocou contra planos de o Estado ajudar na retomada econômica.

É do sangue e das mortes dos trabalhadores e dos pobres que se forma a riqueza que os liberais defendem. O que o vírus fez foi apenas acelerar o processo de forma a que o futebol ou as novelas não pudessem evitar que as pessoas o compreendessem.

“Pegue seus seiscentos reais, pague em juros bancários, fique quinze dias em casa e volte para morrer trabalhando”. Era esta TODA a proposta do governo para a pandemia.

O que destrói Bolsonaro e Guedes foi o que destruiu Hitler. Devaneios e alucinações sobre a realidade. No fundo, o problema é que – parafraseando Garrincha – faltou “combinar” com o vírus.