DESMISTIFICANDO A CIA
Viomundo
Quando ouvem falar em Central de Inteligência Americana as pessoas passam imediatamente a pensar em teorias de conspiração.
Não, amigos, a CIA é uma instituição.
Tem sede, CEP e endereço. Tem história e papel institucional.
É verdade historicamente estabelecida que interveio no Irã em 1954 na operação Ajax (com os britânicos) e no mesmo ano na Guatemala, nos dois casos para derrubar governos nacionalistas que se opunham a interesses econômicos dos Estados Unidos.
É verdade factual que financiou candidatos da oposição a João Goulart em eleições parlamentares no Brasil e atuava paralelamente à operação Brother Sam, que seria desencadeada caso houvesse reação ao golpe de 64.
É verdade factual que um empresário muito próximo da CIA, Henry Luce, dono da Time Life, fez o empréstimo em dólares que deu vida à TV Globo de Roberto Marinho, até então dono de jornal que precisava importar equipamentos caros dos Estados Unidos.
É verdade factual que a CIA financiou o diário El Mercurio, no Chile, que jogou papel essencial na derrubada de Salvador Allende, em 1973.
Tudo isso está documentado -- sobre uma agência de espionagem que age na clandestinidade e tem um orçamento secreto, supostamente controlado por comitês do Congresso dos EUA.
Da literatura disponível, sabemos que a CIA recruta seus integrantes da elite da Costa Leste dos Estados Unidos, das universidades conhecidas como integrantes da chamada Ivy League (Princeton, Yale, etc), muito embora os operadores no solo não sejam necessariamente PHDs.
A CIA traficou drogas durante a guerra do Vietnã, ou ao menos permitiu que isso fosse feito em aviões que estavam sob seu controle, para beneficiar os integrantes corruptos do regime marionete sul vietnamita, que combatiam Ho Chi Minh.
Ajudou a derrubar Manuel Noriega no Panamá, em 1989, mesmo tendo sido ele colaborador da própria CIA, na categoria "informante", quando o presidente era George Bush pai, ex-diretor da CIA.
Bush pai, herdeiro de Reagan, era visto como wimp, fracote, pelo eleitorado, mas o objetivo da derrubada de Noriega foi limpar do cenário político panamenho qualquer herança de Omar Torrijos (o Lula deles) antes da devolução do canal à "soberania" panamenha, negociada anteriormente por Jimmy Carter.
Mas, o que o islamita Mohammad Mossadegh, do Irã, o guatemalteco católico Juan Jacobo Arbenz Guzmán, o médico chileno de classe média alta Salvador Allende Gossens, o cozinheiro de navio comunista Ho Chi Minh e o mestiço pobre, herdeiro de Torrijos, acusado de ser ditador e traficante de drogas pelos Estados Unidos, Manuel Antonio Noriega Moreno, têm em comum?
Todos foram "nacionalistas" -- populistas, diriam certos colunistas da mídia brasileira -- que se opuseram a interesses econômicos e/ou estratégicos de Washington.
Petróleo (Irã), United Fruit (Guatemala), teoria do dominó + controle de portos no mar do Sul da China (Vietnã), reservas de cobre + telefonia + exemplo de que democracia e amizade com a URSS era possível na Guerra Fria (Chile), canal do Panamá.
Sendo assim, faz sentido que a CIA tenha colaborado com a derrubada de Dilma Roussef em 2016 para ajudar os EUA a se apropriar do pré-sal? Tudo o que aconteceu DEPOIS de 2016 reforça ou desprova essa teoria?
Mesmo sendo o reformismo de Lula e Dilma um reformismo fraco, nas palavras de André Singer, faz sentido que os EUA queiram se apropriar dos lucros diretos ou indiretos da energia barata do pré-sal, que vai amadurecer a partir do ano que vem?
Para encerrar, com a experiência de quase 20 anos de vida nos EUA, lhes digo: a CIA formula e executa estratégias que pairam acima dos governos de turno.
O "pivot"de Barack Obama para a Ásia continua sendo executado por Donald Trump, como se ambos fossem do mesmo partido.
Neste tabuleiro, Bolsonaro pode ser um peão descartável.

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