segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O poder nasce da ponta do fuzil, não das urnas

Milícia narcoevangélica
Diogo Fagundes

A Bolívia de Evo, vítima de um golpe, é a prova de que a direita latino-americano está pouco se lixando para seus supostos valores: "estabilidade macroeconômica", baixos índices de inflação, sustentabilidade fiscal, etc.

Durante o seu período, a Bolívia cresceu o dobro da média latino-americana, melhorando significativamente todos os indicadores econômicos, provando que dá para reverter as privatizações e apostar na nacionalização de recursos estratégicos sem causar instabilidade econômica.

Tudo isso ao mesmo tempo em que reduzia a extrema pobreza em mais da metade, reduzia em impressionantes 19% o coeficiente Gini (indicador do nível de desigualdade) e ampliava o gasto social.

Resumindo: a Bolívia é um sucesso econômico-social muito maior que Peru e México, países bajulados pela direita do continente. (O último, aliás, foi o único país latino-americano a não reduzir a pobreza na última década, o que demonstra bem quais são os referenciais de boa gestão dos nossos liberais).

"Ah, ok. Mas um quarto mandato? Isso é coisa de ditador!"

É plenamente válido tecer críticas ao fato de Evo ter insistido num quarto mandato, apelando para a corte constitucional após perder um plebiscito. Eu mesmo nunca consegui compreender por que não foi preparada a sucessão do talentoso vice-presidente Álvaro Garcia Linera, um dos intelectuais mais importantes do continente.

Mas se manobras para tentar continuar no poder validassem golpe militar, então FHC deveria ter sido deposto, após mudar a constituição -- com votos comprados -- para assegurar a reeleição. Nesse caso, não se trataria de um "autoritário", de um "populista" com sedes de poder, por quê? Por que ele é branco e não é um líder dos mais pobres e oprimidos?

No Atlântico Norte, experiências longevas de líderes a frente de seus países são consideradas sinais de sucesso político de estadistas habilidosos e representativos. A Thatcher na Inglaterra e o Helmut Kohl na Alemanha ficaram mais tempo que o Evo Morales como chefes de governo de seus países. "Ah, mas o parlamentarismo é diferente". Ok, então, Franklin Delano Roosevelt, quatro vezes eleito seguidamente presidente dos EUA, e François Miterrand (presidente da França por 14 anos) são ditadores?

A Suécia, tão admirada pelo seu Estado de bem-estar social, só é o que é hoje, porque durante dezenas de anos o partido trabalhista foi eleito seguidamente, sem que ninguém choramingasse por "alternância de poder".

E, antes que eu me esqueça: ninguém comprovou fraude alguma, ao contrário do que tenho lido. A OEA, cuja credibilidade democrática é tão grande que aceitava as ditaduras do Cone Sul ao mesmo tempo que excluía Cuba na época da Guerra Fria, apenas apontou "indícios de fraude".

"Ah, e as manifestações populares contra o governo Evo?"

A direita mais reacionária sempre contou com métodos de mobilização de massa. Mussolini tomou o poder na Itália a partir de uma enorme marcha em Roma. Mesmo a ditadura militar foi legitimada por uma grande manifestação da classe média em defesa da pátria, família e propriedade, contra o "comunismo" de Jango. Quem conhece o mínimo de História não deveria ficar impressionado com isto.

Há que se ter um pensamento muito formalista para não enxergar diferenças nas manifestações por direitos do Chile e o que ocorre na Bolívia, na qual não há demanda por direito algum, mas simples fúria assassina contra os inimigos, a incluir sequestros, espancamentos e todo tipo de barbárie.

No entanto, o grupo de Lima e órgãos de comunicação poderosos do continente, como a Folha de São Paulo, tão afeitos aos direitos humanos quando há violência na Venezuela, agora ignoram solenemente o uso de métodos de fazer inveja às SS e SA. Logo menos tão botando gasolina nos inimigos -- já o fazem com habitações e edifícios dos opositores--, como já fizeram os anti-chavistas na Venezuela e hoje fez um manifestante em Hong Kong, sem que isso provoque qualquer manchete estridente.

A mentalidade formalista é tão desprovida da capacidade de apreender os fenômenos sociais que igualam um protesto onde erguem a bandeira Mapuche (símbolo do povo autóctone oprimido) com outro no qual golpistas, mobilizados por um cristianismo evangélico fanático, entram no palácio presidencial com uma cruz e arrancam uma imagem da Pachamama, em ódio à Mãe Terra, representando todo o o racismo fundamentalista contra os indígenas, excluídos da política boliviana até a primeira vitória de Evo.

"O que ocorre na Bolívia serve como lição para que defendamos a Frente Ampla!"

Este é o tipo de mantra dogmático que é vendido como bom conselho estratégico mas serve, na verdade, para afirmar uma prescrição válida para qualquer conjuntura política: "é necessário evitar o isolamento". Equivale a conselhos do tipo "é necessário melhorar a comunicação com o povo", "é necessário eleger parlamentares mais representativos", etc.

Em primeiro lugar: qualquer um que acompanha o processo boliviano sabe que a marca dos governos do MAS não é o sectarismo, mas a amplitude e a tentativa de alargar sempre que possível a base de consenso. É exatamente isso que explica o sucesso eleitoral e a atitude conciliatória -- Evo propôs uma nova eleição -- mesmo em situações de radicalidade golpista.

Em segundo: o que esse tipo de proposta tem a dizer para uma situação em que a direita não apenas apela para golpes, mas busca eliminar fisicamente seus oponentes?

Na verdade, o que ocorre na Bolívia deveria ensejar outro tipo de reflexão: quem quer que queira disputar o poder pra valer nessa região do globo não pode contar apenas com a força das urnas e deve estar preparado para reagir a golpes de todo tipo, incluindo a modalidade militar, aquela que muitos supunham extinta.

Em outros palavras, revolucionários do século passado que disseram que "o poder nasce da ponta do fuzil" e que "a violência é a parteira da história", continuam mais atuais do que nunca, ao contrário daqueles que acreditavam que viveríamos uma época marcada pela disputa pacífica, plenamente regulada pelo Direito, do poder político.

Na batalha eterna entre Carl Schmitt e Norberto Bobbio, o primeiro ganha mais um round, para a infelicidade dos crentes em divindades laicas, como as magnânimas instituições do "Estado democrático de direito". Ou expulsamos de vez as ilusões formalistas e liberais da esquerda latino-americana ou continuaremos despreparados para enfrentar o tipo de conflito a que estamos submetidos.

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