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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A incompetência assombrosa de Weintraub


Luis Felipe Miguel

A incompetência na gestão do MEC é assombrosa, mesmo para os padrões elásticos do atual governo. O que Weintraub oferece - destruição de toda a educação pública, vantagens para grupos privados - outros também estariam dispostos a entregar, mantendo uma fachada mais limpa. Por que, então, o ministro não cai?

Meu palpite é que ele pratica uma forma de manipulação sobre Bolsonaro - primária, como as duas personagens envolvidas. É seu destempero verbal que o mantém no cargo: Bolsonaro não quer que pareça que está demitindo alguém pelas "virtudes" que ele mesmo apresenta, como grosseria, estupidez, incivilidade.

Matéria da Folha de hoje fala da "rixa" de Rodrigo Maia com Weintraub. A alturas tantas, cita a medida provisória lançada na véspera do Natal, que altera a escolha de reitores e outros dirigentes das universidades e dos institutos federais, destruindo qualquer possibilidade de democracia interna e ampliando de forma quase indiscriminada a possibilidade de intervenção do MEC, e diz que ela "corre o risco de ser deixada de lado" - isto é, perder validade por não ter sido apreciada pelo Congresso no prazo de 120 dias.

Ora, a não-aprovação da MP 914/2019 é absolutamente insuficiente. Afinal, até lá ela estará vigente, tumultuando processos eleitorais em curso em várias instituições. Lembrando que o prazo só conta a partir do reinício do trabalhos legislativos, isto é, dia 2 de fevereiro.

O correto é que a medida provisória seja devolvida pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre, dada sua flagrante inconstitucionalidade.

Uma inconstitucionalidade dupla, aliás. Quanto à forma, uma vez que não cumpre os requisitos do artigo 62 da Constituição Federal, que exige relevância e urgência para a emissão de tais medidas pelo Poder Executivo. E quanto ao conteúdo, já que agride frontalmente o artigo 207 da carta de 1988, que garante às universidades "autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial".

As universidades e os institutos federais já têm suas atividades comprometidas pelos ataques incessantes do atual governo. A MP 914/2019 lança mais uma sombra sobre o nosso dia a dia. Devolvê-la ao Executivo, interrompendo sua vigência de imediato, é absolutamente necessário.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Qual é a melhor maneira de resistir à destruição da ciência e da educação superior no Brasil?

Luis Felipe Miguel

Qual é a melhor maneira de resistir à destruição da ciência e da educação superior no Brasil?

Não sei a resposta. Mas creio que não é prosseguir no piloto automático, fazendo tudo o que sempre fazíamos como se nada estivesse acontecendo.

Preenchendo o Lattes, pontuando as publicações com Qualis, preparando o relatório Capes...

Já era mesmo necessário repensar essas métricas, discutir para que tipo de produção científica elas nos empurravam. Mas, no imediato, fazia sentido segui-las, já que elas definiam nossas possibilidades de financiamento.

E agora? Vamos continuar no mesmo passo, mas para quê? Para disputar as migalhas que sobram?

E serão premiados aqueles que mais conseguirem fingir que está tudo bem...

Pensemos nos eventos científicos. As agências governamentais estão retirando todo o apoio que era dado a eles.

Será que vale a pena tentar mantê-los no padrão de sempre - medalhão estrangeiro na conferência de abertura, sacolinha ecológica com livro de resumo e canetinha, coffee break com pão de queijo para que a fome não acirre os ânimos e faça as discussões desandarem?

Sem apoio, o "padrão de sempre" significa taxas de inscrição batendo nos mil reais.

O financiamento não vem pelo outro lado, já que os programas de pós-graduação também estão com suas verbas estranguladas. De qualquer jeito, mesmo que eles financiassem as participações, a taxa de inscrição estratosférica significaria mais uma vantagem para os programas consolidados e portanto melhor financiados, em geral no Sudeste do país, em detrimento das periferias.

E agora, aliás, nem isso: a inacreditável portaria do ministro da Educassão proíbe a participação de múltiplos docentes da mesma instituição num mesmo evento.

Ingênuo, pensei no começo que era uma demonstração de ignorância sobre o sentido de um evento científico - que não é para discutir com os pares, mas para fazer representação institucional. Ou, no máximo, uma feira de ciências.

Claro que não é isso. É que no projeto de país de Guedes e Bolsonaro a pesquisa é inútil (pois nosso papel no mundo é subordinado mesmo), quando não perigosa.

Não seria melhor adaptar os eventos à nova realidade - abraçar a precariedade, em vez de escamoteá-la, e usá-la como estímulo para nosso debate e nossa resistência?

Ou mesmo cancelar, como manifestação de protesto, aquilo que não tem como ser mantido?

Com as revistas científicas, o movimento de acomodação é pior ainda. Com o corte profundo no financiamento, que aliás sempre foi insuficiente, começa um movimento para cobrar dos autores pela publicação.

Alguns periódicos já estão implantando a medida. Outro dia recebi um pedido de parecer. Fui olhar as regras de submissão, como sempre faço antes de emitir um parecer, e estava lá: caso o artigo seja aprovado, há taxa de mil reais para a publicação.

Sei de outros periódicos que estão discutindo a cobrança.

Quem vai publicar, então? O pesquisador vinculado a um programa forte, que ainda tenha recursos para bancar a taxa de publicação, reforçando as disparidades regionais. O pesquisador sênior que ainda consiga alavancar um dos poucos financiamentos de pesquisa disponíveis. E, claro, um ou outro filhinho de papai, que pague do próprio bolso.

Essa é a ciência que nos queremos?

Seria melhor aproveitar para mandar as exigências do Qualis e do Scielo praquele lugar e buscar formas alternativas de publicização das pesquisas.

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta, neste pacote, para que se assuma de vez que não, não está tudo bem?

sábado, 7 de dezembro de 2019

O Brasil foi dos países que mais evoluíram no Pisa antes do golpe

Fernando Haddad

Pisa 

O Brasil foi dos países que mais evoluíram no Pisa entre 2000 e 2009. Se tivéssemos mantido o ritmo de melhoria nos nove anos seguintes, teríamos sido, em 2018, o país líder em qualidade da educação básica na América Latina, ladeado pelo Chile. Em 2030, ficaríamos próximos da OCDE, cuja média, por sinal, caiu no período 2000-2018.

O biênio 2000-2001 marca o nosso fundo do poço em termos de qualidade educacional, tanto nas avaliações internacionais quanto nas nacionais. Avaliar qualidade da educação por meio de testes padronizados é um procedimento discutível, mas nas condições em que se encontravam as escolas brasileiras, tão distanciadas do compromisso com a aprendizagem, não havia alternativa senão adotá-los.

No governo Lula, aumentamos em 2% do PIB o investimento público em educação básica (para 5%), mantendo no mesmo patamar de 1% o investimento em educação superior. Pela primeira vez na nossa história, o Brasil investia em educação pública a média da OCDE como proporção do PIB.

Por meio do Fundeb e do FNDE, canalizamos os recursos adicionais para os dez estados mais pobres da federação, nas regiões Norte e Nordeste. Com a criação do Ideb, passamos a monitorar escola por escola, rede por rede.

Os resultados foram extraordinários no ensino fundamental 1 e bastante razoáveis no ensino fundamental 2. O ensino médio (foco do Pisa), contudo, não reagiu, a não ser naqueles estados apoiados pela União.

Os dados são eloquentes. Pelo Ideb do ensino médio estadual, Pernambuco (4,0) superou São Paulo (3,8), alcançado pelo Ceará (3,8), que superou Minas Gerais (3,6), Rio Grande do Sul (3,4) e Rio de Janeiro (3,3), alcançado pelo Piauí (3,3). Os estados do Nordeste estão demonstrando uma capacidade de gestão muito superior aos do Sul-Sudeste, com exceções.

O MEC deixou de divulgar os resultados do Pisa por estado, mas não creio que os resultados seriam diferentes. Tudo leva a crer que a estagnação da média brasileira tenha a ver com a evolução da qualidade do ensino médio público das regiões mais ricas do país.

Evidências sugerem que há uma correlação entre investimento e qualidade, mas até certo ponto. A partir de determinado patamar (US$ 8.000/aluno por ano), outros fatores passam a ser mais relevantes. Basta notar o sofrível desempenho da elite brasileira no Pisa.

O apoio técnico federal à gestão das escolas e redes públicas estagnadas deveria estar no alto das preocupações do MEC.

São considerações de quem, da creche a pós-graduação, apresentou resultados quantitativos e qualitativos para alguém que deveria deixar de lado o histrionismo e se pôr a trabalhar.

Fernando Haddad
Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

domingo, 3 de novembro de 2019

Enzo e Valentina acima de tudo


O rabo que abana o cachorro


A mãe não ficou satisfeita com o lugar da filha no ônibus da excursão: sintonizada com os novos tempos — e com o exemplo que vem de cima —, resolveu que não havia melhor maneira de resolver a gravíssima questão do que botar o dedo na cara da professora e começar um faniquito todo trabalhado na gritaria, na frente da filha e de todos os outros alunos.

Esse episódio aconteceu há pouco no colégio do Martín, que, não por acaso, é o mesmo onde estudei. Ao que parece, o mundo mudou muito entre a minha geração e a dele, ou melhor dizendo, entre a geração dos meus pais e a dos pais dele. Já escrevi aqui que metade dos problemas atuais do Brasil seria resolvida pela Socila. Acho que sou um visionário.

A confusão na porta do ônibus não surgiu do nada: vinha sendo cevada com afinco nas milícias digitais escolares, também conhecidas como grupos de mães — e pais — no WhatsApp. Nessas células terroristas, são gestados os pandemônios e as tretas generalizadas da vida escolar — é claro que não estou falando dos grupos aos quais pertencem os leitores desta coluna, certamente formados apenas por pessoas equilibradas e de um bom senso inabalável —, mas sim daqueles que incluem pais que se orientam por um só princípio: o Enzo e a Valentina jamais podem ser contrariados. Enzo estava falando durante a aula e foi advertido? A professora estava errada. A Valentina ficou chateada porque teve o seu celular confiscado na sala? A professora é a culpada. O desejo deles é sempre uma ordem, e a escola só existe para atendê-los, esse é o mantra nos grupos e coitado de quem discordar. Se há uma categoria profissional que tem toda a minha solidariedade é a dos professores de colégio particular na Zona Sul carioca. São heróis da resistência, ou melhor, da paciência.

Não sei se os leitores têm a mesma experiência que eu, mas não me lembro dos meus pais resolvendo os meus problemas na escola: consideravam que a sua função era pagar a mensalidade em dia e fiscalizar a cor das notas no boletim, o resto era por minha conta. Não por desleixo, mas é que ainda estava em vigor a filosofia — hoje jurássica — de que é importante que a criança aprenda a se virar sozinha. Não tinha essa conversa de “oh, a professora de história é muito severa, não respeita o meu tempo de aprendizado”, “ah, o professor de matemática não vai com a minha cara...”. Se tentasse algo assim ouviria um carinhoso “dane-se, dá o teu jeito de tirar nota alta” do papai ou um afetuoso “se vira playboyzinho, se aparecer com uma nota vermelha pode procurar outra casa para morar” da mamãe. Já um “o lugar no ônibus não me agrada, vocês podem trocar para mim...” seria respondido com um delicado “deixa de ser mimado, e se vira sozinho” em uníssono. Essa crueldade paterna me obrigou a aprender a lidar com os professores e os outros alunos e, é claro, descobrir por conta própria o jeito de arrumar um lugar na janela.

Pelo visto, Enzo e Valentina não terão que passar por esse sacrifício. Espero que tenham sorte, se bem que o exemplo de cima mostra bem o que acontece quando os filhos fazem o que dá na telha.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Foda-se


Este deveria ser o nome do "projeto" que o atual MEC tem para as universidades públicas, ao invés do falso "Future-se"

Qualquer um que tenha estudado políticas públicas sabe que a distância entre o devaneio e a empiria é a exata extensão do fracasso. O próprio PT sentiu isto quanto mudou o programa do "Fome Zero", para o "Bolsa Família". Responsabilidade, exiquibilidade e efetividade são as bases para qualquer proposta.

Há anos que venho rindo muito das pessoas que comparam o Brasil com a "Suíça", "Coréia do Sul" ou quaisquer outros desses clichês neoliberais. Uma equipe de fiscais é capaz de cruzar a Suiça de carro, fazendo vistorias em obras públicas em uma semana, com direito a jantares e descansos. No Brasil, a escala é sempre diferente. 

A "proposta" do atual MEC é um devaneio de "jestores" que nunca colocaram em prática qualquer política pública no Brasil. Desconhecem as especificidades regionais, os gargalos administrativos e mesmo as necessidades de área. 

Primeiro eles pretendem "criar um fundo" de cerca de 50 bilhões com "ações na bolsa" que seria a única forma das universidades obterem recursos. A forma para conseguir e manter este fundo são secretas. Quem o administrará será um "jestor" e certamente ele estará orientado para a busca de lucro. Esta busca, na concepção dos ineptos do MEC, garantiria que os recursos fossem bem empregados. É o velho engodo do "livre mercado".

Obviamente que o tal fundo vai ter uma composição decisória voltada a financiar somente projetos que o "mercado" julgue lucrativos. É a educação se dobrando ao eixo do lucro, como em nenhum outro país do mundo. Segundo o projeto do MEC universidades do Brasil inteiro "concorreririam" com projetos a serem analisados. Apenas os "melhores" seriam premiados com verbas. Como se houvesse uma forma "medir" o mérito de um projeto de antropologia que busca compreender a filosofia do tempo nas tribos afastadas da amazônia, em comparação com um outro que visa "enquadrar" o "esquerdismo sindical" aos cânones do "mundo contemporâneo". 

Forçar a criação de padrões de comparação e usar a força do dinheiro para criar um consenso de que estes padrões são "justos" foi a base do golpe que o Brasil tomou desde 2013. Agora eles querem a mesma lógica na educação.

Não há nenhuma forma equitativa de fazer "concorrência" entre universidades diferentes, assentadas sobre tecido social, político, cultural e geográfico diferentes, com ontologias dessemelhantes e interesses sociais distintos. Só na cabeça de um liberal "cabeça-de-planilha" pode passar a ideia de que toda a diversidade de produção de conhecimento possa ser emoldurada por "jestores" e "bolsa de valores".

O projeto é a decretação da morte da educação pública, da ciência no Brasil e a chave final para o desmonte da educação superior no Brasil. 

A mera proposição deste absurdo deveria já ser recebida com uma greve geral da educação superior. Mas a forma sórdida com que o MEC acredita "convencer" a população de que o projeto "é bom" é criminosa. É o uso da máquina e do dinheiro público contra o interesse do que é público e do país. Algo, aliás, que prática corrente do (des)governo fascista de Jair Bolsonaro.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Sinistro da educação é a encarnação da estupidez orgulhosa de si


Luis Felipe Miguel

Vélez era incompetente e reacionário, mas estava nitidamente assustado com o cargo que ocupava. Ele pelo menos sabia que não tinha condições de estar ali.

Weintraub é tão limitado que nem isso ele alcança. Mesmo nas suas performances mais patéticas (chocolatinhos, dancinha da chuva), é patente o contentamento que ele sente consigo mesmo.

O ministro acha que está arrombando a boca do balão, como se dizia nos anos 1990. É a encarnação da estupidez orgulhosa de si.

Por isso, é difícil imaginar que Weintraub vá recuar.

Bolsonaro deve estar recebendo muita pressão para demiti-lo, dos seus aliados dotados de maior racionalidade. Mas o ex-capitão deve ver a substituição do ministro como uma derrota, uma demonstração de fraqueza.

Quando foi forçado a tirar Vélez, colocou um pior ainda no cargo. Será que vai mudar de postura agora?

É difícil imaginar mesmo a produção de um modus vivendi entre o setor educacional e um governo que, seja por cálculo, seja por delirante paranoia, tem no combate à educação uma prioridade.

A única maneira de sair desse impasse é pela derrota completa de Bolsonaro, com a definição muito clara de regras que garantam a vigência da Constituição - isto é, que blindem o investimento público e protejam a liberdade de ensino e pesquisa e a autonomia universitária. Cabe ao Congresso e ao Supremo reagir às ruas.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

"Nosso ministro da Educação odeia os estudantes", afirma Arnaldo Jabor


Segundo Arnaldo Jabor, Abraham Weintraub entrou no MEC com uma missão destrutiva: Por trás dos cortes (ou contingenciamentos), o governo quer desorganizar o pensamento brasileiro, jogando o país na Idade Média, na ciência e nas artes.

domingo, 5 de maio de 2019

Educação: comparando os governos de esquerda com os de direita



Comparando os governos de esquerda (Lula e Dilma) com o de direita (Bolsonaro):

Os governos do PT criaram 18 universidades, 173 campus e 360 Institutos Federais. O número de alunos entre 2003 a 2014: de 505 mil para 932 mil.

Além de permitir que milhares de estudantes estudassem no exterior com o Ciência sem Fronteiras e criar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Já Bolsonaro votou a favor da PEC 55, que congelou por 20 anos os investimentos em educação, cortou R$ 5,8 bilhões do orçamento da educação no mês passado. Este mês ele cortou 30% do orçamento das universidades e institutos federais e mais 2,4 milhões do orçamento da educação básica.

O ministro da educação diz que quer tirar recursos das universidades federais para transferir para a educação básica.

Mas os recursos para a educação básica provêm de estados e município. Aí o ministro diz que vai dar um jeito...

Para dar um jeito precisa de aprovação do congresso. São necessárias mudanças na legislação. E isso não ocorre de um dia para o outro. Demora...

Mas o ministro diz que um estudante universitário, nas universidades federais, custa R$ 30 mil ao ano, e que isso seria 10 vezes mais que uma criança em uma creche. 

O problema é que, além de não citar a fonte, esse dado é falso.

Os dados disponíveis no Ministério da Educação são de 2008, e mostram um custo anual de R$ 14.763 para o estudante universitário e R$ 2.632 para o estudante da educação básica. O estudante universitário era, na verdade, 5 vezes mais custoso em 2008.

No site do MEC tá assim: 
“Apesar de ainda ser grande a discrepância, essa relação vem diminuindo. Em 2000, por exemplo, o investimento em um aluno do ensino superior era 11 vezes maior do que na educação básica..."
"A meta do MEC é reduzir para quatro essa proporção, o que é recomendado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).”

E o ministro parece não entender que o estudante universitário é obviamente mais caro porque o custo sempre vai se elevando mesmo. Professores do ensino médio recebem salários maiores do que professores de creche.

Universidades fazem pesquisa e isso gera um aumento significativo em termos de custos. Porque pesquisa é algo que tem um custo bastante alto mesmo, pois demanda recursos materiais, com mão de obra altamente qualificada.

Sem pesquisa não há desenvolvimento. Precisamos de investimentos em pesquisa para sairmos da crise. A história nos ensina que, em momentos de crise, é recomendável aumentar os investimentos em pesquisa. Foi assim durante a história de vários países desenvolvidos.

Em momentos de crise investiam mais ainda em pesquisa. Em universidades existem coisas bem caras, sabia? Como hospitais universitários, por exemplo. E esses hospitais servem a quem? A toda a população.

Os professores da atenção básica são formados em universidades, ministro. Sem universidades, para formar professores, não teremos educação básica.

Mas o presidente Jair Bolsonaro também disse que “Poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo”.

Mas isso também não é verdade.

A verdade é que as universidades públicas brasileiras produzem mais de 90% da pesquisa do país. No ranking de pesquisa nacional há apenas uma instituição privada entre as 20 melhores, que é a PUC-RS, em 19º lugar.

O restante dessas 20 instituições é todo composto por universidades públicas. E a Universidade Presbiteriana Mackenzie, citada por Bolsonaro, é somente a 62ª colocada no ranking de pesquisa nacional.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Sinistro da educassão insita o recentimento


'Insitando' o 'recentimento' 

Sergio Rodrigues
Como vingança e destruição foram parar no centro da política educacional 
Temos um ministro da Educação que escreve “insitar”. O erro de grafia poderia ser um deslize sem maior significado: ortografia, afinal, é só a casca da palavra. É tão possível pensar errado com letrinhas certas quanto pensar certo com letrinhas erradas.

Se nesse caso a grafia torta de “incitar” (verbo que significa estimular, instigar) tem, sim, um significado maior, isso se deve ao fato de a batatada ter sido cometida pelo ministro da Educação de um país tragicamente iletrado.

Mais: um ministro da Educação que, logo após ter negado “insitar” a violência, demonstrou que, além de usar letrinhas erradas, também é desafeto do pensamento certo ao anunciar uma violência inédita: o corte de verbas para “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia”.

“A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, explicou Abraham Weintraub. Exemplos de evento ridículo, segundo ele: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

UnB, UFF e UFBA, as três instituições nomeadas pelo ministro da Educassão (atenção, revisores!), estão entre as de melhor desempenho acadêmico do país. E daí? A ala do governo que reza pela cartilha do guru Olavo de Carvalho, à qual pertence Weintraub, tem se especializado em desprezar fatos. Seu motor é puramente ideológico.

As barreiras —inclusive constitucionais— diante dessa máquina de ceifar verbas universitárias são vultosas. No fim das contas, é possível que tudo dê em nada e o episódio fique na história como mais um dos tiroteios de festim com fumaça de gelo seco em que o governo Bolsonaro é pródigo —espetáculos que seriam anódinos se não fizessem perder tempo um país já tão atrasado.

De todo modo, ao expor de forma cândida suas motivações, Weintraub abre a guarda e incita uma reflexão sobre o solo, digamos, emocional em que se fundam essas e outras balbúrdias provocadas por um governo de triste desempenho. A palavra-chave é ressentimento.

Na referência a eventos de sem-terra, evidencia-se o rancor com a inclinação esquerdista que predomina no meio acadêmico —como se a liberdade de pensamento não fosse garantida pela Constituição e como se fosse preciso ser de esquerda para divergir do bolsonarismo.

Isso é óbvio até demais, mas o melhor vem agora. Na denúncia ridícula de delirantes orgias de peladões no campus, fica escancarada a semente rancorosa de todo moralismo: “Malditos depravados —e nem me convidaram!”

O ressentimento, “mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal que se recebeu” (Houaiss), é forte candidato a síntese do espírito desse tempo esquisito.

Palavra do século 16, o verbo “ressentir” se formou no próprio português, segundo os estudiosos, pela junção re + sentir. O prefixo indica reforço e reiteração: ressentir é sentir muito, continuadamente.

Para o ressentido, a ofensa —real ou imaginária— nunca vai embora. Perdão e superação são ideias que ele não consegue conceber. Vingança, ainda que à custa da destruição de tudo à sua volta e até de si mesmo, é seu único horizonte.

“Nada no mundo consome um homem mais depressa do que a paixão do ressentimento”, escreveu Nietzsche em “Ecce Homo”. Em tempo: talvez o ministro goste de saber que, por um breve período no século 18, uma flutuação ortográfica levou a palavra a ser grafada “recentimento”. Fica a dica.

sábado, 27 de abril de 2019

A falácia de que ser professor é uma das profissões que mais exigem amor de quem pratica


A falácia de que ser professor é uma das profissões que mais exigem amor de quem pratica e seu uso para manter a profissão tão pouco valorizada.

Algum tempo atrás, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin disse que professor tem de aceitar o salário que tem pois tem de trabalhar por amor à profissão. Será que é assim mesmo?

Sempre que chega outubro, leio e ouço varias mensagens sobre a importância do professor na sociedade. De como somos a profissão que forma todos os demais profissionais. Que um país que não respeita o professor está fadado ao fracasso, e por aí vai.

E junto vem todas aquelas matérias, textões, vídeos, reportagens sobre os professores que amam o que fazem, os que sacrificam tudo por amor à profissão. De como doamos todo nosso amor à esta profissão linda, e tal.

Só que... sempre fica só nesta admiração distante do nosso esforço em realizar o nosso trabalho. Quando pedimos melhores salários, falam que só sabemos reclamar ao invés de trabalhar. É só mencionarmos a questão salarial e aquela admiração vira asco em muitos rostos.

Quantas vezes ouvimos a pergunta: “Professor, você só dá aula ou trabalha também?” Quantas vezes, ao descobrirem nossa profissão, pessoas soltam manifestações de piedade, pois” professor sofre muito neste país”.

Quantos de nós consegue falar para quem quiser ouvir que realiza seu trabalho com toda a dignidade que lhe é de direito como cidadão? Quantos de nós consegue viver sem trabalhar em uma jornada dupla ou muitas vezes tripla?

Quantos de nós não precisam abrir mão de fins-de-semana para corrigir provas ou fazer aquele fechamento de bimestre? Quantos de nós não precisam acordar às 5h00, às vezes 4h00 da manhã para estar na escola às 7h00?

Daí você pode falar, “mas toda profissão passa por isto!”, “Deixa de reclamar e vai trabalhar!”, “Professor de Humanas sempre está questionando tudo!”... Vou te falar uma coisa. Quem vive falando que a nossa profissão é sofrida e exige muita vocação e amor, é você!

Quem fala que nunca esquece aquela professora,aquela aula, é você! Quem lembra com carinho daquele professor que te ajudou a se encontrar como ser humano,é você!Você tem consciência da importância da nossa profissão,mas na maioria das vezes não tem empatia pela pessoa que a exerce

Cadê a sociedade realmente exigir condições para que o professor não precise trabalhar em dois ou três turnos e possa planejar e executar aulas de qualidade? Cadê a sociedade cobrar do poder público escolas de qualidade?

Cadê a sociedade exigir escolas com infraestrutura que realmente permitam que os alunos da rede pública possam ter condições de aprendizado iguais às escolas da rede privada?

Cadê a sociedade realmente engajada em um projeto de tornar o nosso país um referencial de Educação de qualidade?

O que se vê são apenas movimentos pontuais, que tem muito impacto nas comunidades em que atuam, mas nada até hoje aconteceu na Educação que tenha dado esperança de que as coisas realmente vão melhorar.

Um bom trabalho necessita basicamente de bons profissionais para realizá-lo, meios para que este trabalho seja realizado a contento e matéria-prima de qualidade.

Que se mobilize sim por melhores salários, mas também por infraestrutura, cooperação dos pais, engajamento das comunidades e do país, desejo em aprender por parte dos alunos. Se isto acontecesse, o país seria outro, a melhor versão possível do Brasil.

domingo, 14 de abril de 2019

Por que o Brasil de astrólogos e milicianos vê em Paulo Freire um inimigo

Por que o Brasil de Olavo e Bolsonaro vê em Paulo Freire um inimigo 
Sérgio Haddad
[resumo] Biógrafo de Paulo Freire analisa como o principal educador brasileiro, autor de método de alfabetização que estimula alunos a refletirem sobre sua realidade, passou a ser visto como inimigo público e responsabilizado por maus resultados educacionais do país.
Em 29 de maio de 1994, em longa entrevista publicada no caderno “Mais”, da Folha, Paulo Freire comentou as razões de seu método não ter erradicado o analfabetismo no Brasil. 

“Em tese, o analfabetismo poderia ter sido erradicado com ou sem Paulo Freire. O que faltou foi decisão política. A sociedade brasileira é profundamente autoritária e elitista. Nos anos 60 fui considerado um inimigo de Deus e da pátria, um bandido terrível. Pois bem, hoje eu já não seria mais considerado inimigo de Deus. Você veja o que é a história. Hoje diriam apenas que sou um saudosista das esquerdas. O discurso da classe dominante mudou, mas ela continua não concordando, de jeito nenhum, que as massas populares se tornem lúcidas”, afirmou na ocasião. 

Um busto de Paulo Freire desenhado, cercado de crianças que brincam
 a seu redor,  escalando suas barbas. Ilustração da artista Veridiana Scarpelli 

Passados 25 anos, Paulo Freire voltou a ser alvo de ataques nas redes sociais e nos discursos políticos, consequência da nova onda conservadora que assola o país.  

Parece ser essa a sina do mais importante educador brasileiro (1921-1997). Cinco décadas atrás, Freire foi preso e exilado pelos militares após o golpe de 1964. Ele desenvolvia na época um programa nacional de alfabetização que seria implantado por João Goulart, inspirado em projeto que desenvolveu no Rio Grande do Norte com cerca de 400 jovens e adultos.

A experiência na cidade de Angicos ganhou notoriedade internacional por se propor a concluir em 40 horas o processo de alfabetização e a formar cidadãos mais conscientes de seus direitos e dispostos a defendê-los de maneira democrática. 

O método partia de palavras selecionadas entre as questões existenciais dos alunos, fazendo com que se alfabetizassem dialogando acerca de suas condições de vida, trabalho, saúde, educação e lazer, por exemplo. Unia, portanto, educação com cultura, ao tomar as experiências dos alunos e seus conhecimentos como parte integrante do ato de educar. 

Os golpistas de 64 intuíram que o programa, ganhando dimensão nacional, poderia desestabilizar poderes constituídos ao capacitar, no curto prazo, grande quantidade de pessoas para o voto, então vedado aos analfabetos, permitindo que setores populares influíssem de maneira mais consciente em seus destinos. Seria necessário, portanto, banir e deslegitimar o método e seu autor. 

Em 18 de outubro de 1964, alguns dias depois de Paulo Freire ter partido para o exílio, o tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima —um dos 377 agentes do Estado apontados pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade por violar direitos humanos e cometer crimes durante o regime militar— divulgou o texto final do inquérito que comandou, acusando Paulo Freire de ser “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos”. 

“Sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização das mesmas”, escreveu. Para Ibiapina Lima, Freire não teria criado método algum e sua fama viria da propaganda feita pelos agentes do Partido Comunista da União Soviética. “É um cripto-comunista encapuçado sob a forma de alfabetizador”, informava o relatório. 

Na apresentação ao livro de Freire “Educação como Prática da Liberdade”, Francisco Weffort, ministro da Cultura no governo FHC, assim analisou os fatos ocorridos no Brasil: “Nestes últimos anos, o fantasma do comunismo, que as classes dominantes agitam contra qualquer governo democrático da América Latina, teria alcançado feições reais aos olhos dos reacionários na presença política das classes populares... Todos sabiam da formação católica do seu inspirador e do seu objetivo básico: efetivar uma aspiração nacional apregoada, desde 1920, por todos os grupos políticos, a alfabetização do povo brasileiro e a ampliação democrática da participação popular... Preferiram acusar Paulo Freire por ideias que não professa a atacar esse movimento de democratização cultural, pois percebiam nele o gérmen da derrota”.

E acrescentaria: “Se a tomada de consciência abre caminho à expressão das insatisfações sociais, é porque estas são componentes reais de uma situação de opressão”.

Exilado por 15 anos —tendo passado por Bolívia, Chile, EUA e Suíça—, Freire regressaria ao Brasil em 1980, reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes educadores do mundo. Havia percorrido diversos países a convite de universidades, igrejas, grupos de base, movimentos sociais e governos. Nos últimos dez anos de seu exílio, trabalhando no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, totalizaria cerca de 150 viagens a mais de 30 países.

No seu retorno, começaria a dar aulas na PUC de São Paulo e na Unicamp. Em fins de 1988 seria convidado pela prefeita eleita de São Paulo Luiza Erundina para ser secretário municipal da Educação. As eleições daquele ano marcariam o início da ascensão dos governos de oposição aos grupos que se mantinham no poder desde o golpe militar, com o PT governando vários municípios, posteriormente estados, e, finalmente, assumindo a Presidência da República, nas eleições de Lula e Dilma. 

Frente às inúmeras pressões das quais era alvo, Paulo Freire não completou sua gestão como secretário, passando o cargo ao professor Mário Sérgio Cortella, chefe de gabinete, em 1991. Suas orientações, no entanto, foram mantidas até o final da gestão, e acabariam por influenciar outros municípios e governos estaduais no campo da democratização da gestão e das inovações pedagógicas. 

Em 1º de maio de 1997, com a saúde fragilizada, Paulo Freire daria entrada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para uma angioplastia, mas complicações na reabilitação o levariam à morte no dia seguinte. 

Paulo Freire seria agraciado em vida e in memoriam com 48 títulos de doutor honoris causa por diversas universidades no Brasil e no exterior. Instituições de ensino de várias partes do mundo o convidaram para tê-lo no corpo docente. Foi presidente honorário de pelo menos 13 organizações internacionais. 

Diversos outros títulos, homenagens e prêmios lhe seriam concedidos ao longo da vida e depois da morte: mais de 350 escolas no Brasil e no exterior receberiam seu nome, assim como diretórios e centros acadêmicos, grêmios estudantis, teatros, bibliotecas, centros de pesquisa, cátedras, ruas, avenidas, praças, monumentos e espaços de movimentos sociais e sindicais. 

Em 1995, seria indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Em 13 de abril de 2012, foi declarado patrono da educação brasileira por iniciativa da agora deputada federal Luiza Erundina (então no PSB, hoje no Psol).

Seus livros se espalharam pelo mundo. “Pedagogia do Oprimido” ganhou tradução em mais de 20 idiomas. Estudo de junho de 2016 do professor Elliott Green, da London School of Economics, afirma que essa era a terceira obra mais citada em trabalhos da área de humanas em todo o mundo, à frente de trabalhos de pensadores como Michel Foucault e Karl Marx. É também o único título brasileiro a aparecer na lista dos cem livros mais requisitados por universidades de língua inglesa. Em dezembro de 2018, a Revue Internationale d’Éducation de Sèvres, publicação francesa de prestígio, apontou Freire como um dos principais educadores da humanidade.

A despeito de tão vasto reconhecimento, Freire vem sendo reiteradamente desqualificado no debate público brasileiro desde a recente ascensão de setores conservadores.

Na onda intolerante que se formou no país após 2015, a partir da crise do governo Dilma Rousseff (PT), grupos foram às ruas com propostas antidemocráticas, homofóbicas, racistas e machistas. Era comum encontrar nas manifestações frases do tipo “Chega de doutrinação marxista, basta de Paulo Freire!”.

Com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado, as críticas ao educador e ao seu pensamento ganharam reforço contundente, estimuladas pelo escritor Olavo de Carvalho, de quem o presidente é seguidor. Durante a campanha eleitoral, em palestra para empresários no Espírito Santo, o então candidato Bolsonaro afirmou: “A educação brasileira está afundando. Temos que debater a ideologia de gênero e a escola sem partido. Entrar com um lança-chamas no MEC para tirar o Paulo Freire de lá”. E complementou: “Eles defendem que tem que ter senso crítico. Vai lá no Japão, vai ver se eles estão preocupados com o pensamento crítico”. 

Em seu discurso de posse, o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, insistiu: “Se o Brasil tem uma filosofia de educação tão boa, Paulo Freire é uma unanimidade, por que a gente tem resultados tão ruins comparativamente a outros países? A gente gasta em patamares do PIB igual aos países ricos”.

A tentativa de banir Freire das escolas angariou forte apoio nas redes sociais desde a campanha. Grupos atacam a qualidade literária dos textos e da pedagogia de Freire, acusando-a de proselitismo político em favor do comunismo; responsabilizam o educador pela piora na qualidade do ensino, argumentando que, quanto mais é estudado e lido nas universidades, mais a educação anda para trás; afirmam que seus escritos estão ultrapassados, que o lugar de fazer política é nos partidos, não nas escolas.

Não há base empírica que comprove essas afirmações. Freire nunca foi comunista, ainda é mais lido nas universidades do exterior do que nas brasileiras, nunca pregou uma educação partidária nas escolas. Do mesmo modo, a crítica à qualidade literária de seus livros não se sustenta. Tais opiniões são proferidas por setores atrasados, que desrespeitam a pluralidade de ideias, sem compromisso com os ideais democráticos de liberdade de opinião. Não reconhecem no educador, tendo lido ou não as suas obras, concordando ou não com o seu pensamento, um interlocutor consagrado e respeitado. 

Um dos principais adversários das ideias de Paulo Freire, o movimento Escola Sem Partido se propõe a coibir a doutrinação ideológica nas escolas. Estabeleceu como estratégia política aprovar leis para vigiar as ações de professores nas escolas, produzindo um clima de perseguição política e denuncismo. Em nome de uma inexistente neutralidade, omissos em relação aos verdadeiros dilemas da educação brasileira, tentam desqualificar Freire. 

Uma proposta legislativa patrocinada pelo movimento obteve as assinaturas necessárias para que o Senado discutisse retirar o título de patrono da educação brasileira de Freire. Depois de uma intensa batalha, a demanda não foi aprovada. 

Freire acreditava no diálogo como método de apreensão do conhecimento e aumento da consciência cidadã. Defendia que os educandos fossem ouvidos, que exprimissem as suas ideias como exercício democrático e de construção de autonomia, de preparação para a vida. Propunha o diálogo efetivo, crítico, respeitoso, sem que o professor abrisse mão de sua responsabilidade como educador no preparo das aulas e no domínio dos conteúdos. 

Era contra a educação de uma via só, em que o professor dita aulas e o aluno escuta; em que o primeiro sabe e o segundo, não; em que um é sujeito e o outro, objeto. Para ele, todos tinham o que aportar neste processo de diálogo, assim como todos aprendiam em qualquer processo educativo: “Não há docência sem discência”, afirmaria. 

Freire foi criticado também em setores progressistas por ser idealista, por sua linguagem com ênfase no masculino nos primeiros trabalhos, por ser contra o aborto, por desconsiderar os conteúdos nos processos educativos, pela insuficiência do seu método. Nunca foi unanimidade nos corredores das universidades, e nem esperava por isso. 

Coerente com o que escrevia e pensava, procurou tratar seus interlocutores e críticos, fossem eles de qualquer espectro, com igual respeito. Aprendia com os diálogos, os debates e as polêmicas nos quais se envolvia, refazendo muitas das suas posições. Olhava a educação como um produto da sociedade, reflexo de projetos políticos em disputa, naturais em qualquer sociedade democrática que aposta no debate de ideias para constituição do seu futuro. 

Não acreditava em uma educação neutra, verdade reconhecida há anos pela sociologia da educação, mais uma vez constatada na gestão do ex-ministro da Educação de Bolsonaro Ricardo Vélez Rodríguez. Indicado por Olavo de Carvalho, tentou impor comportamentos e valores para toda a rede de ensino, com propostas de obrigar os alunos a cantarem o hino nacional, controlar as provas do Enem, alterar os livros didáticos para negar que tenha havido golpe militar em 1964, numa clara tentativa de reescrever a história aos moldes do seu grupo político. 

Demitido antes de completar cem dias no cargo, Vélez apresentava claro apetite para a guerra cultural, mas se mostrava totalmente inoperante para os problemas reais da sua pasta. 

O novo ministro, Weintraub, economista com mestrado em administração, atuou por mais de 20 anos no mercado financeiro. A exemplo de Vélez, nunca exerceu cargo de gestor público em educação. É também um seguidor de Olavo de Carvalho e, aparentemente, não deixará de lado o discurso de combate ideológico. Weintraub é mais um que enxerga comunistas em todas as partes, dominando as universidades, os meios de comunicação e, inclusive, setores do mercado. 

Em sentido oposto, Paulo Freire, como cristão comprometido com os mais pobres e discriminados, bebeu de diversas teorias para realizar pedagogicamente valores que tinham como fundamento uma profunda crença na capacidade de o ser humano se educar para ser partícipe na construção de um mundo melhor, de acordo com os seus interesses. 

Em seu percurso intelectual, não se ateve a uma corrente de pensamento, tendo sido muitas vezes criticado por isso. Escolhia, dentre as diversas teorias, aquelas que melhor ajudassem a realizar o seu compromisso ético de cristão ao lado dos oprimidos, inclusive o marxismo. Em diálogo com Myles Horton, educador norte-americano, no livro “O Caminho se Faz Caminhando”, reafirmaria sua postura: “Minhas reuniões com Marx nunca me sugeriram que parasse de ter reuniões com Cristo”.

Quando perguntado, Freire não se recusava comentar de forma crítica os abusos do regime comunista. Na mesma entrevista citada no início deste artigo, afirmou que o fim do comunismo no Leste Europeu havia representado uma queda necessária não do socialismo, mas de sua “moldura autoritária, reacionária, discricionária, stalinista”. 

Freire deixou um texto inacabado, interrompido pela sua morte, posteriormente publicado por Nita, sua segunda esposa, em “Pedagogia da Indignação”. Nele, comentava o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por cinco jovens em Brasília. “Tocaram fogo no corpo do índio como quem queima uma nulidade. Um trapo imprestável”, escreveu. Refletindo sobre quem seriam os jovens, indagou que exemplos, testemunhos e ética os levariam a essa “estranha brincadeira” de matar gente. “Qual a posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar?” 

Diante do ocorrido, proclamaria o dever de qualquer pessoa que educa de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais. Concluiria afirmando que, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.

Em “Política e Educação Popular”, um dos mais importantes trabalhos sobre Freire, o professor Celso Beisiegel afirma que o seu compromisso do educador com os oprimidos estaria levando a um estreitamento das possibilidades de utilização das suas práticas pedagógicas —referia-se ao tempo dos governos autoritários instalados na América Latina nos anos 1960 e 1970. Beisiegel questionava se o educador não estaria se aproximando da realização daquela imagem do “ser proibido de ser”, concluindo: “Não seria inaceitável dizer que Paulo Freire veio se aproximando da realização da figura do educador proibido de educar”. 

Não é muito distante do que está ocorrendo hoje no Brasil. 

Sérgio Haddad é doutor em educação pela USP, pesquisador da Ação Educativa e professor da Universidade de Caxias do Sul. Prepara biografia de Paulo Freire a ser lançada pela editora Todavia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Novos livros pedagógicos serão padrão Bolsonaro: não precisarão ter referências e poderão ter erros e propaganda


O Ministério da Educação publicou uma nova versão de um edital que orienta a produção de livros escolares e, entre outros pontos, deixou de exigir das editoras referências bibliográficas que apoiem a estrutura editorial dos livros, o que, na prática, pode permitir a aprovação de livros sem qualidade, com erros e ainda visões de mundo particulares.

Além disso, o novo edital suprimiu trechos, como o compromisso com a agenda da não violência contra as mulheres e a promoção das culturas quilombolas e dos povos do campo.