domingo, 3 de janeiro de 2021

Atenção!



Feliz ano novo, Brasil

Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Enquanto isso, ele se prepara para outro mandato

Jair Bolsonaro tem 37% de aprovação. Feliz ano novo, Brasil. E 52% dos brasileiros não acreditam que o presidente tenha alguma coisa a ver com a tragédia do novo coronavírus. Feliz ano novo, Brasil.

Dois anos de um responsável pelas relações internacionais fanaticamente negacionista e fundamentalista. Feliz ano novo, Brasil.

Dois anos do responsável pela conservação do ambiente desmatando e poluindo o país. Prometeu terminar com o desmatamento. E está cumprindo com a promessa. Em breve já não haverá mato para desmatar. Feliz ano novo, Brasil.

Bolsonaro prometeu acabar com a corrupção. E, para isso, ressuscita o centrão. Feliz ano novo, Brasil.

No Supremo, encaixou, com a conivência do Senado, um Kassio. E virão outros Kassios. Toffoli ficou contente. Feliz ano novo, Brasil.

Três mil militares dependuraram os pijamas. E dizem que falta emprego. Feliz ano novo, Brasil.

A educação vai para o brejo, e ainda não conseguiram encontrar um ministro para a pasta. Feliz ano novo, Brasil. E na saúde já tem ministro, só que ninguém sabe quem é. Feliz ano novo, Brasil.

Há suspeita de que, em breve, haverá falta de energia. Mas os responsáveis vão resolver. Já começaram a recuperar o sucateado Angra 3. Heroico, pois resistiu as intempéries por trinta e tantos anos. Um pouco enferrujado talvez, mas de uma tecnologia comprovada, tanto quanto um Ford bigode. Feliz ano novo, Brasil.

E já se deu um passo brilhante contra o imperialismo chinês. Será proibida a adoção da tecnologia 5G da Huawei. E com isso nossos segredos de Estado serão preservados. Feliz ano novo, Brasil.

As rachadinhas do Flávio. O gabinete do ódio mantido com dinheiro público. As difamações e infâmias do Carlos. Os assédios e agressões do Eduardo. Enfim, a família do presidente estará salvaguardada. Feliz ano novo, Brasil.

A melhor maneira de acabar com o racismo é se livrar dos negros. Pois não é assim que está fazendo a Fundação Palmares? Feliz ano novo, Brasil.

E, nos legislativos do país, deputados passam a mão nos seios de deputadas para acalmá-las, e senadores inauguram a moda do dinheiro na cueca. Feliz ano novo, Brasil.

E a derrota do tráfico já está assegurada. As milícias no Rio de Janeiro e em São Paulo já expurgaram o que tinha de ruim e anexaram o resto. Hoje, dominam dois terços da área do Rio. Em São Paulo ainda falta um pouco. Feliz ano novo, Brasil.

As arapongas protegem o filho do presidente. Não é bacaninha? Enquanto isso, o presidente interfere na Policia Federal para resguardar seu filhinho injustiçado. Feliz ano novo, Brasil.

Os boçais, os fracassados, os psicopatas e os fascistas se unem fraternalmente por intermédio das redes sociais para atacar as instituições e os bons costumes. Feliz ano novo, Brasil.

E o homem se prepara para mais um mandato. Feliz ano novo, Brasil.

Traição de Bolsonaro e Pazuello se demonstra com população desguarnecida de vacinas e seringas

Janio de Freitas

Presidente e ministro da saúde deixaram o tempo correr por decisão

O contraste entre a dedicação corajosa do pessoal da saúde e a sabotagem da turma de Bolsonaro à imunização geral reflete, e denuncia, a falta de caráter coletivo das classes e categorias que dominam o Brasil.

O alheamento dessa porção poderosa, historicamente ativa na fermentação dos golpes de Estado e, com menor necessidade, contra reduções das desigualdades, oferece o alicerce para uma traição que passa de presumida a demonstrada.

O caso das seringas é eloquente. Há mais de oito meses, ainda com Henrique Mandetta como ministro, a compra de seringas e agulhas estava em questão, inclusive com referência ao Ministério da Economia sobre verbas.

A imobilidade do governo só se rompeu há duas semanas, com um pregão em que o Ministério militar da Saúde fixou e exigiu preços abaixo dos vigentes. Só conseguiu comprar 24 em cada 1.000 seringas que dizia querer.

Por mais retardadas que sejam as mentes de Bolsonaro e do general Pazuello, é impossível admitir que levassem tanto tempo para perceber necessidade assim óbvia e, apesar disso, tão advertida a ambos. Nada os moveu. Além de entupidos nos canais da inteligência e da audição, estavam cegos para a ação do mundo todo.

Bolsonaro, Pazuello e os militares do Exército ao redor de ambos deixaram o tempo correr por decisão. Foi recusa deliberada de adotar as providências simples como nas vacinações em que o Brasil e o SUS se tornaram exemplo planetário.

Nada, absolutamente nada pode explicar que Bolsonaro e Pazuello deixem a população desguarnecida de vacinas e seringas, a não ser a decisão de fazê-lo.

Dupla traição: aos deveres constitucionais das respectivas funções e à população. Logo, ao próprio país, pelas consequências sociais discriminatórias, econômicas e nas relações políticas/comerciais com o exterior.

Outros sinais indicam a permanência da decisão de protelar a compra de vacinas e seringas, por sucessivas trapaças, até onde isso seja possível.

Há pouco, Bolsonaro confirmou que “não dá bola” para a falta de imunizadores nem para o vergonhoso atraso brasileiro. A responsabilidade, na sua explicação, é dos “laboratórios que tinham que estar interessados em vender pra gente. Os vendedores é que tinham que vir atrás”.

Para comprar cloroquina, Bolsonaro em pessoa é que foi atrás de Trump e do indiano Modi.

A explicação imbeciloide recebeu seguimento do coronel Elcio Franco, secretário-executivo do Ministério militar da Saúde. Segundo ele, não houve autorização da Anvisa nem compra de vacina porque não pode “pegar a Pfizer pelo braço” para negociar.

As duas explicações, como de praxe, são falsas. A verdade é que o representante da Pfizer se apresentou no ministério, em tempo hábil para o fornecimento prioritário. Tomou chás de cadeira memoráveis.

E não conseguiu ser recebido pelo general Pazuello. Com justa irritação, em poucas palavras falou a repórteres do seu insucesso. Pazuello e seus camaradas não queriam saber de compra de vacina.

Para quem se iniciou como terrorista contra quartéis do Exército e, como Pazuello, diz que outro manda e ele obedece, ordem de sabotagem e traição são naturais. Tanto que recebem a complacência, ou cumplicidade, do segmento social com poder de influência.

O Bolsonaro que acumula mortes, por exemplo, tem o aplauso de 58% do empresariado —os graúdos.

Brasil ainda pode ter sucesso com a vacina e alta do PIB com mais miséria em 2021

Como será possível vacinar contra Covid e gripe ao mesmo tempo? 

Vinicius Torres Freire

É fácil fazer previsão. Difícil é acertar. Desde o começo do século, dois terços das previsões de crescimento da economia feitas em dezembro (para o ano seguinte) estavam muito erradas: não ficaram nem dentro do intervalo das estimativas mínima e máxima de “o mercado”.

Talvez seja útil mencionar obviedades importantes para o que vai ser de 2021. O óbvio não tem charme, mas quebramos a cara quando não nos damos conta de que ele é o muro adiante das nossas fuças.

VACINAS. O Brasil pode vacinar 1,5 milhão de pessoas por dia ou mais, em esforço de guerra (se não precisar usar essas supergeladeiras para vacinas modernas). Em tese, daria para vacinar todo o mundo com mais de 18 anos em quatro meses.

Butantan e Fiocruz dizem que podem produzir 1,3 milhão de doses por dia a partir de fevereiro (menos que isso em janeiro, mas mais no segundo semestre), bastantes para vacinar 650 mil pessoas por dia.

Desde que a eficácia e/ou efetividade dessas vacinas não seja uma porcaria e os crimes de Jair Bolsonaro não atrapalhem muito, lá por outubro daria para ter acabado o serviço. Bem antes, haveria grande alívio: daria para quase acabar com o morticínio de idosos, liberar os hospitais, reduzir custos do combate à doença, animar a economia etc. Problema de que pouco se fala: como será possível vacinar contra Covid e gripe ao mesmo tempo?

MISÉRIA. O número de novos miseráveis pode aumentar de 10 milhões a 20 milhões (sem auxílio e sem trabalho). Parece que o país se esqueceu dessa tragédia que começa já neste mês.

INFLAÇÃO: chegará a 6% ao ano em junho. Por mês, deve crescer mais devagar agora, mas o estrago acumulado em 12 meses chegará a isso. É uma dentada na renda real, na capacidade de consumo, da metade mais pobre do país em particular.

TETO. Essa inflação vai permitir um aumento considerável de gasto federal em 2022 (6%). Vai ser difícil manter o teto em 2021 (mas haverá gambiarras). Em 2022, o teto pode se manter graças à contribuição imprevista da inflação. Vantagem para Bolsonaro.

PIB PARA RICOS. Se governo e Congresso não arrumarem confusão maior com o teto, é possível que a economia cresça uns 4% em 2021, dados os juros baixos, os preços de commodities em alta, o dólar menos caro e o crescimento menor do que o previsto da dívida pública, afora acidentes.

Não se quer dizer que o teto seja intocável, mas é grande a chance de, agora, a emenda ser pior do que o soneto. De resto, 4% de crescimento nem repõe o que se perdeu em 2020. Mas pode ser o bastante para remediar a vida de metade da população.

É para pensar: o prestígio de Bolsonaro pode se manter perto de onde está, a depender do sucesso da vacinação, que ele pode faturar sem ter feito nada, e dos miseráveis (vão morrer de fome quietos?).

ELEIÇÃO NA CÂMARA. Desde meados do ano, era óbvio que a disputa pelo comando da Câmara dos Deputados seria crucial e emperraria o Congresso. Se a turba de Bolsonaro vencer, facilita o projeto autoritário. A depender de quem ganhar, vai haver mais ou menos “reformas”, que não serão grande coisa.

REFORMAS. Alguém acha que o Congresso vai arrochar os servidores? Esse é o núcleo da PEC “emergencial”, o arremedo de plano fiscal do governo. Alguém acha que o Congresso vá aprovar reforma tributária “profunda” (que provocaria crise com setores como serviços, entre outros conflitos)? Se eu fosse jogar na “Mega das Reformas”, apostaria no seis por meia dúzia, reforminhas.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Nada


A única coisa que satisfaria os liberais é a abolição do sufrágio universal

Se pobre vota, essa bagunça toda se instala.

Na Folha de hoje, Hélio Schwartsman vaticina que, com o fim do auxílio emergencial, o apoio a Bolsonaro deve cair.

O risco, diz ele, é que "ao ver a aprovação declinar, Bolsonaro, que agora conhece o caminho das pedras, pode ficar tentado a abraçar soluções populistas" - isto é, prorrogar o auxílio.

As consequências, diz o colunista, serão desastrosas, pois "os 'faria-limers' que ajudaram a pôr Bolsonaro no comando podem ser tolos, mas sabem defender seu dinheiro. Se sentirem que o governo age irresponsavelmente, teremos dólar e juro nas alturas e inflação".

Eu acabo sempre voltando a Schwartsman porque ele tem uma certa arrogância intelectual que o leva a afirmar na lata, sem meias-tintas, as ideias do liberalismo vulgar que outros expressam de maneira mais pudica.

Na coluna de hoje, ele deixa claro que o grande problema é que o Estado tente agir em benefício dos mais pobres - o que, no seu linguajar, atende pelos nomes de "populismo" e "irresponsabilidade".
Os especuladores do mercado financeiro são chamados de "tolos", de forma quase carinhosa, mas o que se ressalta é sua racionalidade.

Colocaram um sujeito despreparado e autoritário na presidência a fim de garantir o desmonte do Estado e dos direitos - tolinhos, não é mesmo? Mas sabem proteger seu patrimônio, mesmo que às custas da miséria geral, e assim servem como nosso alerta contra os "irresponsáveis".

E os pobres que desejam proteger não seu patrimônio, que não têm, mas a própria sobrevivência? Esses são um risco. Seu egoísmo leva os governantes à tentação do "populismo".

Falei da arrogância de Schwartsman, mas ela se interrompe antes dele chegar à consequência lógica do raciocínio: tem que abolir esse negócio de sufrágio universal. Se pobre vota, essa bagunça toda se instala. Nem com Bolsonaro no poder os faria-limers têm sossego.

Dia de Sol


Aroeira

Brasil tem 2,6% da população do mundo e 11% do total de mortos por covid-19


Diante do fato que registrei em post anterior – o descompasso entre a população brasileira (2,6% da população da Terra) e a porcentagem de mortos pela Covid-19 até agora, pouco menos de 11%, 198 mil do total de 1,8 milhão – busco uma explicação, como certamente tentarão muitos outros, curiosos ou cientistas, no futuro.

Olho o mapa mundi e a distribuição da doença.

A chave para a compreensão do fenômeno parece ser algo que tenho ouvido, com frequência, de pessoas comuns. Elas dizem que “se cuidam”. Suponho que melhor estaríamos se dissessem “cuidamos  dos outros”.

Brasil, Estados Unidos – lamentavelmente também a Europa, em que pese a memória do quanto a solidariedade lhe valeu nas últmas grandes guerras – são países em que cada um cuida de si, cidadelas do individualismo, fantasia segundo a qual as pessoas existem (sentem, pensam, agem) independentemente das sociedades e culturas que as moldaram.

Esse é, creio, o fator mais importante, que nos leva a governos fracos, embora arrrogantes, incapazes de gerir o bem comum.

Há também o reducionismo. Mesmo gente supostamente culta – penso nos bacharéis, militares, financistas, até médicos – não consegue entender o mecanismo da imunização cruzada pelo qual vacinas com porcentagem de eficácia de 70 por cento ou mais conseguem imunizar cem por cento de uma população.

Há cálculos matemáticos que, considerando a porcentagem de eficácia da vacina e da sua aplicação em uma população, estabelecem os valores necessários para isso, mas é algo que escapa ao empiricismo simplório desses nossos intelectuais da planície, que não consegue pensar a doença e o contágio senão como fato aleatório que não admite trato probabilístico.


Devemos nos preparar desde logo para o pós-Bolsonaro


América 2021
No exterior, Bolsonaro é tema apenas de programas humorísticos. Devemos, porém, nos preparar desde logo para o depois.

Difícil falar de longo prazo em um país onde, durante uma pandemia, faltaram máscaras e faltam seringas. As placas da geopolítica, no entanto, movem-se com tal velocidade que receio não restar muito tempo para que um reposicionamento do Brasil nos reabra alguma perspectiva de futuro.
Dois acordos internacionais recentes deveriam chamar a nossa atenção.

Em 15 de novembro de 2020, foi assinado um tratado que cria a RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente). Por meio desse acordo, os dez países-membros da Asean (Filipinas, Malásia, Indonésia e Tailândia e outros seis) se unem aos cinco países da respectiva Área de Livre Comércio (Japão, Coreia, China, Austrália e Nova Zelândia), formando um bloco que congrega 30% do PIB mundial.

Nesta semana, China e União Europeia selaram o Acordo Abrangente de Investimentos, que facilita o investimento direto recíproco, conquista indiscutível de Angela Merkel às vésperas da posse de Joe Biden. Apesar dos contratempos e desafios, o projeto europeu segue seu curso autônomo, com brexit e tudo.

Na América, as coisas não correm tão bem. Sob a administração Trump, duas medidas mudaram as perspectivas regionais. O USMCA, ou Nafta 2.0, foi uma exigência dos EUA para manter o acordo de livre comércio com México e Canadá, mediante o qual obtiveram vantagens, sobretudo no que concerne a serviços e propriedade intelectual.

Além disso, Trump retirou os EUA das negociações em torno da Parceria Transpacífica, por divergências sobre investimentos e compras governamentais. Doze países banhados pelo Pacífico (entre eles Chile, Peru, Nova Zelândia e Cingapura) levaram à frente a iniciativa, agora no âmbito do Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica. Sem os EUA.

Os EUA são, eles próprios, o mais bem-sucedido empreendimento cooperativo inter-estatal da história: 13 colônias que se transformaram em 50 Estados poderosos sob uma Constituição. Mesmo com os democratas, os EUA dificilmente terão olhos para a América Latina como área continental de desenvolvimento econômico.

Bolsonaro, do seu lado, não perde oportunidade de hostilizar nosso principal parceiro regional, a Argentina, e global, a China. E, mesmo tendo aceito praticamente todas as exigências europeias para celebrar o acordo UE-Mercosul, não conseguiu obter o necessário aval dos parlamentos dos países europeus em virtude de seu público compromisso com a destruição ambiental.

Sem rumo e liderança, perderemos mais dois anos. No exterior, Bolsonaro é tema apenas de programas humorísticos. Devemos, porém, nos preparar desde logo para o depois.

Enquanto isso em Peruíbe...


O execrável Demetrio Magnoli















MBRAndrea

Erro 1: Demétrio Magnoli
Erro 2: Demétrio Magnoli e Gerson Camarotti desrespeitam a voz da apresentadora
Erro 3: Demétrio Magnoli acha que quem se aglomera nos litorais são os trabalhadores. 
Erro 4: Demétrio Magnoli acha que qualquer ciência pode pontificar sobre qualquer objeto. 


Recomeçando o mundo


Desejo que, no meio da confusão da fuga para o novo ano, Trump e Bolsonaro tenham ficado lá no insano 2020, presos para sempre num loop temporal

José Eduardo Agualusa 

Se estão lendo esta minha coluna é porque conseguimos: chegamos a 2021. Enquanto escrevo ainda é 2020 — e muitos acreditam que será assim para sempre.

Dest vez não terá havido passagem de ano. O que aconteceu (supondo que aconteceu) foi uma fuga, uma evasão, uma debandada: escapamos às pressas para 2021, com a roupa que trazíamos no corpo. Alguns sem roupa. Imagino que seja um pouco como cruzar uma fronteira durante uma guerra. Nos primeiros quilômetros a paisagem parece igual. Pouco a pouco, contudo, iremos sentindo a diferença. Depois que nos tivermos distanciado o suficiente e for possível voltar a respirar (sem máscara!), convém parar um pouco para refletir. Ao contrário do que ouço dizer, 2020 não é um ano para esquecer. É um ano que precisa ser recordado, compreendido e exorcizado. Afinal, o que aconteceu? E por que aconteceu?

A pandemia foi uma surpresa para todos (em particular para os astrólogos e quiromantes), mas não para os cientistas. Há anos que epidemiologistas vinham alertando para a eventualidade de uma pandemia semelhante à atual, como consequência direta da degradação e destruição de diferentes ecossistemas.

Se não formos capazes de criar novos modelos de gestão dos recursos naturais do planeta, enfrentaremos outras pandemias, mais perigosas do que a atual.

O que fazer? O processo de confinamento trouxe algumas respostas. Aprendemos, por exemplo, a trabalhar a partir de casa. A vulgarização do teletrabalho e das videoconferências reduzirá o consumo de combustíveis fósseis, ajudando a controlar o aquecimento global.

A China inaugurou há poucas semanas um poderoso reator nuclear que não produz lixo radioativo. Chamam-lhe “sol artificial”. Pode ser também uma boa alternativa. Ao mesmo tempo, os governos dos diferentes países deveriam investir na descentralização e democratização da energia, apoiando a instalação de geradores caseiros, solares e eólicos.

Também já existem alternativas à agropecuária extensiva, responsável pela destruição de florestas. Uma solução, defendida pelo escritor norte-americano Jonathan Safran Foer, no ensaio “Nós somos o clima — Salvar o planeta começa no café da manhã” (Rocco, 2020), seria consumir menos carne. Outra, está na carne sintética. A carne sintética, produzida em laboratório desde 2013, começa agora, pouco a pouco a chegar aos supermercados. O aperfeiçoamento e a generalização desta técnica, que não implica nem a morte nem o sofrimento de animais, irá tornar o produto cada vez mais barato e mais semelhante às carnes conhecidas.

Assisti ao pseudodocumentário satírico “Death to 2020”, da Netflix, com Samuel L. Jackson e Hugh Grant nos papéis principais. Suponho que daqui a alguns anos os nossos netos tenham dificuldade em distinguir, no filme, a ficção da realidade. Algumas das melhores piadas são as do ator que representa Donald Trump. Perdão, não é um ator. É o próprio Trump.

Desejo que, no meio da confusão da fuga para o novo ano, Donald Trump e Jair Bolsonaro tenham ficado para trás, lá, no insano 2020, presos para sempre num loop temporal.

Para todos os outros, um excelente 2021!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Testemunhas de Darwin


André Dahmer

Sweet Child O' Mine


Sophie Lloyd

Guns N' Roses - Sweet Child O' Mine

Carne nova


Aroeira


As grandes manchetes de 2020

 


ATENÇÃO PARA O MELHOR DAS Vanzo News de 2020!


"Anão que Bolsonaro carregou no colo recebe 524 votos e se reelege em Sergipe"

"Após perseguição a 115km/h, motorista se justifica: 'Muita vontade de fazer cocô'"

"Ativista cristão quer processar Super Bowl: ‘Não avisaram que teria imagens de virilha’"

"Bolsonaro erra nome do novo ministro e chama Nelson Teich de Nelson Rubens"

"Com CPF exposto na internet, general Heleno vira mesário, sócio do Vasco e até assinante do BBB"

“Datena quase bebe álcool em gel durante 'Brasil Urgente’” 

"Erasmo Carlos varre casa de cueca na quarentena: 'Não uso calça há um mês'"

"Pedreiro rouba R$ 2 mil de médico durante bacanal em Noronha"

"Saci é acusado de vazar dados de eleição à presidência do Inter"

"'Vai dar vontade de morrer agora', diz prefeito após reformar cemitério"

"Vereador de SP pede um minuto de silêncio para Beth Goulart e é advertido"

E A CAMPEÃ DO ANO:

"Após fazer dois gols, Acosta perde vaga para Magno Alves e reclama: 'Começar a fazer gol contra'"

Os jornais impressos estão morrendo e isso não é boa notícia


Tendência da década: o fim dos jornais impressos.

Hoje a Folha chegou aqui em casa com 24 páginas. E sem publicidade.

(A rigor o jornal traz dois editais de leilões de imóveis e um comunicado igualmente pequeno da Vivo. E apenas um quadradinho de divulgação de óbito. Absolutamente nenhum anúncio propriamente dito, anúncio de empresa ou governo, aquilo que financiava os jornais.)

Isso a Folha, uma das únicas candidatas a entrar sujando nossos dedos na década de 30, junto com O Globo. O Estadão e tantos jornais regionais moribundos ficarão, no máximo, com suas plataformas digitais.

Nada disso é necessariamente positivo. Pois não existe vácuo na política (e jornais fazem política). Esse vácuo já está sendo ocupado por gente pior ainda que os donos dos meios de comunicação brasileiros — aquela nossa velha oligarquia estúpida e golpista.

Apenas residualmente os veículos pequenos se esgueiram nesse cenário. E somente uma fatia desses veículos pequenos são comprometidos com o que de melhor fazia o jornalismo (quando fazia), por exemplo a defesa de direitos elementares, com uma ou outra prática civilizatória.

Influenciadores, em sua imensa maioria, não têm compromisso nenhum com certos modos da imprensa burguesa. Estão inseridos de forma egoica na sociedade do espetáculo sem aquelas preocupações, aqueles pruridos e aqueles disfarces. E sem, como já aconteceu e não mais acontece, um mínimo de influência dos trabalhadores que faziam os jornalões, de gráficos a jornalistas.

A Folha de S. Paulo de hoje tem 24 páginas e quase nenhuma delas relevante. À exceção de um texto sobre idosos e Covid, destacado na capa e escanteado na página interna, temos de fazer um exercício para localizar algo que seja próximo do que um dia chamamos de notícia ou reportagem. Algo que fique, algo que suscite, algo que nos arrebate e faça diferença para o debate público.

E a tendência é que tudo isso piore. Piore nos jornais e piore nas redes sem contenção (alguns veem nisso pura democracia) que construímos, no mesmo tecido caótico onde foi erigida a cultura do ódio e dos cancelamentos. Aquilo que circula no whatsapp dos tiozões é a escória daquilo que criticávamos — mais ou menos como se tivéssemos de sentir saudade dos sequestradores anteriores.

Enquanto isso, os setores contra-hegemônicos continuam a se preocupar muito pouco com comunicação. Muitos estão convictos de que, de quatro em quatro anos, em meio a esse cenário estarrecedor, virá muita coisa boa, algo redentor e politizado e libertador e poético.

Não, não virá. Se deixarmos a disputa pela comunicação no ponto morto, à deriva, estaremos lutando com carrinhos de choque (aqueles dos parquinhos) contra veículos rebaixados — a regressão também é estética, afinal — e armados até os dentes.

Imaginem o naipe de cada piloto dessa frota fascista. E adivinhem de que lado nossas togas cafonas ficarão.

Seremos esmagados.

A passos de cágado...


Aroeira

Segunda temporada de 2020 começa depois do Réveillon?

Ilustração de Debora Gonzales

Renato Terra

“Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção/ esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão/ eu quero um gole de cerveja/ no seu copo, no seu colo e nesse bar.”

A canção “Coração Selvagem”, de Belchior, soa mais adequada para anunciar a chegada de 2021. Aquela tradicional, que dá adeus ao “ano velho” e almeja um “feliz Ano-Novo” soa tão sincera quanto a cor do cabelo do general Hamilton Mourão.

E o que é pior: a tradicional canção de Réveillon composta por David Nasser e Francisco Alves profetiza, como numa praga: “Que tudo se realize no ano que vai nascer”.

Além disso, é incontestável que os seus versos não cumprem o que prometem. “Muito dinheiro no bolso” de quem? Quem desejou “saúde pra dar e vender” na virada de 2019 para 2020 sabe do que estou falando. Todos os anos repetimos a mesma ladainha e o mundo foi parar onde está.

A segunda parte, menos conhecida, ainda incorre na ousadia de desejar “para os solteiros, sorte no amor/ nenhuma esperança perdida/ para os casados, nenhuma briga/ paz e sossego na vida”.

“Meu bem, mas quando a vida nos violentar/ pediremos ao bom Deus que nos ajude/ falaremos para a vida/ vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil/ meu coração é como um vidro, como um beijo de novela.”

Não se sabe ainda se 2021 será uma ressaca de 2020. Ou uma nova temporada, com mais orçamento, mas com os mesmos atores.

O ano de 2019 se impôs como um bode na sala. Em 2020, a impressão é de que o bode saiu. Mas saiu correndo, assustado, quando as dezenas de cabeças de gado chegaram à sala para nos acompanhar durante o confinamento. Impossível passar um dia sem ouvir mugidos.

Não sabemos ainda se 2021 será a vez de os jacarés sentarem em nossos sofás ou se voltaremos a viver na companhia de animais domesticados.

“Mas quando você me amar/ me abrace e me beije bem devagar/ que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar/ tempo para ouvir o rádio no carro/ tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo.”

É o caso de desejar mais copo, mais colo e mais bar. Mais tempo para ouvir o rádio do carro. Mais tempo. Ou, ao menos, ambicionar o fim desse peso que nos fere as costas.

Ano passado eu sobrevivi. Mas esse ano eu sobrevoo.

Boas entradas!