domingo, 4 de abril de 2021

Deus nos abandonou

André Dahmer


Dizimados

 



Alemão para iniciantes

É sobre dinheiro, estúpido!

É falso o debate sobre eventos religiosos. Ninguém proibiu culto algum, mas o ato presencial, evitando o agrupamento público. O único ato dificultado para os reclamantes é o de abrir a carteira.

Não se engane: as discussões são sobre grana. Não sobre fé ou liberdade religiosa.


Perfeito. Ninguém tá impedindo igreja nenhuma de realizar culto online. O problema é que pros pastores não bastam os trocentos canais de televisão, rádio e internet: se o fiel não tiver na igreja dando o trocado do pão, o dinheiro não entra.



Brasil pode registrar cem mil mortes de covid-19 em abril, aponta estudo americano

Uma pesquisa do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, nos EUA, mostra que o país pode chegar a 4 mil mortes diárias até 24 de abril. 

Projeção feita por pesquisadores da Universidade de Washington mostra que o Brasil pode chegar a 562.863 mortos por covid-19 até o dia 1º de julho.

Do UOL, em Santos

O Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês), da Universidade de Washington, projeta que o Brasil registrará 95.794 mil mortes por covid-19 no mês de abril.

O instituto prevê que o País chegará a 421.353 mortes no dia 30 de abril. No pior dos cenários, pode chegar a 422.074 mortes. No melhor dos cenários, chegará a 418.950 mortes.

O cálculo dos três diferentes cenários leva em conta a mobilidade de pessoas não vacinadas (levando em conta o padrão apresentado em 2020), a mobilidade de pessoas vacinadas, a propagação de variantes britânica, sul-africana e brasileira e o uso correto de máscaras.

Na última semana, ainda de acordo com o consórcio de veículos de imprensa, 3.119 pessoas morreram em média por dia no Brasil em decorrência do novo coronavírus. É a primeira vez, em toda a pandemia, que o índice supera o marco de 3 mil óbitos.

Teocracia Narcomilitar do Bozoquistão


A oficialização da Teocracia Narcomilitar do Bozoquistão só não ocorreu ainda porque o Grão-Asno genocida não consegue fechar o regime da forma como gostaria e sonha, mas o que aquele pau-mandado gospel fez lá no STF é só um lembrete de que há outras formas e que elas funcionam.

Henrique Fragoso

As três bestas do apocalipse bolsonariano e a nova crise institucional


Kássio, Mendonça e Anderson, a nova face do estado de exceção


O Ministro Kássio é a prova inconteste dos males que as decisões monocráticas dos Ministros do Supremo trouxeram para a casa. Em nome de boas causas, Ministros ganharam o poder de mandar prender. Em nome da esperteza, Ministros pediram vistas eternas de julgamentos em que seriam derrotados. A Lava Jato consolidou o jogo da loteria das instâncias

Agora, chega-se o ponto mais alto da desmoralização do Supremo, não por coincidência através de um advogado indicado por Bolsonaro. E, a julgar por seu nível novos recordes de desmoralização deverão ser batidos.

Primeiro, Kassio vai contra o entendimento do Supremo, que cabe a prefeitos e governadores decidirem sobre e manda liberar cultos, no momentos mais grave da pandemia. Não se pense em apoio espiritual após fiéis. O país aprendeu a se comunicar virtualmente. O grande problema é que os templos ainda não naturalizaram o dízimo online. A decisão do Ministro Kássio teve inspirações pouco evangélicas, de dar ao pastor o que é do pastor. Pior, baseou-se em ação que tramitava desde 2020, de uma tal Associação dos Juristas Evangélicos.

É claramente uma decisão que afronta todas as recomendações médicas e aumenta os índices de mortalidade do Covid-19. 

Houve uma reação do prefeito de Belo Horizonte, protegendo seus cidadãos. Ai, Kassio aciona o Pazuello da Advocacia Geral da União (AGU), André Mendonça, e o gendarme do Ministério da Justiça, delegado Anderson Torres, e ameaçam Kalil com a Polícia Federal.

Confirma-se, assim, o cenário de que Bolsonaro passaria a exercitar o estado de exceção por dentro. Os três são candidatos certos à Justiça de Transição que se seguirá a esse pesadelo. Que a decisão de Kássio lhe custe uma condenação com execração pública.

Mas, enquanto isto, as três bestas do apocalipse ajudarão no trabalho genocida de seu patrono, enquanto as instituições dormem e os idiotas da objetividade garantem que elas estão funcionando.

Alem de tudo, Kassio é uma zebra provinciana. Resolveu intimidar o mais voluntarioso dos políticos brasileiros, o prefeito de BH. Kalil bancará a aposta, e Kassio não poderá voltar atrás.

Topa tudo pela toga

Na disputa por uma cadeira no Supremo, vale  tudo para agradar Boslonaro. Até ignorar a ciência e defender a reabertura de templos no pior momento da pandemia.
Na noite de quarta-feira, o procurador-geral da República pediu a derrubada do decreto paulista que suspendeu temporariamente os cultos presenciais. A medida fez parte de um pacote emergencial para tentar frear o avanço da Covid.

Sem argumentos racionais à mão, Augusto Aras apelou a um misto de negacionismo com misticismo. Ele disse estar preocupado com a “saúde mental e espiritual da população brasileira, que precisa de assistência religiosa para o enfrentamento de momento tão grave da epidemia”.
Na manhã de quinta, o advogado-geral da União correu para endossar o pedido. “Como é de sabença geral, a fé cristã está embasada na pessoa de Jesus Cristo”, escreveu André Mendonça. Ele dissertou sobre as origens da Páscoa e informou que a data é comemorada desde o Concílio de Niceia, no ano 325.

“Ao longo desses anos, não se tem notícia de uma vedação tão forte à celebração da Páscoa em templos e igrejas”, afirmou o dublê de jurista e pastor evangélico. Faltou dizer que estamos em 2021, quando os fiéis podem participar de cultos pela TV e pela internet. O papa Francisco deu o exemplo ao conduzir a cerimônia da Via-Sacra sem público pelo segundo ano seguido.

O lobby para reabrir os templos no Brasil tem motivações menos espirituais do que terrenas. Desde o início da pandemia, religiosos que apoiam o governo têm reclamado da queda na receita. Sem cultos presenciais, a arrecadação do dízimo despencou. Isso explica a pregação em nome de Deus contra medidas sanitárias que salvam vidas.

A genuflexão diante dos pastores bolsonaristas é só o novo capítulo da disputa pela vaga do ministro Marco Aurélio Mello. Nos últimos meses, Aras e Mendonça têm travado um duelo para mostrar quem é mais fiel ao capitão. Os dois já haviam cobiçado a cadeira de Celso de Mello, mas foram preteridos pelo azarão Kassio Nunes Marques, que ontem liberou a reabertura das igrejas.

Aras age pela omissão. Desde que assumiu o cargo, faz vista grossa às ilegalidades praticadas por quem o nomeou. O procurador é mais do que um novo engavetador-geral da República. Na pandemia, tem atuado como um acobertador de crimes presidenciais.

Em janeiro, ex-integrantes da cúpula da PGR pediram que ele denunciasse Bolsonaro por favorecer a disseminação de epidemia, crime tipificado no Código Penal. O ofício listava dez condutas ilegais, da recusa a comprar vacinas à propaganda de remédios sem eficácia. Aras arquivou a representação sem enviá-la ao Supremo.

Mendonça se notabilizou por usar o Ministério da Justiça para perseguir críticos do presidente. Mandou a Polícia Federal abrir inquéritos contra professores, jornalistas e chargistas com base na Lei de Segurança Nacional.

No mês passado, ele mobilizou o aparelho do Estado para investigar e constranger um sociólogo que comparou Bolsonaro a um “pequi roído”. O caso foi arquivado, mas o ministro marcou mais um ponto com o chefe. De volta à chefia da AGU, ele terminou a semana como favorito na corrida pela toga.

Militares não repudiam o que há de mais criminoso contra o Estado democrático


Janio de Freitas

Brasil ainda não conheceu classe militar apartidária que sirva à nação 

O primeiro ato do general Braga Netto como ministro da Defesa foi de obediência a Bolsonaro e de confronto com a inquietação deflagrada nos altos comandos do Exército, da Marinha e da Força Aérea.

Braga Netto frustrou o ato, muito simbólico, dos comandantes das três Forças: antecipou-se, demitindo-os, à entrega dos seus cargos em resposta à exoneração do general Fernando Azevedo e Silva, até então ministro da Defesa.

Mas as exonerações em questão eram outras. A insatisfação de Bolsonaro com a falta de pronunciamentos políticos do general Azevedo, para fortalecê-lo em seu isolamento crescente, concentrou as explicações para a turbulência.

Esses raciocínios, muito defensáveis, embalaram-se até à função das Forças Armadas e sua relação com governos e política. Por isso, soterraram uma causa primordial para a mexida de Bolsonaro na Defesa e a perigosamente importante nomeação do delegado Anderson Torres para ministro da Justiça.

Um dos personagens mais relevantes no problema entre Bolsonaro e o Exército ficou citado apenas como um dos ministros substituídos. Ministro da Saúde ideal para Bolsonaro, pela dócil obediência e, sobretudo, pela tolerância aos efeitos letais de que foi agente, para o Exército o general Pazuello veio a ser um problema.

Em parte, pela projeção do seu desempenho sobre a Força e a capacidade dos colegas. E também por ser da ativa, o que agravava a situação. O general Luís Eduardo Ramos resistiu pouco e passou à reserva, para continuar no Planalto. Pazuello, não.

O comandante do Exército, Edson Pujol, não absorveu os problemas representados pelo general da Saúde e da mortandade. Para Bolsonaro, a saída necessária não era a de Pazuello. Passava a ser de Pujol. Fora de cogitação, no entanto, para o ministro Azevedo.

Nem com um cargo prestigioso nas Forças Armadas, para compensar a obediência de Pazuello, Bolsonaro contava obter do general Pujol, considerando que também as pressões externas contra o Ministério da Saúde chegavam à saturação. Se é assim, vai-se Pazuello, mas com ele vão Azevedo e Pujol.

Braga Netto promete, desde o primeiro ato. Mas esquentou o clima, e nem no plano interno há alguma clareza sobre o que surgirá depois da fumaça.As atenções deslocaram-se para o general Paulo Sérgio Oliveira, sucessor de Edson Pujol.

Muitos atribuem especial sentido à nomeação, por serem contrárias ao cloroquínico Bolsonaro todas as suas bem sucedidas providências antipandemia no Exército. Vai ver, foi elevado a novo cargo para não dar mais entrevistas sobre a eficácia de máscaras, distanciamentos e ficar em casa.

Ou foi escolha de Braga Netto, pela eficiência sem lado.Deduzir desse entrevero todo, como tantos comentaristas e cientistas políticos (mais isso, menos aquilo), que “os militares têm consciência de que servem ao Estado e não ao governo”, e outras tiradas oníricas, vai toda a distância a que estamos da segurança institucional e democrática.

Enquanto faltar a coragem moral de reconhecer que antecessores seus cometeram crimes bárbaros e estrangularam as liberdades e demais direitos universais, os militares não estarão a serviço legítimo da sua função de Estado. Porque não repudiam o que há de mais criminoso contra os princípios da vida em comum e do Estado democrático.

Em sendo assim, pode-se até concluir que chamados de militares são uma classe de servidores armados e fardados, com privilégios que os distinguem, praticantes de política e intervencionismo por métodos próprios e proporcionados pelas armas.

Militares propriamente ditos, militares autênticos, no entanto, são profissionais apartidários em ideologia e em política, armados pela sociedade para, em seu nome, servir ao Estado e à nação. O Brasil ainda não conheceu essa classe.

Seis pretendentes a candidatos à Presidência — Henrique Mandetta, Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, João Amoêdo e ainda Luciano Huck — assinaram uma carta pública apresentando-se como defensores da democracia.

Defendê-la é muito oportuno. Contudo, no caso cabem ressalvas. Qualquer político pode defender a democracia. Nenhum, porém, que tenha apoiado a eleição de Bolsonaro, ainda que de modo indireto, tem condições morais de fazê-lo.

Todos sabiam quem era Bolsonaro, conheciam suas defesas da ditadura, da tortura, sua louvação na Câmara ao criminoso coronel Ustra. Era a democracia que estava em jogo na eleição, e todos os políticos sabiam disso.

Para defendê-la, nem precisavam superar sua ojeriza ao PT, havia outros candidatos democratas. Os que apoiaram Bolsonaro quiseram Bolsonaro. Defendam a democracia, que sabemos não o fazerem por ela.


sábado, 3 de abril de 2021

Decisão do ministro do STF nomeado pelo genocida é ilegal


DECISÃO DE KASSIO CONKÁ É ILEGAL.

Para liberar templos, Kássio Conká atendeu a pedido de liminar em ADPF impetrada por uma tal Associação Nacional de Juristas Evangélicos. Ocorre que a tal não tem legitimidade pra isso.

Podem apelar a ADPF os mesmos agentes q podem apelar a ADI,  segundo Art. 103 da Constituição, a saber:
“O presidente da República, as Mesas do Senado, da Câmara e de Assembleias Legislativas, governadores, o procurador-geral da República, o Conselho Federal da OAB, partido político com representação no Congresso e confederação Sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. “
A tal associação de juristas evangélicos não é nada disso. Kássio Conká se cobre de novo de vergonha.

Ou não se cobre. Ele tem de descobrir primeiro onde ela se esconde. 


P.S.:

Li a liminar de Kássio Conká. Sinto vergonha por ele. O cara decidiu mostrar que sua decisão está de acordo com uma outra tomada nos EUA. Eu juro. Não bastou aceitar a petição de ente ilegítimo. Ele mergulhou na lama. 


Nomeado pelo genocida, ministro Nunes Marques libera cultos e missas em todo o país no auge do morticínio


Mesmo com agravamento da pandemia, Kassio libera cultos e missas em todo o País

Rafael Moraes Moura/ DF e Rayssa Motta/ SP

Enquanto o país enfrenta o pior momento da pandemia do novo coronavírus, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques decidiu autorizar a realização de celebrações religiosas em todo o País. Indicado ao cargo pelo presimente Jair Bolsonaro, Kassio determinou que sejam aplicados protocolos sanitários nos espaços religiosos, limitando a presença em cultos e missas a 25% da capacidade do público. Tudo isso com a fiscalização da mãe dele.


Pior momento da pandemia no Brasil

UOL

O país nunca apresentou números tão graves como agora. O mês de março bateu o recorde de mortes por aqui: foram 66.868 mortes no mês só pela doença, mais do que o dobro de junho de 2020, antigo pico da pandemia, com 32.912 óbitos.

Há superlotação nos hospitais, com leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em falta, e interrupção de enterros e cremações nos cemitérios.

Apesar dos questionamentos do presimente, é consenso científico internacional que a diminuição da circulação de pessoas resulta diretamente na diminuição da transmissão do vírus, o que faz, consequentemente, com que os índices caiam.

Medidas de isolamento com fechamento de serviços não essenciais, como as criticadas por ele, foram adotadas por todos os países que melhor combateram o vírus.

Cidade que deu 83% dos votos ao genocida comemora mil mortos



Universidade de Washington vê Brasil igualar EUA em mortes: até 660 mil

Fernando Brito

Com a situação como está, o Brasil pode chegar a 563 mil mortes por Covid-19 até o dia 1° de julho.

É a previsão do Instituto de Métricas e Avaliações em Saúde da Universidade de Washington, um dos mais respeitáveis preditores estatísticos epidêmicos.

E esta é uma avaliação moderada, que leva em conta números de morte menores do que aquelas que estamos registrando.

Se a coisa piorar, o IHME admite que se possa chegar a 664 mil mortes naquela data.

O número se iguala ao dos Estados Unidos, onde a previsão vai a 668 mil na hipótese mais sombria e a a 609 mil na hipótese considerando não haver por já a tal “4ª onda”.

O cálculo foi feito com dados disponíveis até 27 de março e, ontem, com 238.206 mortos, já deixamos para trás as previsões dos estatísticos, em quase 2 mil as mortes.

E é conservador, porque prevê que o crescimento das mortes vá continuar no mesmo ritmo até a terceira semana de abril, passando então a cair com força.

Se você quiser examinar mais detalhadamente os gráficos que ilustram os posts, eles podem ser obtidos AQUI (Brasil) e AQUI (EUA).


O colapso


Estamos prestes a viver outra ruptura, essa muito pior do que a primeira. Da ruptura iminente talvez tenhamos convulsões sociais e políticas. Viveremos a tragédia em outro patamar
A economia brasileira colapsou em 2020, já me apresso a dizer. O PIB não reflete as mortes, o sofrimento de quem teve sequelas de Covid-19, que talvez tenha ficado debilitado e não possa retornar ao mercado de trabalho. O PIB não reflete as marcas que permanecerão depois de tantos óbitos, apesar de um sistema de saúde que, mesmo subfinanciado, tentou dar conta da crise humanitária a que ações e omissões intencionais do governo federal deram uma dimensão que não imaginaríamos um ano atrás. O PIB reflete o apoio à economia que o auxílio emergencial representou. Ele mostra que o auxílio foi um dinheiro da sociedade empregado em seu próprio proveito, apesar do atual governo antibrasileiro. Sem ele, o “tombo”, como alguns se referem à recessão brutal, teria sido muito maior. Esse é o passado que se desdobra no presente. Mas e agora?

No presente estamos explorando as profundezas do colapso. De acordo com estudos já publicados e outro prestes a ser publicado em formato preprint pelo Observatório Covid-19 — rede multidisciplinar de cientistas a qual integro —, a variante P1, que surgiu em Manaus ao final de 2020, é cerca de duas vezes e meia mais transmissível que as anteriores. Isso tem ao menos dois significados: a curva exponencial de contágios é muito mais agressiva e a disseminação é de magnitude mais elevada. Para que se tenha uma ideia, a P1 é duas vezes mais transmissível que a variante viral que pôs toda a Europa em lockdown ao final do ano passado. É provável que seja a propagação da P1 a responsável pelos colapsos hospitalares que temos visto no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Maranhão, no interior de São Paulo, além de em várias outras partes do país.

Diante dessa variação do vírus, a pandemia brasileira entrou em sua fase mais crítica desde que o sars-CoV-2 aterrissou no país em fevereiro do ano passado. Por esse motivo, o Brasil tem sido manchete dos principais jornais internacionais — como The Washington Post e The New York Times — desde o último fim de semana. Em entrevista ao jornal O GLOBO no último domingo, alertei para o perigo de que o Brasil se tornasse pária internacional, isolado do resto do mundo, devido à pandemia descontrolada e ao laboratório de mutações em que as ações e omissões do presidente da República e outros de nossos governantes nos transformaram. Somente as consequências disso para a economia já seriam alarmantes. E a elas somam-se outras: a população que não conta com o auxílio, as multinacionais que decidiram deixar o país, o desgoverno de Bolsonaro.

O que deveríamos estar fazendo agora? Primeiramente, um lockdown estrito, sobretudo nas localidades mais afetadas, onde os hospitais já carecem de leitos. Penso, inclusive, que o lockdown deveria ser decretado para o país inteiro, mas sei que isso é esperar demais de um país em que muitos ainda acreditam que saúde e economia não se misturam. Um ano não foi suficiente para que entendessem que o colapso da saúde é o colapso da economia, algo que tenho dito desde março do ano passado. A medida requer dar apoio material para que as pessoas a observem.

Traduzindo, não é possível instituir um lockdown sem que se tenha, ao mesmo tempo, a adoção do auxílio emergencial no valor de R$ 600, o custo de uma cesta básica. Diante da catástrofe anunciada, o término do auxílio só pode ser determinado pelos dados epidemiológicos, aqueles que poderiam indicar a reabertura gradual e lenta. Por fim, o Brasil deveria, sem esperar mais um minuto sequer, comprar doses de todas as vacinas disponíveis nas quantidades que puder. É urgente que se tenha vacinação e cobertura amplas para frear as cadeias de transmissão dessa variante para lá de alarmante. Escrevo ciente de que nada disso será feito, de que ninguém no governo entende a gravidade do que vamos atravessar e, se entende, prefere nada fazer, mas faço questão de deixar essas palavras no papel, para marcar o momento.

Estamos prestes a viver outra ruptura, essa muito pior do que a primeira. Da ruptura iminente talvez tenhamos convulsões sociais e políticas. Por certo teremos muitas mortes evitáveis. Viveremos a tragédia em outro patamar. O colapso não é único, não tem dimensão. O colapso tem tão somente o tamanho do descaso de um governante em relação à população, inclusive aquela que o elegeu.


Monica de Bolle é Pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins


Drauzio Varella: o que a pandemia me ensinou sobre os irresponsáveis do Brasil


O oncologista reflete sobre o resultado desastroso da crise de saúde no país e diz que Bolsonaro e os médicos que apoiam tratamentos não comprovados contra a doença são coautores da tragédia


Tenho 77 anos, idade suficiente para ser realista e não repetir os equívocos da juventude. Eu esperava que as coisas seriam difíceis no Brasil durante a pandemia em razão dos obstáculos que boa parte da população brasileira enfrenta diariamente. Mas não imaginava que seriam tão difíceis. Sabia que quem vive do pequeno comércio sofreria, que aqueles que têm condições de moradia mais precárias teriam dificuldade em isolar os seus. Mas nunca imaginei que fôssemos viver um enfrentamento selvagem, com festas, aglomerações e a disseminação do vírus por pessoas que parecem não se preocupar com a vida de seus próprios familiares. A palavra correta para descrever o comportamento de muitos brasileiros é a selvageria. E temo estar ofendendo os selvagens ao fazer uso dela.

O caos a que estamos assistindo nos hospitais é um efeito direto da violência que domina parte do povo brasileiro. Basta olharmos os dados. Crianças morrem sem parar em tiroteios. Na Europa, nos Estados Unidos, episódios assim teriam impacto nacional e suscitariam uma grande discussão. Aqui, estamos anestesiados. Quando alguém é assaltado na rua, dá graças a Deus por não ter levado um tiro. A violência contra a mulher é absurda e tem aumentado. Quando vemos bares lotados enquanto mais de 2 mil pessoas morrem por dia vítimas do coronavírus, não é violência? Em meio a uma pandemia, aquele que se expõe porque sabe que poderá ter melhores condições de tratamento acaba expondo outras pessoas que não têm a mesma sorte. Coloca em perigo também seus pais e avós. Como esperar, então, que uma pessoa capaz de colocar a própria família em risco tenha consciência do mal que causa à sociedade?

Uma parte da população brasileira negligencia a morte. Nada parece comover essa gente. Nem os números crescentes de vítimas, nem as famílias desesperadas nas portas dos hospitais, em cenas mostradas diariamente pela TV. E se as 260 mil vidas perdidas não sensibilizaram esse grupo, nada sensibiliza. Estamos assistindo agora às consequências de tudo que foi feito de errado: o desmonte do Ministério da Saúde, em que técnicos foram substituídos por militares; o negacionismo do governo e do presidente da República; a ruína do programa nacional de vacinação em decorrência da falta de vacinas; e as aglomerações. Sabíamos que seria complicado isolar a população brasileira quando boa parte dela vive em condições precárias. Mas não precisávamos contar com o negacionismo, com o desestímulo ao uso de máscaras e o incitamento, por parte do presidente, para que as pessoas ignorassem os perigos do vírus.

O Brasil é o quinto país em contingente populacional e o segundo em mortes por Covid-19. Não precisava ser assim. O Brasil tem um dos programas de vacinação mais eficazes do mundo, capaz de vacinar 1 milhão de pessoas por dia. É uma referência em imunização. Mas, hoje, vacina 180 mil, no máximo. Tínhamos uma população que respeitava o calendário de imunização e que vacinava suas crianças. Hoje, temos a autoridade maior do Estado que contesta a eficácia da vacina. Diante de um futuro tão incerto, agravado pelas novas variantes mais contagiosas do vírus e pela vacinação lenta, nos encontramos reféns de uma cambada de irresponsáveis. Se houvesse mais responsabilidade, haveria menos contágio e uma menor probabilidade de tomar medidas mais drásticas de isolamento — como o que está acontecendo nos estados em que o caos se instalou no sistema de saúde. Tudo poderia ter sido diferente.

Era janeiro de 2020 quando comecei a ler sobre o que estava acontecendo na China, na cobertura da imprensa internacional. Sabia-se pouco, havia muita especulação e a verdade é que a China é um país que nem sempre tem circulação livre de notícias. Sabíamos que praticamente não havia mortes abaixo dos 70 anos de idade e que as mortes acima dos 80 eram de cerca de 12%. Não parecia nada muito pior do que as epidemias de gripe. Eu vi uma palestra do doutor Anthony Fauci, pela internet, em que ele dizia: “Olha, não há razão para essa preocupação toda. Nós vamos ter uma doença, um coronavírus mais agressivo, mas a mortalidade não parece ser maior que a da gripe”. Foi quando eu caí na besteira de gravar um vídeo falando isso. Eu disse: “Não há necessidade desse medo todo. Esses coronavírus causam resfriados. E não é por causa disso, aparentemente, que teremos um problema maior”. O ministro do Meio Ambiente pegou esse vídeo do começo de janeiro e replicou em março, quando tudo havia mudado.

Percebi que estávamos diante de um problema grave quando a doença chegou à Itália. Era a segunda semana de fevereiro, e a primeira mensagem que recebi foi um relato de uma colega italiana falando sobre os efeitos da epidemia por lá. Ela usava um tom dramático, que, confesso, me causou má impressão. Mas o quadro pulmonar que ela descrevia tinha tudo a ver com os coronavírus. Foi então que eu me dei conta: “Se esse coronavírus provoca um quadro pulmonar com essas características, pode ser muito mais grave do que eu estava imaginando. Do que muitos estavam imaginando”.

Naquele momento, não pensei que pudéssemos ter desdobramentos políticos dessa doença. E nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo, porque eu nunca me meti em política. Sempre falei de saúde, e só. Nunca declarei meu voto, embora eu tenha sido muito assediado por políticos em várias eleições. Eles nos procuram para buscar apoio em campanha, para fazer parte do governo, enfim. E eu sempre respondi que não. Mas o ministro, que eu sempre esqueço o nome (e acho até bom esquecer mesmo), postou meu vídeo em alguma rede social. E, embora tenhamos conseguido tirá-lo do ar, a confusão já estava feita. Quando vi que a pandemia havia se tornado uma questão política, tive consciência plena de que não daria certo, e que nós viveríamos uma grande tragédia no Brasil.

Na primeira vez que vi o presidente da República criticando o isolamento social em razão do impacto que isso poderia ter na economia, eu pensei: “Ele está errado, mas pode ser que ele tenha até uma boa intenção. Está errado porque o que mantém a economia paralisada não é o isolamento, é o vírus”. Mas abandonei qualquer ideia de boa intenção quando o vi saindo sem máscara, abraçando as pessoas. Para mim, foi o momento mais revoltante de toda a pandemia. Pensei: “Esse homem vai trabalhar para disseminar o vírus”. E o tempo mostrou que essa impressão era verdadeira. Ele é o grande responsável. Não é o único, lógico. São corresponsáveis governadores, prefeitos, autoridades e as pessoas que se aglomeram nas ruas sem máscara. Quem não se lembra do Osmar Terra dizendo que não passaríamos de 2 mil mortos? Ou dos ministros generais fazendo cálculos irreais mostrando que morria menos gente no Brasil do que na Alemanha, proporcionalmente, sem levar em conta que a epidemia havia chegado antes à Europa? Mas o maior responsável é ele, pelo cargo que ocupa como presidente e pelo alcance de seus atos, como quando coloca em xeque a eficácia do uso de máscaras no momento de maior agravamento da doença no Brasil.

Fiquei surpreso com a politização de parte da classe médica durante a epidemia. Primeiro, por terem embarcado nesse suposto “tratamento precoce” sem nenhuma evidência científica. Essa situação expõe o grande problema que temos hoje nas universidades: elas formam profissionais que não têm noção do que é o pensamento científico. E isso acontece não só na medicina, embora na medicina seja mais chocante. Isso é muito grave, porque é o pensamento científico que nos permite entender os dados e analisá-los. Sem essa bagagem, você lê o estudo sobre o uso da cloroquina feito na França e encontra sentido naquilo. Quem tem o mínimo de formação científica percebe que ele não poderia ser levado a sério. No entanto, criou-se um movimento mundial de médicos despreparados defendendo o uso desse medicamento, dando uma falsa impressão de que havia dúvida no meio científico sobre esse assunto, quando, na verdade, não havia dúvida nenhuma.

O mundo gastou um dinheirão financiando estudos para avaliar a eficácia da cloroquina. Quem não quereria que uma droga barata, conhecida, com perfil de toxicidade bem definido fosse eficaz contra o coronavírus? Todos queriam. Mas os resultados foram decepcionantes. No Brasil, foi um pouco pior. Não só gastamos dinheiro em estudos, como também empregamos recursos públicos na fabricação do medicamento. Esse discurso de “tratamento precoce” conquistou uma parte da população e deu uma falsa sensação de segurança. Isso foi uma tragédia, infelizmente, com coautores médicos, que usam a pandemia para defender suas posições políticas.

Tenho 54 anos de medicina. Conheço muita gente. Passei a vida no meio de médicos. E não conheço nenhum — por quem eu tenha respeito profissional, que eu considere um bom médico, uma pessoa estudiosa e competente — que tenha sido a favor desses tratamentos inventados, com ivermectina, cloroquina e etc. O que aconteceu, na verdade, é que a pandemia escancarou o movimento político que existe dentro da classe médica que apoiou o presidente da República em tudo. E o Conselho Federal de Medicina teve uma posição indesculpável nesse aspecto, que é vista como absurda pelos médicos estudiosos.

No auge de uma pandemia, a função de um conselho de medicina é definir qual é a linha de conduta. Um remédio que não tem ação não pode ser usado para uma doença. Se eu tenho uma doente com câncer de mama e dou a ela um medicamento para artrite reumatoide, eu posso ser punido legalmente pelo conselho, porque estou prejudicando essa pessoa. Mas o que acontece com esses médicos que aparecem na internet defendendo esses tratamentos milagrosos? Nada. O conselho diz que é o direito do médico. E isso é um comportamento antiético. Basta ver o que aconteceu nos Estados Unidos. O então presidente Donald Trump, de início, defendeu a cloroquina. Depois, viu que os comprimidos encalharam e doou para o Brasil. Os médicos americanos não prescreveram porque podem ser processados pelos conselhos ou pela Justiça comum por utilizar um medicamento sem ação demonstrada. Fizemos, no Brasil, um papel ridículo diante da comunidade científica.

Eu tive sorte. Não perdi nenhum familiar e nem eu nem minha mulher pegamos a doença. Meu enteado, a esposa e a filhinha pegaram, mas com sintomas leves. No entanto, perdi amigos queridos. Eu tenho um grupo de ex-carcereiros da Casa de Detenção, no passado conhecida como Carandiru, e, antes da pandemia, nos encontrávamos periodicamente, a cada duas, três semanas, para tomar chope, conversar e falar de cadeia. Esses temas de cadeia eu não converso em casa, nem eles. A família não tem a obrigação de ouvir essas histórias. Então, quando a gente se reúne, só se fala de cadeia o tempo inteiro. Cada um conta um caso. Quando esses homens começam a falar das coisas que viram, você diz: “Não é possível, o cara viveu cinco vidas, porque numa só não dá tempo de viver tantas histórias”. Essa gente foi muito atingida pela pandemia. Eu perdi, pelo menos, três amigos íntimos desse grupo. Um dos quais faleceu em fevereiro: seu Valdemar Gonçalves, que foi meu braço direito desde que eu cheguei à Detenção. Nós tínhamos uma parceria. Ele organizava o atendimento médico, separava os prontuários e organizava os presos ou presas para levar. Era uma pessoa muito próxima. É muito duro isso.

As perdas se avolumam, as mortes deverão aumentar seu ritmo, e eu não creio que ficaremos livres da doença. Mesmo com a vacina, ela vai continuar por aí. Mesmo que o Ministério da Saúde demonstre uma capacidade que ele não tem. Mesmo que estivéssemos em condições ideais, com vacina e uma gestão capaz, o vírus não desapareceria. Ele vai ficar endêmico, como são endêmicas as gripes, os resfriados. Talvez precisemos, no futuro, modificar a composição das vacinas, como se faz com as gripes, porque as mutações são inevitáveis. E vai continuar, também, porque parte da população é irresponsável e manterá a epidemia num certo nível, provavelmente menor do que o atual. Mas manterá. Nós vamos ter de aprender a conviver com o coronavírus.

Eu tinha uma vida muito agitada. Palestras pelo país, gravação de TV. Eu me lembro de uma semana, no mês de novembro, antes de começar a pandemia, em que peguei avião todos os dias. Em alguns deles, duas vezes, uma para ir e outra para voltar. Por isso, quando começou o isolamento, eu já havia tomado uma decisão, que venho alimentando há vários anos, de parar com a clínica particular, que tenho há quase 50 anos. Queria me dedicar a outros trabalhos, mais educativos, em que eu achava que poderia contribuir mais do que atendendo em consultório pacientes que poderiam ser muito bem atendidos por outros colegas. Meu problema foi ficar sem a cadeia. Eu tinha essa rotina de passar um dia por semana na cadeia há 32 anos, e isso eu não pude continuar fazendo. Desse período, os últimos 15 anos foram na Penitenciária Feminina, em São Paulo, que me inspirou a escrever Prisioneiras. Isso tem me pegado mais forte, porque é um trabalho que eu tenho prazer em fazer. Dentro da cadeia, eu sou um médico mesmo, de verdade. No consultório, se eu não estou, a pessoa marca consulta com outro médico. Na cadeia, não. Meu trabalho faz diferença. Eu também começaria um trabalho em um hospital público, o Pérola Byington, que tem um serviço de oncologia muito bom. Queria dar aula para os residentes, ensinar um pouco do que eu aprendi, participar das discussões e aprender com os mais jovens.

Dito isso, preciso confessar que ficar em casa mais recluso não tem me causado problema. Primeiro, porque tenho uma quantidade enorme de solicitações. Faço palestras, lives, entrevistas que tenho o prazer de dar para rádios do interior de vários estados, para televisões, falando sobre saúde. Eu acho que essa é minha obrigação no decorrer de uma pandemia. Além disso, eu escrevo. E quem escreve não fica sozinho. Tenho minhas colunas e estou escrevendo um livro, que é uma reflexão sobre o que aconteceu nos últimos 50 anos em minha vida como médico, na medicina e com o país. Não é autobiográfico. É como se fossem três trilhas que caminham juntas. Minha atividade profissional, em particular; a medicina, que quando eu me formei não tinha nada a ver com a medicina atual; e o país, que se modificou também.

Eu sempre escrevi meus livros com base nas vivências que tive. Então é muito frustrante escrever desta vez sem estar no front de combate à pandemia. Mas não tive escolha. Primeiro, porque eu não podia trabalhar em hospital nenhum, já que não me aceitariam em função da idade. Eu também adoraria estar na cadeia vendo o que está acontecendo por lá, mas é a mesma proibição. Com a vacina, eu espero tomar a segunda dose, dar um tempinho, meter uma máscara bem forte — uma N95 — e voltar ao trabalho na prisão.

Quando a pandemia começou, pensei: “Mesmo ficando em casa o tempo todo, não posso parar de fazer exercício de jeito nenhum”. E comecei a me exercitar no prédio onde moro, subindo escadas. O prédio tem 16 andares. Eu subo, depois desço pelo elevador, e subo outra vez. E corro de manhã cedinho na rua, por volta das 5h30, quando ainda não há movimento. Faço isso de maneira alternada: corro duas vezes por semana e subo escada três vezes. A corrida costuma levar uma hora e meia. Em resumo: mantive minha rotina de exercícios na pandemia e ainda emagreci 3 quilos, porque passei a comer em casa, de forma mais saudável. Também consegui ver mais filmes e séries. Tenho um amigo que entende muito de cinema. É o Isay Weinfeld, que é arquiteto, e faz algumas indicações a que eu assisto com minha mulher nessas plataformas Criterion e Mubi. São filmes complicados, mas eu me esforço para ver, para não passar humilhação depois. Antes, eu não tinha tempo para nada. Até conseguia ir ao cinema em um fim de semana, mas ver uma série na televisão era impossível. Fora isso, também tenho muita coisa para ler, muitos livros que recebo dos próprios livreiros. Fico até desesperado. Aí começo a ler dois ao mesmo tempo. Três, às vezes.

Há alguns livros que estão parados na estante, e que eu sempre esperei um período de maior tranquilidade para lê-los. Um é Anna Karenina, do Tolstói, e o outro é Os irmãos Karamázov, do Dostoiévski. Mas veio a pandemia, e eu ainda não tive coragem de começar. Tenho um pouco de preguiça porque sei que eles vão tomar meu tempo todo por meses. Aí não vou poder ler mais nada. Sem contar a medicina, que eu continuo acompanhando, lendo, estudando. A medicina é uma profissão muito egoísta.

A história da humanidade é cheia de exemplos de germes com potencial para causar uma epidemia. Mas uma coisa é falar e outra coisa é viver a realidade. É muito diferente ver as pessoas adoecendo de perto, sobretudo amigos. Perder pessoas queridas, ver a devastação que vai acontecendo no país, pensar que temos 260 mil mortos num contingente de 210 milhões de habitantes… Ou seja, em cada 1.000 pessoas, mais de uma morreu. Cada vez a doença se dissemina e pega mais gente que achava que havia escapado. Essa realidade é muito triste, sobretudo porque essas pessoas morreram por uma doença evitável. Se não tivessem pego o vírus, não teriam morrido. Não são 260 mil pessoas que tiveram ataque cardíaco, câncer no cérebro, doenças de causas, muitas vezes, até inevitáveis. São pessoas que pegaram o vírus. Se não tivessem pego, estariam aqui.

Diante desse quadro, eu às vezes me canso do Brasil. Mas aí penso que sou brasileiro e que tenho um compromisso com o país. Eu estudei no Brasil, em uma universidade pública. Gosto da música, das pessoas. Eu não seria feliz em outro lugar. Já tive a oportunidade de fazer medicina nos Estados Unidos, mas nunca me interessei. Eu era adulto, estudante universitário, quando veio a ditadura, que durou 20 anos e foi terrível. Sumiam pessoas, matavam gente. E você tinha do outro lado radicais que assaltavam bancos e faziam guerrilha urbana. A mão do Estado veio com toda a força em cima dessa oposição. Quanta gente foi torturada! Quanta gente inocente, por razões variadas, foi presa! Gente que carregou traumas pela vida inteira. E nós sobrevivemos a isso. Por isso penso que o presente é melhor. Pelo menos os jornais estão funcionando até aqui, assim como a Justiça. Existe uma esperança de que a gente consiga sair desse quadro autoritário para um sistema mais decente. Isso vai melhorar. Vai permanecer assim por um tempo, mas não para sempre.

Uma vez, eu estava com o Exército no Pico da Neblina, que é um território ianomâmi. Estávamos gravando um documentário. Quando voltávamos da fronteira com a Venezuela para o Brasil, paramos numa comunidade ianomâmi e descemos para conversar com eles. Eu fiquei filmando num centro comunitário na aldeia, coberto de palha, bem típico. Quando acabamos de gravar, fui conversar com as mulheres. Como viviam isoladas, falavam português muito mal. De repente, uma delas me disse: “A gente conhece o senhor”. Eu falei: “De onde vocês me conhecem?”. Ela falou: “Da televisão”. Aí ela apontou para uma antena parabólica doada pela Igreja. Eu falei: “Vocês entendem o que eu falo?”, Ela disse: “Um pouco”. Eu fiquei tão impressionado com aquilo! Eu falo na frente de uma câmera e essas mulheres, essas senhoras, ouvem e entendem um pouco? Que privilégio é atingir este Brasil imenso. Quem foi o médico que teve esse privilégio?

Outro exemplo desse alcance é meu site, que criei em 1999 para guardar as entrevistas que dava e os artigos que escrevia. Hoje ele virou um canal no YouTube, no Instagram, no Facebook etc. Essas redes sociais chamam para as matérias que estão no site. O site tem de 10 milhões a 12 milhões de acessos por mês. O Facebook tem 2 milhões de seguidores. Esses números são um absurdo, muito grandes. Somando todas as redes, calculamos que cerca de 20 milhões de pessoas sejam impactadas. Olha a capacidade de informação que conseguimos transmitir! E aí existem aqueles que nos atacam com robôs. Mas eu não me preocupo com isso. Eles que ataquem. Temos vídeos com mais de 1 milhão de acessos. Isso é mais importante do que qualquer ataque. Quando você sabe aquilo que quer, não pode ficar impressionado com a opinião de meia dúzia de pessoas, porque, senão, não faz nada na vida.

Nesse grupo de carcereiros, a maioria é bolsonarista. Mas não discutimos de jeito nenhum. São pessoas das quais eu gosto. Não vou brigar com eles por causa de política. Daqui a pouco os políticos se entendem e perdemos amigos inutilmente. Nossa tendência é sempre nos relacionarmos com pessoas que pensam como nós, que têm o mesmo nível socioeconômico. Essa convivência com os iguais nos traz segurança, um sentimento de proteção. Mas isso também tem um lado ruim: torna nosso mundo estreito. As pessoas passam a pensar do mesmo jeito, usar o mesmo tipo de roupa, ter um carro parecido. Mas quando convivemos com ladrão que está preso, mas que fugiu de casa aos 6 anos de idade porque era espancado pelo padrasto, entramos no universo de uma pessoa que saiu para viver na rua com a sabedoria dos 6 anos. Diante disso, adquire-se uma visão da complexidade que é a existência humana. E, uma vez que você tem essa visão, é muito difícil abdicar dela. A vida fica mais pobre.

Por isso sinto falta do movimento que minha vida costumava ter. Andar pelo Brasil trabalhando, gravando, entrando na casa das pessoas, nas periferias das cidades. Ver as condições em que elas vivem, ouvir o que pensam. E sinto falta do atendimento nas cadeias. Dá para viver sem essas coisas. Se eu não puder mais fazer, dá para viver. Mas a vida fica pior. Sinto falta da cadeia, de conviver com esse grupo de carcereiros, sentar com eles em um bar, tomar cerveja, dar risada, ouvir as histórias que eles contam…

Militares e o crime de lesa-pátria


História nos cobrará uma Comissão Nacional da Verdade para este genocídio

Cristina Serra

A semana começou com tensão de fim do mundo e terminou mais calma em Brasília, depois da troca do ministro da Defesa e dos comandantes das Forças Armadas. Será preciso, contudo, monitorar os sismógrafos para aferir se o terreno está, de fato, acomodado e qual a extensão das fissuras resultantes do abalo sísmico no planalto.

As versões que vazaram dão conta de que o ex-ministro Fernando Azevedo e o ex-comandante Pujol teriam resistido a arroubos extremistas do genocida, seriam avessos ao uso político das Forças Armadas e, por isso, teriam perdido seus postos. Ora, mas o que fazem os militares senão política desde pelo menos 2015, com Villas Bôas no comando do Exército? O que foi o tuíte ao STF (aprovado pelo Alto Comando) na véspera da votação do habeas corpus de Lula?

Militares deixando o governo com ares de democratas ofendidos? Nada mais falso. A coesão pode até ter levado uma sacudida, mas os generais estão unidos pelo amálgama do projeto antiesquerda, além, claro, de desfrutarem das benesses do poder. Julgam ter papel de tutela sobre os civis. Nunca engoliram a Comissão Nacional da Verdade.

Até hoje celebram (agora com autorização do Judiciário) a ditadura que torturou, matou e escondeu corpos. Os fardados viram no golpe contra Dilma Rousseff a chance de voltar ao poder na carona de um extremista. Ajudaram a elegê-lo sabendo que tudo nele é extremo: autoritarismo, ignorância, maldade, desprezo à vida, culto à morte.

O Brasil está em marcha célere para 400 mil mortos pela pandemia. O colapso funerário se aproxima. O genocídio é obra coletiva de Bolsonaro e de todos os que estão com ele. Nessa guerra, os militares que o apoiam decidiram cerrar fileiras nas legiões do vírus. São avalistas e fiadores, cúmplices e co-autores dessa tragédia. Tratam o povo como inimigo a ser derrotado, deixando-o morrer de doença e fome. Isso é crime de lesa-pátria. A história vai nos cobrar uma Comissão Nacional da Verdade para o genocídio brasileiro.

Felizes os que acreditam em Cristo como as crianças no coelhinho da Páscoa


Mal-aventurados os mansos, porque ficarão sem vacina e comerão o pão que Bolsonaro amassou

Mario Sergio Conti

Bem-aventurados os que creem em Cristo como as crianças no coelhinho da Páscoa: de brincadeira, de vez em quando, até os sete anos.

Bem-aventurados os que descreem do pecado original, da Santíssima Trindade, da Imaculada Conceição, da infalibilidade papal, da ressurreição dos mortos, da peste acima de todos e do apocalipse acima de tudo.

Desventurados os que condescendem com o misticismo, pois principiam por estudar Agostinho e acabam embolados com Nostradamus, ou depositando ouro nas burras do es tuprador João de Deus –como tantas sumidades do Supremo, faróis das finanças, intelectuais iluministas.

Bem-aventurada a alegre orquestra dos descrentes, que toca a música que faz dançar a vida.

Mal-aventurados os sedentos de superstição, pois morrerão desiludidos no lúgubre reino da realidade.

Exultai e alegrai-vos, vós que não prescindistes nem prescindireis jamais da segunda pessoa do plural.

Bem-aventurados os que sabem que os últimos não serão os primeiros; os últimos serão os últimos.

Bem-aventurados os que se revoltam mesmo tendo ciência que a derrota é provável, e que nem por isso será uma coroa de glória.

Mal-aventurados os mansos, porque ficarão sem vacina e comerão o pão que Bolsonaro amassou.

Desafortunado o pontífice que com coração de pedra recusou sua bênção aos homossexuais.

Se o vosso senso de justiça não exceder o de FHC-Pilatos, de Barrabás-Guedes e de Caifás-Lira, que urdiram um pacto para manter Satanás no seu trono, nunca que ficareis junto aos justos no Juízo Final.

Malsinados os dedos-duros, os que traíram seus irmãos e se venderam por 30 moedas.

Que afundem num poço de peçonha os Judas que se regozijam por não serem malhados no Sábado de Aleluia: Antonius Palocci e Robertus Jeffersonium

Em verdade vos digo que não é preciso matar vosso irmão para se assenhorar dos tesouros de Vera Cruz; basta arrancar-lhe a última camisa.

Amaldiçoados os que garantem execrar Lúcifer, mas não agem para aniquilá-lo, pois que são cúmplices no massacre de inocentes que se repete mês a mês, dia a dia há mais de um ano.

Desditosos os que garantem que escravocratas e torturadores serão castigados no futuro. Desde sempre os que chicotearam e arrancaram unhas com alicate dormiram o sono sem sobressalto dos opressores —no Império, na República Velha, no Estado Novo, na ditadura, na Nova República e no Tucanistão

A justiça tem que ser imposta agora, a ferro e fogo, ou perdurará "per omnia saecula saeculorum".

Não odiai nem temei vossos inimigos porque isso perturba o espírito; a frieza é mais forte que a raiva e o medo.

Bem-aventurado o profeta, pois proclamou que ter fé é acreditar no que se sabe ser mentira.

Bem-aventurados os que sabem que em 2022 haverá muitos chapéus e poucas cabeças, mas até lá o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.

Que uivem para sempre numa ilha em chamas os que levaram na mandíbula chinelos para o Pata-de-Bode. Azevedo rosnou alto para o Supremo da janela de um helicóptero; Moro ladrou fino para a tropa de dentro de um tanque.

Maldita a prole de potros do Pangaré, não por descender dele, mas por ter se refastelado em milícias e rachadinhas por livre-arbítrio.

Desgraçado o apóstata que abjurou o Senhor e se fez batizar no rio Jordão pelo charlatão Everaldo, o seu cupincha ora preso por assalto às arcas do Estado e lavagem do vil metal em viagens a Israel.

Amaldiçoados os apáticos, os pusilânimes, os que afivelam a armadura da indiferença na alma, os "faria limers" que recitam a ladainha “Privatiza Pro Nobis” –e assim permitem que Satã exale enxofre da Cidade de Deus a Paraisópolis.

Miserável o Vale de Lágrimas, no qual da primeira missa até a Páscoa da peste houve apenas 666 minutos de decência –e nem seis de heroísmo.

Bem-aventurado o que adota um modo de vida afeito a suas crenças, e amaldiçoado o que quer impor suas crenças a todos, não importam os meios.

Abomináveis os que se dizem apolípticos para disfarçar que são de direita.

Em verdade vos digo, os centuriões que sucederam Moreira César são brancos ferozes, exímios em matar negros de Havaianas –como no Haiti sob as botas de Augusto Heleno, Edson Pujol, Azevedo e Silva e Santos Cruz.

Vinde a mim os valentes, pois aceitam com o mesmo ânimo a derrota e o triunfo.

Bendito o que pensa contra si mesmo.

Bem-aventurados Machado, Borges e Carrère, que já fizeram essa paródia.

Quanto ao Inútil, lançai-o nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes —Mateus, 25:30.

Morreram mais brasileiros por Covid-19 em março do que a soma de 109 países em um ano


Um gráfico com números do site "Nosso mundo em dados", ligado à Universidade de Oxford mostra que, apenas no mês de março, o Brasil teve 66.573 mortes. Segundo a BBC, é um número tão grande que é maior do que a soma dos óbitos em 109 países toda a pandemia.

Esse grupo inclui 36 países com índice de desenvolvimento humano mais alto do que o do Brasil, como Coreia do Sul e Austrália, e 26 países com mais de 20 milhões de habitantes, como Angola. Esses 109 países tiveram, juntos, 64.571 mortes ao longo de toda a pandemia.

No dia 31 de março, o Brasil registrou 3.869 mortes por Covid. No mesmo dia, no mundo todo, morreram 12.262 pessoas. Isso significa que, neste dia, o Brasil registrou 31,5% de todas as mortes do mundo. É um número altíssimo, considerando que o Brasil tem apenas 2,7% da população mundial.

Governo e sua corte promovem Baile da Ilha Letal

Natalia Pasternak

No dia 9 de novembro de 1889, uma semana antes da Proclamação da República, a monarquia não poderia estar mais alheia à realidade. Ignorando completamente o momento político do país, a realeza promoveu um baile suntuoso, gastando para isso um orçamento equivalente a 10% do orçamento total da Província do Rio de Janeiro, o que seria hoje o equivalente ao Estado do Rio.

Carta escrita por uma jovem da época, publicada na revista Veja História, descreve o baile como um “local encantado e habitado por fadas”. Com o país à beira de uma reviravolta, a Corte vivia em um mundo à parte.

O Último Baile do Império (óleo sobre tela, Francisco Figueiredo)

Hoje, a sensação é a mesma. Não temos governo, temos realeza. Sua Majestade Jair 00 passeia de jet ski enquanto o povo sufoca até a morte. A Corte, agora conhecida como “centrão”, preocupa-se mais em aprovar projetos de lei para empurrar suas próprias vacinas, de preferência passando por cima da Anvisa. Também é urgente para a Corte aumentar o teto de reembolso de saúde dos deputados em 170%. Devem estar preocupados com o custo da UTI em dólar, já que no Brasil até o setor privado entrou em colapso.

No Ministério da Saúde, gastou-se verba pública para pôr o charme de influenciadores a serviço do kit covid. E o Conselho Federal de Medicina, em meio a maior crise sanitária da história, emite nota de repúdio contra a revalidação do diploma de médico emitido fora do país, porque isso coloca em risco a vida dos brasileiros, mas não emite nota contra a prescrição de curas milagrosas que, surpreendentemente, também colocam em risco a vida dos brasileiros. Na Ilha Letal, onde as fadas podem ser substituídas pelos fantasmas dos três senadores ceifados pela pandemia, tudo é possível.

Do lado de cá, no mundo real, pessoas morrem. Mas os defensores da Coroa, que ignoram a realidade mesmo sem convite para o baile, não gostam de ter seus “direitos” tolhidos. Como crianças mimadas, fazem birra. Como assim, não posso ir à praia? Ao shopping?

Mentem para si mesmos. O Brasil não está tão mal assim, se você olhar os números certos. Em mortes por milhão, dizem eles, tem gente muito pior. E excluem os dados que importam: o Brasil tem 3% da população mundial, mas concentra 12% das mortes. No meio desta semana, um de cada três mortos por Covid no mundo era brasileiro.

O Brasil parece uma classe de educação infantil onde o professor saiu, e quem ficou tomando conta da sala foi o líder da turma do fundão, o bully agressivo que tem raiva de todo mundo.

Essa coluna deveria ser sobre ciência. Chama-se, afinal, A Hora da Ciência. Infelizmente, a ciência já não tem hora nem vez no Brasil. Dizem que quando D. Pedro II chegou ao Baile da Ilha Fiscal, teria tropeçado, e ao se recompor, teria dito: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”. Uma semana depois, veio a Proclamação da República. O Presidente Jair Bolsonaro disse que não seria uma gripezinha que iria derrubá-lo. Não, presidente. A gripezinha derrubou o país. O senhor segue dançando, no Baile da Ilha Letal. Dança sobre os mortos do Brasil.

Terceira pessoa