Luis Felipe Miguel
Yascha Mounk é um nome em ascensão na ciência política convencional - ou “ciência política burguesa”, se quisermos dar nome aos bois. Seu livro The people vs. democracy é um dos best-sellers da literatura que culpa o “populismo” pela crise da democracia.
Ele é um dos entrevistados na enquete da Folha sobre a Bolívia: “Foi ou não foi golpe?”
Mounk responde que o que está ocorrendo na Bolívia “é, até onde se sabe, uma vitória para a democracia”.
Evo Morales, a quem ele chama de “o ditador”, é quem seria a ameaça. Mas conclui: “Dito isso, é muito importante ser vigilante quanto aos militares não tomarem um papel maior na política e quanto a organizar eleições livres e justas”.
Seria cômico, se não fosse trágico. No universo mental de Mounk, se Evo cedeu a tentações autoritárias, então seus adversários necessariamente são os mocinhos da fita. Não importa que sejam obscurantistas com plataforma abertamente antipopular, em processo que contou com forte participação dos Estados Unidos (seu país de adoção), porque, para ele, na análise política, os interesses sociais não entram na conta.
Há um curto-circuito mental quando Evo é ditador por tentar subverter as regras em seu próprio favor, mas a subversão das mesmas regras para não apenas derrubá-lo, mas também impedir a sucessão constitucional, é aplaudida como um triunfo da democracia.
Diante disso, só resta mesmo “ser vigilante” e esperar seja que uma corporação que se mostrou tão capaz de exercer sua tutela sobre as instituições não tome “um papel maior na política”, seja que golpistas determinados a destruir os avanços sociais dos últimos anos promovam “eleições livres e justas”.
A ciência política é uma piada. É um ramo menor e desinteressante dos contos de fadas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário