segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Bostonazi e o Datafolha


Claudio Guedes

Bolsonaro x Datafolha

A rejeição aumenta ao presidente truculento e desqualificado. Aos poucos, mas de forma consistente. É o que dizem todas as últimas pesquisas.

Passados oito meses de governo, o Datafolha aponta, hoje, 02/09, que a reprovação do presidente subiu de 33% para 38% em relação ao levantamento anterior do instituto, feito no início de julho, e diversos indicadores apontam uma deterioração de sua imagem.

E um dado super importante:

Se eleição fosse hoje, Haddad venceria Bolsonaro por 42% a 36%. Mostrando que a rejeição absurda ao PT, forjada pela mídia, não possui a consistência que muitos imaginam.

Como o presidente já se declarou candidato à reeleição em 2022, a briga vai esquentar nos campos da direita e da centro direita: Doria, forte candidato deve estar saboreando a queda de Bolsonaro, Luciano Hulk e o Partido Novo, também.

Vamos acompanhar!

Os maiores canalhas do Brasil


Resistir é dar as mãos; e a revolução é manter-se são

A imaginação no poder

Milly Lacombe

Ignorei os sintomas. Cansaço, sono picado, falta de ar. Fingi que não era nada, segui trabalhando e, várias horas por dia, esperneando nas mídias sociais. Até que uma febre alta me levou ao pronto-socorro para um raio-X dos seios da face e dos pulmões. Saí medicada por uma combinação de drogas que deveria me curar da sinusite e da bronquite diagnosticadas.

Só que o arsenal químico provocou taquicardia, pressão alta e derrame ocular —sobressaltos ausentes antes do coquetel. Até aí, nada de errado para a medicina moderna, já que pulmões e seios da face, depois de exames, se mostraram curados. Tudo certo também para a economia liberal: sanidade e paz de espírito não dão lucro.

De molho em casa, entendi que o ato de visitar as redes sociais fazia os sintomas se agravarem: pressão subia, ansiedade aumentava, melancolia invadia. Estava infectada de Brasil, intoxicada de “tudo isso aí” que se alimenta da pulsão de morte e de destruição. Era preciso me acalmar, voltar a sorrir e a sonhar. Mas como ficar alheia à nação que derrete e arde e à população de rua que cresce diariamente?

Assim como a medicina resolve o sintoma sem se interessar pela causa, estamos tentando eliminar sintomas sociais sem esmiuçar as causas da doença política. A diferença é que, no caso social e político, quando tudo parece desmoronar, as causas podem ser inventadas: a culpa é disso ou daquilo (e isso ou aquilo é sempre o grupo politicamente mais fraco).

Em situações de apocalipse social e econômico, quem encontra a narrativa ganha o direito de liderar. Hitler fez isso. A ditadura de 1964 fez isso. Trump faz isso. A história está repleta de homens que, agarrados a uma narrativa que dá esperança à população humilhada, endividada e esgotada, ganham o poder apontando o dedo para um grupo específico. “Oferte-me aquele que causou meu fracasso e apoio ações para eliminá-lo.” A culpa nunca é das relações de produção e de consumo que inventamos —um sistema cheio de perversões.
Não conte com a indústria do plástico para diminuir o uso do material —dado que ele gera lucros colossais. Mas quando não há mais como negar que o plástico é um problema para o planeta, a solução passa a ser personalizar a culpa, fazendo com que sintamos que a cada sacola plástica não adquirida e a cada canudo evitado caminhamos para a salvação.

Criamos uma sociedade de pessoas privadas de estímulo criativo levando vidas sem significado. Um sistema assim vai produzir surtos de solidão, angústia, sufocamento e ansiedade. E uma população enfraquecida, adoentada e desesperada não se importará em ser controlada, vigiada, dividida. Nesse cenário, obedecer vai ser sempre mais fácil do que entender. Solidariedade e colaboração nos fizeram evoluir; competição e destruição nos alienam de nós mesmos e do planeta.

Mas seguir retrucando e criando memes de cada absurdo que sai da boca das autoridades não está levando a gente a lugar algum —a não ser para hospitais e divãs. Como então sair dessa lama?

Conversando com um poeta que chamo de irmão, obtive a resposta: festa. Precisamos de melodia, de poesia, de encontros por conspirações positivas. É o que o ultradireitismo não tolera. Que apesar das rajadas de metralhadoras sigamos escutando a música. Que apesar das epidemias de ansiedade e de melancolia sigamos celebrando. Que mesmo sufocados em desespero sigamos cantando. Que sejamos capazes de fazer amor, de trepar e de beijar em meio a ruínas.

Hora de organizar a raiva, agasalhar a tristeza e festejar a coragem daqueles que todos os dias saem de suas casas para estudar ou trabalhar com helicópteros militares disparando rajadas a esmo. Festejar a paciência dos professores que superam a falta de salário e continuam ensinando. Festejar os quilombos, as aldeias, as comunidades e a sensatez de quem escolheu o lado do silenciado, do excluído, do injustiçado. Hora de aumentar o som, abraçar quem está ao lado e deixar o amor transbordar. Resistir é dar as mãos; e a revolução é manter-se são.

Destaques da pesquisa Datafolha

Artur Araújo

DESTAQUE IMPORTANTE DA DATAFOLHA

Da salada geral de informações que são fornecidas por qualquer pesquisa, pinço o que avalio ser muito importante na da Datafolha divulgada hoje.

Segundo Mauro Paulino e Alessandro Janoni, dirigentes da organização, "um em cada quatro dos que votaram no capitão reformado não repetiria a opção caso o pleito fosse hoje.
(...)
Os mais arrependidos são os que têm entre 45 a 59 anos, faixa especialmente atingida pela reforma da Previdência."

Lembrando que, ainda que o desastre pareça estar ocorrendo há muito mais tempo, só se passaram 8 meses do mandato.
MAIS COMENTÁRIOS SOBRE PESQUISA DATAFOLHA

Segue abaixo outro trecho bem relevante do artigo dos diretores do instituto de pesquisas:

"Não à toa, o meio ambiente é, neste momento, uma das mais reprovadas do governo Bolsonaro, empatada com a educação. Em um ranking com 18 setores, ela só não é pior do que as políticas de combates ao desemprego, à miséria e as relativas à saúde.

Aliás, comparando-se os resultados atuais com os obtidos por presidentes anteriores como Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula e Dilma (PT), independentemente do período em que as pesquisas foram realizadas, percebe-se os pontos fortes e fracos da administração atual.

As reprovações às políticas públicas de Bolsonaro são maiores do que as avaliações negativas de antecessores em 16 das 18 áreas pesquisadas.
Em questões como combate à miséria, ao desemprego e defesa do meio ambiente, o desempenho negativo de Bolsonaro supera o de seus antecessores com escores próximos a 40 pontos percentuais. Na educação, esse contraste bate 30 pontos se confrontado com Lula depois de 10 meses do primeiro mandato.

As diferenças também são expressivamente negativas para Bolsonaro nas políticas culturais, nas relações exteriores, no setor de comunicações e na reforma agrária.

Em 2 dos 18 aspectos estudados, no entanto, a opinião pública confere melhor avaliação ao pesselista do que o fazia sobre os ex-presidentes —no combate à corrupção e na área de segurança pública."


Obscenidade


Bozo manda sua mensagem para Trump

João Montanaro

Take over: ato de assumir o controle de alguma coisa. Substituir alguém no comando.

Galinha-d'angola


Trump já dá sinais de que quer distância do miliciano ogro


Fortes sinais de mudanças de humor na Casa Branca em relação a Bolsonaro começam a aparecer. Tem gente do Deep State aconselhando Trump a se descolar do louco do bananão, especialmente por causa das eleições no ano que vem. A conta da Amazônia não pode prejudicar os republicanos. Pelo contrário, deve virar alvo de vantagem eleitoral, segundo o pessoal que já prepara a corrida para a reeleição (já viram, né?).

Lembro que é normal, diria que rotineiro, grandes aliados eventuais dos EUA se tornarem rivais ou até grandes inimigos. Talibã e Saddam Hussein são só dois exemplos recentes de uma lista longa.

Os ventos da campanha de lá podem virar furacão aqui. A conferir.

Leonardo Valente

Comentário a respeito da menina do Fantástico


A imagem da garota no #fantastico dizendo que o sonho da universidade ficou novamente distante ao perder a bolsa de 100 REAIS que ela recebe do CNPq acabou comigo. Que país fracassado é o Brasil. Precisamos todos morrer imediatamente.

Biabionica

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Assassinos de sonhos

Fernando Brito


Importante e comovente a reportagem de Murilo Salviano, ontem, no Fantástico.

A partir da história de Natália Rito Lopes, uma das alunas e alunos de escolas públicas da pequena e pobre Cocal dos Alves, no Norte do Piauí que conquistaram dezenas de medalhas nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática.

As contas bem feitas permitiram a eles somar R$ 100 reais, todo mês, à renda miserável de suas famílias, muito numa cidade onde a renda per capita não chega a 300.


Natália recebe uma das 84 mil bolsas- seis mil com o mesmo valor de R$ 100 mensais – que correm o risco de serem suspensas ainda este mês, pela política de cortes nos gastos públicos tão louvada pelos empresários de tripa forra e pelos economistas de coração vazio.

domingo, 1 de setembro de 2019

Fenda antiga


Luis F Verissimo

Estávamos em San Jose, Califórnia, para cobrir a Copa do Mundo de 94. A maioria, ocupada em instalar o equipamento para a cobertura e fazer um reconhecimento do local, não se deu conta do drama que estava acontecendo junto com a nossa chegada: a perseguição e a eventual captura de O.J. Simpson – certamente a pessoa mais famosa a ser acusada de um assassinato no mundo desde que levantaram a hipótese de que Jack, o Estripador poderia ser um membro da família real inglesa. Simpson era um herói para os negros, mas não necessariamente um herói do ressentimento racial. Casara com a loira que supostamente acabara de matar e transitava no mundo das celebridades brancas de Hollywood com naturalidade. Mas quando o utilitário Ford com Simpson dentro rodou pelas freeways de Los Angeles perseguido pela polícia, os negros no caminho vibravam à sua passagem e o incentivavam como se ele ainda estivesse num campo de futebol. Tudo, inclusive a tentativa de fuga, indicava que Simpson era culpado, mas o mais importante era que ali estava um afro-americano fazendo a polícia dos brancos correr atrás dele. Depois da prisão as pesquisas divergiam. A maioria dos brancos achava que Simpson era culpado, a maioria dos negros achava que não. As opiniões se dividiam ao longo da velha fenda que não tinha nada a ver com evidências e argumentos. Uma fenda que permanece apesar de todos os avanços havidos nas relações raciais americanas e de todas as conquistas dos negros. Que, ao contrário dos negros brasileiros, nunca foram anestesiados por um falso sentimento de igualdade e nunca tiveram qualquer dúvida sobre o racismo da sociedade em que vivem. O.J. Simpson acabou sendo absolvido, mas pouca gente acredita que ele era inocente dos assassinatos. Talvez tenha matado a ex-mulher e o namorado dela levado pela certeza de que sua celebridade de certa maneira o protegeria e o eximiria de suspeita.

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A celebridade tornou-se um valor independente nos Estados Unidos, o centro do seu próprio universo moral. Seu valor é definido pela cotação no mercado. Nada é tão rentável nos Estados Unidos quanto a celebridade, e tanto faz a celebridade se dever à invenção de uma nova vacina ou à castração de um marido infiel. Fizeram uma lei que proíbe as pessoas de ganhar dinheiro explorando o próprio crime em livros (“Como desmembrei mamãe”) e reportagens, mas nada impede que outras pessoas envolvidas lucrem com sua proximidade ao crime. Todos os participantes do julgamento de Simpson tornaram-se celebridades, mesmo que por pouco tempo. A promotora chegou a dar palpite sobre quem deveria interpretá-la quando fizessem o filme. E Simpson, o homem que realizara, como atleta e ator, o desejo de tantos com tanta facilidade que podia se imaginar a salvo de qualquer represália, deve ter se sentido um pouco como o Gatsby de Scott Fitzgerald, quando descobriu que a promessa americana de um continente aberto para os melhores sonhos de um homem, sem obstáculos de classe ou preconceito, era uma armadilha. A celebridade lhe garantiu uma defesa de primeira classe e a absolvição, mas a celebridade não o suspendeu acima do bem e do mal. E embora ele pensasse que tivesse atravessado a fenda para sempre, a celebridade não impediu que seu caso se transformasse, no fim, em negros contra brancos. Como sempre.

*

Dos americanos que se reuniram na Filadélfia para debater a primeira Constituição democrática da história, a grande maioria era de homens de negócio, proprietários rurais e donos de escravos, o que não os impediu de escrever a “Bill of Rights”, que definia para sempre os direitos iguais de todos os cidadãos e seria a inspiração para a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem. É verdade que se passaram quase 170 anos antes que os direitos “autoevidentes” da “Bill of Rights” fossem assegurados a todos os americanos, independentemente de raça, por uma interpretação algo tardia da Suprema Corte. E que questões como o condicionamento social do direito à propriedade não foram sequer tocados na Constituição americana, cuidadosamente redigida para proteger a aristocracia rural de qualquer desafio aos seus direitos divinos. E que até hoje, embora a aristocracia rural americana tenha seguido o caminho da “landed gentry” inglesa para a irrelevância, a questão da propriedade nunca entrou no debate político dos Estados Unidos. Mas a “Bill of Rights” está lá, como uma promessa viva, mesmo descumprida.

*

No final de O Grande Gatsby, Fitzgerald, no melhor texto que escreveu na vida, evoca o sonhado país inédito que se enredaria nas suas intenções e contradições. Descreve a costa leste americana, “a fronte verde e fresca do novo mundo”. Suas árvores desaparecidas “um dia tinham se oferecido com sussurros ao último e maior de todos os sonhos humanos: por um momento transitório encantado o homem deve ter prendido a respiração na presença deste continente, compelido a uma apreciação estética que ele nem compreendia ou desejava, cara a cara pela última vez na história com algo comensurável à sua capacidade de se maravilhar”. Para Fitzgerald, o “futuro orgástico” perseguido por Gatsby e as promessas da época tinham se evanescido “na vasta escuridão além da cidade, onde os campos soturnos da república se estendem sob a noite”. E o momento encantado não voltaria mais.

5ª série


Hélio Schwartsman
Bolsonaro já deu todos os sinais de que não deixará de ser Bolsonaro
Vamos colocar a discussão em nível de 5ª série para que todos a compreendam. Sim, o Brasil tem soberania sobre a Amazônia. Se quiser derrubar toda a floresta e pavimentar a área, transformando-a num gigantesco estacionamento, pode perfeitamente fazê-lo. Só que o mundo também tem suas soberanias.

Se consumidores ou governos estrangeiros decidirem que vão deixar de comprar produtos brasileiros ou impor sanções ao país, podem perfeitamente fazê-lo.

Nesse cenário, o Brasil amargaria duplo prejuízo: perderia a floresta e se veria transformado em pária internacional. É um tiro no pé, portanto, a atitude do governo Bolsonaro de bater boca com líderes de nações que nos cobram os compromissos de preservação ambiental firmados pelo Estado brasileiro.

Jair Bolsonaro e seus seguidores não só não veem o óbvio como, de forma preocupantemente infantil, se põem a insultar o presidente francês Emmanuel Macron, fazer referências à aparência de sua mulher e a exigir que ele "retire o que disse". Só ficou faltando o "te pego na saída".

Bolsonaro já deu todos os sinais de que não deixará de ser Bolsonaro. Ele seguirá com sua agenda ideológica e péssimos modos até o fim. Pode recuar diante de um obstáculo que julgue difícil transpor num dado instante, mas apenas para tentar de novo mais adiante. Ele deve até achar que ganhou o embate contra a França, já que chamou a mulher de Macron de velha e feia sem usar essas palavras.

Em medidas um pouco mais objetivas, porém, a popularidade do presidente está caindo rapidamente, anos e anos de trabalho de diplomacia ambiental brasileira foram jogados no lixo, alguns produtores brasileiros, como os do setor de couros, já enfrentam boicote lá fora e o país está perdendo áreas de floresta sem ganhar nada com isso. Bolsonaro só somou pontos com o público que já era seu. Se isso é uma vitória, precisamos redefinir o significado de derrota.

Canetada


A burrice e estupidez do futuro já estão entre nós em "Idiocracia"

CINEGNOSE

Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um filme que era originalmente uma comédia, mas que se tornou um documentário.

“Um filme que era originalmente uma comédia, mas que se tornou um documentário”, sentenciou a crítica especializada. O filme foi lançado em 2006, sem alarde ou cerimônia, em um punhado de redes de cinemas. Jamais um trailer promocional sobre o filme foi exibido anteriormente no cinema ou nos canais habituais de divulgação na Internet, como o IMDB.

No Brasil, foi lançado diretamente em DVD, sem qualquer esquema promocional.

Praticamente o estúdio 20th Century Fox descartou a produção por não saber como vendê-lo ou defini-lo: é uma distopia sci-fi? Uma comédia de sátira social? O problema é que o argumento do filme se concentrava numa sociedade estúpida, muito mais próxima de se realizar do que poderíamos imaginar. Uma sátira “hipo-utópica”, isto é, uma projeção hiperbólica no futuro de eventos que já estão acontecendo no presente - sobre esse conceito clique aqui.

Estamos falando do filme Idiocracia (Idiocracy, 2006), do diretor e roteirista Mike Judge – uma narrativa tão premonitória que, catorze anos depois, parece até um documentário.

Depois de catorze anos do “não-lançamento” de Idiocracia o que vemos? Comediantes ou estrelas de reality shows de TV eleitos presidentes como na Ucrânia e EUA (ou o  governador eleito João “O Aprendiz” Doria Jr, no Brasil; ou também o apresentador Luciano Huck sendo cogitado a candidato à presidência em 2022); apresentadores do canal Fox News defendendo racistas como patriotas; uma série reality de sucesso chamada Os Kardashians na qual uma família nada faz de relevante além de mostrar cirurgias plásticas, quem ficou gordo ou magro ou quem casou ou se separou; ou ainda a maior rede de comunicação da história humana, a Internet, que deu direito à palavra aos idiotas de aldeia que outrora tinham vergonha de si mesmos.

Talvez exatamente por isso a 20th Century Fox se viu embaraçada com o resultado final que Mike Judge apresentou para os executivos do estúdio: o filme era muito profético, quase um documentário sobre um futuro próximo. Futuro que certamente os executivos da indústria do entretenimento idealizavam.

Idiocracia começa descrevendo como o processo da evolução darwiniana caminhou para um sentido oposto na História. Até um certo ponto, a seleção natural sempre favoreceu os mais inteligentes e rápidos que se reproduziam em maior número que os demais. Um processo que favoreceu os traços mais nobres da humanidade, ao ponto que todo o gênero da ficção científica antevia sociedades civilizadas e inteligentes.

Mas o que aconteceu para a História premiar o embrutecimento e a involução? Como chegamos ao ano 2501 no qual a inteligência se extinguiu e a mentalidade limítrofe tornou-se o modelo desejável de existência?

Será que a Teoria da Evolução de Darwin estava errada? Ou a evolução tecnológica reduziu as expectativas dos padrões de inteligência a um ponto em que a burrice se tornou uma virtude?

Texto completo AQUI

Salário é um zero à esquerda no país da extrema-direita

Temos vagas para milicianos

Vinicius Torres Freire
Rendimento do trabalho parou de crescer desde abril; política extremista está em alta 
O salário médio não cresce desde abril. Para ser mais preciso: desde então o rendimento médio do trabalho não aumenta ou até cai, se comparado com valores do mesmo mês do ano passado. Não era ruim assim desde 2016, ainda na recessão.

Não causa escândalo. No país da Grande Depressão, o conflito mais expressivo ou evidente é tenebrosamente político. Por exemplo, há grande disputa pelo controle de instituições do sistema de Justiça, do Supremo ao moribundo Coaf, passando por Ministério Público e Polícia Federal.

Lavajatistas, bolsonaristas e a uberdireita (que quer fechar ou tomar STF e Procuradoria), grupos no Congresso e os diversos partidos da Justiça, todos batem-se pelo poder arbitrário de mandar gente para a cadeia, de fugir da polícia ou de decretar o esbulho de direitos civis, quem sabe políticos. Os direitos sociais já vão para o vinagre por inércia.

Sim, lamenta-se de modo vazio o desemprego, que não terá melhora notável até 2022, se der tudo certo. Há quem se anime com o aumento do número de pessoas trabalhando, mais 2,2 milhões de um ano para cá. Mais de 80% desses novos empregos são da categoria “empregado sem carteira assinada” e por “conta própria”.

A soma (“massa”) de todos os rendimentos do trabalho cresce no ritmo mais lento desde agosto de 2017, ao passo de 2,2% ao ano. No mínimo, o zero à esquerda dos salários deveria preocupar quem quer a ressuscitação do PIB, em tese desejo geral. Nem isso.

A penúltima manifestação trabalhista de nota ocorreu em abril de 2017, contra a reforma da Previdência. A última foi o caminhonaço dos amigos de Jair Bolsonaro, o que ajudou a arrebentar o país em 2018.

A reforma trabalhista passou quase sem um pio. Assim foi o fim da contribuição sindical obrigatória, último e maior interesse da burocracia sindical carcomida.

A nova massa de trabalhadores, que vive de bico, não tem sindicato ou quase representação de outra espécie. Os celetistas estão apavorados. Até o privilegiado e militante funcionalismo federal está quieto diante do talho iminente prometido pelo governo Bolsonaro.

Houve protesto contra esse ministro da Educação, que fez questão de desdourar a pílula do corte de gastos com disparates atrabiliários, corte que era um arrocho no governo inteiro. No mais, a emergência social e a ameaça de colapso do governo federal mal são assunto político, no sentido maior do termo.

Decerto as saídas são mínimas, mas não é disso que se trata aqui. A conversa sobre os problemas materiais limita-se a um debate sobre reformas, em geral de elite. Os salários, o trabalho que vira bico em 80% dos casos ou a ruína dos estados, nada disso motiva política organizada do povo miúdo e de seus ausentes representantes.

Há risco alto de que, em 2020, universidades federais tenham de fechar, que falte subsídio para remédio popular e dinheiro para livro didático, isso em um país de governos que gastam quase 40% do PIB por ano.

É um espanto que essa desgraça toda não se transforme em protesto. Ou talvez se transforme, de modo caricato ou monstruoso.

Um pilar da eleição de Bolsonaro foi o pensamento de que “quebrando o sistema”, em particular a corrupção, as coisas e as contas se resolvem. A facção mais extremada desse grupo imenso enfatiza mesmo é o quebra-quebra institucional, fechar ou dominar o Supremo etc. O país se politiza ao extremo, no extremo satânico da ideologia que cobre de névoa os problemas sociais.

O negacionismo científico: ignorância ou infâmia


Rogério Cezar de Cerqueira Leite
​O negacionismo está matando gente e vai matar muito mais. Cada árvore que se queima na Amazônia contribui para a morte de um inocente. E a omissão do governo brasileiro é, portanto, um crime.
Depois de quase cinco décadas do primeiro alerta nacional, aliás posto nesta Folha, reaquece o debate na sociedade brasileira sobre o aquecimento global. Apesar da simplicidade e da certeza científica, nossas autoridades continuam a ignorar as inexoráveis calamidades a que o aquecimento global nos condena.

Aqui venho, pois, novamente tentar explicar por que não há escapatória para a humanidade senão a redução drástica de emissões de gases de efeito estufa.

Comecemos do começo. Chama-se radiação do corpo negro o fenômeno básico envolvido no efeito estufa. Todo corpo que não esteja à temperatura zero absoluto, aquela em que não há movimento de seus átomos e/ou moléculas constituintes (aproximadamente 273 °C abaixo de zero), emite radiação eletromagnética. Quanto maior a temperatura do corpo, maior a intensidade e a frequência da radiação.

Como a superfície do Sol está a aproximadamente 5.000°C, devido a reações nucleares em seu interior, a intensidade emitida é tão intensa e as frequências tão altas (da luz visível). Mas a Terra também emite radiação eletromagnética, pois está a temperaturas superiores ao zero absoluto. Essas emissões são, todavia, menos intensas e de frequência mais baixa. Chamamos esse intervalo de frequências de infravermelho.

Então, Terra e Sol emitem energia continuamente. Se a Terra não tivesse atmosfera, essa condição levaria a um equilíbrio. E cálculos mostram que a Terra, se não houvesse atmosfera, estaria a cerca de 80°C abaixo de zero, quando a energia emitida pela Terra igualasse aquela recebida do Sol.

Consideremos agora uma molécula de dióxido de carbono (CO2 ) no caminho entre o Sol e a Terra. Medidas físicas mostram que essa molécula interage fortemente com os raios infravermelhos emitidos pela Terra, absorvendo-os e reemitindo-os em todas as direções, inclusive de volta para a Terra. A molécula de CO2 também interage com a luz solar, mas muito fracamente.

Uma atmosfera composta de moléculas de CO2 , e outras com o mesmo comportamento, permitirá passar a energia proveniente do Sol e devolver para a Terra —e vai necessariamente aquecê-la. É por isso que a temperatura média da Terra está acima dos 80 °C negativos. Viva o dióxido de carbono. Esse fenômeno é o que chamamos de efeito estufa. Ao aumentar a quantidade dessas moléculas, aumenta a retenção de energia da radiação infravermelha e, consequentemente, a temperatura da Terra.

Por outro lado, a queima de qualquer material orgânico, tais como carvão, petróleo e madeira, libera moléculas de dióxido de carbono e outras de efeito estufa, aumentando a retenção de calor. De fato, a atmosfera também se aquece, provocando desigualdades de densidade e consequentes movimentações, ou seja, ventos, tempestades etc. Mas o efeito estufa continua, pois o CO2 e outros gases não estão sendo removidos. E se está frio em Roma é por causa de vento e nuvens que não mudam a temperatura média da Terra. Será que há razões extrarracionais que abusam da ignorância e da burrice dos pobres de espírito?

A verdade é que esse negacionismo está matando gente e vai matar muito mais. Cada árvore que se queima na Amazônia contribui para a morte de um inocente. E a omissão do governo brasileiro é, portanto, um crime, principalmente se não for senão para agradar a bancada ruralista.

O Brasil para os milicianos e a Amazônia para os EUA

Grande queima

Para Bolsonaro, todo o fogo é bem-vindo
Jair Bolsonaro já não é aquele que assumiu. Os medos e fugas que levaram a dar Paulo Guedes como o todo-poderoso, carta branca a Sergio Moro, ao general Augusto Heleno a primeira e a última palavras, e tantas outras fraquezas, não existem mais.

O rosto, em acelerado envelhecimento, assume uma firmeza de mandante, o olhar endurecido, nada mais daquela figura de deslocado em um mundo desconhecido.

Designar o próprio filho, de capacitação improvada, para falar e agir pelo país no centro de decisão global é uma atitude que simboliza, por si só, tudo o que é o Bolsonaro agora possuído por sensações de poder, de hierarquia única e de vontades impositivas.

Entramos na zona do perigo.

Quando esse Bolsonaro diz que a imprensa, por criticá-lo, está cometendo suicídio, fala da imprensa, mas sobretudo fala de si, da sua sensação de poder incontrastável. E de uma vontade já manifestada por diferentes maneiras.

Está claro que Bolsonaro tem intenções bem definidas quanto à liberdade de imprensa, assim como antes indicou e já restringe a criação cultural. O risco causa na imprensa mais intimidação do que reação. E com a falta de contraditório contribui para maiores ímpetos da hostilidade à liberdade de expressão.

Prepara-se no Planalto um indulto de policiais presos por crimes de morte e por envolvimento em atividades ilegais. Com participação explícita ou velada, muitos desses policiais são integrantes de milícias.

Em referência ao indulto desses "presos injustamente", Bolsonaro chamou-os de "colegas". Seja qual for a via do coleguismo, o indulto extemporâneo conjuga-se com as relações pessoais, familiares e financeiras dos Bolsonaros com aquela próspera atividade e suas cercanias. No mínimo, o indulto trará a consolidação de disposições milicianas para o que der e vier.

O fogaréu amazônico lançou a ira da opinião mundial contra Bolsonaro e, por tabela, o desprezo pelo país passivo diante de sua tragédia. Mas, para Bolsonaro, todo o fogo é bem-vindo. 

O governo, por meio do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cortou 30% da verba orçamentária para prevenção e combate a queimadas em florestas. O resultado dessas políticas antiambientais, antiamazônicas e anti-indígenas está visível não só nas chamas e na fumaça.

Para um exemplo: na fogueira que hoje é o estado de Rondônia, em 2018 as grandes queimadas decresceram 39%, somando 2.456. Da posse de Bolsonaro até a semana passada, aumentaram 164%, chegando a 6.484, conforme acompanhamento do respeitável Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Aí está clara a culpa de Jair Bolsonaro, por indução verbal e facilitação administrativa, pela ação incendiária que atinge, inclusive, reservas naturais e reservas indígenas.

Bolsonaro já se dissera favorável à abertura da Amazônia para empresas norte-americanas de exploração mineral. Especificou bem: não empresas brasileiras, muito menos em geral, mas "americanas". 

As queimadas, portanto, abrem-lhe a oportunidade de avançar no seu plano. Primeiro, manifestando o desejo de acordo com os Estados Unidos, e não com europeus, para ação na Amazônia. Para logo continuar, aliás, repetindo-se: "Reservas indígenas são prejudiciais ao progresso".

Era a trilha sonora para o embarque de Eduardo Bolsonaro e do tradutor-ministro Ernesto Araújo rumo a Trump. Para uma conversinha fora da agenda presidencial por urgência da necessidade ou, antes, da oportunidade.

O Bolsonaro que encaminha a entrega da Amazônia, não quer matadores e milicianos presos "injustamente", avisa do "suicídio" da imprensa, indispõe o Brasil pelo mundo afora, não se mostra temeroso de objeção das chamadas instituições democráticas. De fato, por sua atitude de espectadoras desinteressadas, não têm por que o preocupar. São coerentes com a classe socioeconômica que as povoa.

E os militares, responsáveis, por ordem da Constituição, pela legalidade nacional e pela soberania? Ora, a Constituição.

Deputados do PSL apreensivos: escândalo a que se referiu Bolsonaro apontaria Michelle como gerente do caixa 2 da família

Publicado por Joaquim de Carvalho


No PSL, a apreensão é grande depois que Jair Bolsonaro disse, no início da semana, que está para estourar um escândalo que atingirá alguém próximo dele.

Esta pessoa, segundo confidenciou a amigos um deputado federal do partido, seria Michelle Bolsonaro.

A esposa do presidente seria uma espécie de gerente do caixa 2 gerado com dinheiro desviado dos gabinetes dos parlamentares.

“Não adianta fazer essa campanha pesada contra minha pessoa, contra minha família. Agora contra que tá do meu lado também, que está para estourar um problema aí… Problema não, uma falsa acusação a uma pessoa importante que tá do meu lado. [É] o tempo todo assim”, afirmou Bolsonaro, no seu habitual monólogo diante dos jornalistas que fazem plantão no Palácio do Alvorada, a residência oficial do presidente.

Michelle Bolsonaro foi flagrada pelo Coaf com um depósito de 24 mil reais feito em sua conta pelo notório Fabrício Queiroz.

Esta não seria a única transferência feita para ela, a partir de recursos que não têm origem comprovada.

Pode ser dinheiro de funcionários dos gabinetes, o que caracteriza peculato (apropriação de bem público). Pode ser recurso do esquema de milicianos, ao qual Fabrício Queiroz e a família Bolsonaro são ligados.

Pode ser dinheiro de corrupção pura e simples.

A conferir.

Médico bolsomínion


A vaga foi pro brejo



Moisés Mendes

Declaração de Bolsonaro no dia 12 de maio em entrevista à Rádio Bandeirantes, quando assegurou ter firmado um compromisso com Sergio Moro de que o indicaria para o Supremo:

“A primeira vaga que tiver, eu tenho esse compromisso com o Moro e, se Deus quiser, cumpriremos esse compromisso".

Era a venda casada. Moro assumiria o Ministério da Justiça, com o controle absoluto do Coaf e da Polícia Federal, para fazer o jogo do bolsonarismo e proteger parentes e milicianos, e depois seria recompensado.

Não deu certo. O ex-juiz não controla nem Coaf, nem PF e nem o Grande Plano Estratégico de Defesa do Cigarro Nacional. Moro é um traste.

Pois hoje Bolsonaro desfez publicamente o acordo em conversa com jornalistas no quartel-general do Exército em Brasília:

“Não me comprometi com o Moro no STF. Durante a campanha, o que eu prometi foi alguém do perfil do Moro”.

O homem já mandou embora três generais, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, o presidente do partido que sustentou sua candidatura, o superintendente da Polícia Federal no Rio, o secretário de Imprensa do Palácio do Planalto, o diretor do Inpe...

E está ameaçando demitir o diretor da PF e o chefe da Receita. Bolsonaro só é fiel aos filhos e ao Queiroz.

Moro continua ministro da Justiça porque espera um milagre. Depois do que Bolsonaro disse hoje, o ex-juiz só não pede pra ir embora porque ainda acredita que poderá ser salvo pelos militares.

Se nenhum general tentou salvar os três generais demitidos, algum deles tentará salvar Moro? O ex-juiz não teve tempo de virar militarista sincero e evangélico fervoroso.

Criticar o bolsonarismo sem denunciar o golpe contra Dilma é hipocrisia


Há três anos, em 31 de agosto de 2016, o Senado Federal consumou o golpe, determinando o afastamento definitivo da presidente legítima do Brasil, Dilma Rousseff.

Eu estava em Belo Horizonte, no encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. À noite, participei da mesa de análise de conjuntura. A derrota de Dilma era mais que esperada, era certa, mas ainda assim o clima era de tensão.

Sabíamos que a incompleta construção da democracia brasileira, que vinha desde os anos 1980, tinha sofrido seu mais duro baque.

O que estamos vivendo hoje é a consequência direta daquele golpe. Os atores políticos que se dizem horrorizados com o desgoverno Bolsonaro devem, em primeiro lugar, refletir sobre o momento em que a Constituição descarrilhou, em 2016.

Dilma foi derrubada com base em acusações falsas e insustentáveis. Mesmo os apoiadores do golpe reconheciam isso. Justificavam o impeachment com o argumento vago: "conjunto da obra".

Como se o cumprimento do mandato que as urnas tinham dado a ela fosse significar uma catástrofe irremediável.

Não significava.

Dilma não era uma boa presidente. No início de seu segundo mandato estava sendo, na minha avaliação ao menos, uma péssima presidente.

Ruim pelo caminho que propunha e pior ainda pela sabotagem sistemática que a oposição de direita lhe fez.

Mas tinha a legitimidade do voto popular. Não conspirava contra as instituições. Permitia o funcionamento dos mecanismos de controle. Mantinha de pé a Constituição e os direitos.

Por que o argumento que derrubou Dilma não é mobilizado contra Bolsonaro?

Mesmo juristas e políticos conservadores reconhecem que o ex-capitão, nos seus oito meses no cargo, já cometeu dezenas de crimes de responsabilidade - verdadeiros, não inventados.

Mais do que isso, é um governo abertamente dedicado à destruição do país - da Constituição, do Estado, do meio-ambiente, dos direitos, do povo. Um governo a serviço da violência e da ignorância.

O governo Bolsonaro é a catástrofe em implantação. Ele justifica ações excepcionais, para salvar o país. Se tivéssemos um povo menos passivo e uma elite menos odiosa, isso já estaria em curso.

Bolsonaro não era o projeto do golpe de 2016, pelo menos não de seus principais chefes. Mas foi a destruição do jogo democrático, a instrumentalização do judiciário, a exacerbação do enviesamento da mídia e a mobilização do ódio que abriram caminho para ele.

Em 2018, diante da opção entre uma recomposição pactuada, com uma esquerda tão moderada que chega quase a ser frouxa, e a barbárie, a nossa elite não hesitou: escolheu a barbárie.

E ainda hoje, com a barbárie já fazendo seus estragos, permanece incapaz de agir para estancá-la. A ambição inicial - excluir o campo popular do jogo político, deslegitimá-lo como interlocutor - continua falando mais alto.

Criticar o bolsonarismo sem denunciar o golpe que culminou com o afastamento de Dilma, três anos atrás, é só hipocrisia.