quinta-feira, 1 de abril de 2021

Órfão de Trump, Bolsonaro sobe na prancha e tem os dias contados


Que país aguenta até 2022 com mais de 3.000 mortes causadas pela Covid-19 por dia?

Houve muita gente que apostou em Jair Bolsonaro como vacina contra os avanços sociais das gestões do PT. O dinheiro gordo; tucanos arrepiados; a escumalha parlamentar de sempre e a chusma de fanáticos que existe em qualquer país.

Essa mescla de interesses tinha por trás o apoio do grande capital financeiro, o americano principalmente. Bolsonaro foi eleito com base numa fraude digital gigantesca, arquitetada por gente como Steve Bannon, o Olavo de Carvalho de Donald Trump. Impediram Lula de concorrer às eleições com a ajuda do serviçal Sergio Moro.

Dispensável recordar as evidências de que a Lava Jato ignorou todas os protocolos de um processo legítimo e agiu como comparsa do Departamento do Estado americano para transformar Lula em inimigo público número um.

O “serviço” foi feito. Mal feito, porém.

Bolsonaro começou a cair de fato quando Donald Trump foi expelido da Presidência americana. O capitão expulso do Exército como terrorista e considerado “mau militar” por gente até como o ditador Ernesto Geisel ficou pendurado na brocha.

De lá pra cá, uma derrota atrás da outra. Os processos que mostram a roubalheira orquestrada por ele, Jair, e sua família ao longo da carreira de 30 anos como parlamentar são claros como a luz do sol. A desmoralização do Brasil no cenário internacional em todos os sentidos fala por si só.

Bolsonaro é medíocre. Pior: se orgulha disso, como seu ex-chanceler que festejava a condição de pária internacional. Identifica isso como “voz do povo”. Trata o Exército como “meu exército”, o que envergonha até o recruta recém-alistado. É imprestável. Serviu durante algum tempo, enquanto Trump esteve no poder, como aqueles pinchers que celebridades duvidosas seguram no colo em fotos de revistas.

Mas o fogo da batata começou a assar mais alto. A história tem suas leis e os cozinheiros fazem diferença. A turma que comandou o golpe contra uma presidenta legitimamente eleita está hoje contra a parede. O manifesto recém-publicado pedindo mudanças, assinado por banqueiros, empresários, economistas, é de uma hipocrisia exemplar.

Querem que Bolsonaro deixe de ser Bolsonaro. Durante 30 anos ele sempre disse o que defendia. Está pondo mãos à obra: “Vim para destruir, não para construir”. A parte dele ele está cumprindo...

O desgoverno chegou ao ponto de a grande mídia transformar as Forças Armadas em avalistas da democracia! Leiam a Constituição, por favor, cujos defeitos aparecem a céu aberto. O presidente da República é o comandante em chefe desta turma. Ao endossarem Bolsonaro nas eleições, o capital especulativo, o Judiciário subserviente, o Parlamento obediente e a grande mídia legitimaram o que vinha pela frente.

Se o país chegar ao ponto de aceitar que a democracia depende das Forças Armadas, pouco pode ser feito. Os militares estão infiltrados em todos os escalões. Militares de segunda categoria, da linha “uns mandam, outros obedecem”. O povo, ora o povo.

As Forças Armadas, que têm as armas na mão, “obedecem aos que mandam”. Analogias sempre são complicadas quando se comparam momentos diferentes. Em 1964, João Goulart, presidente, era o “comandante em chefe” da turma verde oliva. Mesmo assim foi deposto pelos golpistas através de Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara. Mazzilli foi chamado de “canalha” pelo então parlamentar Tancredo Neves quando destituiu um presidente eleito que estava em território brasileiro e jamais atentou contra a Constituição em vigor.

Muito cuidado nessa hora.

Transformar as FFAA em fiadoras da democracia é apertar a corda em torno do pescoço. Ou a sociedade civil verdadeira começa a se mexer a favor da liberdade, da diversidade, da defesa da vida, da luta contra a pandemia, do combate ao autoritarismo e ao arbítrio; ou então os dias serão piores do que já estão.

Na pandemia, Bolsonaro oferece caos e deixa social em segundo plano


O caos é o ambiente ideal para as aventuras autoritárias com que Bolsonaro sonha. 

Em um ano, Jair Bolsonaro falou uma dezena de vezes na ameaça de caos social na pandemia. Para torpedear medidas de distanciamento, o presidente repetiu que o país pode ter uma onda de violência e saques a supermercados. Nesse período, ele escolheu o lado do "caos" e deixou o "social" em segundo plano.

As sirenes de Bolsonaro soam apenas quando ele quer fazer uso político do risco de desordem. No início da pandemia, o presidente fez corpo mole na compra de vacinas que poderiam garantir uma volta segura ao trabalho. Agora, na pior fase da crise, o governo levou três meses para pagar uma nova rodada do auxílio emergencial e proteger quem foi afetado pelo isolamento.

Bolsonaro se lembrou da miséria nesta quarta (31), ao atacar o lockdown. Ele afirmou que "a fome está batendo cada vez mais forte" e disse temer "problemas sociais gravíssimos". Em vez de apresentar soluções, ele agiu como espectador: "Se a pobreza continuar avançando, não sei onde poderemos parar".

O governo tem um problema de ordem prática, que é a falta de dinheiro para lançar um programa robusto de socorro a quem precisa ficar em casa. Mas Bolsonaro se recusa a enfrentar a emergência econômica porque está concentrado em transferir as responsabilidades da pandemia para seus adversários políticos.

A propaganda do caos faz parte dessa campanha. O Brasil tinha 59 mortos por Covid-19 quando Bolsonaro lançou o perigo de saques a supermercados, em março do ano passado. Dias depois, ele publicou um vídeo que mostrava um falso desabastecimento de comida numa central de Minas Gerais. Há três semanas, ele citou o risco de "fogo em ônibus, greves, piquetes, paralisações".

O caos é também o ambiente ideal para as aventuras autoritárias com que Bolsonaro sonha. Quando fala dos brasileiros que ficaram sem trabalhar e desenha o risco de desordem, ele costuma citar medidas duras que podem ser tomadas contra o isolamento. A principal oferta do presidente nessa hora é a repressão.

Entenda o motivo do atraso ainda maior da vacinação contra a Covid-19


Parte das vacinas agendadas para abril era fantasia do general Pesadello


No calendário do governo federal, o Brasil teria 48,287 milhões de doses de vacina contra a Covid-19 em abril. Pelo menos 20 milhões dessas doses não vão chegar. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse nesta quarta-feira na Câmara que a coisa vai ser ainda pior: cerca de 22,8 milhões de doses vão desaparecer do cronograma do mês que vem. Seria o bastante para vacinar pelo menos 10,8 milhões de pessoas, quase dois de cada três idosos de 60 a 69 anos, o grupo de idade em que morrem 23% das vítimas da Covid-19 no Brasil.

Parte dessas vacinas agendadas para abril era fantasia do general Pesadello, o ex-nunca-ministro da Saúde. Eram as 8 milhões de doses da Covaxin da Índia e as 400 mil da Sputnik russa, que ainda não foram aprovadas pela Anvisa.

Tem mais problema.

O governo chinês decidiu acelerar a vacinação no país. Foi ao mercado local e comprou o que havia de vacina. Assim, as empresas chinesas ficaram sem sobras para adiantar entregas de insumos para outros países, segundo explicações que este jornalista ouviu no governo de São Paulo e no governo federal.

O Butantan não recebeu na segunda quinzena deste mês a matéria prima para fazer as vacinas que previa entregar em abril. A Sinovac, que produz o insumo da Coronavac, cumpre os prazos de entrega contratados, mas pelo menos por ora parou de fazer os adiantamentos solicitados pelo Brasil. A situação vai ficar apertada até pelo menos na primeira quinzena de maio. Em tese, a próxima remessa de insumos chega no dia 9 de abril.

No calendário do governo, haveria cerca de 15,8 milhões de doses da Coronavac disponíveis em abril. Agora, o instituto do governo paulista prevê entregar 9,8 milhões de doses, cumprindo o contratado com o governo federal até o final do mês que vem (46 milhões de doses).

Até a semana passada, o calendário do governo federal previa 21,1 milhões de doses da AstraZeneca/Oxford para abril. Também na semana passada, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, disse ao Senado que espera entregar por volta de 18 milhões de doses (18,8 milhões, no cronograma divulgado pela Fiocruz). Apenas em junho a instituição espera chegar a sua capacidade de produção plena. Para maio, também estão previstas menos doses que as registradas no calendário do governo federal (21,5 milhões, não 25 milhões).

Mesmo descontados esses desastres, a conta pessimista do ministro Queiroga ainda não fecha, nem tirando de abril as doses do consórcio internacional Covax (quase 1 milhão) e aquelas que seriam importadas da Índia, prontas, pela AstraZeneca (2 milhões). Tem mais desastre?

Pelo calendário federal da semana passada, em parte fictício, até o final de abril o país teria doses suficientes para vacinar mais de 31% da população vacinável (de 18 anos ou mais) e mais de 63% dos grupos prioritários. Pelas novas contas do ministro Queiroga, não deve imunizar mais do que 24% dos vacináveis e algo menos que a metade dos grupos prioritários.

Com atraso maior na vacinação, a situação continuará desesperadora. Não resta alternativa a não ser distanciamento social e máscaras.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro continua a fazer campanha contra o distanciamento social. O “pacto nacional”, o “comitê nacional” é em parte a farsa prevista. Algo vai se fazer no Congresso e no ministério. Bolsonaro quem sabe se aproveite de alguma despiora devido à ação do restante do país, de parte dos governadores, dos prefeitos, do Congresso, enquanto faz propaganda criminosa para suas falanges. É um parasita. ​

Liga pro Paulinho

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Atila Iamarino: ainda vai demorar

Link direto:
https://youtu.be/2DTjWQXFbho


quarta-feira, 31 de março de 2021

Bolsonaro precisa ser neutralizado, afastado do poder e depositado na caçamba da História


Este 31 de março de 2021 ficará na história do jornalismo brasileiro como aquela peça de Shakespeare: "Muito barulho por nada".

Jair Bolsonaro tentou preparar o terreno para um golpe de força, por meio de uma patranha no Congresso Nacional, armada por seu acólito acéfalo deputado Major Vitor Hugo. O líder do PSL queria dar ao candidato a ditador poderes excepcionais, e explicou com a candura do escorpião: ""Eu pensei em incluir mais a hipótese de pandemia para a mobilização nacional".

O resultado foi um tiro pela culatra. O energúmero que governa este país não terá poderes excepcionais, e apenas a covardia, a omissão e a irresponsabilidade dos guardiães da República o mantêm no Planalto.

Mesmo que tentasse uma sedição em algumas praças das Polícias Militares, nunca teria o conjunto das forças e o que iria produzir seria o caos suficiente para fazê-lo apodrecer na cadeia.

Jair Bolsonaro sempre foi um fanfarrão. Em 1987, quando ameaçou explodir quartéis e a adutora de Guandu, no Rio, estava apenas criando um fato diversionista a serviço do grupo remanescente do ex-ministro Sylvio Frota, que temia a inclusão, na Constituição que estava sendo elaborada, de instrumentos capazes de punir os crimes da ditadura. Foi quando se aproximou do torturador Carlos Brilhante Ustra. Foi contido pelo então ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, mas a fragilidade do governo Sarney e o desinteresse da imprensa, que estava mais preocupada com a "Constituição cidadã" e empenhada em conter os arroubos de Ulysses Guimarães e dos sindicalistas, fez com que a aventura terminasse em pizza.

Bolsonaro é um típico fascista.

O fascismo só atua montado no aparato do Estado. Quase sempre o vagido de seu nascimento é um discurso libertário, mas em sentido controverso: reage contra o futuro, propõe libertar-se a sociedade das "amarras" da civilização. Não é simplesmente uma ideologia conservadora - serve-se do conservadorismo para destruir a política, portanto destruir a Política.

E o que são os conservadores? Essencialmente, são aqueles que têm medo da dinâmica social. Agem por medo, são condicionados pelo temor a mudanças, e passam a viver no universo do negacionismo. Tudo era melhor antes, nada que é contemporâneo lhes convém.

No século 21, suas manifestações, inclusive o raciocínio entortado de jornalistas experientes que já tiveram uma biografia respeitável e a jogaram no lixo, soa como uma grita de malucos. E é isso mesmo. Por isso, o único remédio para esse mal é a energia das instituições democráticas, ou melhor, o rigor da lei, que faltou em 1987.

Bolsonaro precisa ser neutralizado, afastado do poder e depositado na caçamba da História.

Quando acaba a pandemia?

Valentão de Palácio

Claudio Guedes

Já tínhamos no Brasil como consagrada a expressão "cavalo paraguaio" que define aquele tipo de político que sempre larga na frente nas pesquisas eleitorais e nas urnas amarga um dos últimos lugares. E o famoso "cavalo de parada"? Aquele político bonitão, garboso, charmoso, mas que é um zero à esquerda no trabalho e no desempenho parlamentar.

Jair Bolsonaro, o estorvo que reside no Palácio do Alvorada e trabalha no Palácio do Planalto, é inspiração agora para um novo personagem na política nacional: o "valentão de palácio".

O vi hoje, em discurso no Palácio Planalto, exortando os brasileiros a sairem às ruas e enfrentarem com coragem a pandemia do coronavírus. Nenhuma palavra sobre os cuidados, a necessidade de distanciamento social, sobre a permanência em casa sempre que possível. Pelo contrário, mentiras sobre um suposto "lockdown" que estaria acontecendo no país e do qual ele é crítico ácido. 

Ora, ora, qualquer que saia às ruas de qualquer cidade brasileira sabe que no máximo, em algumas, estão em curso medidas de fechamento de boa parte do comércio e restrições à circulação de pessoas em horários noturnos. Em quase nenhuma nada próximo a um "lockdow". Este é o panorama geral. 

O presidente mente, como usual.

Mas, além de mentir, exortar brasileiros pobres da periferia que, se adoecerem de forma gravosa, irão morrer em casa por causa do colapso do sistema de saúde público é covardia. Mesmo os brasileiros de classe média alta, que possuem bons planos de saúde, na atual situação correm o risco de ficar sem atendimento médico por ausência de vagas nas UTIs de hospitais privados. 

A exortação ao enfrentamento do vírus de "peito aberto" como defende o ignóbil presidente brasileiro é típica de um "valentão de palácio". Ele e sua extensa família estão protegidos por centenas de assessores, médicos renomados e garantia de que face à qualquer problema terão assistência médica imediata e integral, com transporte por helicópteros a qualquer excelente hospital brasileiro.

É fácil, muito fácil, ser um "valentão de palácio". 

No fundo, apenas um covarde.

Assunto superado


Laerte

Bolsonaro: o cavalo de Troia que pode deixar os militares a pé




É falsa a imagem construída de Jair Bolsonaro, de líder popular de extrema-direita que ganhou as eleições e escolheu militares para ocupar a avassaladora maioria das posições de comando de seu governo. Um raciocínio invertido pode tornar muito mais compreensível a crise militar que eclodiu dentro do gabinete do presidente-capitão, com a demissão do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva.

Na verdade, a história recente dá precedência aos generais na tomada do poder civil. Eles foram os criadores. Bolsonaro, a criatura. Generais da ativa da mesma geração atuaram em conjunto para viabilizar o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e ascenderam ao poder em 2018 por meio de uma campanha ganha com destruição de reputações, fake news da pior espécie e pressão direta sobre o Supremo Tribunal Federal.

Some-se a isso um duvidoso atentado contra o candidato apoiado por eles, que virou a eleição quando o petista Fernando Haddad ascendia nas pesquisas. A vitória do capitão não foi simplesmente produto da sua popularidade ou de uma ofensiva bem-sucedida da extrema-direita, mas um verdadeiro trabalho de contrainformação, especialidade de uma geração de generais formada nos anos 70, quando a corporação moldou jovens militares a uma ideologia anticomunista exacerbada e fanática.

Esse contingente foi centralmente treinado no combate à guerrilha e na repressão política, segundo explicação do coronel da reserva Marcelo Pimentel em entrevista ao podcast Roteirices, veiculada nos dias 17, 18 e 19 de março (acessível pelo Spotify). O coronel Brilhante Ustra não os envergonha, mas é uma referência ideológica para eles.

Na expressão feliz do coronel reformado, Bolsonaro foi o cavalo de Troia que, na sua barriga, trouxe o Exército para a Esplanada dos Ministérios e permitiu à corporação capturar o poder civil. Agora, diz o coronel, Bolsonaro tornou-se o incômodo, o “espantalho” daqueles que articularam sua candidatura dentro dos quartéis.

Bolsonaro não seria eleito sem os militares. A alta hierarquia militar empreendeu uma “guerra híbrida” para radicalizar a sociedade civil, tirar Lula do páreo nas eleições de 2018 e conseguir o número de votos necessário para colocar na Presidência um deputado fascista que, após 27 anos como deputado federal integrando o mais duvidoso baixo clero, foi vendido ao eleitorado como o inaugurador de uma “nova política”, que se mostra com uma qualidade também pra lá de duvidosa.

O que não deu certo na articulação militar foi o cálculo de que poderiam dominar Bolsonaro. Os governos de inspiração fascista historicamente giram em torno de um líder com apelo popular que seja capaz de arregimentar adeptos civis, de preferência no lumpesinato (a parcela dos rejeitados por suas próprias classes e uma massa de manobra passível de engrossar milícias armadas). Essa massa de desajustados sociais (isso tem pouco a ver com riqueza ou pobreza) é mais susceptível à adesão incondicional a um líder com a cara deles.

Bolsonaro era o substrato do pó de traque da política tradicional; no Congresso, pertencia ao baixo clero, cuja importância é apenas o voto individual do parlamentar, que o negocia por pequenos favores. Não seria um exagero dizer que Bolsonaro ascendeu de uma espécie de lumpesinato parlamentar, grupo engrossado enormemente nas eleições de 2018. Os deputados do baixo clero são carne de sua carne.

Bolsonaro também não fugiu ao figurino do líder fascista quando submetido a um exame psicológico. Seu extremismo é alimentado por característica de personalidade também extremas: carrega um alto grau de paranoia, que exacerba sua ignorância sobre governar e dificulta o entendimento das consequências de suas decisões voluntariosas. Bolsonaro é, decididamente, paranoico e voluntarioso. O general Fernando Azevedo e Silva deve a isso a sua demissão.

O presidente é paranoico o suficiente para perceber que estava em andamento uma articulação militar para livrar-se dele sem sair do governo. O primeiro objetivo era (e ainda continua) dissociar a imagem do Exército do genocídio cometido contra a população civil, levada a termo por decisões tomadas por Bolsonaro, mas executada por um militar da ativa, sem que o Partido Militar esboçasse a mínima reação contrária; e de uma administração desastrosa do país, governado majoritariamente por oficiais do Exército.

A operação, segundo o coronel Marcelo Pimentel, é bastante similar à que se iniciou antes do governo Dilma e levou Bolsonaro ao poder: uma parte do grupo fica no governo; a outra sai e encena a dissidência. Ambos se unem no momento seguinte, com um governo eleito por eles.

A operação militar em curso vazou notícias de uma dissidência entre os que permaneceram e os que saíram do governo e simultaneamente, todos unidos, a articulação de uma “terceira via” como alternativa a Bolsonaro em 2022, de preferência uma opção entre eles: o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que foi demitido da Secretaria de Governo e tornou-se um militante opositor do governo nas redes sociais. Essa seria uma opção de manter o controle sobre a sociedade civil sem lançar mão de intermediários. A designação “terceira via” acena para a direita não extremista.

O golpe de mão desferido por Bolsonaro nos seus condôminos de poder, ao demitir o ministro da Defesa, é um recado muito claro a eles. Os militares ficam no governo se submeterem-se aos seus desígnios, inclusive, se ele quiser, usando a força contra a população civil. Se não, ele faz isso com as polícias, onde tem uma enorme popularidade junto à tropa, e com milícias armadas. A criatura devorou seus criadores. E ambos devoram a sociedade civil.

Covid volta a crescer globalmente

Covid volta a crescer globalmente, alertam Drudge e Axios 

Nelson de Sá 

Aumento vai dos EUA à Índia; no Brasil, número de mortes 'ultrapassa em muito qualquer coisa vista no início da pandemia' 

No alto do Drudge Report, "Vírus cresce globalmente...", linkando o site Axios. Além da "desgraça iminente" nos Estados Unidos, como foi descrita pela própria Casa Branca, são citados Índia, Alemanha, Quênia e sobretudo:

"O Brasil está registrando, de longe, o maior número de mortes diárias do mundo, ultrapassando em muito qualquer coisa vista no início da pandemia." Foi antes das 3.780 de terça (30).

Sobre os EUA, no alto da home do Washington Post, "Nação se prepara para quarta onda com aumento de casos". No New York Times, a "ameaça de surto de casos" chegou a ser manchete pela manhã, na terça, responsabilizando novamente a "variante que surrou o Reino Unido, B.117".

Pelas contas do WP, o salto em uma semana foi de 12%. Pelas contas do NYT, alertando que "a nação está muito longe de alcançar a chamada imunidade de rebanho", o salto em duas semanas foi de 19%.

Em editorial com a foto acima, a nova edição em revista do financeiro Caixin, de Pequim, cobra vacinação "mais rápida", enfatizando que "a China controlou com sucesso a pandemia, mas elevar a taxa de vacinação tornou-se uma prioridade máxima".

Segundo o site Our World in Data, os EUA vacinaram 145 milhões, a China, 110 milhões.

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.

Ditadura não se celebra. Vivemos sob o manto da Constituição de 1988, elaborada para sepultar 20 anos de arbítrio. No discurso de promulgação, Ulysses Guimarães sintetizou o espírito da Carta Magna: "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo."

"Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações. (...) A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram (...) Traidor da Constituição é traidor da pátria." (...) 

"Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério." 

Disputar a memória sobre o passado é lutar pelo futuro

Latuff

Walter Benjamin falava que o fascismo  não faz guerra de aniquilação apenas aos vivos, mas também aos mortos de incontáveis gerações. Disputar a memória sobre o passado é lutar pelo futuro, pela liberdade e pela justiça social.

Luiz Antonio Simas

Jumentos fardados


Todo esse rumor de botas, de jumentos fardados, é para agradecermos a pseudodemocracia que nos enfiam pela guela. O facão suspenso sobre nossos pescoços. A chama do medo acesa. E, mais uma vez, com o apoio incondicional da mídia, que finge se indignar mas colabora com a farsa.

Maufalavigna

terça-feira, 30 de março de 2021

Non, je ne regrette rien


Alguém inventou um dia que "Non, je ne regrette rien" significa "Não me arrependo de nada". Está errado. A primeira definição de "regretter" que os dicionários de francês oferecem é "sentir falta, sentir saudade". 

Sim, os franceses (e o resto da humanidade) também sentem saudade, apesar de toda essa mitologia boboca em torno da palavra "saudade" em português. Assim, o que Piaf canta é "Não sinto falta de nada". 

Em determinado verso, a letra diz: "Je me fous du passé", ou seja, "quero que o passado se foda". Se a pessoa não se arrependesse de nada, porque diria isso do passado ou, como em outro verso, "je repars à zéro", "vou partir do zero"? Quem não se arrepende do passado é porque tem orgulho dele, não vai desejar que ele se foda nem que é preciso partir do zero, certo? Por fim, a letra diz: "Car ma vie, car mes joies, aujourd'hui, ça commence avec toi!" - "Pois minha vida, minhas alegrias, hoje, começam com você". Se a coisa está começando do zero hoje é porque, sim, a pessoa pode até não se arrepender, mas o que de fato está dizendo é que pode ficar tudo para trás. Assim como não foi Fernando Pessoa quem inventou a frase "Navegar é preciso, viver não é preciso" (porque é a tradução de um provérbio latino de 2.600 anos!), o título da famosa canção, que também foi interpretada com punhal no peito pela minha amiga Cássia Eller, significa "Não sinto falta de nada!". 

Dito isso, quero muito que a Globo e seu rato de estimação vão, sim, para os quintos dos infernos! Se tem alguém que de fato não se arrepende de nada é essa organização criminosa que há décadas vem conspirando contra o povo brasileiro! Finge que se arrepende de ter eleito o genocida, mas aplaude abertamente tudo o que o desgoverno dele tem feito para destruir a democracia. 

A linguagem bozonazista

Não é estado de sítio, mas sua sombra
Mitologia bolsonarista inventou dispositivo invertido com disfarce libertário

Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt.


Na Língua Bolsonara de Sinais (Libols), termos jurídicos sempre atendem a fins diversionistas. Idiotas da literalidade nos perdemos. Não fomos alfabetizados em Libols para decodificar as intenções exatas por trás das palavras e atos. Mas já se pode saber que estado de sítio, nessa língua, significa outra coisa.

Na política do “pânico e circo”, a sombra do estado de sítio tem papel parecido à do AI-5 e à da intervenção militar constitucional. São apitos para manter apoiadores do presidente excitados contra inimigos imaginários da pátria e as instituições sob fadiga.

Chamaram até Ives Gandra para revelar que, nos porões do art. 142 da Constituição, militares poderiam fechar o STF. O oráculo merece homenagem pelo serviço prestado à liberdade e à inteligência jurídica brasileira.
Jair Bolsonaro anunciou no começo da pandemia seu desejo de “fazer cumprir o artigo 142” contra o STF. Já havia testado também o grito do estado de sítio. Dia desses voltou a soprar o apito: “Gostaria que não chegasse o momento de decretar estado de sítio, mas vai acabar chegando. É para dar liberdade para o povo, para dar o direito ao povo de trabalhar. Não é ditadura não”. Parecia seu filho avisando que “AI-5 não é uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’”.

Estado de sítio é instrumento extraordinário de restrição de direitos e incremento de poderes. Um dispositivo com prazo determinado para autodefesa, e não ataque, da democracia. Mas vale fazer uma distinção nessa conversa: existe o estado de sítio da Constituição de 1988, o da história do autoritarismo brasileiro e o da mitologia bolsonarista.

A Constituição de 1988 exige não só “comoção grave de repercussão nacional” como a ineficácia de outras medidas para enfrentá-la. O presidente precisa de autorização do Congresso para decretá-lo. Está sujeito a controle político pelo Congresso e judicial pelo STF a partir dos limites da excepcionalidade, necessidade e temporariedade (art. 137 e 138). É o último recurso numa crise, não o primeiro (já que o governo federal boicotou até as mais elementares medidas).

Na história do autoritarismo brasileiro, estado de sítio foi pretexto para a violência de governos à margem da Constituição. Fez parte de amplo repertório de exceção.

Nos 40 anos da Primeira República, por exemplo, sete foram em estado de sítio. Nove dos seus 12 presidentes usaram do artifício. Getúlio Vargas, entre 1930 e 1934, e entre 1935 e 1937, governou em estado de sítio. No Estado Novo, governou em “estado de guerra”. Não havia Parlamento para atrapalhar.

A mitologia bolsonarista quis vender algo novo e invertido: o nonsense do estado de sítio pela liberdade do vírus. A cara libertária não tem a ver com liberdade do trabalhador. Empobrecido e sem auxílio, este não tem escolha. Serve para declarar guerra a estados e municípios que, por razões sanitárias, impõem restrições momentâneas de circulação e causam constrangimento ao governo federal.

Nesse contexto, estado de sítio não faz sentido constitucional e não cumpre nenhuma função sanitária. Congresso não o autorizaria, e STF o invalidaria. O presidente parece apostar que a derrota no pleito esdrúxulo o ajudará a se eximir de responsabilidade por milhares de mortes e, ao mesmo tempo, a exaurir a energia de instituições de controle.

​Instituições esgotadas e sem capacidade de reação oferecem oportunidade para eviscerar a Constituição sem custo. A sombra do estado de sítio, do AI-5 e da intervenção militar, enquanto intimida críticos por meio de assédio judicial e abuso da Lei de Segurança Nacional, é o caminho escolhido pelo governo em direção à consolidação autoritária.

Falta combinar o preço com o centrão, capturar o que resta de autonomia nas Forças Armadas e atiçar polícias contra governadores. Está escrito na cartilha da Libols: a revolução autoritária não sairá no Diário Oficial.

Um leão desdentado


Bolsonaro não fica mais forte com saída dos chefes das Forças Armadas. Ele se enfraqueceu. É um leão desdentado, cercado pela rachadinha, genocídio na pandemia e fracasso econômico. Não tem força para golpe. É um fiasco, o pior presidente da história do país. Genocida é o que é.

Instituições continuarão funcionando

Vim do futuro e trouxe pra você a prova que as instituições estão funcionando.



A crise


Xuxa e os direitos humanos

Em sua linguagem utilitarista, presos se equiparam a ratos de laboratório

Cristina Serra

Em recente entrevista, Xuxa se manifestou contra o uso de animais em testes de cosméticos e remédios. E ofereceu, digamos, o que lhe pareceu uma boa alternativa. "Eu tenho um pensamento (...) que pode parecer desumano porque, na minha opinião, existem muitas pessoas (...) que estão pagando seus erros num ad aeternum para sempre em prisão, que poderiam ajudar nesses casos aí, de pessoas para experimentos, sabe? Pelo menos eles serviriam para alguma coisa antes de morrer, entendeu?".

Entendi, Xuxa. Entendi que você acha natural que pessoas possam ser usadas como cobaias sem que seja da vontade delas apenas porque você acha que quem está atrás das grades, sob custódia do Estado, não deve ser tratado como gente. Entendi que você não tem discernimento para distinguir justiça de vingança. Entendi que no seu pensamento e linguagem utilitaristas, pessoas se equiparam a ratos de laboratório. A palavra "experimentos" me causou calafrios. Os livros de história mostram onde isso vai dar.

Xuxa de novo: "Mas aí vai vir o pessoal que é dos direitos humanos e vai dizer: 'não, eles [os presos] não podem ser usados'". Pois é Xuxa, sou dessa turma. Não somos seita nem partido. Somos pessoas que acreditam em pactos civilizatórios. Gente é gente. Fora ou atrás das grades. Não há o que relativizar. Ou se entende isso ou é barbárie.

Xuxa foi rápida em seu pedido de desculpas: "Quem sou eu pra dizer que essas pessoas estão ali e que devem ficar ali ou morrer ali? Quem sou eu pra fazer isso?". Aí é que está. Personagem onipresente na TV, fenômeno de popularidade, Midas de um império empresarial, Xuxa é referência para milhões de pessoas.

Fixa padrões, como seu programa da década de 1980 cheio de clones loirinhos num país de todas as cores. O que Xuxa disse não foi uma frase solta e descuidada. É expressão didática do seu pensamento, explica muito do caldo de cultura que formou milhões de "baixinhos" e aprofunda o abismo em que estamos.