Jornalistas e coleguinhas cientistas políticos na mídia não cansam de vaticinar que a soltura de Lula pode ampliar a "polarização" e beneficiará Bolsonaro. Lamentam pelo prejuízo ao "centro", que ficará de novo espremido entre os pretensos extremos.
A análise deixa em segundo plano, em favor de um cinismo calculado, o ponto central da decisão de ontem: o Supremo decidiu fazer valer (no quesito da presunção de inocência) a Constituição. É esse o fato político essencial, com desdobramentos significativos na conjuntura.
De forma tardia e vacilante, em decisão muito apertada, nossa corte máxima decidiu colocar algum freio à criminalização da esquerda política, o que impacta a estratégia predominante da direita nos últimos anos. Mas esse fato, que é crucial, está ausente da imprensa.
A leitura de que Lula solto retoma a "polarização" também padece de amnésia seletiva. Esquece que toda essa conversa de "polarização" - entre uma centro-esquerda moderadérrima e uma extrema-direita tentada pelo fascismo! - foi inventada exatamente por aqueles que queriam ocupar o tal "centro". E que foram cúmplices de todo o processo de destruição da ordem constitucional que teve, como um de seus frutos, a prisão política de Lula.
O que eles chamam de "centro" é, na verdade, a direita interessada em manter a plataforma autoritária e antipovo de Guedes sem as bizarrices de Bolsonaro.
Se a soltura de Lula fizer essa opção perder gás, tanto melhor. Meu medo, na verdade, é que o ex-presidente busque, como de costume, uma saída excessivamente conciliatória, em vez de promover a mobilização popular para o enfrentamento dos retrocessos.
Isso é da própria luta política. Lula tem o direito de propor sua estratégia, assim como nós temos o direito de discordar, concordar, emendar etc. Lutamos por sua liberdade não para obedecê-lo, mas para recolocá-lo como participante do debate político, como é seu direito.
Mas essa discussão é para o futuro, ainda que próximo. A hora é de comemorar #LulaLivre. Muitas batalhas ainda nos esperam, desde a anulação dos julgamentos viciados, no caso do próprio ex-presidente, até as pautas gerais da retomada da democracia, da defesa dos direitos e da defesa do Estado nacional. Mas é bom ter uma vitória para celebrar.

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