terça-feira, 3 de setembro de 2019

O que os entrevistadores do Roda Viva mostraram desconhecer


Os entrevistadores do Roda Viva, ontem, mostraram desconhecer o que é:

1) Estado de Direito, que significa: direito a um julgamento justo, presunção de inocência, juiz imparcial, equidistante entre a acusação e a defesa, última palavra com a defesa, em suma: proteção contra o aparelho de Estado.

(Na hipótese mais generosa, eles defenderiam uma “moral” utilitarista, em que todos os meios são válidos para condenar um culpado. O problema é que, assim, não se prova culpa.)

2) Imprensa. Se no tópico acima defenderam os ilegalismos da LavaJato, no caso da imprensa negaram o direito - e o dever - de publicar o que é de forte interesse público. Pareciam nunca ter estudado os Pentagon Papers, não ter visto o filme The Post, não conhecer o que é grande jornalismo.

Substituíram esse conhecimento, mais que necessário, pela ideia de que ser jornalista é acuar o entrevistado. Se é bom cobrar deste último (o que normalmente não se faz por essas bandas), questionar é um meio, não um fim. 

(A entrevista de FHC à BBC, uns dez anos atrás, disponível online, é um exemplo de cobrança implacável, mas - como diria Kant - dentro dos limites da razão).

Reconheço que Felipe Recondo foi exceção, e que algumas perguntas de outrxs faziam sentido. Mas ver jornalistas tentando quebrar o sigilo da fonte e confundindo eventual crime do hacker com o dever jornalístico de informar deixa um gosto amargo quanto à profissão no Brasil.


A economia com a destruição da pesquisa no Brasil


É de um descaramento completo as matérias dos jornais dizendo que o corte em mais de 5,5 mil bolsas da Capes gera “economia” de 500 milhões em 4 anos

“Economia” se faz com gastos que podem ser considerados dispensáveis ou excessivos. Em pleno século 21, ciência e tecnologia deveria ser prioridade do país

Isso não é economia; é o aniquilamento de uma geração de possíveis pesquisadores de graduação e pós que nunca mais poderá ser recuperada.

O presidente que encolheu


A radicalização pode animar as redes, mas não ajuda Bolsonaro no mundo real. Para 55% dos brasileiros, o comportamento do presidente é inadequado ao cargo. Ele já é mais rejeitado do que Collor após o confisco das poupanças

A nova pesquisa Datafolha mostra que Jair Bolsonaro encolheu. Depois de oito meses, o índice de brasileiros que consideram o governo ruim ou péssimo subiu para 38%. É uma reprovação bem maior que a dos antecessores Fernando Henrique (15%), Lula (10%) e Dilma (11%) no mesmo período.

Para se ter uma ideia do buraco: com seis meses no poder, Fernando Collor era rejeitado por 20%. Ele já havia confiscado as poupanças, mas ainda não chegava perto do capitão em impopularidade.

A rejeição a Bolsonaro é maior entre negros (51%), nordestinos (52%) e desempregados (48%). No entanto, também avança em setores que o apoiaram maciçamente na eleição. Chega a 46% entre os mais ricos e a 43% no público com ensino superior.

Outro dado ajuda a dimensionar o desgaste do presidente. De cada quatro eleitores dele, um afirma que não repetiria o voto hoje. Isso aponta um exército de 14 milhões de arrependidos — um incentivo e tanto para quem pretende confrontá-lo em 2022.

Desde a última rodada da pesquisa, Bolsonaro disse palavrões em discursos e entrevistas, ofendeu os governadores do Nordeste, demonstrou descaso pelo desmatamento da Amazônia e comprou brigas com líderes de países europeus.

Essa estratégia de radicalização pode agitar as redes, mas não tem dado bons resultados no mundo real. Para 55% dos brasileiros, o presidente não se comporta à altura do cargo na maior parte das situações. Em outra etapa do questionário, 44% disseram que não confiam em nada do que ele diz.

Nos últimos dias, o Planalto tentou emplacar a versão de que o bate-boca com Emmanuel Macron fez Bolsonaro virar o jogo. Ele teria saído como defensor da soberania nacional contra a cobiça estrangeira pela Amazônia. A pesquisa desmonta a propaganda. Para 75%, o interesse internacional pela floresta é legítimo, já que ela é importante para todo o planeta.

Ontem o presidente insistiu no autoengano. Ao ser questionado sobre a insatisfação dos eleitores, preferiu lançar dúvidas sobre a pesquisa.

A estratégia de radicalização pode agitar as redes, mas não ajuda Bolsonaro com o mundo real. Para 55%, o presidente não se comporta à altura do cargo que ocupa

Jair, o Fake, é o presidente da conversa fiada

Ranier Bragon

Datafolha mostra que Bolsonaro, por ora, é o presidente da conversa fiada
Só 19% dizem confiar plenamente naquilo que é dito pelo atual chefe do Executivo 
Alexandre, o Grande. Ivan, o Terrível. Pepino, o Breve. Dona Maria, a Louca... Cada um entra para a história com o epíteto que merece. A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que, por ora, o presidente do Brasil pode se apresentar aos comensais como Jair, o Fake.

O Datafolha é o instituto de pesquisas do Grupo Folha. Criado em 1983, traz no currículo um notável histórico de credibilidade e rigor técnico.

Não na visão, porém, dos que acordaram anteontem para a vida e estudaram, em vídeo, nas melhores academias olavistas espalhadas por este mundão grande e plano.

Também guardam o instituto em baixa conta escova-botas de variados matizes, gente que inclina colunas por essas terras possivelmente desde que os primeiros petistas desembarcaram das caravelas de Cabral com suas mamadeiras de piroca.

Nesta segunda (2), de seus gabinetes e até em redações de rádio e TV, se estapearam para gritar mais alto nas redes sociais contra o Datafolha.
Entre eles o ministro da Educação. Sua pasta figura como uma das mais aparvalhadas do governo, cortou bolsas de pesquisa e está no mais absoluto deus nos acuda, mas Abraham Weintraub demonstra aborrecimento, mesmo, é com o Datafolha.

Segundo escreveu com seu reconhecido zelo pela língua pátria, acreditar no instituto é como acreditar no boitatá —reconheça-se que há aí, pelo menos, uma dica ao leitor de nome para o seu bovino de estimação: “Muito prazer, sou Tatá, o Boi”.

De fato, o governo completou simbólicos 17% do tempo de mandato com emprego a mil, economia decolando, saúde de excelência, meio ambiente dando lições ao mundo, ganhos sociais a torto e a direito.

De onde o Datafolha tira esses detestáveis números, então? Reprovação recorde, rejeição às ideias e declarações e o troféu lero-lero: só 2 em cada 10 brasileiros dizem confiar no que diz o mandatário do país. Um merecido tributo a quem embalou a carreira na mentira, na baboseira e na mais espalhafatosa falta de conhecimento de que se tem notícia.

SETE MEDIDAS PARA AUMENTAR A POPULARIDADE E EXPLORAR O GENUÍNO ESPÍRITO ANIMAL DO PRESIDENTE


Existem alguns truques que Bolso pode lançar mão com o objetivo de melhorar a sua cadente popularidade. A ideia é aliar regressismo (o chão firme dos militantes do atraso) com a busca - a qualquer preço - de popularidade.

Vejamos:

1) Refazer o cenário da facada, agora como um atentado a tiro. Bolso irá caminhar no Viaduto do Chá. Ouvem-se muitos tiros (de festim). Bolso se atira ao solo, não sem antes furar uma bolsa de sangue cenográfico, que deverá jorrar para as câmeras adrede preparadas. Sugere-se muito sangue, de humilhar Quentin Tarantino.

2) Relançar os geniais Don e Ravel, com o chiclé musical "Eu Te Amo, Meu Brasil". Letra atualizada e clima gospel-ostentação.

3) Recuperar o gesto publicitário do general Médici, que comparecia a jogos de futebol - sempre com grande público - munido do seu radinho de pilha colado ao ouvido. Para reforçar, Bolso pode usar dois radinhos, um em cada ouvido, sugerindo que ele acompanha os jogos do Palmeiras e do Internacional.

4) Remontar o Banco Nacional da Habitação (BNH), agora sob a gestão animal da rapaziada do próspero bairro de Muzema, do Rio. O programa habitacional deles é exemplar, de baixíssimo custo e deve ser replicado no Brasil inteiro, como forma de construir uma nova imagem de Bolso, retomando o desenvolvimento produtivo e alavancando a construção civil do País.

5) Recriar o programa televisivo "Os Trapalhões", sempre sob a coordenação de Didi Mocó, mas com a necessária participação dos três filhos de Bolso, acrescido do deputado Hélio Bolsonaro, aquele cavalheiro afro que pode fazer o papel do saudoso Mussum (mas sem fala, na linha Buster Keaton).

6) Aliás, Hélio Bolsonaro, em novo formato comunicacional do governo Bolso Parte Dois, pode ser o porta-voz do Planalto. Como Hélio quase não fala, e não tem nada para apresentar como realização de governo, nos parece que tudo concorre para um desempenho notável do referido cavalheiro.

7) Relançar veículos automotivos como o Fusca (Itamar tentou, mas errou no marketing), o Gordini, o Simca-Chambord, o Aero Willis, e o saudoso caminhão FNM. Agora com motor ecológico, usando o carvão e a lenha que resultam das queimadas incompletas da Amazônia, o célebre motor gasogênio. É uma resposta, eu diria um tapa de luva mesmo, a Macron e aos europeus que ainda não entenderam os gestos nobres de Bolsonaro.

Estas sete medidas, caso implementadas, serão decisivas para que o Brasil e os brasileiros entendam Bolso na sua verdadeira e autêntica dimensão, sobretudo o seu espírito animal (no bom sentido, claro).

Grande ameaça ao jornalismo brasileiro é o sedentarismo



O que foi o Roda Viva de ontem? Um jornalista sendo inquirido por colegas que se acostumaram a ficar sentados em redações, esperando vazamentos ou confidências de juízes, policiais e políticos amigos das emissoras e jornais em que trabalham. Enquanto Glenn vai atrás da notícia, apura, edita e publica o que é de interesse público, seus inquisidores limitam-se a escrever ou ler press releases que enaltecem suas fontes. Nem me preocupo mais com o jornalismo que acabou, mas com o sedentarismo dos que estiveram no programa. Espero que, nas horas vagas, façam caminhadas à beira do lago Paranoá.

Roda Morta é retrato da mídia brasileira


O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre!) do colUnista exclusivo Joaquim Xavier: 

Conversa Afiada
Programa com Greenwald expõe a falência do “jornalismo” nacional 
Inacreditável. Colocado no centro da arena do Roda Viva da TV Cultura, o jornalista Glenn Greenwald foi tratado como um criminoso. Uma inversão de papéis de aterrorizar.

Os entrevistadores pareciam estar num exercício de vingança. Afinal, Greenwald, ganhador do prêmio mais importante da imprensa mundial, tem mostrado com as reportagens do Intercept não apenas um esquema delinquente. Tem comprovado também a falência do jornalismo local.

Enquanto a mídia tupiniquim rastejava diante de Sérgio Criminoso Moro e seus asseclas, Greenwald e equipe empenharam seu tempo em investigar as entranhas da Lava Jato. Trabalho custoso, demorado, minucioso, imparcial. Uma aula de jornalismo que irrita inquisidores mascarados de profissionais da informação.

À bancada não interessou em nenhum momento discutir o conteúdo das conversas da organização criminosa (como diz Gilmar Mendes) travestida de “força-tarefa”. Tampouco extrair as lições de como se faz reportagem digna deste nome. O programa foi um coral de uma nota só: tentar “provar” que Greenwald era um transgressor.

O absurdo não conheceu limites. Todos insistiram que Greenwald revelasse suas fontes. Bolsonaro, Moro e a PF não fariam melhor. Suprema vergonha: foi preciso que o fundador do The Intercept, de origem americana, lembrasse que a Constituição brasileira garante o sigilo no exercício do jornalismo.

No desespero, o pelotão de fuzilamento da verdade cobrou dele pretensas relações com produtoras de vídeos eróticos. Com elegância e educação, Greenwald esclareceu o assunto em definitivo. Agora, o que tem a ver o tema com as revelações bombásticas sobre os crimes da Lava Jato? Nada. O curioso é que Alexandre Frota, habitué de filmes pornográficos e bolsonarista de primeira hora até pouco tempo, foi tratado como estadista pelo mesmo programa.

A indigência do jornalismo brasileiro não vem de agora, mas se acentuou selvagemente no governo Bolsonaro. Extremista de direita assumido, o capitão aparece nas páginas e telas da mídia oficial como “conservador”, no máximo “de direita”.

O grupo Globo, por exemplo, trava uma batalha perdida contra os fatos ao repetir que as conversas “não trazem nada de mais”. A Folha de S. Paulo chegou a proibir, em memorando interno, seus funcionários de situar Bolsonaro na extrema-direita. Pouco importa que o militar expulso do Exército seja contra os pobres, defensor da tortura, da “eliminação de pelo menos 30 mil”, (...) liberticida e por aí vai -- um (...) patológico de quem até gente como a ultradireitista Marie Le Pen achou conveniente se afastar.

O Roda Morta, assim como o império das cinco famílias, não tem conserto. Parafraseando Raul Seixas, viva a mídia alternativa.

A incultura jornalística no Roda Viva


RODA VIVA ONTEM

Ricardo Lísias

Como todo mundo, fiquei bastante espantado com o programa Roda Viva de ontem. Eu não assistia há muitos anos. Resolvi ver ontem por causa do convidado e também porque acho bom o trabalho da jornalista Daniela Lima na Folha de S Paulo. 

Vi a bancada antes e não conhecia quase ninguém, mas li um livro ótimo do Felipe Recondo e o site dele, o Jota, é muito bom. De fato ele foi o menos ruim, embora não tenha produzido nada razoável. Diante do desastre, só não ser desastre já salva. 

E aquela figura de sobrenome Tahan?! Minha gente!!

Não entendo por que algumas pessoas estão dizendo que as perguntas foram duras, inquisitoriais etc. É o contrário: foram elementares, banais e repetitivas. 

E, pior, todas as respostas já tinham sido respondidas por ele ou pela equipe. Não dava para tentar colocar o cara em uma situação difícil, pedir um raciocínio complexo, aprofundar uma reflexão?

Foi uma catástrofe mesmo. 

Fiquei espantado de ver jornalistas falando da fonte, como se um hacker fosse criminoso e um agente público que vaza um documento – que é o jeito que a maior parte dos jornalistas consegue - não. Ora, os dois são crimes. 

O jornalista depois divulgar, se o obtiver de forma legal, qualquer um sabe, não é crime. Isso é elementar. De onde sai que um funcionário público vazar é menos grave? Não é... 

Muitos jornalistas ficam nervosos mesmo quando se fala de fonte. Escrevi um romance inteiro para discutir se é ético uma jornalista transar com um jurado do festival de Cannes para saber quem vai ganhar o festival antes e até hoje muitos jornalistas se recusam a discutir isso e dizem que o antiético é fazer essa pergunta ou escrever um romance sobre isso. 

Um grande problema, me pareceu, é que só havia jornalistas como entrevistadores. Claro que deviam estar lá (mais aguerridos e empenhados, sem aquele lenga-lenga). Mas no tempo que eu assistia, havia jornalistas e também outros profissionais, como por exemplo intelectuais. Por que não havia professores universitários ontem? 

Vou deixar aqui uma lista de professores universitários que poderiam estar lá e que fariam perguntas complexas.

Há muitos outros, claro, é só um pequeno exemplo:

  • Marcos Nobre
  • Lilia M Schwarcz
  • Rosana Pinheiro Machado
  • Esther Solano
  • Tales AbSaber
  • Renato Janine Ribeiro
  • Vladimir Safatle

Sejam jornalistas, estúpidos



Moisés Mendes

Alguém perguntou a Glenn Greenwald, ontem no Roda Viva, o que ele faria se soubesse que pagaram o hacker para ter acesso às conversas escabrosas da Lava-Jato.

A resposta deveria ser estudada já a partir de hoje em aulas de jornalismo: jornalista não é polícia.

Jornalista divulga informações relevantes, de interesse público, obtidas legal ou ilegalmente. Aqui e em qualquer democracia (ou deveria ser assim também no Brasil).

O que não pode é comparar hacker com autoridade que faz vazamentos seletivos de informações do próprio trabalho para tentar favorecer ou comprometer uma das partes, como fizeram na Lava-Jato.

Outro bom momento foi quando da pergunta sobre os estragos que os vazamentos podem causar na Lava-Jato, se eventualmente beneficiarem já condenados. 

A resposta: Sergio Moro e seu pessoal se consideram acima do bem e do mal, a ponto de achar que qualquer informação que os contrarie pode conspirar contra feitos que consideram inquestionáveis? A verdade absoluta está sempre com eles? 

Resumindo, Glenn Greenwald deu boas lições à atrapalhada bancada de jornalistas que tentou cercá-lo de todas as formas. 

Tentem ser menos oficialistas, menos policialescos, menos governistas e menos lavajatistas. Sejam jornalistas.

Desenhando o Roda Viva com Greenwald pra todo mundo entender



O submundo paralelo da burrice e da boçalidade que assola o país


Cristóvão Feil

DIRETO DO SUBMUNDO PARALELO DA BURRICE

O naipe de jornalistas que ontem entrevistou (ou seria interrogatório?) Glenn Greenwald & Intercept veio direto do submundo paralelo da burrice e da boçalidade que assola o País nos últimos três anos.

Mas a flamante campeã, ontem, foi a senhora Lilian Tahan quando perguntou a Glenn se a mídia poderia "demitir os repórteres todos e contratar meia dúzia de hackers", afetando uma ironia fora de lugar e de agudo mau gosto.

Como foi o Roda Viva com Glenn Greenwald

Jorge Furtado

Vexame

“O documento é verdadeiro? É de possível interesse público?” Glenn Greenwald teve que repetir o óbvio 10 vezes aos perguntadores do Roda Viva. Não tinha nenhum jornalista disponível para entrevistar um colega?

William De Lucca

Glenn Greenwald teve de gastar duas horas da sua vida explicando para jornalistas como o jornalismo funciona. O #RodaViva foi isso, basicamente.

Andrew Fishman

Se a ideia por trás do #RodaViva é convidar jornalistas respeitados para realizar entrevistas, por que quase todas as perguntas foram tão terríveis?  Esse é o melhor do jornalismo brasileiro mainstream?  Me ajude, sou gringo e não entendo como isso é possível.

Hildegard Angel

Glenn Greenwald deveria ganhar o prêmio “Educador do Ano”. Com uma paciência de Jó, propriedade e seriedade, ele tem ensinado a imprensa brasileira como exercer a atividade com audácia e ética. Espero que aprendam. #RodaViva

Milly Lacombe

Falta alguém perguntar: "Glenn, você se arrepende de ter trazido a verdade à tona e com ela acabado com o conto de fadas que estávamos alegremente vivendo com a Lava Jato?

Kleber Mendonça Filho

É incrível ouvir um cidadão americano @ggreenwald  sendo um jornalista do mundo real, chamando corrupto de corrupto e com provas justas, sendo sabatinado por gente da imprensa brasileira totalmente adestrada pela realidade paralela do Brasil. Impressionante.

Rita Lisauskas

E o Garganta Profunda, hein? Vocês não acham que têm que revelar a fonte de vocês para provar que estão fazendo jornalismo, Bernstein e Woodward?


O Pato Esquerdalha

Se Bob Woodward estivesse no centro do #RodaViva ontem, a bancada de jornalistas pré-pagos estaria questionando se o escândalo Watergate não prejudicaria a imagem de Nixon e a guerra do Vietnã e se o Washington Post não estava cometendo crime ao ouvir o Garganta Profunda.

Rafa Pacheco

Os caras tem uma hora e meia pra entrevistar um dos maiores jornalistas do mundo, que está de posse do arquivo mais bombástico do país.

Ao invés de perguntarem do conteúdo, perguntam da fonte, do marido, da sua atuação como advogado.

Que vergonha, Roda Viva.

Cadu Lorena

Nenhum jornalista entrevistador do Roda Viva levantou questão a partir da defesa da Constituição, do Estado de direito, do devido processo legal, da democracia, do processo democrático eleitoral — diz muito como a mídia jogou o país nas mãos do fascismo bolso-lavajatista.

Gabi Guimarães

Bem, quem não assistiu o #RodaViva ontem com Glenn, deveria viu? Foi show! Claro que teve algumas coisas absurdas. Glenn passou quase duas horas ensinando pra jornalistas o que é ser jornalista. Acho que ele tem aquela tal de consciência de classe e por isto dá um desconto.

Edinei Bezerra

Vivemos para ver no #RodaViva jornalistas inquisidores questionando a liberdade de imprensa. Que vergonha!!

Rogério Correia

Nunca tinha assistido #RodaViva e depois de hoje afirmo que foi a primeira e única. Assistir a um Jornalista ser questionado por “jornalistas” por fazer jornalismo é deprimente.
Objetivo deles era evitar que Glenn revelasse ao vivo mais crimes do Moro e do cretino do Dallagnoll.

Mah 🍒

A pergunta de encerramento da âncora fechou com chave de ouro🙈

Que horror! #RodaViva

Leandro Demori

Jamais vi essa pergunta pra qualquer jornalista no Brasil. Alguém perguntou se O Globo pagou ao Joesley pela gravação do Temer? E pra Folha pelo grampo do Geddel?

Jose de Abreu

O #rodaviva escalou jornalistas com curso primário para entrevistar um advogado de sucesso que virou o jornalista mais famoso do mundo! Virou um esculacho! #Rodaviva

William De Lucca

Assisti uma rodada de perguntas dos jornalistas ao Glenn Greenwald no #RodaViva. Teve gente perguntando de erro em tuite, gente perguntando se ele não tem medo de ter sido enganado com mensagens falsas e gente perguntando se é válido publicar conteúdo obtido por invasão.

Chega.

Jose de Abreu

E eu sempre achei que jornalista fosse intelectual, gente estudada, séria! me fodi! #RodaViva

William De Lucca

Gente, vocês estão esquecendo que o #RodaViva é o programa que levou a Manuela D'Ávila praquela entrevista constrangedora onde ela foi perguntada se é fã do Mao e do Stalin, sendo interrompida 62 vezes durante o programa.

Não se faz mas jornalismo ali tem muito tempo.

Tiago Barbosa

Glenn Greenwald acabou de entubar o repórter de O Globo:

“Qual a prova que podemos ter de que o material não foi alterado?”, perguntou o jornalista.

“A mesma que seu jornal teve ao publicar comigo as reportagens sobre Snowden”, destruiu Glenn.

Fim.

Cecília Olliveira

- Comparação entre vazamento por autoridade envolvida no processo x hacker
- Pergunta se uma corrupção é mais grave que outra (mas e o PT?)
- Vc não tem medo de atrapalhar o processo?

Estas questões vindas de jornalistas explicam muito sobre a crise do jornalismo #RodaViva

Cara

Você é jornalista e tem a oportunidade de entrevistar um dos jornalistas mais premiados do mundo e você pensa:
Vou perguntar se vem mais áudios e matérias bombásticas?
Melhor não, vou perguntar sobre filmes pornográficos e Pavão Misterioso.

É o nível do nosso jornalismo #RodaViva

Temer Sincero

Jornalistas como essa gente do #RodaViva ajudaram a eleger um demente nepotista como o Jair Bolsonaro e tantos outros seres do PSL...

E depois ficam chorando com as perseguições?

Bolsonaro tem que barbarizar mesmo. Ninguém aprendeu nada.

Amanda Audi

Acabei de assistir ao #RodaViva com @ggreenwald
Achei importante haver críticas e questionamentos ao trabalho do  @TheInterceptBr
Todas foram respondidas e estão acessíveis ao público.
Mas fiquei um pouco frustrada. Quase tudo foi sobre a fonte! Nós somos maiores que ela, viu?

Fletcher Reed

@ggreenwald
Parabéns por ter passado incólume a sessão de fuzilamento a que o #RodaViva te submeteu. Aliás, a despeito da última pergunta dessa âncora tosca, qual o interesse público em o cara ser gay, o marido do PSOL e se ele fez ou não filme pornô? Roda viva virou Roda Morta.

Kit Gay Destruidora mesmo

A bancada do #RodaViva na entrevista do Glenn Greenwald serve para nos lembrar o quanto o jornalismo brasileiro tem uma péssima qualidade, é totalmente subserviente aos interesses dos poderosos e se presta ao papel de assessoria de imprensa de governos corruptos e autoritários.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Bolsonaro inventa o "desacato da autoridade"


Os jornalistas acampados na porta do Alvorada não precisam provocar. Deixam que o touro presidencial faça o trabalho inédito de se espetar ele próprio com as bandeirolas do ridículo.
Joaquim Ferreira dos Santos

O Prêmio Esso deste ano deveria ser entregue ao grupo de repórteres que toda manhã se junta à porta do Alvorada e espera atrás de grades que o presidente da República cumpra o protocolar desjejum de desaforos, caras enfezadas, perdigotos, dedo em riste e ameaça contra eles, suas empresas e o futuro do jornalismo. Todo dia, tudo sempre igual. Os repórteres matutinos do Alvorada comem o pão que o diabo amassou.

Sua excelência borra a manteiga de ódio na torrada das desconfianças e, quando não ofende os profissionais, joga café rancoroso na cara de algum novo inimigo que a noite mal dormida lhe revelou. Sua santidade, o Papa, não perde por esperar. Os jornalistas nada comentam. Nem o excesso de bromato, o leite derramado na toalha da civilização ou o breakfast servido em pé. Seguem os rigores da profissão. Perguntam. Anotam. Publicam.

O americano Hunter Thompson, um dos inventores do jornalismo gonzo, que incentivava o repórter a se intrometer na matéria, tinha uma tática peculiar de esquentar as pautas. Diante de uma entrevista meia boca, que levaria o leitor ao sono imediato, Thompson, sempre com alguma droga na cuca, partia para o desacato. Mandava um esculacho no quengo da vítima. O entrevistado reagia, dizia um palavrão, fazia-se o escarcéu - e, pronto, Hunter Thompson tinha uma gonzo-matéria.

Viver no Brasil ficou assustador. A floresta queima, os radares saíram das estradas e na semana passada o presidente relinchou orgulhoso, misto de vaqueiro e jegue, na live da rede social. Os jornalistas não reclamam. Basta abrir o microfone e a matéria, como um café solúvel, se faz por si própria. Antes, após alguma pergunta mais contundente, eram processados por "desacato à autoridade". Bolsonaro xinga, humilha, vira as costas. Inventou o "desacato da autoridade".

Por falar em chifradas, ponha-se nesta arena o americano Ernest Hemingway, que tinha como sonho ver todas as touradas e não precisar escrever uma linha sobre elas. O jornalista Joel Silveira encontrou-o num bar de Paris. Sabia que o escritor não estava para entrevista, mas seguiu o instinto de repórter. Joel tinha a esperança de levar pelo menos um soco no meio dos cornos e ganhar o lead. Perguntou ao autor de "Paris é uma festa" se toparia um safari entre os touros da ilha de Marajó. Hemingway sequer bufou. Jogou na mesa o dinheiro do martini e, rápido, picou a mula. Tudo com discrição forçadamente exagerada para não deixar uma linha sequer para a matéria do brasileiro.

Os jornalistas acampados na porta do Alvorada não precisam provocar. Além dos bons princípios da profissão, acrescentaram às qualificações de cada um o exercício quase budista de controlar os instintos primitivos. Respiram fundo, tampam o nariz e a cada espanto que ouvem deixam de gritar de volta que o rei não só está nu, mas doido varrido. Por isso se faz meritório o Prêmio Esso a esses pacientes repórteres nas grades do Alvorada. Eles contam até dez, não topam o chamamento diário à briga. Levam os desaforos para a redação e, como é da espécie, simplesmente publicam. Deixam que o touro presidencial faça o trabalho inédito de se espetar ele próprio com as bandeirolas do ridículo.

Bacurau é um filme catártico


Manoel Olavo

BACURAU

Bacurau, do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, é um filme catártico. Ele expõe na tela a distopia política do Brasil de Jair Bolsonaro em forma de alegoria. Faz uma narrativa da insuportável angústia que vivemos e celebra a luta de resistência e a solidariedade popular. O filme termina com um forte grito de liberdade.

Bacurau fala do nordeste, da resistência de seu povo, e do Brasil. Mas não somente. É mais abrangente. Com suas inúmeras metáforas, o filme desperta no espectador uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, sobre o neoliberalismo predatório, sobre a mercantilização de tudo e todos, sobre a massificação cultural, sobre a glorificação da morte, da violência, das armas, sobre a exclusão e a indiferença ao extermínio de diferentes e miseráveis, sobre a busca do gozo narcísico a qualquer preço, sobre a destruição da cultura popular, sobre o aprofundamento do abismo social e sobre o embrutecimento duma hierarquia social baseada no poder aquisitivo. Ter dinheiro significa ter poder de vida ou morte sobre gente pobre e marginalizada. E o filme fala do modo como o poder político se alia ao grande capital para levar este poder às últimas consequências, transformando-o num produto de diversão.

Bacurau é o primeiro filme brasileiro a ganhar o prêmio do júri do Festival de Cannes desde 1969, quando “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha, foi vencedor. O filme faz jus à sua premiação. Mais do que uma bela e inteligente alegoria política, Bacurau é um grande filme. É cinema em tom maior, tecnicamente impecável, com uma fotografia inquieta e surpreendente, uma direção de atores primorosa, uma fotografia criativa e um roteiro único e impactante.

O filme consegue reunir, como poucas vezes se viu, diferentes estilos de narrativa cinematográfica num todo harmônico, coerente e eletrizante. Do thriller americano ao western, dos filmes B de ficção científica aos filmes de ação, dos filmes de terror à experimentação formal do cinema novo, tudo está presente em Bacurau. E a orquestra nunca desafina.

Há um jogo metalinguístico em Bacurau. Cada cena contém uma citação ou referência que remete a outro filme, como num labirinto borgiano. Mesmo assim, Bacurau não é uma colagem. É um filme uno, vigoroso e inteligente, que agarra o espectador pela gola desde a primeira cena e não larga mais. Bacurau emociona, gera indignação, faz pensar, faz sorrir, impele a lutar, de modo natural e envolvente. Sem didatismo nem proselitismo.

Uma sensação de incômoda estranheza acompanha o espectador desde a primeira cena. É a estranheza de quem vive numa distopia política, num mundo de valores brutais e dilacerados. A estranheza hipotética dum país onde o presidente dissesse, por exemplo, que um torturador sádico e assassino é um grande herói nacional.

Bacurau é uma cidade isolada do oeste pernambucano, uma espécie de gueto onde a população é formada pelos malditos da sociedade dos homens de bem: prostitutas, gays, transexuais, bêbados, miseráveis, descendentes de índios e escravos, ladrões, traficantes, meninos de rua, artistas populares, professores (sim, no filme de Kleber Mendonça Filho os professores estão do lado dos malditos – como no Brasil de Bolsonaro). A história se passa “daqui a alguns anos”, num momento em que miséria e alta tecnologia convivem lado a lado e, aparentemente, o Brasil foi dividido entre Brasil do sul e Brasil do norte, onde fica Bacurau. A privação, a falta d´água, a destruição da educação e saúde, a violência cotidiana, a lei do mais forte, as execuções e o uso de armas de fogo pesadas estão disseminadas. Até que, por razões que só se esclarecem na metade final do filme, um dia Bacurau simplesmente desaparece do mapa. Não recebe mais sinal de internet, nem é encontrada em mapas digitais. Fica isolada. A seguir, começam a ocorrer mortes misteriosas e, aos poucos, Bacurau entende que está sob ataque duma força inimiga. Sobre isso nada mais comento, pelo perigo de incorrer no imperdoável crime de spoiler.

O que acontece em Bacurau dali por diante é uma metáfora da desumanização do mundo contemporâneo, da perda de valor da vida humana, por conta da voracidade consumista e devoradora do capital financeiro, da concentração de renda e do neoliberalismo sem ética nem fronteiras. Bacurau é uma parte do Brasil, é o próprio Brasil mas também pode ser qualquer país na periferia do capitalismo. Países cujo povo está sendo passado pelo moinho de engenho, como no poema de João Cabral de Melo Neto, onde se entra gente e sai bagaço.

Bacurau joga com a ressignificação de símbolos e de imagens. Cinema é imagem, e Kleber Mendonça Filho sabe disso muito bem. Muitas cenas do filme são citações explícitas de outros filmes. O filme começa com uma referência à cena de abertura de “Enigma de outro mundo”, de John Carpenter, quando uma força maligna vem do espaço, penetra a atmosfera terrestre e aterrissa na Terra... desta vez em Bacurau! (Talvez algo dessa natureza explique o bolsonarismo que tomou conta do país). Esta cena acontece ao som de “Objeto não identificado”, cantada por Gal Costa.

Caixões de defunto são imagens recorrentes e obsessivas durante todo o filme. A morte permeia a narrativa. Há citações de westerns famosos, como “Era uma vez no oeste” e “por um punhado de dólares”. De filmes de ação, como “Rambo” e “Mad Max”. De filmes B de ficção científica, como “The thing”, “invasors of body snachters”, “plan nine from outer space”. Há sequências que recriam situações clássicas de filmes B de terror. Há ecos de “os sete samurais”, de Akira Kurosawa, no modo pelo qual a população de Bacurau se organiza para enfrentar o inimigo. Kleber Mendonça Filho é um antropófago do século XXI. Ele devora a estética do dominador cultural e a transforma em resistência e afirmação de identidade da sua aldeia. Com uma boa dose de ironia. Como um tapa na cara do espectador.

No filme Bacurau, a grande homenagem vai para o cinema novo brasileiro, a começar da música título do filme, composta por Sérgio Ricardo, mesmo compositor da antológica trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. A estética glauberiana é repetidamente citada. A cenário da cidade de Bacurau lembra a cidade do filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Na trilha sonora também está a música “Réquiém para Matraga”, de Geraldo Vandré, do filme “A hora e a vez de Augusto Matraga” – outra referência cujas cenas são várias vezes lembradas. Bem como o grande filme “Os Fuzis”, de Ruy Guerra.

Além de ser um devorador de referências ficcionais, Kleber Mendonça ressignifica imagens icônicas do pesadelo documental do mundo atual. No contexto da história, vemos surgir, ao inverso, o buraco onde o exército americano encontrou Saddam Hussein; a frieza de vídeo game dos assassinatos à distância da nova guerra tecnológica do exército norte-americano, que enche as telas da CNN com corpos de árabes sendo abatidos de modo asséptico; a onipresença de imagens digitais em telas, mesmo no meio da miséria de Bacurau; e por aí afora. O filme, de modo intencional, muitas vezes incorpora a estética dum vídeo game de combate.

Tudo isto acontece dentro dum inteligentíssimo jogo de inversões narrativas e reconstruções de sentido, onde o oprimido enfrenta o opressor usando suas próprias armas. O filme atinge seu ápice no espetacular uso de uma das mais conhecidas imagens da violência social da sociedade brasileira: a foto da exibição pública das cabeças cortadas do bando do cangaceiro Lampião. Em Bacurau, metáfora e realidade se entrelaçam.

Vale destacar duas participações de atores no filme: Sônia Braga, no papel duma médica alcoólatra, e de Lia de Itamaracá, em pessoa. É a partir da morte de sua personagem que a trama se desenrola.

É possível que alguns achem Bacurau um filme violento. De fato ele é. Mas há um ponto de distinção: não estamos falando da violência gratuita do cinema de ação blockbuster hollywoodiano. A violência é um componente essencial da história. Pois ela fala justamente dum mundo onde a violência impera como único fator de exercício de poder.

Também me parece que o recurso das cenas violentas e o final catártico foram escolhas conscientes de Kleber Mendonça Filho. Num país onde boa parte da população acha que bandido bom é bandido morto, num Brasil onde o homem sentado na cadeira da presidência da república prega o ódio, a intolerância e defende a tortura, num mundo onde o extermínio de populações marginalizadas e refugiados é visto com indiferença ou até como um objetivo, é preciso gritar o mais alto possível para ser ouvido. É preciso gritar bem alto para acordar todos da pasmaceira geral e mostrar que a resistência é possível e necessária. Foi o que Kleber Mendonça Filho fez com o filme Bacurau, dum modo brilhante e original.

Trata-se duma obra-prima do cinema brasileiro, feita por um cineasta que cresce e amadurece a cada nova produção. É uma honra termos um cineasta dessa categoria do nosso lado.

Viva o cinema e a cultura brasileiras!

Manoel Olavo

P.S. Numa cena do filme, um visitante do Brasil rico e branco do sul, de passagem por Bacurau, pergunta, com ar de superioridade: "quem nasce em Bacurau é o quê? Bacurauense? Bacurano?" - Um menino buchudo de cócoras responde: “quem nasce em Bacurau é gente, moça!”.

O sadismo da procuradora arrependida. Desculpa uma ova!


Por Armando Rodrigues Coelho Neto
O Direito Penal contempla a figura do “arrependimento eficaz”, cujo exemplo clássico é tentar matar alguém com veneno; o criminoso arrependido logo após o ato, ministra o antídoto.
Prazer sexual na dor física ou moral dos outros é o conceito mais simples de sadismo, palavra que tem origem no Marquês de Sade (França), cujos personagens por ele criados se envolvem em crimes, “comportamento sexual atípico”, depravações e ou situações abjetas envolvendo crianças – impublicáveis neste contexto. Apropriado pela ciência, o termo passou a abranger perversões sexuais latentes, enrustidas, que transparecem em atitudes fora de quatro paredes. Sem distanciar-se muito da sexualidade, o psicanalista alemão Erich Fromm (1900/1980) fala de “sadismo frio”, que revela as mesmas características do “sadismo sensual e sexual”, posto materializar-se por meio da dominação e controle sobre outra pessoa (leia-se: poder).

O sadismo parece ser a grande marca de personalidades públicas no Brasil, a começar pelas fixações anais do “presidente da República” e de seus filhos, como fortes indicadores de conflitos sexuais – ora atacando homossexuais, ora tentando diminuir a importância do papel da mulher no processo civilizatório. De outro turno, sua foto com uma criança de colo fazendo “arminha” não tinha outro objetivo senão chocar (uma das facetas do sadismo). A perversão é nítida no pouco caso dele quanto aos 80 tiros contra o músico Evaldo dos Santos Rosa (Rio de Janeiro), e quanto às mortes durante a rebelião de presos em Altamira-PA. Nele inspirado, policiais militares daquele estado gritaram: “Arranca a cabeça e deixa pendurada”.

O sadismo se consolidou na promoção do ódio por meio da grande imprensa e das redes sociais, ambas financiadas pelo obscurantismo que a Polícia Federal faz questão de não investigar e o Supremo Tribunal Federal insiste manter em sigilo. A esteira da perversão social acolheu a xenofobia, homofobia, preconceito, racismo, misoginia, apologia à tortura. Igrejas evangélicas encontraram na Bíblia fundamentos para defender a pena de morte. Sob o espectro do ódio e do sadismo, o Marreco de Maringá coordenava a tortura psicológica de presos até arrancar deles o seu lascivo fetiche, seu objeto de inveja e de ira: Luís Inácio Lula da Silva.

A perversão do juiz politiqueiro da Farsa Jato também se fez presente na condução coercitiva ilegal de Lula, com o propósito de humilhar – traços do ódio que o levaria à condenação sem provas e célere prisão, para não atrapalhar o foguetório programado em Curitiba. O que dizer da tentativa de enviar Lula para o presídio de Tremembé/SP, cabeça raspada, entre criminosos comuns? Têm a mesma cupidez que marcou a prisão de Guido Mantega dentro de um hospital. Prisão, aliás, de pronto relaxada, por vício de inconsistência factual e jurídica que causou perplexidade até em seus apoiadores. Eis o perfil sumário do sádico nanico, atualmente homiziado no covil da “Mula Sem Partido”.

Seria a tal sincronicidade de que fala Carl Gustav Jung? Ou seria o Zeitgeist (espírito do tempo), termo alemão que explicaria a influência de uma conjuntura temporal moduladora da postura social? É nesse espírito de tempo que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, num descuido sádico, sai aos pulinhos de um helicóptero para comemorar a morte de um desequilibrado, ao invés de apenas cumprimentar, republicanamente, o sucesso de uma operação policial. Seria uma cena insólita a mais na terra dos 80 tiros e das dramáticas imagens da retirada do ex-governador Anthony Garotinho de um hospital, em meio aos gritos de parentes.

No país doente, carente de divã, a vereadora Marielle Franco é assassinada e uma juíza louca faz comentários insanos. Outra juíza tresloucada humilha o Presidente Lula durante uma audiência e outras, outros e outrx, humilham réus país afora. Em meio a uma audiência, um juiz trata como ameaça um ofendículo jurídico e manda o ex-governador Sérgio Cabral para uma solitária. Enquanto isso, procuradores da República chantageiam investigados, bisbilhotam ilegalmente juízes, fazem gambiarras com os Estados Unidos e Suíça, promovem trambiques “legais” para fraudar a eleição presidencial.

Sem ordem cronológica, foi sob o espectro desse espírito sádico de tempo Brasilis que faleceu Dona Marisa Letícia. Uma médica vasa indevidamente informação para um grupo de WhatsApp e outro comenta: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”. Nessa sincronicidade, procuradores da República fazem chacota – sugerem que Lula faria uso político da morte da esposa, que o ex-presidente estaria livre para “pular cerca”, cogitam da eliminação de testemunha, entre outras crueldades.

Eis que uma procuradora finge humildade e pede desculpas. Ao mesmo tempo em que confirma a autenticidade das gravações que dizem não reconhecer (divulgadas pelo site The Intercept), revela a perversão moral de quem só admite o erro após descoberto o fato. O Direito Penal contempla a figura do “arrependimento eficaz”, cujo exemplo clássico é tentar matar alguém com veneno; o criminoso arrependido logo após o ato, ministra o antídoto. O que a procuradora fez não é crime, mas revela mente doentia, perversa, sádica e criminosa. O sadismo não pararia por aqui, já que ao Presidente Lula também foi negado o direito de ir ao velório do irmão, e por pouco não poderia despedir-se do neto que faleceu um tempo depois.

Portanto, senhora procuradora, sem procuração do ex-presidente Lula e em tempos de sadismo… Desculpas uma OVA!

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

Os ateus lideram a rejeição ao demônio Bolsonaro


Leandro Fortes

ACIMA DE TODOS

Os ateus lideram a rejeição a Bolsonaro, segundo pesquisa Datafolha: 76% dos não crentes entrevistados acham o governo do Bozo uma merda completa.

Nenhuma novidade.

Quando você é um humanista e tem mais o que fazer do que ficar rezando para papai do céu, fica extremamente mais fácil compreender a ligação do fascismo com a religião.

O primeiro precisa da segunda para evitar o estouro da boiada.

De onde veio esta população fascista, relinchante e delirante

Vinícius Carvalho

Vem textãozinho aí, mas é que hoje (31/08/19) data 3 anos de consolidação de um golpe deplorável que derrubou a Dilma Rousseff sem crime. O papo vai ser sério.

Há 3 anos Dilma Rousseff caía de forma definitiva, e apesar de absolutamente tudo no país ter mudado para pior desde então, o clima é de relativa calmaria para a quantidade de merda e maldade que o governo Bolsonaro pratica. O que mudou então no decorrer destes últimos anos?

A narrativa econômica e da crise no país. Essa narrativa fez com que o povo ficasse muito mais puto e enfurecido com dinheiro no bolso, podendo viajar para Miami, meter churrasco de picanha todo final de semana mesmo no auge da crise do período PT, do que agora com salário congelado, sem crédito na praça, tendo que fazer churrasco de Bola da Pá e viajar pra Iguaba Grande.

Só ver que os #TBT da turma no Instagram era tudo de viagem que fizeram durante os anos lulistas e dilmistas. Hoje só ficam no TBT mesmo, risos.

Você pode não saber, mas sua vida segue uma narrativa que não necessariamente é operada por você - é por quem tem a capacidade de organizar as nossas idéias, paixões, tendências, modas, expectativas e anseios na nossa cabeça e cotidiano. É a forma como você acorda pensando naquele carrão, como você odeia política, acha maneiro ser cult ou povão, suas curtidas nas redes sociais, gosta ou não de bacon, segue ou não modas e etc.

É psicologia de massas na veia.

A política é o centro disso. E algumas dessas ideias mudaram na forma como o nosso cotidiano é pensado na troca de um governo trabalhista/reformista-fraco que apenas operou o neoliberalismo já vigente de uma forma mais "social" para um governo ultraneoliberal-neofascista virulento. Aí vão algumas:

- No ano de 2015, uma previsão de déficit de 36 bilhões nas contas públicas eram a prova inexorável de que a Dilma tinha quebrado o país. Em 2017 com o Temer, uma previsão de 176 bilhões de rombo nas contas era, para analistas, a prova cabal de que o governo estava no caminho certo pelo enxugamento dos gastos inúteis do estado.

- Real valorizado era ruim pois desindustrializava o país, mas quando o governo Dilma permitiu que ele chegasse à 3,60 para operar uma conversão industrial que facilitasse as exportações, era o fim do mundo. Hoje, ninguém mais fala em câmbio mesmo com o real já batendo na casa do 4,20.

- Aumento do salário mínimo era ruim pois reduzia a lucratividade das empresas e...aumentava a inflação. Se o salário mínimo não aumentasse o suficiente, era ruim também pois "viu aí como o PT mentiu pra pobraiada em campanha?". Agora o Bolsonarco REDUZ previsão do salário mínimo, a inflação continua em curva ascendente e...cri, cri, cri, cri...ninguém liga.

- Em 2014 o país era um dos únicos do mundo que vivia uma situação de pleno emprego, e, eu lembro que tanto o Jornal da Globo quanto o Jornal do Almoço aqui em Santa Catarina, eles convidaram na mesma semana especialistas das federações industriais para comprovar o quanto o alto índice de empregabilidade da população era ruim. Muito emprego, menor o lucro das empresas, maior o aumento dos salários, e... "maior a inflação".

- Enquanto muita oferta de emprego no período do PT era ruim pois aumentava a inflação, muito desemprego era incompetência. Tudo era crise. No governo Bolsonarco, muito desemprego é normal, é o exército de reserva que o liberalismo exige para o bom funcionamento do mercado. Se aumentar a oferta de subemprego, sinal de competência.

- Em 2011 uma tapioca de 7 reais comprada no cartão corporativo era um escândalo de uma semana no jornal nacional, até que ela levasse a queda do ministro. Hoje, a liberação de bilhões na cara de pau para aprovação de emendas, senador pedindo mala de dinheiro em flagrante, são casos normais, afinal "político é tudo igual mesmo". Diga-se de passagem, as pessoas pararam de fazer vigília mensal sobre gastos no cartão corporativo.

- Quando a Dilma reduzia o valor da conta de energia e segurava o litro do combustível era "populismo", quando aumentava era "tarifaço" e "mentira de campanha". Quando o Bolsonarco e o Paulo Guedes aumentam 3 vezes seguidas em menos de um ano, é "o remédio amargo a ser compartilhado por toda a população para tirar o país do atoleiro".

- Em 2009 o Carlos Alberto Sardenberg e o Arnaldo Jabor falavam que um crescimento econômico de 5% era ruim pois aumentava a inflação, hoje eles imploram por medidas de arrocho salarial, reformas regressivas e etc, para ter um crescimentozinho de 0,2%, sendo que a previsão é, inclusive, de recessão.

- Think-tanks remunerados operando na direita e na esquerda, usando e abusando de professores universitários, redes sociais e etc, para criar um roteiro com fórmulas bem definidas e muita confusão ideológica na cabeça da classe-média. Golpes não acontecem sem a ajuda de setores da esquerda.

- Bolsonaro operando uma corrupção rastaquera que corrói todas as estruturas do Estado, desmantelando a COAF para proteger o próprio filho. Praticando nepotismo. Escondendo miliciano. E nada acontece, feijoada.

Agora bombardeie esse receituário antipetista na televisão, rádio, jornal, mídias sociais e etc, durante 24 horas, 7 dias por semana, durante 13 anos. O que teremos é uma população fascista, relinchante e delirante.

O povo acredita, não por ser besta, mas porque a cabeça tem coisas mais importantes, e quem define a urgência da agenda política e econômica do país para nós é a mídia e o mercado. A diferença entre esse 7 x 1 que a gente está levando e o 7 x 1 que a gente levou da Alemanha, é que naquele não tinha ninguém achando que a goleada era pro nosso time.

As elites que apoiaram Bolsonaro sabiam que ele era uma aberração


Bolsonaro perdeu grande apoio entre elites escolarizadas. Elas se decepcionaram? Não! Elas o apoiaram porque são racistas, classistas e queriam tirar o PT do poder impedir que o PT voltasse ao governo. Sabiam a aberração que estavam apoiando, mas, para não perder privilégios, apoiaram um homem que faz apologia à tortura.

As elites que apoiaram Bolsonaro sabiam que ele era uma aberração, ao contrário daqueles que não pisaram numa escola.  Elas fizeram isso assegurar o seu. Fizeram vistas grossas propositalmente e agora querem se fazer de racionais e sensatas para já já apoiar um sapatênis em 2022.

O horizonte de Bolsonaro


Moisés Mendes

BOLSONARO NA SEMANA QUE VEM

A manchete do Globo online, que outros jornais já estamparam nos últimos dias, com formulação semelhante, é esta: 
“Queda de popularidade de Bolsonaro entre apoiadores acende sinal de alerta para 2022”
O homem não sabe se o seu governo sobrevive até a semana que vem, mas os analistas já tentam tratar do cenário de 2022.

Como se, em meio aos incendiários da Amazônia, à crise do filho envolvido com milicianos, ao aumento do desemprego, às traições na base aliada e à destruição dos serviços públicos e às bobagens que diz diariamente, Bolsonaro pudesse pensar num cenário para daqui a quase três anos.

O que o Globo e outros tentam fazer, na verdade, não é ver a perspectiva pelo ponto de vista dos bolsonaristas, mas da possível ressurreição dos tucanos ou de algo que se assemelhe a um deles.

Doria Júnior é a aposta de um centro disfarçado, que é apenas a direita não-bolsonarista. Se não der certo, tem Luciano Huck. Se Luciano Huck não der certo, encontrarão outro.

O que parece irreversível é que Bolsonaro se protege cada vez mais no terço que lhe é fiel, na esperança de que possa ampliar esse lastro baseado em antipetismo cada vez mais radical, racismo, xenofobia, homofobia, armamentismo e fortalecimento das polícias e das milícias.

Até na Região Sul, o reduto do reacionarismo, a rejeição a Bolsonaro aumentou de 31% para 35%.

De capacho dos EUA a vergonha mundial




Bufão monoglota

Por Leandro Fortes

Imagino que Donald Trump esteja se divertindo com a possibilidade de Eduardo Bolsonaro ser efetivado como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. É como uma comédia de costumes levada ao paroxismo.

Trump sabe que, com a família Bozo, adquiriu, a preço de banana, a subserviência incondicional da maior nação sul-americana. Pelo que se viu, até agora, o único problema real dessa relação será a administração do ridículo.

O 03 é, disparado, o queridinho do papai, de quem herdou o deficit intelectual, a verborragia e o caráter gelatinoso. E, assim como o pai - e como todo oligofrênico -, se acha engraçado, quando, na verdade, é só burro mesmo.

Foi assim quando se credenciou à diplomacia por ter fritado hambúrgueres no Maine e, agora, quando fugiu da imprensa americana, em Whashington, alegando que falaria somente aos repórteres brasileiros, por serem, estes, "mais bonitos".

O fato é que nosso patético candidato a embaixador não sabe falar inglês nem tem capacidade de aprender o idioma, como está posto e revelado.

Caberá ao Senado Federal decidir, portanto, se vamos sair do nível de nação-capacho dos EUA, onde Bolsonaro nos colocou, para o de vergonha mundial, com a aprovação do 03 para o cargo.