quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Licantropia



Síndrome de Bettina


The Guardian: Governo Bolsonaro é formado por "desqualificados, lunáticos ou perigosos"


Revista Fórum

Uma longa reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada nesta quinta-feira (2), traz uma elaborada lista de figuras do seu governo consideradas inaptas para o cargo que ocupam e inclusive perigosas. “Diga o que quiser sobre Bolsonaro, mas é preciso reconhecer seu raro talento em escolher as pessoas mais desqualificadas, lunáticas e/ou perigosas para os empregos”, comentou um dos entrevistados, o jornalista Mauro Ventura.

A matéria é assinada pelos jornalistas Tom Phillips e Dom Phillips, e se foca principalmente em quatro nomeados por Bolsonaro: Filipe Martins (consultor de política externa), Roberto Alvim, (secretário especial de cultura), Sérgio Camargo (Fundação Palmares) e Dante Mantovani (Funarte).

O primeiro a ser analisado é Filipe Martins, um dos principais assessores de Bolsonaro para política externa e descrito pela matéria como um “discípulo do escritor e teórico da conspiração Olavo de Carvalho, assim como os filhos do presidente, que são seus amigos pessoais”. A matéria conta que Martins “se diverte nas redes sociais atacando esquerdistas, feministas e globalistas, e também é fã de Steve Bannon, razão pela qual ganhou o apelido de `Sorocabannon´, graças às suas origens na cidade brasileira de Sorocaba”. Também lembra que o consultor acusou meios estadunidenses como o canal de notícia CNN e o diário The New York Times de cumplicidade com uma campanha de engenharia social para promover a pedofilia.

No caso de Roberto Alvim, um dos principais responsáveis pela política cultural do governo de Bolsonaro, o The Guardian afirma que “apesar de já ter recebido um prêmio por uma produção de “O Quarto”, antes de ser nomeado secretário de cultura, ele era mais conhecido por insultar a grande dama do teatro brasileiro, a atriz indicada ao Oscar Fernanda Montenegro, como `esquerdista sórdida´”. Também fala sobre como a conversão de Alvim à religião evangélica o transformou em um bolsonarista incondicional. “Em postagens recentes no Facebook, ele critica os oponentes de seu líder, chamando-os de `baratas ordinárias´, ataca o `bastardos do Greenpeace´ e acusa o mundo artístico `podre e demoníaco´ do Brasil por `repudiar Bolsonaro injustamente´”.

No caso de Sérgio Camargo, nomeado para a administração da Fundação Palmares, a reportagem lembra que seu cargo tem como missão promover a cultura negra no Brasil, para mostrar que tal tarefa é incompatível com “uma figura que afirma que o Dia da Consciência Negra deve ser descartado, e considera que muitas das celebridades e artistas negras mais conhecidas do país são `parasitas da raça negra´”. Também mostra como, em suas redes sociais, Camargo se descreve como um “negro de direita” que se opõe à “vitimização e ao politicamente correto”, e considera que “a escravidão era terrível, mas terminou sendo benéfica para os descendentes”.

Finalmente, no caso de Dante Mantovani, nomeado para presidir a Funarte (Fundação Nacional das Artes), a reportagem conta que “o novo encarregado das políticas de artes visuais, música e dança alega que a União Soviética se infiltrou na CIA para distribuir LSD em Woodstock”, e lembra de suas declarações dizendo que “o rock promove as drogas que ativam o sexo, e assim alimenta a indústria do aborto”, e que “John Lennon havia dito que fez um pacto com o diabo”.

A reportagem traz outra declaração do jornalista Mauro Ventura, questionando o grupo de nomeados: “eles parecem ter sido escolhidos pelo seu QI: isto é, seu quociente de imbecilidade, incapacidade, idiotice, incompetência ou impiedade”. Por sua parte, a especialista brasileira Monica de Bolle disse que a indicação desses nomes reflete a natureza “totalmente louca” do governo “fundamentalista” de Bolsonaro. “Eles não estão procurando pessoas que tenham conhecimento, mas pessoas que são leais”, comentou a analista internacional.

Leia a reportagem completa no The Guardian (em inglês)


Balanço da década: o Brasil e a China



Luiz Felipe de Alencastro

Nesta virada de ano, reportagens da mídia nacional e estrangeira apresentam retrospectiva dos últimos dez anos e, às vezes, das duas primeiras décadas do século. Há várias maneiras de tratar o assunto. Penso, entretanto, que a irresistível ascensão da China marca as duas décadas passadas. Numa reportagem de outubro de 2018, a revista Economist foi mais longe, "manchetando", que o século 21 é o século da China. A revista se referia aos avanços da China, tanto no plano interno como no cenário internacional.

Mas no Brasil também se pode apontar o impacto transformador da presença chinesa. Nos anos 2000 o comércio sino-brasileiro aumentou acentuadamente e, em 2009, a China se tornou o primeiro parceiro comercial do Brasil, conservando a primazia ao longo da última década. Na sequência de uma alta de preços suscitada pela pantagruélica demanda chinesa, os principais produtos nacionais exportados para a China são commodities agrícolas e minerais.

De 2019 para 2020
Como resultado, houve apreciação do câmbio, aumento das importações de bens industriais e desindustrialização. Assim, o aumento das trocas com a China corresponde à diminuição da complexidade da economia, isto é, da diversidade e da sofisticação da estrutura produtiva brasileira. Num detalhe que resume os paradoxos da relação Brasil-China e ficará com um dos fatos marcantes da década, no dia 19 de outubro de 2019, a FIESP -, maior instituição representativa da indústria nacional -, cobriu seu prédio da avenida Paulista com a projeção da bandeira chinesa, comemorando o 70° aniversário da revolução comunista e da entrada das tropas de Mao Zedong em Beijing.

A força gravitacional da economia chinesa também incide sobre os eixos logísticos e territoriais brasileiros. Vira e mexe, surgem projetos de abertura de uma rota transcontinental, unindo um ou vários portos brasileiros a portos peruanos ou chilenos. Sob o impulso dos capitais chineses, um dia a Estrada do Pacífico será escavada, reduzindo o custo e tempo do transporte de mercadorias entre o Brasil e a China. A produção de soja e de carne do centro-oeste e norte brasileiro ficará mais perto das crescentes cidades chinesas. Na realidade, o norte do Brasil já está sendo impacto pela nova geopolítica dos oceanos gerada pela mudança do eixo econômico do Ocidente para o Oriente. A abertura da navegação comercial entre a Europa e o Extremo Oriente pelo oceano Ártico, iniciada em 2013, que reduz de 48 para 35 dias a viagem entre os portos do nordeste da China e Roterdã, levou à modernização do Canal de Suez (2015) e do Canal do Panamá (2016). Desde logo, as exportações pelo norte do Brasil tendem a crescer regularmente, sobretudo quando for concluída a ferrovia norte-sul e o chamado Arco Norte, incluindo porto fluviais e marítimos da Bahia, Pernambuco, Maranhão e Amazonas. Pela primeira vez, desde a criação do Estado do Grão Pará e Maranhão, concebido em 1621 como entidade autônoma da América Portuguesa, no contexto da política filipina envolvendo as quatro partes do mundo, o comercio externo, e essencialmente o comercio marítimo, rearticula a geografia econômica da totalidade do território nacional.

Dei destaque à China e em outros tópicos que abordei nas minhas colunas, numa emissão recente do programa Painel da GloboNews. Com Renata Loprete, Matias Spektor e Jorge Caldeira fizemos o balanço da década.

Esta é a minha última coluna no UOL na qual comentei, ao longo das duas décadas, de França, Estados Unidos e Brasil a União Europeia, a geopolítica dos oceanos, a demografia e a política internacional. Agradeço aos internautas que me ouviram na primeira fase nos videocasts e nos últimos anos me leram nesta coluna. Continuarei comentando os mesmos temas na mídia social (@alencastro_f) e alhures. A todos, desejo bons anos vinte.

A farsa da fakeada continua sem nenhuma investigação



Xadrez da facada de Adélio, o enigma político da década, que permanece sem solução


A facada de Adélio Bispo Oliveira  em Bolsonaro ainda é um mistério à procura de uma explicação. É o fato político mais importante da década, porque viabilizou uma mudança radical na política brasileira.

Os efeitos políticos da facada nas eleições eram tão óbvios que, no dia seguinte, Bolsonaro já havia se tornado o franco favorito.

Seria possível simular um atentado tão arriscado, a ponto de a vítima correr um risco de vida calculado para viabilizar um projeto político?

Há duas versões para o atentado.

  • A versão oficial é que um sujeito, desequilibrado óbvio, decidiu matar Bolsonaro e foi mal-sucedido.
  • A versão conspiratória é que foi um ato planejado visando garantir a vitória eleitoral de Bolsonaro.
Bolsonaro comparecia a todos os eventos com um colete à prova de balas e de facadas e tinha uma cirurgia marcada, para remover um câncer. Portanto, bastaria simular a facada, conduzir Bolsonaro com segurança a um hospital local e depois transferi-lo para um hospital em São Paulo, para efetuar a cirurgia contra o câncer.

Após o atentado circularam vídeos pelas redes sociais mostrando a extraordinária desenvoltura com que Adélio infiltrou-se pela multidão e passou pelos seguranças até enfiar a faca em Bolsonaro.

Há um complicador nessa versão: o fato de duas equipes de hospitais conceituados, a do Sírio Libanês e a do Alberto Einstein. Ambas foram a Juiz de Fora e Bolsonaro optou pelo atendimento no Alberto Einstein.

Há uma explicação para o ferimento: a de que a faca resvalou por uma brecha no colete, ferindo efetivamente Bolsonaro. O que seria, nessa versão, um acidente de percurso.

Entre essas duas hipóteses, há uma série de evidências que não batem com a versão do crime comum bancado por um psicopata.

São os seguintes fatos.

  1. A ida anterior de Adélio ao Clube de Tiro frequentado por Eduardo Bolsonaro.
Como um sujeito limítrofe, que trabalhava em um açougue, localiza o clube de tiro em Santa Catarina e vai até lá. E vai para quê? Até agora não houve uma resposta satisfatória.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foi até lá combinar os detalhes do atentado: 70% de probabilidade
  • Hipótese 2 – Foi até lá para conhecer o ambiente de treinamento do filho de Bolsonaro, sabe-se lá para quê: 30% de probabilidade
  1. A ida de Adélio à Câmara Federal para uma visita a um deputado do PSOL.
O sujeito, que hipoteticamente planeja um crime de repercussão nacional, vai até a Câmara e deixa um registro oficial de visita a um parlamentar do PSOL. Depois, se descobre que ele nunca teve nenhuma relação com o PSOL.

Análise de probabilidade:

  • Hipótese 1 – foi com a intenção de criar um falso vínculo com o PSOL para estabelecer uma motivação política para o atentado: 50% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – tinha uma simpatia política pelo PSOL: 50% de probabilidade.
  1. O papel dos advogados de defesa.
Da noite para o dia aparecem advogados de Belo Horizonte, indo de jatinho a Juiz de Fora, para defender Adélio. Fazem mais do que isso: isolam-no completamente de qualquer contato com a imprensa. E demonstram tal influência, que conseguem manter o isolamento total até hoje.
Ou foram bancados por grupos bolsonarista, visando manter Adélio a salvo da óbvia falta de vontade de cobertura da mídia; ou por grupos ligados à Igreja de Adélio, que jamais foram identificados.
Tempos depois, o deputado federal Fernando Francisquini, uma das pontas de lança do bolsonarismo, entrou com ação na Justiça para impedir Adélio de dar uma entrevista.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foram bancados por grupos bolsonaristas: 70% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – foram bancados por grupos que queriam a morte de Bolsonaro: 25% de probabilidade. Se houvesse qualquer indício de conspiração contra Bolsonaro, não haveria como não ser descoberta.
  • Hipótese 3 – foram bancados por grupos ligados à igreja de Adélio: 5% de probabilidade.
  1. O papel da Polícia Federal.
As investigações concluíram pela ação individual de Adélio. Bolsonaro reagiu com fúria, não aceitando as conclusões do inquérito – mas nada fez para avançar nas investigações.

Não bate. O presidente controla completamente a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Qual a razão, até agora, para jamais ter se chegado aos financiadores dos advogados de Adélio? Respeito às prerrogativas de advogados? Com Sérgio Moro? Conte outra!

O carnaval de Bolsonaro, exigindo novas investigações, criticando o fato de não se chegar aos financiadores dos advogados, não bate com o poder de polícia quase ilimitado de seu Ministro da Justiça. Se houvesse vontade política, o caso seria resolvido e a identidade de quem contratou os advogados seria levantada em dois tempos. E não haveria nenhuma força oculta capaz de demovê-lo dessa empreitada. Não se levantaram os nomes dos responsáveis porque não é de interesse de Bolsonaro levantar. Simples assim.

A versão da conspiração contra Bolsonaro seria muito complexa de administrar porque envolveria outros personagens e situações, incluindo inúmeras variáveis que poderiam ser desmentidas, em qualquer falha de narrativa. Apontar Adélio como único responsável resolveria a questão e mataria qualquer tentativa de aprofundar o inquérito.

Análise de probabilidade.

  • Hipótese 1 – ocultar as motivações políticas pró-Bolsonaro: 70% probabilidade.
  • Hipótese 2 – aceitar como verdadeiras as conclusões do inquérito, de ação individual de um alucinado: 30% de probabilidade. `
Pode ser que tudo não passe uma teoria da conspiração. Mas a sucessão de fatos sem respostas sugere que há mais segredos entre o céu e a terra do que supõe a vã teoria dos idiotas da objetividade.

Mais um ano maravilhoso


No centenário de Asimov, suas ideias nunca foram tão atuais


Escritor criou as três leis da robótica, que pautam discussões éticas até hoje 
Salvador Nogueira

Não seria exagero dizer que ele foi um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. Mas o que mais impressiona no legado de Isaac Asimov (1920-1992), no centenário de seu nascimento, é a presciência e a relevância.

Autor e editor de mais de 500 livros, muitos voltados para a divulgação científica, Asimov previu com notável precisão muitos dos elementos tecnológicos e sociais de nossa época, com décadas de antecedência. Além disso, usou de sua ficção para introduzir discussões éticas relevantes para nossos dias, e mais ainda para o futuro.

Nascido em Petrovichi, na Rússia, em algum dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920 (esta última data a adotada pelo próprio para seu aniversário), Asimov era filho de um casal de judeus russos que trabalhava em moinhos. A família mudou-se para os EUA em 1923. Nunca aprendeu russo.

Formou-se em química em 1939, depois de abandonar o curso de zoologia em protesto pela dissecção de um gato. Doutorou-se em química e tornou-se professor de bioquímica da Universidade de Boston em 1949. Mas sua maior paixão era pela escrita. Seu primeiro conto saiu em 1939.

Marcado pela presença da robótica em sua ficção (palavra que ele cunhou), sua maior contribuição ficcional para o mundo real talvez sejam as três leis da robótica, código de ética implantado em inteligências artificiais para impedir que os robôs prejudicassem os humanos. Apresentadas no conto “Runaround”, de 1942, elas dizem o seguinte:

Primeira Lei: um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; Segunda Lei: os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

“Mesmo longe desse futuro vislumbrado por Asimov, as três leis da robótica são tidas como a base de um código de ética para qualquer máquina inteligente e autônoma que preste algum auxílio aos seres humanos”, diz Cassio Leandro Barbosa, astrônomo da FEI (Fundação Educacional Inaciana), em São Bernardo do Campo (SP).

“Eu diria que a primeira lei merecia discussões mais aprofundadas”, analisa Alexey Dodsworth, autor brasileiro de ficção científica e filósofo da ciência. “O que não falta na internet são robôs virtuais que induzem humanos a cometer erros. Isso quando não são esses mesmos robôs os responsáveis por ataques em massa e linchamentos a pessoas reais —basta ver o que acontece quando você decide criticar alguém poderoso que controla os robôs.”

Para Dodsworth, “ou seguimos as leis de Asimov, ou iremos nos destruir, e os robôs não terão culpa, já que os programamos sem os imperativos éticos propostos pelo escritor.”

De fato, organizações voltadas à inteligência artificial têm realizado reuniões para definir um código de ética para pesquisas no segmento, uma das potenciais ameaças existenciais que a humanidade enfrentará no século 21.

De forma marcante, a ficção científica de Asimov é quase totalmente livre de alienígenas. “Em mais de uma ocasião, Asimov foi acusado de ser excessivamente antropocêntrico em sua produção ficcional”, diz Dodsworth. “Talvez Asimov tenha feito uma aposta na perspectiva mais pessimista da equação de Drake, que pretende calcular a probabilidade de existência de vida inteligente na galáxia: seríamos apenas nós.”

Seu maior legado como autor é a série Fundação, um conjunto de livros que compilam contos ambientados num mesmo universo ficcional e retratam o futuro longínquo da espécie humana.

Durante os anos 1950 e 1960, Asimov dedicou boa parte do seu tempo a escrever livros de popularização da ciência, motivado em parte pelo lançamento do Sputnik, em 1957. “Fui tomado por um ardente desejo de escrever ciência popular para uma América que poderia estar em grande perigo por sua negligência com a ciência”, escreveu, em 1969.

Seus livros influenciaram gerações a se interessarem por ciência e entenderem que é com ela que se pode construir um futuro próspero.

A incompreensão da ciência que ele combateu em vida tornou sua morte um episódio nebuloso. Em 1977, Asimov teve um ataque cardíaco. Em 1983, foi submetido a uma cirurgia de tripla ponte de safena; com uma transfusão de sangue durante o procedimento, contraiu HIV.

Aconselhado pelos médicos a não revelar sua condição por conta do preconceito anti-Aids da época, que poderia iria se estender a seus familiares, ele jamais revelou o diagnóstico. Morreu em 6 de abril de 1992, por complicações causadas pelo vírus. Sua obra, contudo, permanece.

O núcleo intelectual do governo


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Quantos anos a gente voltou só no ano passado?

Gregorio Duvivier

As últimas eleições foram marcadas pelo saudosismo. “O Brasil feliz de novo”, dizia o slogan do PT, mas poderia ser todos os outros partidos. Todos concordavam: 1) que o Brasil não estava feliz, e 2) que a chave pra felicidade estava no retorno a algum passado. Só restava debater qual seria o ano de destino da nossa máquina do tempo.

Haddad queria voltar pros anos Lula, Bolsonaro queria voltar pros anos Geisel, Alckmin queria voltar pros anos FHC, Meirelles queria voltar pros anos Temer, Álvaro Dias queria voltar pro sarcófago. Acredito que cada um queria voltar pra época em que, pessoalmente, foi mais feliz. Marina, pra ser justo, tinha um projeto pro futuro, mas ninguém entendeu qual era. Ciro, na verdade, também tinha planos: planejava viajar pra Paris assim que terminasse aquilo tudo.
Catarina Bessell

Tantas vezes no passado visto como o país do futuro, o Brasil acabou se tornando o país do futuro do pretérito. A renda que deveria ter sido distribuída, a terra que seria repartida, a vida inteira que poderia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.

Hoje só nos é permitido sonhar com o passado —aquele tempo em que ainda era possível sonhar com o futuro. Confesso que tenho saudade da época em que acreditava que o melhor estava por vir.

O futuro, ao que parece, foi cancelado —junto com Monteiro Lobato e a calça saruel. Já não se faz mais futuro como antigamente. Faz um tempo que os anos têm corrido para trás.

Não foi do dia pra noite. Você deve ter percebido que os anos começaram a passar mais rápido. A Simone começou a cantar em setembro. Resultado: 2012 durou só uns 8 meses. 2013, em contrapartida, durou um só —precisamente o mês de junho. 2014 durou o tempo de uma partida de futebol —a Alemanha fez sete gols e pronto, acabou o ano, a vida, o país.

Foi a partir de 2015 que tudo começou a passar tão rápido que a duração dos anos foi negativa. Terminávamos os anos antes do começo. No final de 2015 estávamos em 2010, e com o impeachment de 2016 voltamos pra 2002. O MDB no poder em 2017 nos levou de volta a 1985. E a eleição de Bolsonaro em 2018 jogou a gente pra 1964.

Agora, no final de 2019, chegamos aos anos 1930. Grupos integralistas promovem atentados pra barrar a ameaça comunista. O slogan do governo, “Brasil acima de tudo”, é a tradução perfeita de “Deutschland Über Alles”. Assim como naquela década, o mundo está se dividindo em dois, e a gente tá pendendo pro lado errado.

2020 começa hoje. Vamos inventar um futuro e, se tudo der certo, esse ano só termina no ano que vem.

Mais crescimento em 2020


Primeiro ano de Bolsonaro foi triplo O, de um governo opaco, omisso e oculto


Conrado Hübner Mendes
Um ano atrás, perguntávamos se a 'nova era' trazia risco à democracia; um ano depois, essa pergunta perdeu sentido
Teorias conspiratórias, teorias estapafúrdias e notícias falsas são os produtos que Jair Bolsonaro tem para vender no mercado político.

Não há assessor que o civilize ou modernize, pois ele se cerca de iguais. E dos filhos.

Foi assim nos seus 30 anos de carreira parlamentar; foi assim, com mais potência e coordenação, na sua campanha. Como presidente, não se pode esperar outra coisa: seu primeiro ano de governo confirmou o que prometia.

Tantas as inusitadas fantasias que algumas caem no esquecimento. Gosto daquela que denunciava o “Triplo A” como ameaça à soberania nacional. Tudo porque um antropólogo colombiano, certo dia, sugeriu que o corredor ecológico formado por Andes, Amazônia e Atlântico tivesse gestão cooperativa pelos países respectivos. Para o bem do fluxo da biodiversidade entre os três ecossistemas, propunha.

Com base nisso, Bolsonaro defendeu sair do Acordo de Paris e cancelou a COP-25 no Brasil, o maior encontro internacional sobre política climática. As fantasias podem trazer dividendos políticos, mas também cobram seu preço. Um desses preços é a ironia.

Uma síntese possível desse primeiro ano se encerra na fórmula do Governo Triplo O: opaco, omisso, oculto.

Opaco em razão das restrições à transparência, à livre informação e ao conhecimento. A cultura do sigilo e do apagamento se instalou em diversos ministérios (sigilo sobre gastos de viagens, cartão corporativo, contratos governamentais, agendas oficiais, gastos com publicidade da reforma da Previdência, dados sobre enxugamento do Bolsa Família etc). 

Um governo que esconde e disfarça, mas grita para desviar a atenção.

Omisso diante de problemas que requerem ação governamental competente, oportuna e não sectária. O governo investiu na redução da capacidade estatal e na deterioração de políticas públicas. O fogo na Amazônia e o óleo na costa, crises que não terminam, foram os exemplos mais visíveis. 

As 37 denúncias por violação de direitos humanos na ONU, o desmonte do combate à tortura ou a paralisia do Ministério da Educação dão outras pistas.

Oculto pelas ações paraestatais que o governo incentiva e legitima: na esfera pública, com a promessa e efetivação do perdão a milícias urbanas e rurais que instituem o “governo com as próprias mãos”, e na esfera privada, com o incremento das microagressões e de crimes de ódio.

Dos grileiros que desmatam floresta e assassinam indígenas à patrulha ideológica contra professores; da indústria de disseminação de informações falsas à do assédio de reputações e de ameaças de morte; do terrorismo cristão que tradicionalmente ataca religiões de matriz africana ao terrorismo cristão que mira em humoristas: o bolsonarista da esquina é agente de um governo terceirizado. Não é temente à lei, mas diz ser temente a Deus.

Poderíamos imaginar outros O’s para aperfeiçoar a radiografia: ocioso (que tem preguiça da ginástica da articulação política no Congresso, vítima da soberba que Fernando Limongi chamou de “presidencialismo do desleixo”); obtuso (que publica juízo estético sobre esposa de presidente francês, que não perde a piada do “cearense cabeçudo” ou o “paraíba”); onanista (metáfora autoexplicativa).

O Triplo A é uma paranoia fabricada para distrair. O Triplo O é o tipo de governo que fabrica a paranoia.
Um ano atrás, perguntávamos se a “nova era” trazia risco à democracia. Um ano depois, essa pergunta perdeu sentido. 

O processo está em curso e tem nos restado perguntar onde está a linha vermelha, se o ponto de não retorno está longe ou perto.

Analistas têm concordado que a boa notícia de 2019 é que as instituições “têm resistido”. Tecem elogios ao Congresso e à ascendência de um primeiro-ministro extraoficial nesse “parlamentarismo branco”. 

Alguns céticos ainda perguntam se as instituições resistirão por mais três anos. Ou por mais sete. A avaliação otimista corre o risco de perder de vista o que não foi resistido e a magnitude das derrotas. Parece subestimar, acima de tudo, o jogo da autocratização lenta, gradual e segura.

O império estrebucha e cospe fogo em 2020



Nilson Lage

O impasse do mundo que prossegue em 2020 tem raízes e paradigmas conhecidos. Sempre que a economia se desloca do mercado de produtos para o mercado do dinheiro, do consumidor e do produtor para o acionista. ocorre a recessão.

Como todos querem dinheiro depressa, as ideias se acumulam nas bibliotecas a na memória dos computadores, porque inovar implica investimento demorado, contínuo e incerteza quanto a resultados.

Foi o caso da recessão do final do século XIX, comandada por banqueiros ingleses, durante a qual se conceberam o rádio. a televisão, os aviões, os foguetes espaciais, a arquitetura despojada, a assepsia e a cientificação da medicina. Tudo isso apenas prosperaria na fase econômica seguinte, após os choques da Primeira e, principalmente, da Segunda Grande Guerra.

Por que, do ponto e vista do investidor, apressar a digitalização do som e da imagem antes de esgotar as possibilidades do vinil e do filme? Essa pergunta, que se colocou no final da década de 1970 -- quando tudo que a informática e as telecomunicações por via espacial proporcionam hoje era previsível -- explica o retardo de vinte anos na implantação em escala global das redes de computadores e da Internet.

Já então, nos anos 1970-1980, formava-se a equação que freia o desenvolvimento das potencialidades sociais e humanas no Ocidente e em sua área de influência. A globalização foi pensada como instrumento para esse fim: a legislação internacional para quase tudo, as organizações não governamentais e, na prática, a extraterritorialidade do poder administrativo e judicial dos Estados Unidos.

Na mesma época, para conter o inimigo da vez, a União Soviética, os americanos concederam condição de nação privilegiada à subdesenvolvida China, com seu estranho projeto nacional confúcio-comunista.

A China, hoje, não só prosperou aceleradamente como impulsionou as economias vizinhas e se dispõe a fazer exatamente o que os Estados Unidos, com sua elite de banqueiros e seu capitalismo entrópico, já não conseguem: criar infraestrutura para um novo padrão tecnológico e uma rede comercial planetária -- tudo isso aplicando a mais avançada ciência disponível.

Como o Império Romano, os EUA espalharam por todo o mundo suas legiões, que pouco lhes servem; sua defesa é, hoje, baseada no domínio que ainda detêm da informação e do universo simbólico dos povos.

O fascismo de um Bolsonaro ou de um Trump, a negação da ciência, o fanatismo e o arcaísmo expressam medo da superação do modelo de dominação anglo-americano; não, me parece, do capitalismo em si, que avança, disciplinadamente, subordinado às diretrizes do Partido Comunista chinês, maestro de uma aventura planetária em que a ideologia das partes importa pouco ao todo.

Mais um ano que acharíamos interessante, se vivêssemos em Marte.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Feliz Ano Novo?


Difícil arranjar algo para dizer do ano que está terminando.

Como em qualquer ano, todos nós tivemos nossos quinhões pessoais variados de alegrias e de frustrações, de encontros e de perdas. Mas, nas felicidades e nas tristezas, sempre fomos acompanhados por uma sombra chamada Brasil.

Foi um ano - mais um - de destruição acelerada do país. Um ano em que nos tornamos mais brutos, mais atrasados, mais desiguais, mais subalternos. E em que nossa capacidade de resistência se mostrou, de novo, muito aquém do necessário.

É essa a nossa história, afinal. Uma história de vitórias populares, quando as há, tímidas e cheias de ambiguidades. E derrotas maiúsculas, avassaladoras.

O Brasil, em suma, parece que conspira para nos deprimir.

O que posso desejar para 2020 é não sucumbir a esse sentimento. É lembrar de, a cada passo, olhar para os lados e ver esse tantão de gente forte, de gente digna, de gente com o coração do lado certo do peito e a mente afiada, buscando o caminho que nos devolva a esperança.

Obrigado a todas e todos - mesmos aqueles com quem posso ter divergido fortemente em algum ponto do percurso - que mantêm a luta nas trincheiras da democracia.

Que 2020 seja de muita luta. E que nos brinde com algumas vitórias, já que ninguém é de ferro...

Quasímodo


Leandro Fortes

Para manter de pé uma agenda econômica que prevê a destruição do patrimônio público nacional e a retirada de direitos em série do trabalhador brasileiro, a mídia e a classe média idiotizada por ela mantêm no poder um demente que torce a cabeça de uma criança, na praia, e depois coça o saco, para o mundo todo ver.

Bolsonaro tem um método de construção de imagem popular baseada na premissa estúpida de que os pobres são, majoritariamente, imundos, como ele.

Não se trata apenas de uma questão estética, embora a combinação de chinelões e unhas podres, exibida como supra sumo da simplicidade presidencial, seja mais que lamentável. 

Trata-se, sobretudo, de um deficit de higiene - física e mental - levada ao paroxismo do absurdo. 

Bolsonaro, nesse campo, governa diretamente para a massa de analfabetos políticos gestados à margem da ciência e dos bom modos. Estes, ativados, na campanha eleitoral de 2018, pelo bombardeio de fake news que ajudou a elegê-lo.

Para essa gente, esse homem de aparência grotesca e modos de brucutu é - e, pelo jeito, sempre será - um mito.

Moda 2020


As candidaturas avulsas e o fracasso do PSOL


Luis Felipe Miguel

Áurea Carolina co-assina artigo em defesa das candidaturas avulsas - chamadas, a meu ver cachorramente, de "candidaturas cidadãs". Por quê? Partidos não podem representar a cidadania?

O argumento é que esses candidatos, que se agrupariam em listas de avulsos, teriam melhores condições de representar minorias - mulheres, indígenas, LGBTs etc.

Ninguém nega que as estruturas partidárias em geral impõem obstáculos a integrantes de grupos minoritários. Mas a solução é implodir os partidos?

Quem mais ganha com a personalização da disputa e a ausência de compromissos programáticos abrangentes, que as candidaturas avulsas promovem? Não há dúvida: as celebridades da mídia e os donos do dinheiro.

É isso que nós queremos? Uma representação política tomada por artistas decadentes e marionetes de milionários?

A filiação partidária impõe compromisso ao candidato, faz com que ele responda publicamente por um projeto que o transcende. O controle das direções partidárias sobre a apresentação de candidaturas, com todos os problemas que tem, força negociações e é um freio às ambições dos detentores de visibilidade pública ou capital econômico.

Com as candidaturas avulsas, tudo isso, que no Brasil já é muito frágil, desapareceria de vez.

Os grandes ganhadores seriam as iniciativas de captura empresarial da política, tipo RenovaBR, Acredito, RAPS. É a porta aberta para a tabatização geral da política, em benefício de lemmans e hucks.

No Congresso, esse contingente de eleitos "soltos", comprometidos apenas com a própria carreira, desorganizaria de vez os trabalhos parlamentares - que têm os partidos como unidade fundamental.

Áurea Carolina deve saber do que está falando - afinal, tem formação em Ciência Política. É uma boa deputada, com registro consistente à esquerda. Mas esse entusiasmo com a candidatura avulsa é revelador de um mal que atinge uma parcela considerável de militantes da nova geração: personalismo excessivo, pouca disposição para o trabalho por excelência de construção coletiva que é o partido.

Este é o drama do PSOL. Cronicamente incapaz de cumprir seu "destino manifesto" - ser o sucessor do PT como porta-voz de uma esquerda anti-establishment e enraizada no movimento popular - parece sempre condenado a ser mais um guarda-chuva de porta-vozes de bandeiras progressistas do que propriamente um partido político.

Os que defendem 2013 são indefensáveis


Fernando Horta

Eu não entendi o choro a respeito das declarações do Lula sobre 2013.

Os que defendem 2013 acham que não houve participação externa nos "protestos"?

Os que defendem 2013 sustentam que o "movimento" gerou mudanças positivas no país?

Os que defendem 2013 certamente defendem o movimento de Taiwan contra a China, não é?

Os que defendem 2013 não enxergam nenhuma relação entre aquele junho e Bolsonaro?

Os que defendem 2013 sabem que em junho NENHUM indicador econômico era ruim?

Os que defendem 2013 sabem que pautas 2013 incitaram e que pautas não incitaram?

Os que defendem 2013 sabem como um movimento que inicia com o Movimento do Passe Livre de pauta municipal tirou 30% de aprovação do governo federal?

Os que defendem 2013 sabem explicar porque NUNCA MAIS o movimento do Passe Livre ou seus assemelhados conseguiram nada nem parecido, mesmo com uma situação econômica infinitamente pior como hoje?

Os que defendem 2013 como o "prenúncio da liberdade" no Brasil sabem explicar porque os ataques físicos na época a todos os movimentos de esquerda partidária que são relatados?

Os que defendem 2013 conseguem explicar porque foram as ÚNICAS manifestações populares que tiveram cobertura total da mídia até as do MBL? Teria a mídia se enganado e ajudado a "revolução brasileira"?

Os que defendem 2013 podem apontar expoentes de esquerda que surgiram naquele momento e hoje ocupam postos de representação na estrutura de governo?

Os que defendem 2013 são capazes de contar quantas lideranças de direita emergiram e estão atualmente eleitos a partir dos "gloriosos" movimentos de 2013?

Os que defendem 2013 não enxergam NENHUMA semelhança entre o junho de 2013 no Brasil e as "Revoluções coloridas" que ocorriam pelo mundo?

Há muitos e "doutos" textos na net de gente defendendo 2013. Todos os que li padecem de um mínimo de empiria para defender o "movimento" como meritório.

E 2013 foi, sem qualquer dúvida, o início da desestabilização da esquerda na América Latina e do neofascismo no Brasil.

Uma das pautas que o "junho de 2013" defendeu arduamente foi o arquivamento da PEC que regulava e continha os abusos do Ministério Público. Sem 2013, a Lava a Jato não teria destruído o Brasil.

O que de bom Bolsonaro produziu em seu 1º ano de governo?


Ranier Bragon
O ano 1 do mandato de Jair Messias Bolsonaro irá merecidamente entrar para a história como um dos mais lastimáveis que já vivemos.
Então, é 2020! Quer dizer, quase, o que nos permite uma última olhada neste impagável 2019.

O ano 1 do mandato de Jair Messias Bolsonaro irá merecidamente entrar para a história como um dos mais lastimáveis que já vivemos. Os ataques a pilares da democracia, à ciência, à história, à diversidade, à civilização e ao bom senso em geral encontraram um terreno fértil na idiotia das redes sociais e nos gabinetes do Executivo, em Brasília.

Como isso não é novidade pra ninguém, permito-me neste último dia de 2019 praticar exercício reverso, o de tentar vislumbrar o que de bom o bolsonarismo produziu no ano.

Seria muito mais divertido, é verdade, ficar apenas na lista precedida da advertência “contém ironia”.

Ou não foi espetacular a sonhada e esperada abertura da caixa preta do BNDES que qualquer um já podia acessar pela internet? Ou a pedagógica discussão nacional-carnavalesca sobre o golden shower? Ou a descoberta, pelo menos da minha parte, e aqui quase ironia não há, de como há mais sensatez do que podia imaginar em figuras como Alexandre Frota, Janaina Paschoal e o general Mourão? Ou, termino por aqui, a lista é interminável, a celebrável constatação de que, devido ao que passamos a saber, jamais poderemos voltar a usar, sem a advertência “contém ironia”, o termo “filósofo” associado a Olavo de Carvalho.

O que de bom o bolsonarismo produziu até aqui está, sem ironia, na reação provocada. Artistas, cientistas, educadores e tantos e tantos outros não se curvaram (tudo bem, alguns, sim). A homofobia virou, enfim, crime. O Judiciário e o Congresso, com todas as suas mazelas, barraram até o momento a institucionalização do retrocesso civilizatório —no caso de Câmara e Senado, conduziram inclusive coisas que o governo mais atrapalhou que ajudou, como a reforma da Previdência.

Coquetéis molotov foram e continuarão sendo jogados pelos talibãs da nova ordem. Resistir será a prova definitiva da solidez da nossa democracia😂 e das nossas instituições.

Olavo de Carvalho, o oráculo da idiotia brasileira


Moisés Mendes

LETÍCIA E O OGRO

Todo mundo já sabe, de Camaquã a Ibicuitinga, que a jornalista Letícia Duarte foi chamada de vagabunda, mentirosa, maliciosa, idiota e puta, durante entrevista com Olavo de Carvalho para um perfil publicado agora pela revista The Atlantic.

O sujeito estava irritado com um texto anterior de Letícia sobre a figura grotesca do entrevistado. Olavo queria ser melhor retratado.

Muitos podem perguntar: mas como alguém continua a conversa depois de tantas agressões? Um alguém poderia cair na armadilha e ir embora. Não Letícia Duarte.

Quem acompanha o que ela faz sabe que não desistiria tão facilmente. Eu sei porque leio quase tudo que Letícia escreve, desde quando era foca e muitos anos antes de se mudar para os Estados Unidos (mora agora em Nova York e faz mestrado na Columbia).

Posso dizer que sei também porque conheço Letícia. Se fosse mais exibido, diria que trabalhei com Letícia na mesma redação de Zero Hora.

Mas não vou dizer nada disso, nem que tomávamos café juntos e que eu me lembro da sua alegria quando conquistou o primeiro prêmio nacional.

Digo apenas o que todos já sabem, que Letícia é um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro hoje. Está na área de comentários o link para uma reportagem que ela fez com refugiados sírios em 2016.

É daquelas maratonas que te deixam exaustos só de pensar como uma aventura como essa (incluindo a aventura do próprio jornalista) começa e como parece que nunca termina.

Essa é a minha amiga Letícia Duarte, que pôs, não o dedo, mas seu texto forte na cara do ogro Olavo de Carvalho, o oráculo da idiotia brasileira.