segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Moro e Onyx são humilhados por um chefe insaciável


Moisés Mendes

Esta é a semana para Sergio Moro e Onyx Lorenzoni se encontrarem em algum corredor do poder, para que um chore no ombro do outro por tudo que já fizeram por Bolsonaro e pelo que já perderam e ainda devem perder no governo.

Os dois são os subalternos mais humilhados por Bolsonaro. Onyx, que desafiou o próprio partido, o DEM, ex-PFL, para apoiar Bolsonaro desde o início, que coordenou a campanha, que chefiou a equipe de transição e assumiu a bronca da articulação política de um governo desgovernado, que deveria comandar as parcerias com as empresas amigas, perdeu tudo e passa a ser um zumbi do mesmo nível de Sergio Moro.

E Moro é o juiz que largou a vida boa de Curitiba, com unanimidade de todos os golpistas, e foi atraído por Bolsonaro para uma armadilha. Seria ministro da Justiça, para emprestar reputação ao governo, e depois ocuparia o lugar de Celso de Mello no Supremo.

Moro pode ser ex-juiz, ex-ministro da Justiça, ex-chede da Polícia Federal e ex-candidato a uma vaga no Supremo, tudo nos próximos meses.

A diferença entre Moro e Onyx é que Onyx tem um mandato de deputado pelo ex-PFL e Moro não tem nada, só tem a perspectiva ainda vaga de vir a ser candidato em 2022.

Moro disse esses dias em conversa com os humoristas do Pânico que pode ir para a iniciativa privada. O ex-juiz repete essa história sempre que tenta dizer que tem outras saídas.

Iniciativa privada pode ser a abertura de uma banca de advogados com amigos de Curitiba como pode ser um emprego com carteira assinada, no modelo intermitente, em alguma empresa que apoiou a Lava-Jato, ou seja, em qualquer grande corporação.

Sergio Moro e Onyx estão com a cara do assustado. Eles que sabem que, se Bolsonaro soltar os filhos da coleira, os dois serão comidos.

Os filhos de Bolsonaro já comeram Gustavo Bebianno, Joice Hasselmann, delegado Valdir, Alexandre Frota e seis generais. Se forem atiçados, comem Moro e Onyx.

Moro sabe que as pesquisas sobre sua popularidade são perigosas. Uma coisa é ser popular sob a asa de Bolsonaro, apresentando-se como caçador de bandidos, e outra é ser entregue ao mundão da política, nas mãos do pessoal do podemos, do talvez possamos e do nem sempre se pode.

Os articuladores do novo partido de Bolsonaro apresentaram seu nome num evento no Rio como sendo um dos líderes da Aliança pelo Brasil. Pode ser uma tática de Bolsonaro para empurrá-lo para o ringue e queimá-lo logo.

É estranho, porque o ex-juiz parece entregar tudo o que Bolsonaro espera dele, como a não inclusão do miliciano Adriano da Nóbrega, amigo da família, na lista de bandidos mais procurados do país.

E agora a Polícia Federal decidiu que não há nada de irregular na suspeita de lavagem de dinheiro dos negócios imobiliários milionários de Flavio Bolsonaro. Uma semana depois de Bolsonaro ameaçar tirar a PF do comando de Moro.

Mas Sergio Moro vai entregando e vai sendo cobrado, porque Bolsonaro o mantém sob cobrança permanente. O ex-juiz presta serviços a um chefe insaciável.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Pequim parece cidade-fantasma após surto de coronavírus, relata brasileiro


[RESUMO] Professor brasileiro que atualmente leciona na China narra suas impressões acerca da vida na capital do país que, em meio a medidas de segurança, parece uma cidade-fantasma após a eclosão do surto de coronavírus originado em Wuhan.
Na cantina universitária, não há quase ninguém. Sento-me numa mesa sozinho, mas logo vêm duas funcionárias da cozinha, sentam-se na minha frente, uniformes brancos e máscaras, alegres e simpáticas como boa parte do povo aqui. Nos cumprimentamos, a que está diante de mim arranca de uma vez sua máscara, reclamando que o elástico machuca a orelha, quase num gesto de desacato. Riem muito.

Entendo tudo, pois sofro do mesmo incômodo. Sinto orgulho de compartilhar a mesa com as camaradas da cozinha. Quase ninguém, contudo, testemunha esse encontro.

No metrô, numa plataforma espantosamente semivazia, de 11 passageiros que embarcam apenas dois não possuem máscara. “Isso porque não encontraram à venda, estoques esgotados”, comenta um amigo. Se a poluição do ar já levou parcela considerável dos cidadãos de Pequim a portarem máscara, o coronavírus de Wuhan generalizou o uso.

O alarme foi dado em 31 de dezembro passado, nesta capital da província de Hubei, com casos graves do que parecia surto de pneumonia. Detectado um novo vírus, a epidemia se expandiu rapidamente. Até 29 de janeiro, a China confirmou 170 mortes e 7.700 pessoas infectadas. Em torno da área de Wuhan, o governo praticamente confinou mais de 50 milhões de pessoas. Em Pequim, também, há restrições ao acesso a lugares de grande público.

A ironia é que a qualidade do ar tem estado muito melhor em Pequim do que foi há poucos anos. O sol desponta no inverno, coisa que era rara até recentemente, mas não há quase ninguém nas ruas para usufruí-lo. Capital de quase 24 milhões de habitantes, Pequim parece ter se tornado uma cidade-fantasma.

Onde está a turma de aposentados do tai chi chuan na pracinha aqui do bairro? Onde as mães e avós habituais nas praças, as crianças soltas no alarido típico das manhãs frias que antecediam o Ano-Novo lunar (25 de janeiro)?

Onde a mulher da vendinha, aquela que mantém seu negócio aberto até às 23h30, dona de olhar triste e sorriso belo, sempre a ver uma telenovela que parecia sem fim numa pequena TV erguida entre bananas e mexericas?

Enquanto isso, sigo no passo da multidão que ora se recolhe. Jamais aprenderei a cochilar, como os chineses fazem, nos vãos mais inusitados da cidade. Onde, Pequim, você de fato se esconde? No parque das “Montanhas Perfumadas” (Xiangshan), aqui nos arredores do extremo noroeste da cidade? Colinas extremamente belas na floração do outono, agora vazias, que serviram, durante a guerra de libertação nacional e a revolução popular, de refúgio para setor importante do Partido Comunista.

Seria no outro ponto extremo, a sudoeste, no parque arqueológico de Zhoukoudian? Mas ninguém mais parece, nesta megalópole, se importar com o “elo perdido” da cadeia evolutiva de nossa espécie. E, assim, presenciei, no início deste mês, um vazio no museu e no parque do Homo erectus pekinensis, muito antes da epidemia disparar.

Estávamos a cerca de 50 km do centro de Pequim, ainda no território da cidade, já na altura do sexto e último anel rodoviário que a envolve — são seis anéis que servem de referência geográfica para suas duas dúzias de milhões de moradores. Já poucos visitantes se atreviam ao museu do Homo pekinensis e ao parque amplo das escavações que começaram ali por volta de 1920 e se estendem até hoje. O restaurante popular do bairro, este sim, parecia bem mais animado.

No meio de uma quase cidade-fantasma, é incrível a rede de solidariedade que se estabelece. Estão proibidas expressamente visitas à Cidade Proibida, bem como a museus, parques e à Biblioteca Nacional. Acesso ao campus da Universidade de Pequim está vetado, por ora, a visitantes externos (para se ter ideia, eram cerca de 2.000 visitas agendadas, em média, por dia).

Se você possui cartão, pode ingressar, desde que passe por check-in de temperatura corporal na portaria. O calendário escolar de reinício das aulas foi adiado em todas as escolas, inclusive universidades, por tempo indeterminado.

Assim como prolongou-se o feriado do Ano-Novo lunar para retardar retorno e trânsito da população. A data é a grande festa chinesa, a mais tradicional do país, na qual os cidadãos se reúnem com seus parentes, o que desencadeia o maior movimento migratório em torno de um só evento no mundo. As medidas podem parecer excessivas para quem está do outro lado do globo, mas são necessárias em função da escala demográfica considerada e da imensa população chinesa: quase 1,4 bilhão de pessoas.

Falei em solidariedade. Ela me tem sido comprovada, diariamente, pelos contatos e mensagens que recebo de colegas e alunos. Ela já está presente sem precisar dizer. Bastam entreolhares sobre as máscaras. Sinais amigos acionados para que recebamos, com toda a alegria que o novo ano promete, a aluna Huang-Olívia, única moradora de Wuhan na turma para quem dou aulas.

Volto dias depois à cantina. Das duas funcionárias, uma delas senta de novo à mesa comigo. Sobram espaços e parece que já formamos um time. O refeitório continua vazio. Acabo meu almoço antes dela. Levanto com minhas coisas e bandeja. Ela faz menção de se levantar para recolher minhas sobras. “Não, camarada, absolutamente”, eu aceno. Cuido eu de separar meu pequeno fardo. “Você merece, mais que todos os frequentadores, comer em paz”, digo em gestos. Sorrimos cúmplices.

Ah, mulheres chinesas anônimas, eu as admiro mais que tudo neste país! Também as que vêm bem tarde da noite coletar o lixo reciclável e passam no silêncio de suas motobikes elétricas e completam esse bailado de veículos que se vê nas pontes e avenidas.

Agora vivo num quase deserto de asfalto. Cadê a turma? Onde, Pequim, você se esconde?

Não desisto. Como os chineses, em geral. Não desisto e sonho e peço e quero: a volta da mulher das castanhas, vendedora ambulante, com seu sorriso tão largo quanto o deserto da Mongólia. Chegará com seu carrinho elétrico? Mostrará seu código digital para que eu pague no celular? (cada dia mais evita-se qualquer pagamento em dinheiro por aqui; o papel-moeda, um pouco como jornal impresso, vai virando coisa do passado).

Pois é certo que a mulher das castanhas virá. Com suas rugas curtidas no vento arenoso e frio do extremo norte. Com suas mãos fatídicas no preparo de tudo. Com sua alegria altaneira e simples. Virá, que é certo. Já não trará as castanhas de aroma inesquecível que preencheram meu outono e parte do inverno. Virá com as frutas da nova estação, que o Ano-Novo lunar, fustigado pelos maus eflúvios de um mercado de Wuhan — morcegos, serpentes, humanos, qual dessas espécies a pior? —, assim mesmo é capaz de anunciar.

Pois os chineses se antecipam em quase tudo em meio à longa espera que também possuem como senha. Pois, aqui, o Ano-Novo lunar é mais que tudo a celebração da chegada da primavera. A mulher das castanhas, eu sei, colhe, neste instante, em pleno deserto da Mongólia interior, as frutas que trará logo mais em seu carro inimitável.

A primavera em Pequim promete melhores ares, melhores luzes. E aqui vai estar, logo mais, a mulher das castanhas. Não custa crer. Nada custa esperar.

Francisco Foot Hardman é professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e dá aulas na China a convite da Escola de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim.

A maior fake news das eleições de 2018


Alexandre Porto

Sabe qual foi a maior fake news das eleições de 2018? Uma que começou em 2013, e foi criada por outros atores de direita e alimentada pela esquerda antipetista. Por aqueles que têm a única receita do bolo.

A de que a "incompetência econômica de Dilma" ou supostos erros de condução do ministro Levy levaram o país para a crise que tirou 7% do PIB do país. Os 7% que o Brasil cresceu em 2010.

Fácil de ser vendida, mas difícil de ser comprovada. Não há em qualquer momento da história do planeta um exemplo sequer de que isso tenha acontecido. Mesmo com erros graves. Nem o apagão de 2000 teve esse efeito.

O tsunami político iniciado em 2013 com os 20 centavos foi causa e não consequência da crise econômica que alimentou o antipetismo. Principalmente os surfistas de Paris.

Essa fake news é mais perigosa que a mamadeira de piroca, porque exige a debate sério para ser refutada. E carecemos de debate político sério.

O chamado "conluio antidistributivo" - conceito criado em 2014 pelo sociólogo Adalberto Moreira Cardoso - foi cruel e nos tirou esperanças, muito mais do que um partido no poder.

As bancadas no congresso

Folha distorce, falseia e defende a censura da Globo

FOLHA DEFENDE A CENSURA

Se a Folha tivesse lido a Folha antes de defender a Globo (e difamar Lula), não teria mentido na reportagem publicada hoje contra Lula.

Folha distorce, falseia e defende a censura da Globo

A Terra é redonda, a Petrobrás foi espionada pelos Estados Unidos, a Globo censura a Vaza Jato: esses são os fatos que Lula aponta e incomodam tanto


Por José Chrispiniano e Ricardo Amaral *

A Folha de S. Paulo deveria informar-se melhor, lendo suas próprias reportagens, antes de advogar a censura praticada pela Rede Globo, como fez na manchete falsificada deste primeiro fim-de-semana de fevereiro de 2020. Não há outra palavra para definir a cobertura da Globo sobre a Vaza Jato como um todo, e não apenas no breve período que a emissora selecionou para disfarçar sua parcialidade e que a Folha empurrou aos leitores, sem checar, defendendo quem a censurou.

A Folha publicou 25 reportagens em parceria com o The Intercept Brasil, editado pelo jornalista Glenn Greenwald, e o site UOL produziu outras 8. De 9 de junho até 24 de julho de 2019, período selecionado pela defesa da Globo, foram 5 reportagens da Folha, mas só uma foi reproduzida pela TV e não tratava da parcialidade de Sergio Moro e da Lava Jato no caso Lula. O tema é tabu na Globo, como foram as Diretas na década de 1980 e como a liberdade de imprensa era tabu para o nazismo. Por isso censuraram todas as provas de que Moro agiu para prender Lula e eleger Bolsonaro.

Se a Folha tivesse lido a Folha antes de defender a Globo (e difamar Lula), registraria que o Jornal Nacional censurou a matéria “Lava Jato desconfiou de empreiteiro pivô da prisão de Lula, indicam mensagens” (30/06/19). Nela se comprova que o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, quando preso, mudou seu depoimento e criou um enredo sobre Lula para ter sua delação aceita pelos procuradores. Contou uma história sem provas, da qual até os procuradores desconfiaram, para sair da cadeia e condenarem Lula.

A Globo censurou “Conversas de Lula mantidas sob sigilo pela Lava Jato enfraquecem tese de Moro” (8/9/19). A Folha mostrou, e a Globo não, que Moro e a força-tarefa esconderam, do STF e do país, conversas nas quais Lula explicava a razão de assumir a Casa Civil de Dilma Rousseff, em março de 2016 – e não era para buscar foro privilegiado, mas para salvar o governo e consertar a economia. Moro voltaria a mentir sobre o assunto no Roda Viva, semanas atrás, quando disse ter enviado ao STF “todos os áudios” grampeados de Lula ao STF. A Folha revelou que a Lava Jato grampeou os advogados de Lula e fez relatórios para Moro. A Globo censurou a notícia.

O JN fez alarde da delação mentirosa de Antonio Palocci vazada pelo ex-juiz a uma semana do primeiro turno de 2018, mas não noticiou “Moro achava fraca delação de Palocci que divulgou às vésperas de eleição, sugerem mensagens” (Folha 29/07/19). A Lava Jato espionou Lula e seus familiares ilegalmente, porque ele era o alvo. Mas a Globo censurou “Lava Jato driblou lei para ter acesso a dados da Receita, mostram mensagens” (Folha, 18/08/19).

A nota da Globo que a Folha reproduziu em editorial terça-feira e na manchete de hoje é uma empulhação. Se é fato que o JN e o Fantástico deram 103 minutos de reportagens sobre a Vaza Jato nos primeiros 46 dias, não é menos fato que 66 minutos foram dedicados à defesa de Moro e ao esforço de criminalizar a série desde o nascedouro. E que em apenas 5 dias, de 24 a 28 de julho, JN e Fantástico bombardearam o país com 68 minutos sobre a Operação Spoofing, que associa a Vaza Jato a pessoas acusadas de crime cibernético, incluindo notícias falsas que tentavam envolver o PT.

O editorial da Folha em defesa do mau jornalismo da Globo soou como um ato de contrição do jornal pela entrevista de Lula ao portal UOL. O texto é axiomático: “governantes não gostam de imprensa livre”. Livre do contraditório? Livre da obrigação de checar o que publica? A Folha deu-se a liberdade de publicar mentiras como a de que, no governo, “Lula flertou com dispositivos para controlar a mídia”, sem dizer quais, pois nunca existiram. Que seu governo “deu preferência, inclusive financeira (…) a veículos em torno do petismo”, sem dizer quais, como e quanto, pois essa é outra mentira repetida à moda Goebbels.

A Folha quer igualar Lula a Bolsonaro porque o ex-presidente diz que o atual tem razão em algumas queixas sobre a imprensa. É um reducionismo desonesto. Lula não ameaçou cassar concessões, não fez retaliação econômica. Denunciou o mau jornalismo do qual todos podem ser vítimas. A mesma imprensa que critica Bolsonaro (por várias razões) defende a desconstrução do estado, a desnacionalização do país e a revogação de direitos que ele impõe. Jamais farão com seu governo o que fizeram com Lula, Dilma e o projeto de desenvolvimento com inclusão. Iguais são Folha, Globo, Veja, Estadão, todos alinhados com o projeto de Paulo Guedes, mesmo que o preço seja conviver com Bolsonaro.

O fato é que essa “imprensa livre” muitas vezes fabrica manchetes para amparar sua opinião. É perfeitamente legítimo externar estranheza e associar, como fez Lula, o roubo de informações sigilosas da Petrobrás num container da Halliburton, em 2008, à espionagem da NSA na estatal e nos telefones de Dilma Rousseff, noticiada no mundo inteiro em 2013 com farta documentação provida por Edward Snowden. Não é teoria, é fato que o golpe do impeachment, a prisão de Lula, a destruição da indústria brasileira de óleo e gás e a desnacionalização da Petrobrás e do pré-sal atendem a interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos. Como é fato que Moro e a Lava Jato atuaram em fina sintonia – e fora da lei – com agentes daquele país.

Procuradores do Brasil fizeram a Petrobrás pagar 3,8 bilhões de dólares em multas e acordos judiciais nos Estados Unidos. É muita vezes mais do que a Lava Jato teria recuperado no Brasil, mas isso nem a Folha consegue ver na Globo. Tampouco se vê a terra arrasada em que Moro transformou o pais, como denuncia Lula, pois a Folha está ocupada em esclarecer o terraplanismo alheio.

É simplesmente ocioso checar, como faz a Folha, se um picareta como Olavo de Carvalho acredita mesmo que a terra é plana ou tem apenas dúvidas a respeito. Fato relevante é a destruição do ensino público, do meio ambiente e da soberania nacional por obra dos pupilos que ele nomeou no desgoverno de Bolsonaro. Lula distorceu Olavo? Olavo distorce a inteligência. E a Folha distorce o conceito de checagem de dados – que seria importante contribuição do jornalismo frente à pandemia de mentiras – porque precisa desqualificar Lula.

A Folha pode negar que Lula tenha ficado numa solitária, como o ex-presidente se referiu à prisão num dos discursos checados pela reportagem. Lula ficava sozinho 22 horas por dia, com exceção das quintas-feiras, quando tinha visita de amigos e familiares, e dos fins de semana, quando ficava sozinho 24 horas por dia. Tecnicamente não se chama solitária o regime prisional a que ele foi submetido por Sergio Moro, até o Supremo Tribunal Federal restabelecer, para todos, o princípio constitucional da presunção de inocência que havia sido negado a Lula. Mas não há como checar, tecnicamente, o sentimento de uma pessoa de quem tomaram uma eleição como favorito à presidência da República, a honra pessoal e 580 dias da existência, num processo farsesco, uma condenação injusta e uma prisão inconstitucional. A dor da gente não sai no jornal. Nem na Globo.

José Chrispiniano e Ricardo Amaral são jornalistas e assessores do ex-presidente Lula

A Folha de S. Paulo falsifica os fatos


Nota à imprensa
Em matéria feita para atacar Lula, o jornal também distorce a verdade sobre o golpe de estado que me destituiu sob o disfarce de impeachment.
A Folha publica hoje uma reportagem cujo objetivo é atacar Luiz Inácio Lula da Silva. Baseia essa matéria em manipulações e falsificação de fatos.

A certa altura, o jornal diz que Lula distorce a verdade ao reclamar que até hoje o meu recurso contra o impeachment ilegal não foi julgado no STF. Lula tem razão e o que disse é a mais pura verdade.

O jornal afirma que, em 2015, “Dilma atrasou repasses a bancos estatais para o pagamento de programas como o Bolsa Família e subsídios agrícolas, manobra conhecida como pedalada fiscal. O artifício, que permitiu ao governo gastar mais do que poderia com seus próprios recursos, é um crime de responsabilidade. Desde 2016, ano de seu impeachment, a ex-presidente move um processo no STF para anular o seu afastamento.”

O que a Folha publica é uma monstruosa falsidade. Confessa sua cumplicidade com o golpe de estado de 2016. Vamos à verdade: impeachment sem crime de responsabilidade é golpe.

As alegações que embasaram meu julgamento no Senado carecem de base jurídica e administrativa. Possivelmente, essa é uma das razões para o STF não ter dado sequência a meu julgamento. Importante ponto, solenemente ignorado pela Folha, e destacado por Lula, é que o processo persiste sem ter sido analisado e, portanto, não há veredito jurídico para o caso, e a Folha não pode se arvorar a emiti-lo, se erigindo em 4ª instância do judiciário.

Quanto às alegações que embasam o suposto crime de responsabilidade, repito o que temos dito desde que este inconsistente e manipulado processo golpista foi iniciado:

1 – Os decretos de crédito no meu Governo seguiram procedimentos adotados desde a entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001. Somados, estes decretos não implicaram, como provado nos autos, em nenhum centavo de gastos a mais para prejudicar a meta fiscal. O meu governo agiu como todos os governos antes dele, inclusive o meu, no primeiro mandato. Mais importante, ao final do ano fiscal, que é a referência correta para julgar o desempenho fiscal, todas as contas, inclusive os créditos, haviam sido autorizados pelo Congresso Nacional.

2 – O alegado atraso nos pagamentos das subvenções econômicas devidas ao Banco do Brasil, no âmbito da execução do programa de crédito rural Plano Safra, não equivalia a uma “operação de crédito”, o que estaria vedado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Isto não procede porque a execução do Plano Safra era regida por uma lei de 1992, que atribui ao Ministério da Fazenda a competência de sua normatização, inclusive em relação à atuação do Banco do Brasil. A Presidência da República não pratica nenhum ato em relação à execução do Plano Safra. Ou seja, eu não poderia ser acusada e condenada por um ato que não cometi.

3 – A controvérsia quanto à existência de operação de crédito surgiu de uma mudança de interpretação do TCU, cuja decisão definitiva foi emitida em dezembro de 2015, meses depois de as operações terem sido realizadas. Ou seja: depois dos fatos analisados. Houve, assim, uma tentativa de me atribuir, e ao meu governo, um crime antes da definição de que o ato praticado seria um crime. O Ministério Público Federal já havia arquivado inquérito sobre esta questão, afirmando não caber falar em ofensa à lei de responsabilidade fiscal, porque eventuais atrasos de pagamento em contratos de prestação de serviços entre a União e instituições financeiras públicas não se constituem em operações de crédito.

4 – Vale destacar que, diante da mudança de interpretação do TCU, agi de forma preventiva e, ainda antes do pronunciamento final do Ministério Público, solicitei ao Congresso Nacional a autorização para pagamento dos passivos, e defini em decreto prazos de pagamento para as subvenções devidas. Em dezembro de 2015, após a decisão definitiva do TCU, e com a autorização do Congresso, saldamos todos os débitos existentes.

Fui julgada e condenada sem crime, verdadeiro lawfare. Daí porque, repito, este processo deve ser caracterizado como um golpe, pois impeachment sem crime de responsabilidade é golpe. É que objetivo era tirar uma presidenta eleita com 54 milhões e meio de votos, colocando em seu lugar um títere ilegítimo, para “estancar a sangria” e executar uma agenda de pseudo reformas anti-populares e contra a soberania nacional, e que jamais seriam aprovadas na vigência do Estado Democrático de Direito.

Os bilionários planejando a fuga antes que o mundo acabe

Carona

Luis Fernando Verissimo

O George Soros anunciou em Davos que vai doar alguns dos seus milhões a universidades que se comprometam a combater o que ele vê como um pendor direitista, no mundo atual e na academia. Soros é daquelas personalidades que valem a pena acompanhar de perto, se possível em mesas de bares, para ouvir o que ele tem a dizer sobre como salvar o capitalismo de si mesmo. Com a certeza de que ele, pelo menos, pagará os chopes para todo mundo.

Há outra razão para tentar se aproximar de Soros e entrar na sua “entourage”, como dizem na Mooca, nem que seja só para carregar a merenda. Como se sabe, a Terra, nossa velha e boa Terra, está chegando ao fim. Talvez demore, mas, do jeito que vai, e do jeito que nós a maltratamos, é certo que o fim da Terra virá: pelo aquecimento global, pelo crescimento das águas até que a Estátua da Liberdade dê um último abano e naufrague, por choque com asteroide ou simplesmente por enfarte. Amigo meu se declarou um otimista, disse que não sabe se há vida depois da morte, mas, por via das dúvidas, vai levar um cartão de crédito. Mas os otimistas estão cada vez mais raros. O fim está próximo, e ninguém faz nada a respeito.

Errado. Tem gente – ou bilionários, uma pequena subdivisão de gente – planejando a fuga antes que o mundo acabe. Você pode apostar que os bilionários estão tomando medidas. Estão construindo arcas em estaleiros camuflados na Nova Zelândia, por exemplo, na esperança de que algo sobreviva ao dilúvio final. Estão fazendo reservas na primeira classe de foguetes que serão disparados para bases na Lua e em Marte. Bases que já existem, ou você pensa que os programas espaciais do Primeiro Mundo até agora eram só por interesse científico, e não a construção secreta de colônias para bilionários?

Você e eu, que não somos bilionários, teremos que contar com o bom coração de alguém que nos assegure uma carona na fuga final. E falou bilionário de bom coração, falou Soros, um filantropo conhecido. Procure Soros. Tente convencê-lo de que você daria um bom garçom na viagem para Lua ou Marte, e um bom limpador de piscinas quando chegassem à colônia. Se não conseguisse convencer Soros a lhe dar carona, paciência. Você pelo menos tomaria uns chopes na conta dele.

O modo Folha de canalhice e manipulação


Mario Marona

O MODO FOLHA DE CANALHICE

À Folha não basta ser regularmente canalha, como toda a mídia comercial brasileira.

Precisa mostrar-se radicalmente canalha, de vez em quando, para manter sua liderança no ranking da canalhice.

É o que faz na edição de hoje, ao fabricar uma reportagem para acusar Lula de mentir ou distorcer fatos nas entrevistas e nos discursos que fez desde que foi solto.

O truque da Folha quando precisa mostrar que acanalhou-se muito mais do que seus concorrentes é relativamente simples: chamar o inimigo de mentiroso por dizer mais ou menos o que a própria jornal já noticiou, sem considerar que, por ser quem é - um político lutando por sua liberdade e pelo poder - o alvo da Folha utiliza ênfase e retórica diferentes das adotadas no jornalismo.

Alguns exemplos?

A Folha noticiou, com chamada de primeira página, que para apressar o julgamento de Lula no caso do triplex o TRF-4 passou o seu caso na frente de 76% dos processos que estavam à espera de decisão. Lula denunciou este fato como uma injustiça, e a Folha, na matéria de hoje, o acusa de ter distorcido a verdade. Verdade que o próprio jornal revelara!

Lula criticou a Lava Jato por acusá-lo "sem provas" e "com convicções" e a Folha, hoje, diz que ele mente, mas informa, no mesmo parágrafo, logo em seguida, que, de fato, os procuradores da operação, na famosa entrevista do power point, disseram que não tinham provas cabais, mas tinham convicções.

Em retórica deliberadamente forte, Lula diz ter passado 580 dias numa solitária. A Folha diz que é mentira. Talvez considerasse verdade se Lula tivesse ficado preso numa masmorra ao lado do Conde de Monte Cristo. Mas a verdade é que Lula passou, sim, 580 dias numa cela adaptada em que não tinha contato algum com ninguém além de seus advogados e, uma vez por semana, seus parentes. A isto se chama imposição da solidão, por sinal não prevista na sentença.

A Folha também diz que Lula mente ao acusar a Globo de ignorar as denúncias contra a Lava Jato pelo Intercept. De fato, a Globo não ignorou o assunto, mas praticamente, com raras exceções, limitou-se a noticiar apenas as acusações contra o Intercept por ter publicado informações obtidas por hackers. Até a Folha deu muito mais espaço à Vaza Jato.

Alguém esqueceu que, desmascarada por ter divulgado uma ficha falsa do Dops como se fosse de Dilma, a Folha, depois de longa resistência, afirmou que, de fato, a ficha era falsa, mas bem que poderia ter sido verdadeira?

Ou seja: "nossa notícia é mentirosa, mas poderia não ser".

É o modo Folha de canalhice e manipulação.

Pergunte sobre o futuro do Brasil a Rodrigo Maia e Arminio Fraga


Janio de Freitas
Em 13 meses, gestão Bolsonaro não adotou nenhuma medida ou ideia contra as desigualdades
Dizem, há muito tempo, que o futuro a Deus pertence, o que serviria de slogan para os economistas do arrocho por um lado e ganho fácil por outro.

Adeptos de frases feitas, vendem sua “teoria” com adaptações da grande fake news da história nacional: “O Brasil é o país do futuro”. O futuro mesmo, designação do país com que nossos filhos e netos vão lidar, caiu em desuso como cogitação e como palavra. Não convém à sanha imediatista da pequena minoria chamada de “mercado” e assusta mais os que, para maior paz dos outros, não devem pensar nem sobre presente.

Apesar disso, duas notoriedades, Rodrigo Maia e Arminio Fraga, não apenas remeteram atenções ao futuro, como lhe deram peso insuperável. Nem por isso houve sinais de que fossem ouvidos, claro.

Em seu penúltimo artigo na Folha, original na forma e espantoso no conteúdo, Fraga expôs as urgências sociais no que pareceu sua primeira abertura para o tema. Uma transformação extrema. Ex-colaborador de George Soros, o bilionário visto como maior faro mundial para o lucro de especulação, com ele Fraga afinou o olfato e veio a ser, aqui, um expoente na aplicação de capitais. Uma estrela do tal mercado, pois.

Fraga rumou para o futuro em palestra como ex-presidente do Banco Central. Ainda sobre a desigualdade e, agora sem surpreender, o gasto governamental com Previdência e funcionalismo, revelou seu apocalipse particular: “O Brasil precisa mexer nessas contas, ou em cinco ou dez anos teremos uma revolução”.

Palavra perigosa. No meio em que Fraga vive, golpe de Estado, com prisões, cassações, torturas e assassinatos, é chamado de revolução. Golpe elitista e produtor intencional de desigualdade, não seria o tipo de revolução antevisto pelo Fraga contrário à desigualdade. Qual seria?

Rodrigo Maia é o mais bem-sucedido entre os políticos projetados desde a crise do governo Dilma. Visto como fonte de ponderações necessárias, com frequência usa de franquezas inesperadas e, em geral, oportunas. Como complemento à crítica a Abraham Weintraub, ministro da Educação, pelo “prejuízo a muitas gerações”, Maia não se escondeu: “Nosso país não tem futuro, né? Não tem futuro”.

O futuro. Entre a revolução antevista, mesmo descontado o prazo exíguo, e o futuro que não se vê, emerge a contribuição de Jair Bolsonaro e dos seus sustentáculos —sobre todos, os seus militares— para que os dois extremos não sejam negáveis. Em 13 meses de governo, não houve uma só medida favorável aos oprimidos pelas desigualdades, sejam as sociais, as econômicas, as étnicas. Isso se faz sobre uma insatisfação e sob dificuldades nacionais que, por vários indícios, já eram inquietantes.

Ao fechar 2019, 66% das famílias brasileiras, dois terços delas, estavam endividadas. Um quarto delas, com as dívidas em atraso. Duplo recorde. Apesar do 13º e dos saques no FGTS.

No começo deste ano, ao menos 11,6 milhões procuravam emprego: no último ano do primeiro mandato de Dilma, 2014, eram 6,6 milhões. A média dos que procuravam emprego no primeiro ano de Bolsonaro chegou a 12,5 milhões, 87,7% a mais do que em 2014.

A média mensal de concessão do Bolsa Família, quando maior é a necessidade, caiu de 260 mil para 5.600, com meio milhão em uma fila de espera que passou a andar apenas 1% ao mês.

A inflação de 2019, dizem, foi de 4,31% com Guedes e Bolsonaro, mas a alimentação básica viu a carne encarecer 32%, 13% a mais nos cereais e nos legumes, 14% nas aves e ovos, 10% no açúcar, e assim por diante, ou para cima. E o governo quer retirar o subsídio que reduz o preço da cesta básica.

A reforma da Previdência, ninguém de boa-fé duvida mais, prejudicou quem trabalha e não trouxe contribuição substancial ao problema. O pacote de emendas constitucionais proposto pelo governo é antissocial, contra os estados e municípios (a federação) e tem numerosas incompatibilidades com a Constituição. Nele, nada é favorável às classes desassistidas e muito as agrava.

Cada ideia de Paulo Guedes para a economia é contrária ao assalariado, ao aposentado, ao carente. Cada ideia de alguém no governo é sempre contrária aos indígenas, à demarcação de suas áreas e de reservas nacionais, é contrária ao ambiente natural e favorável ao garimpo e aos desmatadores.

Em 13 meses de governo, nenhuma medida ou ideia contra as desigualdades, nada pela retomada real da atividade industrial, do emprego, da habitação, da segurança.

O futuro? Pergunte a Arminio Fraga e a Rodrigo Maia.

Ministério da Educação está deseducando uma geração


Elio Gaspari
A ruinosa gestão do Enem de Abraham Weintraub cravou mais um prego na juventude de milhões de brasileiros
A ruinosa gestão do Enem de Abraham Weintraub cravou mais um prego na juventude de milhões de brasileiros. No seu primeiro contato relevante com a máquina do Estado, a garotada não soube que haviam sido cometidos erros na correção de suas provas. Aprendeu que a máquina não aceitava reclamações. Felizmente, percebeu que a mobilização das redes sociais poderia dobrar a máquina.

É o caso de se procurar entender como um jovem de 19 anos recebe a informação de que a lambança foi uma “inconsistência” e tudo não passou de um “susto” (palavras do doutor Weintraub).

Centenas de milhares de estudantes saíram desse Enem com um gosto amargo na boca, até porque as regras dos educatecas dificultam os recursos em busca da revisão das notas.

O ruinoso do Enem de Weintraub junta-se a outro desastre, com o qual ele nada teve a ver e, pelo contrário, já denunciou. É o caso dos inadimplentes do Fundo de Financiamento Estudantil. Invenção dos ministros da Educação petistas, para gosto dos donos de faculdades privadas, o Fies transferiu para a Viúva o risco de inadimplência dos estudantes da rede privada.

Hoje, o rombo está em R$ 32 bilhões. Isso aconteceu porque os financiamentos eram dados sem um fiador verificado e os educatecas não analisavam os empréstimos que o Fies concedia.

Weintraub apontou o pior lado dessa desgraça, o moral: “São 500 mil jovens começando a vida com o nome sujo”.

Com o nome sujo e estimulados a não pagar o que devem, porque foram induzidos a isso pelos espertíssimos donos de faculdades.

É sempre bom lembrar que um estudante da Faculdade de Direito de Harvard formou-se em 1991 e só quitou sua dívida depois de 1996, com o que ganhou publicando seu primeiro livro. Chamava-se Barack Obama.

Quando vi pela 1ª vez João de Deus, disse a minha mulher: é bandido


Drauzio Varella
Em pleno século 21, como podem crer em curas mirabolantes e em personagens tão bizarros quanto esse senhor?
Se aprendi alguma coisa em 30 anos frequentando cadeias, foi a reconhecer marginais. Podem disfarçar os modos, o jeito de andar, o palavreado, os gestos, mas o olhar os trai.

Anos atrás, quando vi pela primeira vez na TV o cidadão que se intitulava João de Deus, não hesitei em dizer para minha mulher, ao lado: é bandido.

A televisão tem o dom de entregar os olhos do personagem e, como diz o povo, eles espelham a alma. É por isso que, mesmo sem saber por quê, o espectador percebe quando o entrevistado mente, por mais razoáveis que pareçam os argumentos evocados por ele.
O tal João que apregoava incorporar o espírito de um médico do além-túmulo, que lhe trazia a capacidade de curar enfermos, tinha o olhar em desencontro com a expressão piedosa que a fisionomia se esforçava para transmitir, fugidio, arisco, incapaz de se fixar nos olhos da repórter que o entrevistava.

Nessa época, o homem que eu julgava safado já atraía multidões. Caravanas de crédulos do país inteiro e do exterior viajavam para Abadiânia, no interior de Goiás, em busca das proezas circenses que corriam de boca em boca, reforçadas por reportagens sensacionalistas que exaltavam seus vínculos extraterrenos.

O prestidigitador que dizia curar doenças malignas com passes de mágica, que raspava córneas com o lado cego da lâmina do mesmo bisturi usado nos simulacros de cirurgias, transmitiu por décadas os vírus das hepatites B e C e sabe lá quantas infecções para os incautos, sem que a Vigilância Sanitária se dignasse a molestá-lo.

Acreditaram que suas habilidades mediúnicas se estendiam aos vírus e às bactérias?

No auge da fama, o número de visitantes chegou a 2.000 por dia. A cidadezinha prosperou —tinha 80 pousadas que cobravam diárias de até R$ 200, restaurantes, lanchonetes, lojas que vendiam roupas brancas para os fiéis, imagens religiosas e suvenires bentos pelo santo que me passava a convicção de ser bandido.

Oncologista a vida inteira, vi surgirem vários tipos como esse, curandeiros que apregoavam trazer a saúde de volta aos desenganados, graças à intervenção de entidades extraterrenas que reencarnavam em seus corpos bem aventurados. Com a esperteza para enganar tanta gente por tanto tempo como esse tal João, entretanto, não soube de outro.

Não faço ideia de quantos de meus pacientes caíram nesse engodo. Entendo que não se sentissem à vontade para contar ao médico descrente.

Dos que admitiam ter ido boa parte se dizia decepcionada pela evidência dos interesses comerciais envolvidos no atendimento, enquanto outros se consideravam beneficiados pela paz emanada nas bênçãos e pela névoa de espiritualidade que acreditavam envolver o ambiente.

O argumento de que personalidades estrangeiras, artistas de renome, intelectuais, políticos, juristas e até médicos também consultavam o benzedor travestido de médium ajudou a consolidar a fama e dar credibilidade ao golpista.

Como é inevitável na carreira dos meliantes, no entanto, um dia a casa caiu. O jornalista Pedro Bial entrevistou mulheres que afirmavam ter sido molestadas pelo espertalhão.

A essas delações se juntaram centenas de outras. O ex-emissário de Deus não passava de um homem desprezível que se valia de sua posição para atacar mulheres fragilizadas por tragédias pessoais e dramas familiares.

A credulidade, entretanto, é tão irracional que ainda há quem defenda separar o joio do trigo: de um lado, o homem e as fraquezas da carne, de outro, os poderes transcendentais das entidades que ele garantia encarnar.

Depois de condenado a mais de 50 anos de cadeia por pequena parte de seus crimes, há devotas que teimam em visitar a hoje decadente Abadiânia, na esperança de captar eflúvios energéticos remanescentes nas instalações em que o vigarista as abençoava.

Não me choco com a boa-fé das pessoas simplórias ludibriadas por vigaristas desse tipo, mas com os crédulos que desfrutaram o privilégio de estudar em boas escolas.

Em pleno século 21, como podem crer em milagres, em curas mirabolantes e em personagens tão bizarros quanto esse senhor?

O presidiário João Teixeira, já condenado por uma fração dos estupros cometidos, ainda é tratado pela imprensa como o “médium João de Deus”.

Médium? De Deus? Como assim? De onde vem tanta complacência com os que se aproveitam da religiosidade do povo para explorá-lo em nome de Deus?

Drauzio Varella
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Os idiotas



O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o famoso Kakay, escreveu no Twitter que Damares não teria nascido se os pais dela tivessem feito abstinência sexual, como ela prega. 

Damares decidiu processar o advogado porque foi chamada de idiota.

Se todos os chamados de idiota decidirem processar seus detratores, a Justiça não faz mais nada.

Os chamados de idiota se levam muito a sério. Um idiota legítimo deveria ser mais relaxado, ou nunca chegará ao estágio que um dia o transformará num imbecil.

O fascismo é forte porque realmente acredita na monstruosidade que defende

"Aproximar-se desta legião de insanos é flertar com o perigo de ser consumido."

Fernando Horta: O perigo de dois erros de avaliação

Opera Mundi
Já passou da hora de explicarmos Bolsonaro como uma 'fraude' retórica: o fascismo é forte porque realmente acredita na monstruosidade que defende
Esta semana, duas diretrizes surgiram na mídia a respeito da estratégia do Partido dos Trabalhadores para os próximos anos. Uma, advinda de uma palestra do economista Marcio Pochmann em Porto Alegre, em que o presidente da Fundação Perseu Abramo argumenta essencialmente que há mudanças estruturais na sociedade brasileira que inviabilizam a continuidade dos discursos sobre o trabalho conforme tínhamos nas décadas de 1970 e 1980 e, por conseguinte, “estamos com a retórica envelhecida”. A segunda diretriz parece vir diretamente do presidente Lula que busca “se aproximar” do eleitorado “evangélico” dando espaço para criação de movimentos neste sentido. Creio que as duas posições estão erradas, e pelos mesmos motivos.

A fala de Pochmann vem embasada, ao que tudo indica, em alguns dados demográficos, espectro eleitoral, PIB, composição orgânica do PIB e etc., e aponta para uma “mudança e uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços”. Ainda segundo Pochmann, esta mudança seria de tal modo profunda que estaria provocando uma ruptura nos padrões de fala e entendimento entre os estratos sociais. Daí a conclusão de que “estamos com uma retórica envelhecida”. Trocando em miúdos, o que uns falam, os outros não entendem... e vice-versa.

Por outro lado, o presidente Lula, guiado pelo dado de que os “evangélicos” foram a principal força eleitoral de Bolsonaro tem defendido uma aproximação com estes grupos. Primeiro, em tom de brincadeira, dizendo-se com um “jeitão de pastor”, e, mais recentemente, dando linhas de ação política efetivas para que a esquerda “dispute” este eleitorado. Na compreensão de Lula, a disputa política pragmática se dá buscando achar “pontos de contato” entre as posições do partido e “os evangélicos”. Isto leva necessariamente à busca de um “denominador comum” em que a necessidade de ceder em pontos essenciais da posição política original de qualquer um dos lados é diretamente proporcional à força política do outro. Assim, a postura política do presidente, novamente apela para a sua principal característica: a capacidade de negociar e conciliar.

Como afirmado no início as duas posturas contém, no meu entendimento, erros graves e de consequências perigosas. Ambas as visões contém um erro grande de avaliação e outro de estratégia.

A fala de Pochmann parte do pressuposto da “grande mudança” da sociedade. O tamanho e o impacto desta mudança é tão mais assustador quanto menor a lente pela qual se está olhando. A verdade é que as sociedades mudam o tempo todo. Entre 1850 e 1860 vivemos uma mudança das formas de trabalho (do escravismo clássico para o trabalho imigrante servil ou assalariado), por exemplo. No final da década de 1880, vimos o fim formal da escravidão. Na década de 1930 e 1940, a sociedade brasileira viveu uma “mudança” de seu caráter rural para o urbano. Nas décadas de 1950 e 1960, os processos intensos de industrialização. E então vieram o empobrecimento das décadas de 1980 e 1990, a globalização do final do século. As revoluções nos transportes e comunicações, e tudo mais o que você puder imaginar neste meio que gere transformações no tecido social podem ser elencadas.

Há que se perguntar, qual é a diferença substancial aqui? Se do ponto de vista do economista elas são tão profundas a ponto de inviabilizar a comunicação política, do ponto de vista do historiador é um fenômeno comum a toda história. Ademais, dado que não existe cisão completa entre os tempos e as épocas, estas mudanças guardam disputas de sentido e significação que operam em nível epistemológico e que criam padrões completamente imprevisíveis de continuidades e rupturas. Dito de outra forma, estamos sempre mudando e dado que não há um indivíduo que nasça total e absolutamente da mudança ou um que sobreviva em completa oposição a ela, a ruptura narrativa apregoada por Pochmann inexiste em si mesma, e só pode ser defendida pela lógica da democracia econômica, a que vamos retornar mais tarde.

A este primeiro erro de avaliação, Pochmann incorre num erro lógico de estratégia. Ora, se precisamos vencer eleitoralmente e as pessoas não nos entendem, “estamos com a retórica envelhecida”. Veja que a “retórica” para Pochmann é uma ferramenta de comunicação apenas, e não uma forma de construção simbólica do mundo. A retórica, da forma usada pelo economista, é uma forma de retratar o mundo, tendo valor utilitário comunicativo. Neste sentido, se “trocarmos a nossa retórica” e nos fizermos entender, talvez ganhemos votos. O fato é que, em realidade, a retórica tem um papel CONSTITUTIVO no mundo. Eu sou aquilo que digo e que faço. “Adequar retórica” tem um papel perverso no mundo atual. Sem esta compreensão, perde-se a principal razão, por exemplo, da eleição de Bolsonaro: ele é fiel ao que diz. Ele realmente acredita nas imensas besteiras que verbaliza, e isto lhe confere legitimidade tal qual o presidente Lula experimenta quando fala do mundo do trabalho e da pobreza. “Adequar retórica” significa politicamente abrir mão de legitimidade, e, socialmente, incorrer em perigosa desconstrução de si mesmo. E estes dois pontos, no exato momento de luta contra o fascismo, são erros imensos que foram feitos da mesma forma nos anos 1920 e 1930 por liberais e mesmo socialistas.

A posição do presidente incorre também nos mesmos problemas. Primeiro um erro de diagnóstico: a vitória de Bolsonaro não se deveu aos “evangélicos”. Deveu-se ao uso deturpado das ferramentas de comunicação que as leis e o Estado brasileiro fizeram pouco caso em combater. O termo "evangélico” é, inclusive, um imenso erro. O neopentecostalismo de malafaias e felicianos é um caso de charlatanismo e, portanto, de polícia e não de política. Inúmeras comunidades religiosas sentem-se profundamente incomodadas em terem o termo evangélico associados a este tipo de prática. O que Martinho Lutero defendia já no século XVI, por exemplo, é diametralmente oposto ao que pregam os líderes do neopentecostalismo de mercado nos dias de hoje.

Então alguém poderá dizer que é apenas uma questão de “nomenclatura” e que, afinal, “precisamos falar com esta gente”. E este é o verdadeiro erro. Aproximar-se desta legião de insanos é flertar com o perigo de ser consumido. A forma do negócio destas igrejas não é nova. Nos aos 1950, o primeiro grande nome a surgir com a retórica anticomunista, misturando o pedido de “doações” e constituindo-se um milionário religioso com influência política foi Billy Graham, nos EUA. Estas figuras, como atualmente Kenneth Copeland, foram barradas da política norte-americana por força de legislação. Lá, para serem políticos, eles precisam abrir mão de suas isenções fiscais, e isto se torna um péssimo negócio.

O modelo deste neopentecostalismo de mercado é usar o dinheiro dos impostos não pagos (e, portanto, dinheiro público) para aturdir a mente de pessoas com discursos preconceituosos e garantir a estas almas que o QUE ELAS JÁ PENSAM tem suporte numa determinada leitura da Bíblia. Diferentemente do luteranismo, calvinismo e etc. estes novos “evangélicos” não criaram nenhuma forma de compreensão do mundo ou das escrituras, mas parasitam a mentalidade preconceituosa de milhões de pessoas, retirando delas dinheiro e apoio político que usam para tornar o país um poço de intolerância, violência a incompreensão. O que o presidente talvez se recuse a compreender é que as pessoas que participam deste tipo de organização o fazem EXATAMENTE pelo caráter violento e preconceituoso delas. Exatamente por elas serem contrárias a tudo o que a esquerda sempre defendeu. Ou seja, não há aproximação viável com os grupos que elegeram Bolsonaro e se ela ocorrer, o pastor que desavisadamente aceitar perderá imediatamente o seu “rebanho”.

Infelizmente as duas posições, a de Pochmann e a de Lula partilham de uma mesma premissa. A premissa que é central para todo economista e que foi a linha construtora do fazer político do presidente desde o final do período militar no Brasil: a ideia de que o eleitor é um ator racional.

O modelo do “ator racional” é uma forma teórica de estimar as ações dos indivíduos. Ele afirma que as pessoas agem baseadas nos seus interesses e portanto, numa lógica de custo-benefício. Assim, na fala de Pochmann desde que “estamos com a retórica envelhecida” não conseguimos mais nos mostrar ao público (eleitores) como tendo soluções para os problemas que o aflige. E se não temos soluções, não temos votos. Da mesma forma a fala de Lula parte deste mesmo condicionante mudo. Ocorre que uma das características do século XXI é a emergência de ferramentas e padrões sociais de ataque a qualquer racionalidade. Daí o ressurgimento do fascismo, por exemplo.

Como explicar que trabalhadores votaram em peso em políticos que AFIRMAVAM antes de eleitos que destruiriam as proteções ao trabalho, a aposentadoria, as legislações contra precarização e etc.? Como explicar, pelo modelo do ator racional, que pequenos empresários marcharam em peso contra um governo que mantinha o poder de compra da classe média que, em última instância, era o que sustentava os seus próprios negócios? Como explicar que Witzel e Bolsonaro tiveram expressivas votações entre as populações negras e periféricas mesmo quando eles verbalizavam o aumento da violência policial que – como mostram os números – cai em maior peso sobre os jovens negros e de periferia?

É preciso que se abandone o modelo de ator racional como forma de organização da estratégia política. Foi exatamente por terem entendido esta mudança que Mussolini e Hitler conseguiram se firmar como os líderes políticos tirânicos que foram. Foi necessário duas guerras mundiais para conseguirmos recompor o mundo. O ataque que toda a direita do mundo faz aos jornalistas e às universidades não é gratuito e nem é porque eles “são contra a cultura”. O que está em marcha no mundo hoje é uma desestabilização dos controles epistemológicos da informação e que leva à ruptura do modelo do ator racional. Isto acontece hoje, com as redes sociais, de forma muito semelhante ao que aconteceu nos anos 1920 e 1930 com o rádio. A ruptura com os monopólios da informação (seja pela ruptura com seus meios ou suas hierarquias de sentido) provoca uma proliferação de falas que confunde e atordoa o cidadão comum. O neurocientista Miguel Nicolelis, por exemplo, se vê TODOS OS DIAS confrontado em sua legitimidade por pastores e blogueiros cujo conhecimento sobre os temas de confronto é algo próximo a zero.

O ministro da educação ser um semianalfabeto, mal-educado e incompetente não é a causa da crise que enfrentamos na educação. É uma consequência da alteração dos controles epistemológicos e da abrangência social dos discursos informados em detrimento aos desinformados que é característica do desarranjo promovido pelas novas tecnologias do século XXI. A extrema direita e seu poder financeiro entenderam isto primeiro e estão tirando proveito disto. A pergunta é: vamos fazer o mesmo?

Quando defendi há algum tempo que o presidente Lula não saísse da prisão buscando a jugular de Bolsonaro foi exatamente para não jogar o jogo dos liberais naquele momento. Precisamos retomar apoio político, mas isto não significa “adequarmos retórica”. Muito pelo contrário, em ambientes polarizados, quem defende aproximação com o “centro”, morre politicamente. O livro clássico de Anthony Downs, de 1957, em que desenvolve a ideia de centro eleitoral como o local em que as preferências de uma maioria converge, não mais significa o “centro” no espectro ideológico quando estamos em sistemas de altíssima polarização, como o atual. Em realidade, o estudo dos espectros políticos e suas votações nas décadas de 1920 e 1930 na Europa mostra o que vimos em 2018-2019 no Brasil. Os partidos de centro sendo engolidos por discursos de extrema direita. Serra, Aécio e Alckmin viraram história, enquanto a esquerda está tendo que lidar com Bolsonaro, algum “capitão” de alguma coisa e o “pastor” fulano de tal. Neste contexto, apelar para uma aproximação com o centro inexistente é suicídio político.

É preciso trazer o centro para a esquerda, e isto só se faz com legitimidade retórica, representação orgânica e a luta pela recomposição epistemológica da informação. Sem um jornalismo livre e plural, e sem o papel das universidades públicas e independentes como divisor de águas entre o discurso ignorante e o informado, tudo o que as novas tecnologias da informação fazem é trazer o caos e a desinformação que destroem qualquer noção de democracia.

Já passou da hora de adotarmos as leis que proíbem que quem tem isenção fiscal concorra a cargos eleitorais. Esta foi uma defesa que os EUA, por exemplo, criaram ainda no século XIX.

Já passou da hora de explicarmos Bolsonaro como uma “fraude” retórica. O fascismo é forte porque realmente acredita na monstruosidade que defende e aplica.

Já passou da hora de acharmos que ainda há um “centro político” com qual podemos nos acertar e que para isto precisamos “adequar a retórica”.

É hora de dizer quem somos. O que fazemos. O mundo que queremos.

A resposta da China ao vírus foi "de tirar o fôlego"

O Presidente chinês Xi Jinping está comandando uma "Guerra Popular" científica contra o coronavírus
Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

O Presidente Xi Jinping declarou formalmente ao dirigente da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, em seu encontro em Pequim no início desta semana, que a epidemia do coronavírus "é um demônio, e não podemos permitir que esse demônio se esconda". 

Ghebreyesus, de sua parte, não pôde deixar de elogiar Pequim por sua estratégia coordenada e extremamente rápida de resposta ao vírus  - que incluiu a imediata identificação da sequência do genoma.  Cientistas chineses já entregaram a seus colegas russos o genoma do vírus, com exames instantâneos capazes de identificá-lo em um corpo humano no prazo de duas horas. Uma vacina russo-chinesa já está sendo desenvolvida.

Mas o diabo, é claro, está sempre nos detalhes. Em poucos dias, no pico mais congestionado do período do ano em que mais se viaja  na China, o país conseguiu colocar em quarentena um ambiente urbano de mais de 56 milhões de habitantes, incluindo a megalópole Wuhan e três cidades próximas. Essa é a absoluta primeira vez que isso acontece em termos de saúde pública em qualquer época da história.

Wuhan, com um crescimento do PIB de 8,5% ao ano, é um centro empresarial importante na China. A cidade se localiza na encruzilhada estratégica dos rios Yangtze e Han, e também em um cruzamento ferroviário - entre o eixo norte-sul que liga Guangzhou a Pequim e o eixo leste-oeste, que liga Xangai a Chengdu.

Enquanto o premier Li Keqiang era enviado a Wuhan, o Presidente Xi visitou a estratégica província sulina de Yunnan, onde elogiou o imenso aparato governamental de mecanismos de reforço do controle e da prevenção sanitária direcionados a limitar a propagação do vírus.

O coronavírus pega a China de surpresa em um momento crítico e  extremamente delicado, ocorrido logo após: as (fracassadas) táticas de Guerra Híbrida  evidenciadas em Hong Kong; uma ofensiva estadunidense pró-Taiwan; a guerra comercial, longe de estar solucionada por uma mera negociação de "fase 1", enquanto mais sanções estão sendo urdidas contra a Huawei; e até mesmo o assassinato do Major General Qasem Soleimani que, em última análise, visava a atingir a expansão da Iniciativa Cinturão e Rota no Sudoeste Asiático (Irã-Iraque-Síria).

Esse Quadro Geral aponta para uma Guerra de Informação Total e  para a belicização ininterrupta da "ameaça" chinesa" - que agora já se metastizou, com nuances racistas, como uma bio-ameaça. Então, o quão vulnerável seria a China? 

Uma guerra popular

Há mais de cinco anos, desde a epidemia da SARS, um biolaboratório de segurança máxima voltado ao estudo de organismos altamente patogênicos vem operando em Wuhan, em parceria com a França. Em 2017, a revista Nature advertiu sobre os riscos de dispersão dos agentes patogênicos a partir desse laboratório. No entanto, não há qualquer indício de que isso de fato tenha ocorrido. 

Em termos de administração de crises, o Presidente Xi se mostrou à altura da situação – determinando que a China combata o coronavírus com  total transparência (afinal, o muro da Internet continua existindo). Pequim decretou a todo o aparato governamental, em termos inequívocos, que não deve haver qualquer tentativa de acobertamento. Um página em tempo real, aqui em inglês, está disponível a qualquer interessado. Quem não estiver fazendo o bastante irá enfrentar severas consequências. Pode-se imaginar o que espera o chefe do partido em Hubei, Jiang Chaoliang.

Uma postagem que viralizou por toda a China continental neste último domingo diz: "Nós, em Wuhan, ingressamos verdadeiramente no estágio da guerra popular contra a nova pneumonia viral", e muitos, "principalmente membros do Partido Comunista, apresentaram-se como voluntários e observadores, segundo as unidades de rua". 

Uma medida de importância crucial foi o governo ter determinado a instalação do applet "Vizinhos de Wuhan", baixado do Wechat, que permite identificar "o endereço de quarentena de nossa casa por meio de posicionamento de satélite, e então nossa organização comunitária afiliada e seus voluntários poderão ser localizados automaticamente por radar. Assim, nossas atividades sociais e anúncios informativos estarão conectados ao sistema".

Em tese, isso significa que qualquer pessoa que apresente febre poderá informar seus sintomas pela rede, assim que possível. O sistema, imediatamente, fornecerá um diagnóstico on-line e irá localizar e registrar o endereço de quarentena. Caso seja necessária a visita de um médico, a comunidade, por meio dos voluntários, providenciará o transporte até o hospital. Ao mesmo tempo, o sistema irá monitorar a evolução do paciente: hospitalização, tratamento em casa, alta, óbito etc. 

Aqui temos, então, milhões de cidadãos chineses totalmente mobilizados naquilo que costumamos chamar de "guerra popular", usando "alta tecnologia para combater a doença". Milhões deles já estão também tirando suas próprias conclusões ao comparar esse sistema com o uso de softwares de aplicativo para lutar contra a polícia em Hong Kong.

O quebra-cabeça biogenético 

Além da administração de crises, a rapidez da resposta científica chinesa é de tirar o fôlego - e, é claro, não foi devidamente valorizada em um ambiente de Guerra de Informação Total. Compare-se o desempenho chinês com o CDC norte-americano, que pode ser considerado o principal órgão de pesquisa em doenças infecciosas de todo o mundo, com um orçamento de onze bilhões de dólares e onze mil funcionários.

Durante a epidemia do ebola na África Ocidental, em 2014 - considerada de máxima urgência, e enfrentando um vírus com 90% de taxa  de letalidade, o CDC levou dois meses para, após receber a primeira amostra de paciente, identificar a sequência genômica completa.  Os chineses fizeram essa identificação em poucos dias. 

Na epidemia da gripe suína, em 2009, nos Estados Unidos, 55 milhões de americanos foram infectados e onze mil morreram - o CDC levou mais de um mês e meio para produzir os kits de identificação. 

Demorou apenas uma semana para que os chineses, a partir da primeira amostra de paciente, completasse a identificação vital e o sequenciamento do coronavírus. Logo em seguida, esses resultados foram publicados e depositados na biblioteca genômica para acesso imediato de todo o planeta. Com base nessa sequência, as empresas de biotecnologia chinesas produziram, em uma semana, artigos validados - também um fato inédito. 

E sequer mencionamos ainda a agora notória construção de um hospital estado da arte e novo em folha em Wuhan, em tempo recorde, apenas para tratar os pacientes do coronavírus.  Nenhum paciente terá que pagar pelo tratamento. Além disso, a Healthy China 2030, a reforma do sistema de saúde e desenvolvimento, será reforçada. 

O coronavírus abre uma verdadeira caixa de Pandora para a biogenética. Questões graves continuam em aberto quanto a experiências in vivo, nas quais o consentimento dos "pacientes" não será necessário – considerando a psicose coletiva a princípio criada pela mídia empresarial  ocidental  e encampada até mesmo pela OMS quanto ao coronavírus. Esse vírus bem poderia vir a se tornar um pretexto para experimentos genéticos com vacinas. 

Enquanto isso, é sempre iluminador lembrar do Grande Timoneiro Mao Zedong. Para Mao, as duas principais variáveis políticas eram "independência" e "desenvolvimento". Isso implica soberania plena. Como Xi parece determinado a provar, um estado-civilização soberano é capaz de vencer uma "guerra popular" científica, o que não demonstra exatamente uma "vulnerabilidade". 

Com o que Jesus teria de lidar se viesse ao mundo hoje


José Eduardo Agualusa

Assisti a “Dois papas”, de Fernando Meirelles, na mesma semana em que terminei de ver a série “Messiah”, dirigida pelo australiano Michael Petroni. São projetos muito diferentes, nas premissas e nos resultados, mas que discutem questões comuns.

“Dois papas” coloca frente a frente o Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger, em vias de renunciar, e o cardeal Jorge Bergoglio, prestes a se transformar no Papa Francisco. Pouco a pouco, vamos compreendendo que, naquele luminoso embate de ideias, ambos os protagonistas estão certos, apenas defendem objetivos diversos: Ratzinger está preocupado com a sobrevivência e o fortalecimento de uma instituição, a Igreja Católica, enquanto o que interessa a Bergoglio é a defesa dos ideais de Jesus Cristo. Ratzinger vê em Bergoglio uma ameaça à instituição — e está certo. Bergoglio acha que Ratzinger está atraiçoando os ensinamentos de Jesus Cristo — e também ele está certo.

Na série “Messiah”, Petroni imagina o aparecimento, durante a guerra na Síria, de um líder religioso, de origem palestina, cujo nome e passado ninguém conhece. A série perde frequentemente o rumo. Vários momentos, porém, justificam o interesse. Um deles é o interrogatório a que o suposto Messias é sujeito, depois de entrar “ilegalmente” em Israel. Surpreendido, ao verificar que o seu prisioneiro fala hebraico, o interrogador pergunta-lhe se é judeu. “Na origem, sim”, responde o homem, que tanto pode ser um impostor genial (vários elementos apontam nessa direção), como o verdadeiro Messias.

O que “Messiah” sugere é que se Jesus voltasse teria de enfrentar sobretudo a incredulidade dos crentes (cristãos, muçulmanos e judeus), muitíssimo mais perigosa e difícil de vencer do que impiedade dos ímpios.

Em particular, Jesus seria muito mal recebido pelas instituições religiosas que se ergueram, fortaleceram e prosperaram comerciando fé. Fundamentalistas islâmicos, cristãos e judeus veriam nele o seu principal inimigo. Estes movimentos são, aliás, absolutamente idênticos. Convergem no horror a tudo o que seja novo. Atraem os mais desesperados, prometendo-lhes milagres, e depois exploram-nos e escravizam-nos. Valorizam, nos livros sagrados, não as propostas transformadoras dos diferentes profetas (propostas que eram revolucionárias então, e continuam revolucionárias hoje), mas o pensamento cruel da época em que foram escritos.

Jesus Cristo teria ainda de enfrentar a desconfiança e a hostilidade dos governantes. Na série dirigida por Michael Petroni, o Messias é investigado pela CIA, interrogado pela Mossad e perseguido pelo Estado Islâmico.

Na sociedade do espetáculo em que vivemos, não bastaria a Jesus multiplicar os pães, ou transformar a água em vinho, truques ingênuos, ao alcance de qualquer ilusionista. Não lhe bastaria sequer caminhar sobre as águas. Precisaria recorrer a milagres mais exuberantes, a discursos mais fortes, a medidas mais extremas.

Em “Dois papas”, Ratzinger termina rendendo-se a Bergoglio: “Não concordo com nada do que o senhor diz. Mas através da sua voz voltei a ouvir a voz de Deus”, diz ele. Duvido que esta frase tenha sido dita. Porém, é tão bonita. Gosto de pensar que foi isso que aconteceu.

As três bases de apoio ao bolsonarismo


Ricardo Costa de Oliveira

A grande maioria do 1% mais rico ainda apoia Bolsonaro. O grande empresário, o rico herdeiro com várias propriedades e que nunca precisou trabalhar na vida porque vive da renda de seus alugueis e estacionamentos, o procurador casado com a filha do almirante, a senhora recebendo a aposentadoria de viúva de general quatro estrelas e de filha de general quatro estrelas, o MBA de periferia vendendo coaching para empregados terceirizados, a gerentes de redes sociais da entidade empresarial, o comissionado de direita, todo um conjunto de apoiadores com consciência de classe. Os mais ricos apoiam na expectativa do esbulho estatal, as corporações apoiam reforçadas em suas remunerações, vantagens e pensões, como nas cúpulas do sistema judicial e nas forças armadas. A grande mídia também apoia por ideologia e interesse. O bolsonarismo é um fenômeno social produzido pelas classes superiores e dominantes no Brasil, um fenômeno político produzido pelo exército, judiciário e mídia, desde suas origens e gênese. O empresariado vendilhão apoia e o nepotismo estrutural da política brasileira endossa o fenômeno do bolsonarismo. 

A base de apoio ao bolsonarismo se completa com setores de renda média e mesmo pobres com ideologias conservadoras e de direita, A pequena empresária falida, que entre ser pobre no Brasil e nos Estados Unidos, abandona sua mãe, pensionista de um salário mínimo para outros cuidarem, o vendedor escroque procurado por oficiais de justiça, o ex-policial devedor de pensões familiares, o professor universitário que odiava a Dilma e o PT, o enrustido de direita agora calado com o weintrouble, toda uma galeria de tipos caricatos de classe média raivosa, que sabem que estão entrando no cano com o bolsonarismo, mas ainda não assumem a calamidade que causaram por orgulho e amor próprio dos cornos traídos. 

O terceiro grande setor fundamental em mudança é o eleitorado pobre, periférico, negros, mulheres, trabalhadores manipulados e enganados por pastores, radialistas, milicionaros e pela enganação moral e cívica das arminhas do nepotismo bolsonaresco. Este setores populares, que decidiram a eleição com fake news e lideranças locais, em estados como o Rio de Janeiro e Minas Gerais, já mudaram e sentem o drama social e econômico do bolsonarismo. Não repetirão seus votos como em 2018 e já rasgaram a realidade da continuidade da crise econômica, arrocho salarial, continuidade da violência e graves problemas na educação e saúde, ao lado da percepção de corrupção ampliada.

O mais provável é que Bolsonaro esteja pior por dentro do que por fora.


Leandro Fortes

ESTÉRIL

Talvez tenha sido uma decisão secreta do Departamento de Estado dos EUA a esterilização completa de Bolsonaro, vá saber.

Mesmo a CIA, em seus tempos áureos, devia ter alguns limites para a perpetuação de lideranças títeres, mundo afora.

Podiam torturar, matar, roubar, fazer o diabo, mas, em certo grau de demência, melhor evitar a reprodução.

No caso de Bolsonaro, como bem apontou o humorista José Simão, essa vasectomia veio com 40 anos de atraso - período em que se incubaram e nasceram os 01, 02, 03 e 04, reproduzidos como flagelos em série, pelo capitão.

Ou, o que é mais provável, o País vem sendo enganado sobre essas idas recorrentes do presidente aos hospitais, desde a facada mandrake que o elegeu, em 2018.

Fazer uma segunda vasectomia de emergência (!) talvez tenha sido uma das notícias mais bizarras da medicina mundial, nos últimos tempos.

Isso depois de, no final do ano passado, ele ter baixado hospital por conta de uma inusitada queda no banheiro, após ter sido operado de uma súbita hérnia abdominal.

O mais provável é que Bolsonaro esteja pior por dentro do que por fora.

Notícias do Chile

Celio Turino

Após 77 dias de manifestações pela derrubada do governo Piñera e contra o Neoliberalismo, ontem foi a noite mais violenta. Houve manifestações por todo país e 3 governos locais foram simplesmente banidos das cidades sede. Uma pessoa foi assassinada, outra está em estado grave, com traumatismo craniano, há ao menos 120 presos. Por outro lado, o povo está reagindo de forma mais organizada, vários Blindados foram incendiados e destruídos e há quase 50 policiais feridos. É possível que a luta se intensifique nos próximos dias e já se avalia que a revolta no Chile pode estar se transformando em quadro pré-revolucionário. Por outro lado, aqui no Brasil, a imprensa tirou o Chile do noticiário; mesmo no campo da esquerda, pouco se fala da realidade de nossos vizinhos.



Isso não vai dar em nada