terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Coronavírus ameaça PIB chinês e economia global

Analistas estimam impacto de até 1,2 ponto percentual na atividade do país asiático
Júlia Moura

Após um salto de mais de 40% no número de mortos e infectados de domingo (26) para esta segunda-feira (27), analistas passaram a avaliar um impacto no crescimento chinês causado pelo coronavírus que pode ser superior a um ponto percentual.

Como a China é a segunda maior economia do mundo, um crescimento menor poderá ter impactos globais, especialmente na Ásia, onde o turismo nos últimos anos é dependente, em grande parte, dos viajantes chineses.

O FMI previa, em 20 de janeiro, que a China cresceria 6% neste ano. Em 2019, o país cresceu 6,1%, seu pior índice em 29 anos.

Para a agência de classificação de risco S&P, o crescimento do PIB chinês pode cair cerca de 1,2 ponto percentual em 2020 caso os gastos de consumo, especialmente em transporte e diversão, caiam 10%. Ou seja, considerando a previsão do FMI, o PIB chinês poderia avançar só 4,8% em 2020.

Na avaliação de analistas, o dano econômico pode ser maior do que a epidemia de Sars (síndrome respiratória aguda grave) que deixou centenas de mortos em 2003. Naquele ano, o país desacelerou de 11,1% a 9,1% entre o primeiro e o segundo trimestre. No ano, cresceu 10%. 

Especialistas dizem que ainda é cedo para medir o real efeito que o coronavírus irá deixar na economia, mas que algum impacto é certo.

Segundo a Rico, se o coronavírus estender seus efeitos, os indicadores econômicos do primeiro trimestre podem ser “duramente impactados”.

“E, com os juros tão baixos mundo afora, os bancos centrais podem ter menos ferramentas para estimular as economias”, afirma o texto.

A Sars veio após uma grande crise, quando as economias iniciavam um movimento de expansão. “Hoje, o mundo está exatamente na direção oposta, com as grandes economias lutando para impedir que uma desaceleração mais forte na atividade possa se tornar uma recessão”, diz relatório da Rico.

Para Tommy Wu, da Oxford Economics, o impacto econômico pode ser forte, mas terá curta duração —e será menos severo do que antes— porque desta vez a resposta das autoridades foi mais rápida do que antes.

Já para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, o coronavírus deve reduzir o avanço chinês em no máximo 0,5 ponto percentual, porque a economia do país está maior do que era em 2003.
“Contudo, qualquer mudança no crescimento chinês, por menor que seja, impacta muito a economia mundial”, diz. 

Para restringir a propagação do vírus, o governo suspendeu viagens dentro China e para o exterior, afetando o turismo, peso-pesado da economia com 11% do PIB em 2018, segundo cifras oficiais.

Essa suspensão vai afetar ainda países vizinhos, como Camboja, Hong Kong, Tailândia, Japão e Singapura, cujos gastos de chineses, lembra a consultoria Capital Economics, são importante parte do PIB. 

Em 2003, com a Sars, por exemplo, o número de passageiros aéreos na Ásia caiu 45%. Hoje, o turismo na região está ainda mais dependente da China. Se o efeito se repetir, “levaria a uma queda entre 1,5 e 2 pontos percentuais do PIB dos países mais vulneráveis”, diz a Capital Economics.

Em 2018, 8,4 milhões de chineses visitaram o Japão —1 de cada 4 turistas no país, segundo a Organização Nacional de Turismo Japonês. Eles compram 90% dos cosméticos vendidos a turistas no país, aponta relatório do Mitsubishi UFJ Morgan Stanley.

Na Tailândia, onde o turismo representa 18% do PIB, o impacto pode ser ainda maior. Chineses são mais de 25% dos visitantes. No pior momento da Sars, afirma a Capital Economics, o total de chineses e de vendas no varejo no país caíram pela metade.

A Bolsa brasileira teve queda de 3,3%, a maior desde junho de 2019, a 114.481 pontos. Juntas, Petrobras e Vale, que caiu 6%, perderam R$ 34 bilhões em valor de mercado.

O dólar comercial, que chegou a bater nos R$ 4,23 durante o pregão, fechou em alta de 0,5%, a R$ 4,21, maior valor desde 2 de dezembro. O dólar turismo está cotado em R$ 4,38. O grama do ouro subiu 1,65%, para R$ 215,51.

Em momentos de aversão a risco, o investidor tende a vender ações e comprar ativos mais 
seguros, como ouro e dólar. 

Bolsas de Valores de todo o mundo tiveram forte queda. Europa e EUA registraram os maiores recuos em mais de três meses: Londres, Paris e Frankfurt caíram 2,5%, e Dow Jones e S&P 500, 1,6% cada uma. A Nasdaq cedeu 1,9%, e a Bolsa de Tóquio teve queda de 2%.

O mercado acionário chinês segue fechado pelo Ano-Novo Lunar até 3 de fevereiro. A princípio, as atividades retornariam na quinta (30), mas o governo estendeu o feriado.

Para conter o vírus, Pequim também adotou medidas de confinamento para a região metropolitana de Wuhan, berço do coronavírus, assim como quase toda a província central de Hubei, a que pertence.

Wuhan é uma megalópole industrial, entre dois eixos importantes: Yangtzé, o rio mais longo da Ásia, que atravessa a cidade de oeste a leste, e o eixo norte-sul do trem que vai de Pequim a Hong Kong.

Além disso, de lá partem voos diretos para Europa, Oriente Médio e Estados Unidos, o que pode ter contribuído para a propagação do vírus.

Devido à sua localização estratégica, vários consulados estão em Wuhan (França, Reino Unido, Estados Unidos). 

Pelo menos 106 pessoas morreram e mais de 2.700 foram infectadas na China desde o surgimento do coronavírus no final de dezembro. Desde então, se espalhou pela Ásia, Europa, Estados Unidos e Austrália.

Confinada, Wuhan, uma importante cidade industrial —tem cerca de 160 empresas japonesas— e uma das maiores da China, está com atividades paralisadas. De lá saem 60% dos trilhos de alta velocidade chineses. Importante centro automotivo, é berço da Dongfeng, segunda maior montadora do país e parceira das japonesas Nissan e Honda.

Além da paralisação das indústrias da região, companhias de outras partes do país estenderam o recesso do Ano-Novo chinês, provocando uma forte queda no preço de matérias-primas. Nesta segunda, o barril de petróleo Brent caiu 2%, abaixo de US$ 60 pela primeira vez desde outubro, derrubando as ações da Petrobras em 4,3%.

Com agências de notícias

O sonho americano sucumbe diante da destruição do valor do trabalho


Entre 1973 e 2010, o rendimento do 1% mais rico triplicou. Dos 99% aumentou só 10%

CartaCapital - Luiz Gonzaga Belluzzo
Quase metade dos trabalhadores dos EUA com idade entre 18 e 64 anos labuta em empregos de baixa remuneração
Dias antes do feérico pronunciamento de Donald Trump em Davos, o jornal The New York Times publicou um texto comovente do articulista Nicholas Kristof. Da boca e garganta de Trump ribombaram celebrações do desempenho da economia dos Estado Unidos. Da pena de Kristof ecoam lamentos e lamúrias dos habitantes de Yamhill, uma pequena cidade do Oregon. A história de Kristof recua para a década de 70 do século passado e registra a algazarra que reinava diariamente no ônibus escolar no 6. Nick viajava todos os dias na companhia de seus vizinhos da família Knapp, Farlan, Zealan, Rogena, Nathan e Keylan. Filhos da classe trabalhadora, os meninos e meninas sonhavam “em meio a travessuras, bravatas e otimismo”.

O pai dos meninos tinha um emprego firme e bem remunerado como instalador de dutos. A família explodiu em felicidade quando adquiriu a casa própria e a alegria foi intensa no dia em que Farlan ganhou um Ford Mustang ao completar 16 anos. 

“Hoje, cerca de um quarto das crianças do ônibus no 6 estão mortas, vitimadas por drogas, suicídio, álcool ou acidentes causados por imprudência. Dos cinco filhos da família Knapp, Farlan morreu de insuficiência hepática por bebida e drogas, Zealan queimado até a morte em um incêndio em casa, desmaiado e bêbado, Rogena morreu de hepatite ligada ao uso de drogas e Nathan explodiu-se ao cozinhar metanfetamina. Keylan sobreviveu porque passou 13 anos em uma penitenciária estadual.”

As outras crianças no ônibus não tiveram destino melhor. “Mike suicidou-se, Steve morreu em um acidente de moto, Cindy de depressão que culminou em um ataque cardíaco, Jeff de um acidente de carro, Billy de diabetes na prisão, Kevin de doenças relacionadas à obesidade, Tim de um acidente em trabalhos de construção, Sue de causas indeterminadas. Chris é dado como morto, depois de anos de alcoolismo e sem-teto. Ao menos mais um está na prisão, e outro é sem-teto.”

A pequena Yamhill não é uma exceção na vida contemporânea dos Estados Unidos. As assim chamadas “mortes por desespero” assumiram dimensões assustadoras. Os suicídios apresentam a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra. As defunções por abuso de drogas, sobretudo opioides, atingiram índices alarmantes. “O significado da vida para a classe trabalhadora parece ter evaporado”, disse Angus Deaton, economista engalanado com o Prêmio Nobel e autor da expressão Morte por Desespero. Nos rastros da alegria barulhenta e esperançosa do ônibus no 6 restaram as mortes por álcool, drogas e suicídio.

Kristof atribui a avalanche de desgraças individuais à desintegração da classe trabalhadora americana. “Empregos perdidos, famílias quebradas, melancolia – e políticas fracassadas. O sofrimento dos menos favorecidos era invisível para os ricos, mas agora os bilionários aparentam preocupação com os rumos dos Estados Unidos.”

A Faculdade de Direito da Universidade Cornell publicou recentemente um estudo a respeito das mutações no mercado de trabalho local. O propósito da investigação é construir um índice de qualidade dos empregos oferecidos pelo setor privado desde a Segunda Guerra (The U.S. Private Sector Job Quality Index). 

O Job Quality Index destina-se a avaliar – em uma base mensal – em que medida os empregos criados nos Estados Unidos correspondem às expectativas dos trabalhadores. O critério adotado compara as vagas que oferecem uma relação salários/horas trabalhadas inferior à desejada com as ocupações que ensejam uma relação satisfatória, ou seja, maior salário, mais horas trabalhadas. Não é difícil descobrir a predominância dos empregos de poucas horas e baixos salários.

Relatório publicado em novembro de 2019 pela Brookings Institution constata que 44% dos trabalhadores americanos com idades entre 18 e 64 anos (em um total de 53 milhões) labutam em empregos de baixa remuneração, com uma renda média anual de apenas 17.950 dólares. Se elevarmos o sarrafo para além dos 64 anos, esses 53 milhões vão sofrer a companhia dos trabalhadores mais velhos, cujo contingente cresce rapidamente.

Os mais idosos voltam ao trabalho por não conseguirem custear as despesas de alimentação, moradia, transporte e saúde quando se aposentam (colapso da poupança pessoal, pensões mínimas e aumento da idade de aposentadoria). Deve-se, portanto, adicionar ao menos outros 5 milhões obrigados a voltar ao mercado de trabalho. Esse contingente de 58 milhões que trabalham em tempo parcial, em contratos de muito curto prazo ou temporários e que ganham 8 dólares por hora, provavelmente compõe a maioria dos americanos que não receberam aumentos salariais no ano passado.

Assim como no caso de seus antecessores, o ciclo de expansão comemorado por Trump fracassa miseravelmente no atendimento das promessas mais caras ao american dream: crescimento da renda e geração de empregos estáveis e bem remunerados.

Muitos compraram a versão da “responsabilidade pessoal” que atira às costas dos indivíduos a culpa por serem pobres. Nesse diapasão liberal, classes trabalhadoras e remediadas nos Estados Unidos ziguezagueiam entre os fetiches do individualismo e as realidades cruéis do declínio social e econômico. A individualização do fracasso não consegue mais ocultar o destino comum reservado aos derrotados pela desordem do sistema social. Na American Business Roundtable de 2019, os bacanas das grandes corporações bateram no peito para purgar os pecados que porventura tenham cometido em nome da eficiência que redundou em baixas remunerações dos trabalhadores e na maximização do “valor do acionista”. O mercado de ações bate recordes, mas a classe trabalhadora prossegue na dura batalha pela sobrevivência.

Joseph Stiglitz reconheceu que a declaração em prol do bem-estar das demais partes interessadas – trabalhadores, fornecedores, clientes – repercute um mal-estar com os desequilíbrios de poder e desigualdade na distribuição de renda. Assinado na mencionada reunião do ano passado por praticamente todos os parrudos integrantes da Mesa-Redonda, o mea-culpa causou grande agitação nos mercados. Desconfiado, o economista recomendou cautela diante das boas intenções dos executivos. “Teremos que esperar para ver se a declaração recente da American Business Roundtable a respeito da governança corporativa com base na primazia dos acionistas é para valer ou meramente um golpe publicitário. Se os CEO mais poderosos da América realmente acreditam no que dizem, apoiarão reformas legislativas abrangentes.”

Nos Estados Unidos, entrou em voga nos anos 80 a “economia da oferta” e sua filha dileta, a curva de Laffer, que preconizavam a redução de impostos para os ricos “poupadores” e empresas. Os adeptos da supply side economics decretaram a ineficácia dos sistemas de tributação progressiva da renda, que, segundo eles, promoviam o desincentivo à produção e à poupança geradora de novo investimento. A macroeconomia de Ronald Reagan defendia a tese do “gotejamento”: as camadas trabalhadoras e os governos receberam os benefícios da riqueza acumulada livremente pelos abonados empreendedores sob a forma de salários crescentes e aumento das receitas fiscais.

A enrolação do gotejamento não entregou o prometido. A migração da grande empresa para as regiões de baixos salários, a desregulamentação financeira e a prodigalidade de isenções e favores fiscais para as empresas e para as camadas endinheiradas não promoveram a esperada elevação da taxa de investimento e, ao mesmo tempo, produziram a estagnação dos rendimentos da classe média para baixo, a persistência dos déficits orçamentários e o crescimento do endividamento público e privado. A procissão de desenganos foi acompanhada da ampliação dos déficits em conta corrente e da transição dos Estados Unidos de país credor para devedor. A crise da classe média não é fruto da Grande Recessão, iniciada em 2008, mas um fenômeno de longo prazo. De 1973 até 2010, o rendimento de 90% das famílias americanas cresceu 10% em termos reais, enquanto os ganhos dos situados na faixa dos super-ricos – a turma do 1% superior – triplicaram. Pior ainda: a cada ciclo a recuperação do emprego é mais lenta e, portanto, maior é a pressão sobre os rendimentos dos assalariados.

Os lucros foram gordos para os senhores da finança e para as empresas empenhadas no outsourcing e na “deslocalização” das atividades para as regiões de salários “competitivos”. Barack Obama e seus economistas salvaram Wall Street da derrocada financeira, mas não responderam às demandas da maioria dos americanos atormentados pelas perspectivas de um crescimento pífio do emprego e dos salários. A lenta recuperação da economia não consegue oferecer aos seus cidadãos soluções críveis para atenuar as desgraças da anomia social e da destruição dos nexos básicos da sociabilidade, inclusive os familiares.

Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala mundial. Essa convergência suscitou os surtos intensos de demissões de trabalhadores, a eliminação dos melhores postos de trabalho, a maníaca obsessão com a redução de custos.

Não se trata de nenhuma inevitabilidade tecnológica. Foram, de fato, gigantescos os avanços na redução do tempo de trabalho exigido para o atendimento das necessidades, reais e imaginárias, da sociedade. Mas os resultados mesquinhos em termos de criação de novos empregos e de melhora das condições de vida só podem ser explicados pelo peculiar metabolismo das economias capitalistas, sob o império da competição desbragada e das finanças globais desreguladas. 

A evolução das espécies não é teoria, é constatação


Nilson Lage

A evolução das espécies não é teoria. É constatação. A Teoria da Evolução trata da maneira como ela se processa e, neste particular, pode ser aperfeiçoada ou criticada.

A ideia da evolução brota das categorias classificatórias de Carl von Linneu e está presente, entre outros, nos estudos de Jean Baptiste Lamarck, ambos personagens do Século XVIII. O ponto central da teoria de Charles Darwin, formulada décadas depois, é a seleção natural conduzindo, por via do acaso, à sobrevivência da herança genética da espécie.

A evolução, em si, comprova-se tanto em pesquisas paleontológicas quanto na observação da adaptação dos vírus e bactérias -- assunto de permanente atualidade. É ilusório tentar contestá-la com argumentos para-científicos.

A evolução não nega ou confirma a existência de Deus, Se há criação e criatura, a lógica da linguagem preenche o vazio com o Criador. Não há como desmentir esse raciocínio que trata das causas primeiras: de toda sorte, o universo está criado e em criação. Por que Deus não o teria concebido como se cria um filho, para que ele mesmo se crie?

O que chamam de criacionismo é uma convicção religiosa fundada da leitura textual do Antigo Testamento bíblico. O Gênesis é um poema excelente, construído com sentenças-tópico que se reafirmam em séries documentais. Lido com a percepção de como se formulava a filosofia antes de Sócrates -- por lendas, apólogos e narrativas épicas -- propõe a questão da criação em ordem racional e representa a percepção possível da realidade na época em que foi formulado.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O caso do estupro da blogueira Mariana Ferrer


Repressão palestina em alguns, garantias jurídicas norueguesas para outros. Tudo isso no país mais desigual no mundo.
Vinícius Carvalho

O caso do estupro ocorrido da blogueira Mariana Ferrer num famoso beach club aqui de Florianópolis, o Cafe de La Musique, que voltou ontem aos Trending Topics do Twitter, me lembrou daquela frase do Groucho Marx, "eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio.”

Digo isso porque já frequentei tal local, muitos anos atrás.

E nem vou botar "alerta de gatilho" no texto, porque vocês já são grandinhos e essa palhaçada de militância importada e adoção de conceitos e termos como "trigger", não cabe aqui.

Mas o caso do estupro em si, é angustiante por vários motivos, mas principalmente pela repetição de fatos, pelo padrão dos envolvidos, pelo padrão cultural do arco de acontecimentos que permearam o caso, pelo padrão social de classe da forma como a imprensa trata o caso e a impunidade dos envolvidos.

Essa subcultura professada por essa playboyzada escrota e pérfida aqui de Florianópolis, essa Cacaumenezização da vida cotidiana que ajudam a fundamentar e normatizar casos como este.

Essa molecada que mistura good vibes, jack johnson, bob marley, namastê e nazismo. Potenciais maníacos do parque com fedor de parafina.

O criminoso, um empresário de São Paulo chamado André de Camargo Aranha, tem o nome devidamente abafado e, pior, sua empresa não é mencionada em nenhuma matéria. Apenas dizem "empresário do ramo de marketing esportivo". E aqui não tratamos um caso de justiçamento ou vingança penal. O inquérito detectou que, de fato, o empresário dopou e violentou sexualmente a menina que, por sinal, o corpo de delito confirmou que ainda era virgem.

Pesquisei qual era a empresa do criminoso e não descobri sequer o nome fantasia. Até pesquisar os seus processos e aí descobrir que o violentador é um dos donos da Energy Sports. Empresário de jogadores de futebol, alguns famosos como o Shaylon, Gabriel Jesus, Ricardo Goulart, Hernane Brocador, Roger Guedes e o Luan, ex-Grêmio.

A repetição de fatos começa com, olha que "coincidência", que as pessoas envolvidas são subcelebridades, frequentadores dos tais beach clubs, puxa-sacos e "parças" de jogadores de futebol e um velho conhecido estuprador da cidade de Florianópolis, o herdeiro de um império das comunicações local, que há cerca de 12 anos, ainda menor de idade, estuprou junto com o filho de um delegado local, uma menina de 13 anos (também virgem), sua colega de escola, destruindo todo o aparelho sexual da vítima pois até brinquedo introduziram na sua vagina.

Ambos ficaram impunes e o caso foi tratado, pasmem, pelo delegado que era pai de um dos acusados, e tratado como um simples ato de "conjunção carnal".

O "herdeiro" do império das comunicações foi mandado para morar fora do Brasil um tempo. Ao voltar, no ano passado, saindo também de um beach club no mesmo bairro, o Jurerê Internacional, dirigindo bêbado e cheirado num Audi, por volta de 7 horas da manhã, atropelou 3 pessoas num ponto de ônibus e matou um jovem que estava esperando a condução para ir trabalhar. Em seu carro foram encontrados centenas de micropontos de LSD, além de MD e outras imundices sintéticas consumidas e vendidas impunemente por playboys como se fosse queijo coalho na praia, e também por fodidos e desocupados que sonham em fazer cosplay de playboy.

Voltando ao estuprador deste texto, o tal de Andre de Camargo, além de amigo do estuprador e atropelador de outrora, tem inúmeras fotos também com o Ronaldo Fenômeno (inclusive de viagens juntinhos), Gabriel Jesus, dentro de campo no Allianz Parque em comemoração de títulos com os jogadores do Palmeiras e etc.

O padrão cultural, é que essa subgente, está sempre frequentando estes mesmos locais, sempre os mesmos tipos de música, sempre as mesmas roupas, os mesmos cortes de cabelo, e sempre rodeados com um séquito de arrivistas, de puxa-sacos e de "amigas" (e eu só não as chamo de vagabundas, senão vai ter cirandeiro desvirtuando todo o texto para outro lado, mas acreditem, para mim elas são isso aí mesmo), como as supostas "amigas" da vítima do caso, que ARMARAM a emboscada para a blogueira junto com o violentador. Ou seja, elas mandaram a vítima se dirigir a tal local, já dopada, grogue e não escrevendo coisa com coisa no WhatsApp, pedindo ajuda, chegando lá, disseram que estavam já em outro local para ajudar a formar o álibi.

Essas meninas hoje estão testemunhando em favor do violentador.

Amigas, cuidado com as amizades de vocês, aquelas "amigonas do peito". Papo reto. Os homens então nem se fala, só que o homem corre menos risco porque ele é, em vias de regra, o agente portador da violência.

Já, sobre o bairro do Jurerê Internacional em si, eu só consigo lembrar do "Refletindo sobre o Inferno" de Bertold Brecht.

"(...) acho, refletindo sobre o inferno,
que ele deve assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.

Também no inferno existem, não tenho dúvidas,
esses jardins luxuriantes
Com as flores grandes como árvores,
que naturalmente fenecem
Sem demora, se não são molhadas com água muito cara.
E mercados de frutas com verdadeiros montes de frutos,
no entanto sem cheiro nem sabor.
E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes,
nos quais gente rosada, vindo de lugar nenhum,
vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões
não menos que os moradores dos barracos."

Já o outro padrão cultural contido na violência cotidiana da tragédia brasileira é: enquanto bailes funks na Favela de Paraisópolis (ou no Complexo da Penha) são reprimidos com força desproporcional (e não estou aqui dizendo que concordo com tais bailes que, no meu ponto de vista, são verdadeiros umbrais humanos), o banditismo deslavado, estupros, espancamentos, consumo e venda de drogas em locais como Jurerê Internacional ou o Vivendas da Barra, contam com uma leniência da justiça que acabam por perpetuar tais crimes.

Repressão palestina em alguns, garantias jurídicas norueguesas para outros. Tudo isso no país mais desigual no mundo. É óbvio que vai dar merda, é óbvio que vai dar em desastre, e é óbvio que vai dar em extrema-direita.

O caso da blogueira Mariana Ferrer e o porquê do autor do crime estar sendo protegido



Antes de começar a thread, gostaria de pedir a todos que usassem a hashtag #maribferrer para responderem/citarem essa thread, é muito importante dar visibilidade para esse caso.

A blogueira Mariana Ferrer era embaixadora do “Café de La Musique”, que fica em Jurerê, Florianópolis. O local se trata de um beach club luxuoso, sempre se mostrou seguro e devido essa imagem que transparecia ela acabou aceitando trabalhar no lugar.

Fazia pouco tempo que Mariana havia sido convidada para trabalhar no local, sua função era divulgar o local, gastronomia e estar presente nas festas com os convidados dela.

Indo direto para o caso. No dia 15 de dezembro de 2018, Mariana foi dopada, estuprada e abandonada por suas “amigas” que a acompanhavam no local.

As “amigas” não só abandonaram Mariana, mas também compactuaram com o crime dentro do local, indo todas jantar com o estuprador e a corja no restaurante de um dos sócios do local.

Todas as embaixadoras do clube recebem um cartão de consumo, como se fosse uma comanda. Através disso e das filmagens do telefone da vítima foi comprovado que naquele dia Mariana tomou apenas uma dose de gin e água.

Mariana ficou totalmente inconsciente e como uma marionete. Apenas com uma dose de gin, isso não seria possível, ela foi drogada para assim não ter consentimento e lembranças do crime e do agressor, ficando totalmente vulnerável.

As “drogas do estupro” podem ser fatais e algumas até mesmo não são conhecidas pela polícia, elas deixam as vítimas totalmente inconscientes e levam à perda de memória.

Além do estupro de vulnerável, todas as roupas íntimas de Mariana ficaram sujas de sangue, porque ela era virgem até o estupro acontecer.

O sonho de muitas garotas é ter esse momento com alguém especial, com alguém que amem de verdade e Mariana teve o seu momento roubado por um desconhecido, perdendo sua virgindade em um estupro.

Mariana mandou diversas mensagens pedindo ajuda para as “amigas” que foram com ela até o local, mensagens essas que foram totalmente ignoradas.

Afinal, quem é o estuprador de Mariana e por que a cara dele não está estampada nas principais manchetes de jornais?

Através de provas testemunhais, periciais, confronto de material genético e contradições em depoimentos, a polícia civil indiciou o empresário André de Camargo Aranha por estupro de vulnerável.

O autor do crime comprovado pelas autoridades atua no marketing futebolístico e obviamente negou o estupro, mesmo com confronto genético e diversas outras provas indicando o oposto.

A justiça na íntegra ainda não foi feita e o criminoso continua sendo protegido, porque se tratam de pessoas poderosas envolvidas. O criminoso é amigo de diversos famosos, incluindo o filho do dono de uma das maiores redes de televisão brasileira.

As autoridades empenhadas em proteger apenas o criminoso e o local do crime não deram auxílio algum à vítima, mesmo que ela estivesse chorando e sangrando muito.

O local do crime se trata de um espaço reservado da casa, cujo acesso é totalmente restrito, inclusive, existem gravações na escadaria onde o criminoso leva a vítima já dopada ao local restrito. Podemos notar que ele segura a mão dela para que ela não caia

As gravações são somente duas imagens gravadas de uma tela de computador e cortadas, que foram disponibilizadas e que constam no inquérito policial.

As imagens das 37 câmeras do estabelecimento não foram entregues e somente depois de meses surgiu uma imagem da vítima saindo do local e indo para o beach club ao lado, por ter sido induzida pelos “amigos” na esperança de encontrá-los e obter ajuda.

O questionamento que fica é: por que as imagens do estuprador, envolvidos e das áreas comuns não aparecem também?

A polícia de fato constatou que a vítima não tinha discernimento para a prática do ato e estava totalmente vulnerável.

O DNA de criminoso foi coletado nas roupas íntimas da vítima, existe o laudo médico comprovando que houve a conjunção carnal e rompimento do hímen entre outras diversas provas.

Através do DNA e da saliva do criminoso, deixado em um copo de água, foi feito um lado e comprovado de fato que o sêmen era dele.

Um mandado de prisão temporária foi decretado pela terceira Vara Criminal e derrubado pela primeira Câmara Criminal do Tribunal

A vítima teve até mesmo que, diante tudo, provar que já trabalhava como modelo e influenciadora, já que a defesa do estuprador usou as fotos do Instagram da vítima, alegando que os “aspectos profundos de sua personalidade também devem ser ressaltados e analisados”.

O criminoso quando deu seu depoimento à polícia confirmou que realmente era ele no vídeo da escadaria levando a vítima para um espaço reservado.

Porém, se analisarmos bem o vídeo, dá para perceber que ele foi manipulado, o cabelo e outras coisas foram modificados.

Ficam bem claras as modificações em alguns frames do vídeo e inclusive no horário. Se o vídeo teve cerca de 6 minutos realmente por que foi cortado ao meio e não é contínuo?

A vítima foi induzida por suas “amigas” para ir ao clube beach ao lado com o intuito de que o crime fosse desqualificado. Sendo assim, elas encobertam todo o crime.

André de Camargo Aranha

Vem aí a próxima novela!



Inédito: petista contesta Lula publicamente

Igual, só que pior...

Fernando Horta

De quem é esta frase?
"O sentido de tudo era, entretanto, o caráter anti-socialista e, como uma aspiração política, se imaginou que o novo país que seria criado saberia como dar valor à vitória e lutar com todas as suas forças contra os traidores, a corrupção e a decadência vindas de fora"
Se não fosse pelo uso correto da língua e um estilo mais estudado, poderia ser perfeitamente de Bolsonaro ... Todas as suas palavras-chave de luta estão aí ... todos os sentidos que orientam seus discursos também ...

Mas a frase é de Benito Mussolini, escrita no livro "Minha Autobiografia", em 1928.

É fascismo o que vivemos. Ainda mais tosco que os modelos europeus. Mas é.

Sapo grande na lagoa pequena


Weintraub é uma caricatura risível e odiosa de Bolsonaro


PERFEITO IDIOTA

Sozinho, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, reúne todas as características do bolsonarista médio que, no caso dele, são potencializadas pelo cargo e pela visibilidade que ele mesmo se dá, nas redes sociais.

E olha que estamos falando de um ministro que concorre com doidivanas do nível de Damares e Ernestos da vida.

Analfabeto funcional, comediante frustrado e acadêmico que passou a vida atolado na própria mediocridade, Weintraub parece estar sempre preparado para o ridículo, um estado de espírito que ele elevou ao patamar de arte deprê.

Para esconder o poço de frustrações em que vive, costuma ser autoritário, envolto em um processo permanente de mimetização do chefe, Bolsonaro, de quem, por incrível que pareça, consegue ser uma caricatura ainda mais risível e odiosa.

O episódio do “melhor Enem de todos os tempos” é extremamente simbólico da capacidade de Weintraub de se manter no topo do ranking do bolsonarismo ruminante: conseguiu, a um só tempo, cometer um erro inédito – errar na correção das provas de quase seis mil estudante – e jogar a credibilidade do exame no lixo, depois de uma construção bem sucedida de mais de duas décadas.

O ministro, no entanto, vive numa bruma permanente de negação, enclausurado na própria insensatez, bolando esquetes de humor pedestre para veicular nas redes sociais – como aquela, antológica, em que ele dança na chuva para demonstrar que, mesmo debaixo d’água, é um idiota a toda prova.

Weintraub se mantém no cargo porque a lógica bolsonarista, nesses casos, é imutável: quanto mais despreparado e inepto for o ministro, mais firme ele se mantém, soldado da ideologia de destruição total das instituições nacionais.

Sob aplausos da manada, é claro.

Marcelo Gleiser - O criacionismo não é uma teoria




Fronteiras do Pensamento

Físico brasileiro argumenta sobre a necessidade de se reconhecer as origens diferentes dos pensamentos evolucionista e criacionista. Para ele, o criacionismo não pode ser considerado uma teoria, pois não tem embasamento científico ou histórico.

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Marcelo Gleiser é cientista, escritor e colunista da Folha de S.Paulo e da NPR. Internacionalmente reconhecido no meio acadêmico, ele é professor da Darthmouth College, em Hanover (EUA), e autor de títulos como A dança do universo, A harmonia do mundo e Poeira das estrelas. Conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2007.

José de Abreu responde ao doente mental Carlos Vereza


  

Meu caro colega Carlos Vereza.

Achei muito bonito seu apelo para que eu respeite Regina Duarte, mas infelizmente eu não respeito nem fascistas nem quem os apoia, como você e ela. Achei bonita sua hipocrisia, sua falta de caráter e memória,digna de um esclerosado que costuma falar com supostos aliens, considerados “espíritos superiores” que vieram visitá-lo em discos voadores, como se pode ver em um vídeo postado na rede. Como antigo estudioso de Alan Kardec, fiquei surpreendido com sua elevada autoestima ao considerar-se privilegiado por espíritos  superiores, bem oposta à modéstia que prega o criador do kardecismo. Por outro lado, ao pedir-me respeito à namoradinha do Brasil e à eleição do fascista miliciano, pergunto porque você não respeitou as eleições de Lula e Dilma. É sabida sua revolta e desrespeito com a decisão soberana do povo brasileiro que os elegeu em QUATRO ELEIÇÕES CONSECUTIVAS! Agora você me pede para respeitar a eleição do vagabundo tenente? Eleito num pleito manipulado, onde o candidato melhor colocado nas pesquisas foi preso e alijado da disputa por um canalha que hoje ocupa, como pagamento inglório por seu feito, o cargo de ministro da justiça? Em minúsculas, do tamanho de seu(s) caráter (caracteres). Achei também muito bonita sua citação de Rimbaud, um artista louco como eu, não como você, doente, que vê discos voadores. 

Uma loucura sadia, produtiva, como deve ter todo artista. Como a minha, que ataca fascistas e apoiadores de fascista, como você e Regina Duarte, mas que jamais atira uma bengala numa colega em início de carreira, EM CENA, como você fez na novela CORPO DOURADO. Eu estava lá e vi! 

Ou como Regina fez em DESEJOS DE MULHER, ao usar ponto eletrônico por preguiça de decorar, que a fazia prestar mais atenção a seu ouvido (veja cenas onde ela entorta a cabeça pensando que iria ouvir melhor! Jesus, a porra do fone estava enfiada em seu ouvido!) que a seus colegas! Um desrespeito imenso! Fora as mudanças de texto que ela tentava fazer, desrespeitando a máxima stanislavskiana e dos bicheiros cariocas de que “vale o escrito”! Enfim, cabe ressaltar seu desrespeito à minha pessoa em várias entrevistas suas, inclusive numa matéria imensa na Folha. Mas, como bom esquerdista e humanista que sou, que sabe que você foi muito torturado pela ditadura, que foi encontrado numa poça de sangue dentro de uma banheira em seus porões, e, portanto, tendo talvez sofrido lesões cerebrais incuráveis, continuo lhe respeitando muito. E, esperando contracenar novamente com seu incomensurável talento, me despeço com um saudável (criação do querido amigo Carlito Maia - lembra de quando você era nosso e recebia flores a cada estreia?) 

PT saudações. José de Abreu

Em menos de 13 meses este governo demente conseguiu destruir o país



INSANIDADE CRIMINOSA

Paulo Muzell

Em menos de 13 meses este governo demente conseguiu destruir o país. Não vou repetir a longa lista de retrocessos já analisados em textos anteriores, a lista é longa. Vou apenas comentar outros dois crimes, de extrema gravidade, recentemente perpetrados contra o país.

Episódio 1: era sabido que a reforma da previdência provocaria um extraordinário aumento de pedidos de aposentadoria: as pessoas prestes a completar seu tempo de serviço, antecipariam seus pedidos, fugindo das novas regras. Os próprios servidores da Previdência fizeram isso, quase 6 mil se aposentaram e outros milhares entraram com os pedidos.

O previsível resultado aí está: colapso do INSS (Instituto Nacional de Previdência Social). Além disso, um sistema de apoio fundamental ao trabalho do Instituto, da Datraprev, também foi sucateado, a empresa está em vias de ser privatizada.

Dois milhões de processos de aposentadoria estão aguardando análise, cerca de 1,3 milhões há mais de 45 dias. Calcula-se que o déficit do quadro funcional do Instituto seja da ordem de 11 mil servidores, as vagas abertas em 2015 até agora não foram preenchidas.

Aí Bolsonaro teve oportunidade, mais uma vez, de mostrar seu despreparo e falta de bom senso: anunciou a contratação de 7 mil militares da reserva para “reforçar” o quadro funcional do INSS. Um absurdo: o trabalho de análise dos processos de aposentadoria exige pessoas que conheçam a fundo aa regras da legislação previdenciária. O insano presidente teve que voltar atrás e decidiu convocar servidores aposentados do Instituto para realizar o trabalho.

Episódio 2: o deliberado sucateamento da Receita Federal. Guedes há poucos dias atrás, numa entrevista afirmou que a carga tributária no Brasil é abusiva, de 34% do PIB, que deveria ser reduzida nos próximos dois anos para 20%, para ele um patamar razoável. Chamou atenção o fato de Guedes não ter explicado como seria feita esta drástica redução, não falou na elaboração de algum projeto de reforma tributária, com possíveis reduções de alíquotas ou supressão de tributos.

O noticiário nacional veiculou em seguida matérias denunciando o sucateamento da Receita Federal. Nos últimos dez anos o efetivo de pessoal foi reduzido em um terço: em janeiro de 2009 eram 12,7 mil servidores e em novembro de 2019 apenas 8,4 mil. Milhares de funcionários se aposentaram para não serem atingidos pelas novas regras da providência e não foram repostos. O Secretário da Receita foi demitido e foi anunciado o fechamento de 40 delegacias da Receita Federal: enquanto o número de empresas a serem fiscalizadas aumenta, a fiscalização diminui.

O fato se agravou com o anúncio da inclusão do Serpro no plano de privatizações do governo. O Google e a Amazon já tornaram público interesse na compra. O serviço federal de processamento está sendo sucateado, funcionários em greve, fragilizando ainda mais a estrutura de apoio de informática, fundamental à fiscalização tributária. Luiz Nassif foi direto ao ponto: o sucateamento da fiscalização tributária interessa à base de apoio de Bolsonaro: a lavagem de dinheiro das suas milícias e dos seus pentecostais. Conclusão óbvia: deliberadamente o governo sucateia a fiscalização tributária, favorece a sonegação, facilita a prática de atos ilícitos da sua base de apoio.

Mais corrupção e menos dinheiro nos cofres públicos, menos recursos para a saúde, para a educação, para assistência social, para os investimentos em infraestrutura. Pobre país!

Quando o Bolsonaro abre a boca é uma metralhadora de merda


Quando o Bolsonaro abre a boca é uma metralhadora de merda? É. Mas vocês já experimentaram ouvir a conversa de alguém num ponto de ônibus ou na fila de uma Casa Lotérica? O Bolsonaro é a cópia fiel do senso comum atual do nosso povo.

Eu nunca fiquei falando mal de deputado pois o politico é o desenho perfeito do povo. Olhem para o congresso e vejam. Aquilo lá não representa fiel e perfeitamente o povo brasileiro? Eu acho que sim. Por mais que metade dos deputados sejam da bancada do Boi, da Bala e da Bíblia, é exatamente isso que grande parte da população, pobre ou rica, branca ou negra, homem ou mulher desejam do fundo do coração.

Um pastor para lhe enganar, um patrão para puxar o saco e uma farda para sentir fetiche sexual.

Olhem para os córnos do Tiririca, para a pilantragem do Romário e para o focinho do Luís Miranda USA e vejam se isso não é a cara de um brasileiro médio e arrivista tentando furar a fila ou tirar alguma vantagem de alguém no Aniversário do Guanabara?

Ontem um amigo contou uma historia aterrorizante aqui, de que ele estava chegando em casa, no subúrbio do Rio e tinha uma pessoa morta no chão. As pessoas gritavam, "é bandido! É bandido!" e homens e mulheres, saíam de dentro das suas casas para chutar, pisotear e pular em cima do suposto ladrão morto.

Isso é pior que a barbárie, é pior que a idade média. Não é porque uma velhinha te faz um chá de carqueja quando você está com dor de barriga ou te fala "Deus te abençoe meu filho" que essa pessoa não possa guardar dentro de si os sentimentos mais repulsivos e sombrios.

Até os anos 80 as pesquisas antropológicas em subúrbios e comunidades do Brasil traziam respostas aterradoras, de pessoas que acreditavam que homossexualidade era coisa do diabo e deveria ser punido, que mãe solteira deveria ser castigada e etc. Isso teve um certo progresso nas décadas seguintes mas a centelha do conservadorismo sempre esteve ali, adormecida, bastava encontrar alguém que vocalizasse isso.

E é por isso que eu RECHAÇO a ideia de que a esquerda erra no dialogo com o povo, que ela errou nas eleições de 2018 ou que o PT tenha que fazer autocrítica. Autocrítica de quê, seus caras de pau? A esquerda tirou foi é leite de pedra, fez milagre. Fazer o USPiano Haddad ter 47 milhões de votos foi um feito histórico, um milagre de Fátima, quase um Ho Chi Mihn dos Jardins.

Como certa ve disse Guattari, "há tempos em que o povo simplesmente deseja o fascismo".

O Bolsonaro não vale nada. Mas ele é apenas o retrato do povo.

Riam, divirtam-se, sejam simpáticos, mas protejam-se. O perigo numa sociedade fascista está no seu amigo, parente ou vizinho.

Se afastem de pessoas burras. A burrice mata mais que a Segunda Guerra Mundial. Não gastem suas energias tentando ensinar bolsominion a não ser racista ou idiota. Gastem suas energias dando afeto e conforto emocional para seus amigos e amigas que estão precisando disso neste momento, em que o país definha e está deixando todos em estado de permanente tensão e depressão.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Pra frente é que se anda


O secundário sobrepujou o relevante nos casos Regina Duarte e Sergio Moro

Bolsonaro desta vez teria razão se criticasse a imprensa, que forçou com frequência os fatos e seu sentido 
O primeiro lance inteligente de Jair Bolsonaro contra a imprensa crítica: as Redações estão encantadas com o convite à “namoradinha do Brasil” para ministrar cultura ao país. Estamos empanturrados de sorrisos em fotos, vídeos e ao vivo, embora não cheguemos a saber do que tanto ri e sorri a agora “noivinha de Bolsonaro”. E muito menos nos foi dado saber, dos ocupados lábios e nos ocupados espaços de fotos e vídeos, o que Regina Duarte entende por cultura e o que pretende oferecer-lhe.

De muitos pontos de vista, o secundário sobrepujou mesmo o relevante nas numerosas saliências dos últimos dias. Vista sem sensacionalismo, por exemplo, a tal investida de Bolsonaro contra Sergio Moro se torna só uma provável manobra de um grupelho interessado na recriação do Ministério da Segurança (inútil enquanto existiu com Temer). Bolsonaro desta vez teria razão se criticasse a imprensa, que forçou com frequência os fatos e seu sentido.

Bolsonaro não disse que pensava em restaurar o Ministério da Segurança, esvaziando a área de Moro. Falou em “estudo” a ser feito, “inclusive com Moro”, por “sugestão da maioria dos secretários de segurança”. Uma declaração muito mais próxima de agrado aos secretários que de provocação a Moro. Pouco depois do encontro com os secretários, Bolsonaro chamou o ministro, sendo admissível que o prevenisse do assunto.

Ter o ex-deputado Alberto Fraga à frente do Ministério da Segurança, com um diretor a seu serviço na PF, seria o ideal para Bolsonaro, que não corre o risco de instruções ou pedidos a Moro capazes de complicá-lo no futuro. Mas, se Moro quer mesmo candidatar-se à Presidência, terá de deixar o governo, filiar-se a um partido e fazer oposição ao concorrente Bolsonaro. A mania noticiosa de que Moro é provocado para demitir-se ignora que isso seria apenas, da parte de Bolsonaro, precipitar as atitudes hostis do futuro adversário.

Controlar a Polícia Federal e, por intermédio do Ministério da Segurança, influir em secretarias de segurança estaduais, seria proveitoso a Bolsonaro por problemas que vão muito além das dificuldades do seu filho Flávio. O modo de chegar a tanto, porém, não é fortalecer o concorrente.

Relevantes de verdade, na situação nebulosa que se vive, foram a audaciosa iniciativa de Luiz Fux no Supremo e a denúncia criminal do jornalista Glenn Greenwald pelo procurador federal Wellington Divino Marques de Oliveira.

São apenas apelativos os pretensos argumentos de Fux para suspender, sem prazo, a adoção do juiz das garantias aprovada pelo Congresso. A decisão resultante traz todos os sinais do abuso de poder.

Acrescidos da anulação, pelo mesmo ato, de decisão do próprio presidente do Supremo, que protelara a adoção por seis meses para organizar os novos procedimentos. A contribuição de Luiz Fux —ministro e imagem— para a depreciação do Supremo não perde nenhuma oportunidade.

O procurador Divino Oliveira recorre à inverdade para acusar Greenwald de colaboração nas captações de mensagens de Sergio Moro e de procuradores da Lava Jato, pelas quais confirmaram-se abusos e várias ilegalidades contra suspeitos, acusados e até contra o Supremo. Nem é preciso invocar as proteções legais à coleta e difusão de informações jornalísticas. O contato de Greenwald com as gravações é posterior à conclusão das captações. Além do registro de sua recusa a aconselhar os autores sobre providências posteriores à gravação.

Os procuradores da República indignaram-se com a lei contra abuso de poder. Seu colega Divino Oliveira dá mais uma prova de necessidade da lei. Não é da República que muitos são procuradores no Ministério, por atos deles, nem sempre Público.

Os alheios a tudo o que não seja o seu ganho dizem, todos os dias, que “as instituições estão funcionando”. Faz parte do seu ganho que as instituições esfacelem a cada dia um pouco mais.


A ignorância é maior até do que a imaginada até pela extrema direita

A DIREITA, AS MENTIRAS E AS IGNORÂNCIAS

Moisés Mendes

Por que a direita mundial (e não só a brasileira) descobriu que é fácil eleger os seus, depois de disseminar mentiras e crueldades contra as esquerdas, negros, gays, índios? Porque a ignorância era maior até do que a imaginada até pela extrema direita.

Em entrevista a Paulo Moreira Leite, para o Brasil 247, o embaixador aposentado José Maurício Bustani, aliado dos que tentaram evitar a invasão americana pelo Iraque, como diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas, diz que até hoje 50% dos americanos acreditam que Saddam Hussein tinha mesmo armas químicas.

Bolsonaro, por obra de Carluxo e seus robôs, descobriu como fazer aqui o que eles fazem lá muito tempo. Com dois ou três torpedos pelo whatsapp, um fato está criado e se reproduz com facilidade entre parentes, amigos, colegas, vizinhos e cúmplices eventuais de ódios e difamações.

É o que Renato Janine Ribeiro identifica como a perversidade do entretenimento camuflado como troca de informações. A disseminação de fake News é muitas vezes uma diversão cruel que se propagada como contraponto à chatice do jornalismo ou de qualquer tentativa de reflexão dita séria.


Como as mulheres italianas fizeram oposição a Mussolini


Sérgio Augusto
Até então cidadãs de segunda classe, as mulheres foram mensageiras, espiãs, guerrilheiras e enfermeiras na luta contra o fascismo
A boca de Benito Mussolini. Nada tinha de marcante, mas é quase sempre ela que primeiro me vem à cabeça quando revejo as fotos da execução pública do duce italiano, dependurado como um porco na viga de um posto da Standard Oil, na Praça Loreto, em Milão, às primeiras horas de 29 de abril de 1945, il giorno della vendetta.

Quase invisível nas imagens, aquela boca que tantas delícias e carícias experimentara finou-se da forma mais ignominiosa imaginável: abrigando um rato morto, sorrateiramente enfiado por um dos linchadores do ditador.

Podia ser, mas não é de regozijo ressentido o sentimento que aquelas imagens me provocam. Pois nem todas as proezas epicuristas e sexuais do duce, numericamente impressionantes, eram dignas de inveja. Cerca de 400 diferentes amantes ao longo da vida, não sei quantas enquanto dava as ordens no país, alguns estupros, como Mussolini encontrava tempo e energia para dar conta de tamanha concupiscência?

Tempo arranjava-se. Benito papava as moças — louras e morenas, magras e cheinhas, altas e baixas, maiores e menores de idade — nos momentos e locais disponíveis; com alguma frequência sobre a escrivaninha de seu gabinete, no Palácio Veneza.

Energia? Chamava-se Hormovin e vinha da Alemanha o Viagra consumido pelo Casanova fascista, que nem depois de oficializar a união com Claretta Petacci amansou seu furor erótico.

Oito anos atrás, Robert Olla escreveu e a Rizzoli editou uma biografia sexual do fauno, Dux (líder, em latim), com muitas das histórias que agora creio recontadas por Antonio Scurati em M: O Filho do Século, que ainda não li. A reputação de macho guerreiro, conquistador da Etiópia (Abissínia) e restaurador das glórias e ritos coletivos do antigo império romano, transformou Mussolini menos num “pai da pátria” do que no “amante da pátria”, a encarnação plena do sexo como símbolo do poder político.

Mito da potência fascista, fundado sobre a masculinidade camponesa, o líder careca, parrudo, fanfarrão, 6 cm mais baixo do que Hitler (que media 1m75) e heroicas cicatrizes causadas por estilhaços durante a 1ª Guerra, corneou, simbolicamente, boa parte dos machos italianos. Mas nem todas as mulheres da Itália renderam-se ao seu carisma. Por mais paradoxal que pareça, a guerra por ele perfilhada muito contribuiu para a emancipação feminina no país.

Em mais um ensaio sobre o fascismo italiano, a historiadora e jornalista britânica Caroline Moorehead, crescida e parcialmente educada na Itália, acaba de reforçar essa tese com documentação inédita e testemunhos surpreendentes. A House in the Mountains (Uma casa nas montanhas) entrega o jogo no subtítulo: As mulheres que libertaram a Itália—dos invasores alemães e do mussolinismo.

Com milhares de soldados e civis presos, mortos ou despachados para campos de trabalhos, fábricas e minas na Alemanha, a Itália ocupada pelos nazistas ficou entregue aos cuidados, à tenacidade e à esperteza de suas mulheres. Até então cidadãs de segunda classe, com limitadíssimo acesso à educação, escravas e parideiras servis aos maridos, condenadas a cuidar sozinhas da cozinha e das crianças, elas acabaram sendo as mais destacadas figuras da Resistência italiana.

Diligentes como mensageiras, espiãs, guerrilheiras e enfermeiras, aprenderam a roubar mapas e suprimentos, produzir panfletos em gráficas clandestinas, dinamitar pontes, matar inimigos, esconder e tratar de partigiani feridos, recolher, limpar e enterrar os mortos, com a mesma frieza com que se enfiavam em cavernas e fugiam por esgotos. Muitas das Rosas, Teresas e Adas que aparecem no livro morreram depois de presas, encarceradas e, quase sempre, violentadas.

Repleto de atrocidades e atos de bravura, A House in the Mountains também tem, como era praxe nos filmes de guerra antigos, um interlúdio poético. Com a guerra definhante, à espera da rendição oficial, uma brava ragazza de 21 anos, chamada Mathilda Pietroantonio, cruza numa estrada com sete jovens fascistas, os braços erguidos em rendição. O companheiro de Mathilda faz menção de executá-los, ela o impede. “Não. A guerra acabou. Você não vai matar ninguém a sangue frio”, diz ela ao companheiro, ordenando aos jovens: “Vão pra casa. Vão. Corram”. Bravissima Mathilda.

No cinturão de arroz que envolvia quatro regiões do país surgiram as “modines”, mulheres que zelavam pelos arrozais e os desinfetavam, de maio a julho, debaixo do maior sol. Com as pernas enfiadas na água por horas a fio, molestadas por mosquitos transmissores da malária e expostas a outras doenças, as modines tiveram sua faina comparada a um círculo que Dante não criara em seu Inferno.

Ainda assim, arrumavam tempo para atuar na clandestinidade, bancar pombos-correios e malocar partigiani durante os 20 anos de fascismo. O duce as respeitava e concedeu-lhes inúmeras regalias, inclusive viagens de férias, não só porque a economia do país dependia à beça da exportação de arroz, mas sobretudo porque elas eram muito organizadas e conscientes de sua força política.

Um filme de 1949, Arroz Amargo, projeto de um grupo de artistas ligados ao Partido Comunista, dirigido por Giuseppe De Santis e rodado em terras gentilmente cedidas pelo magnata Gianni Agnelli, projetou mundialmente a figura das modines, em clave neorealista ma non troppo. Sua mensagem social e política acabaria ficando em segundo plano, ofuscada pelo par de coxas fenomenais de Silvana Mangano, na flor dos 18 anos. Mas será que isso não configuraria uma nova vitória feminina?

Último pedido



Judeus bolsonaristas se preocupam pouco ou nada com o racismo e o fascismo


Luis Felipe Miguel

Vale a pena a leitura do texto de Felipe Poroger publicado na Folha de hoje. Ele conversa com dez judeus que votaram em Bolsonaro - mas acredito que, mutatis mutandis, o resultado seria semelhante com outros representantes do bolsonarismo envergonhado, independentemente de religião ou origem étnica.

Mesmo depois da explicitação do elemento nazista do governo, a maioria deles voltaria a votar em Bolsonaro. Os outros anulariam. Nenhum imagina que impedir a vitória de um candidato fascista possa ser prioridade.

Mais impressionantes ainda são as respostas à segunda questão. Nenhum dos entrevistados se julgou ameaçado peças declarações agressivas de Bolsonaro ainda em campanha. Todos reconhecem, porém, que pessoas negras e integrantes da comunidade LGBT tinham, sim, motivos para ter medo.

Mas isso não os demoveu de votar em Bolsonaro. Que triste retrato da miséria moral de uma grande fatia da nossa classe média.


O que pensam dez judeus eleitores de Bolsonaro após caso Alvim
Felipe Poroger
[RESUMO]  Após vídeo de Ricardo Alvim parafraseando o nazista Joseph Goebbels, autor faz enquete com dez membros da comunidade judaica paulista que votaram em Jair Bolsonaro.
A premissa é simples: entrevistar dez judeus eleitores de Jair Bolsonaro para um breve balanço do governo. E, claro, relatar suas reações ao vídeo em que Roberto Alvim, ex-secretário de Cultura, parafraseou trechos de um discurso do nazista Joseph Goebbels.

O grupo inclui homens e mulheres de 25 a 89 anos, com ensino superior completo, das classes A e B, paulistanos. Trata-se de uma enquete, obviamente —não de uma pesquisa com valor científico.

Todos preferiram o anonimato. “Medo de retaliação” ou “desconforto com a exposição” foram alguns dos motivos citados. Os nomes usados são, portanto, fictícios.

Limitadas pelo espaço, pela pequena amostragem e pela complexidade do tema, as respostas não oferecem soluções, mas talvez saciem certa curiosidade ou frustrem, mais uma vez, qualquer expectativa de conclusão fácil.

1) Como avalia o primeiro ano do governo? Votaria de novo?

“O Bolsonaro foi para um botequim com os amigos e não voltou mais. Não votaria nem para síndico do meu prédio”, esbraveja Samuel, 89, aposentado. Arrependido? “Talvez”. Escolheria Haddad? “Nunca”.

O teor da afirmação é recorrente: a maioria das conversas aponta para um sentimento de decepção. “Tive aula com Haddad, é um dos profissionais que mais admirei, mas pensava que seria uma marionete do Lula. O sonho que me venderam não está sendo cumprido”, afirma Tom, 25, administrador. Qual era esse sonho? “Uma política em prol da economia. Hoje, votaria branco ou nulo. De maneira nenhuma no Bolsonaro”. Dos dez entrevistados, três veem melhoras na economia e elogiam a equipe de governo.

Miriam, 65, professora, admite: “Ninguém nunca gostou do Bolsonaro. É tudo de pior, mas faltava opção”. Marcelo, 44, empresário, é categórico: “Muitos judeus têm vergonha de ter votado nele. Eu votaria de novo, de olhos fechados, se fosse contra o PT”. Quando pergunto qual o problema do PT, a resposta é rápida: “Corrupção, claro. Se associaram a empresários inescrupulosos”. Existe corrupção no atual governo? “Sim, mas menos”.

Nenhum dos entrevistados citou adjetivos positivos para descrever o presidente. “Burro”, “despreparado”, dono de uma “língua que não passa pelo cérebro, mas pelo intestino”. Sete, mesmo assim, votariam de novo caso as circunstâncias se repetissem. Os demais anulariam.

2) Antes da presidência, Bolsonaro já fazia afirmações como “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. Em algum momento, temeu que essa violência se revertesse contra você? 

Nenhum entrevistado jamais teve medo de ser atacado. “Os discursos me preocupavam. Mostra uma tendência, né? Mas ele é muito vazio, nem prestei atenção nessas frases”, diz Rosa, 81, aposentada. Ivo, 60, empresário, sente o mesmo e diz: “A sociedade brasileira está prepara para lidar com isso.”

Pergunto então se negros ou LGBTQs responderiam do mesmo modo. Todos opinam que pessoas desses grupos teriam, sim, motivos para temer. Nove dos dez, no entanto, não acreditam que perseguições aconteçam ou acontecerão.

A frase “cão que ladra não morde” apareceu três vezes. “A sociedade não aceitaria”, seis vezes.  Para Marcelo, um desses seis, pergunto: “A sociedade não aceitaria nem se o empresariado estivesse enriquecendo?”. Ele pensa. “Não, a maioria não”.

Tom me conta que seu irmão é homossexual. “Você temia pela vida dele?”, questiono. “Sim, temia, mas tinha uma confiança no governo como um todo e também na polícia. Mas, hoje, temo pelo meu irmão”. Insisto: “Acha que os discursos de Bolsonaro podem encorajar alguém que queira atacar seu irmão?”. “Sim, garanto que sim. E me sinto envergonhado”.

3) Em 2017, no Clube Hebraica do RJ, voltado a judeus, Bolsonaro concluiu que, em visita a “um quilombo”, “o afrodescendente mais leve pesava sete arrobas. Nem pra procriador serve mais”. Em outros momentos, como naquele em que diz que ter uma filha foi “fraquejar”, a plateia ria e aplaudia. Se você estivesse lá, como reagiria?

[Rafael, 60]: Não aplaudiria. Ficaria pra ouvir e entender a pessoa. Mas o dia em que perceber que minha presença é apoio, caio fora. 

[Rosa, 81]: Ficaria muito decepcionada. Suponho que levantaria.

[Samuel, 89]: Não aplaudiria coisa nenhuma. Contestaria alguma coisa. 

[Carlos, 41, empresário]: Ele é um asno. Ficaria revoltado. Levantaria.

[Marcelo, 44]: Pensaria “o quê esse cara tá falando?”, mas não saberia demonstrar.

[Tom, 25]: Bateria um arrependimento, uma vergonha. Um dos valores que mais prezo no Brasil é a diversidade. Sairia.

[Márcia, 55, médica]: Essa fala é muito triste. Ficaria escandalizada, mas quieta. 

[Roberta, 28, psicóloga]: Dependendo do incômodo, faria algo, mas ficaria até o fim. Pra não ser falta de respeito.

[Miriam, 65]: Não acharia engraçado. Sou contra discriminação. Iria embora, inclusive, se ele elogiasse judeus só por causa de sobrenomes.

[Ivo, 60]: Sairia da sala. É imperdoável.

4) O nazismo é de esquerda, como afirmou o chanceler Ernesto Araújo?

Todos respondem que nazismo jamais pode ser considerado de esquerda. Quatro insistem que também não se encaixa no espectro da direita. Para Samuel, “nazismo é um radical tão profundo que não pertence a nenhum dos lados”. 

Pergunto em que lado da política se enquadram. Dois se consideram de direita. Cinco de centro. Samuel, “uma pessoa que pensa de forma universal”. Ivo, de centro-esquerda. Roberta, “não tão ligada a esses assuntos”, afirma não saber responder, mas tenta: “Sou de direita, acho. O PT é bem de esquerda, né? Sou o oposto. Ou melhor: sou de centro”.

5) Como se sentiu ao ver o vídeo de Alvim? Existe algo no comportamento de Bolsonaro que deixa seus colaboradores à vontade para esse tipo de ato?

“Nazistoide metido à besta”, “ridículo”, “execrável” são termos que descrevem Alvim. Ivo ficou surpreso dado o “alinhamento com Israel”. Márcia, que, em pergunta anterior dizia nunca ter sentido medo, agora afirma: “passei o dia deprimida. Tenho que sair desse país. Estou apavorada”. Rebato: como se sentiria ao sair do Brasil por medo de alguém que você ajudou a colocar no poder? “Não é específico do Bolsonaro. Quando viajo, sinto cada vez mais que ficamos atrasados em tudo. Calculo um atraso de 20 anos”. Na sequência, ela me envia uma reportagem intitulada “15 fatos mostram que comunidade judaica não apoiou Bolsonaro”.

Duas pessoas não tinham visto o vídeo, mas sabiam do que se tratava. Sobre a responsabilidade de Bolsonaro, as opiniões se dividem: “Ele escolheu o cara, né?”, diz Carlos. “Precisa escolher melhor as pessoas. A comunicação do governo é muito ruim”. Miriam completa: “Deveria ser responsabilizado pela escolha e imbecilidade”.

Rosa é uma das duas a dizer que a culpa não é de Bolsonaro. A outra, Roberta, responde: “Não, acho que não. Até demitiu o cara. Bom, claro que foi ele que pôs na equipe. É, talvez tenha algo do Bolsonaro nisso. Não sei, não me sinto representada por ele mesmo”.

6) Existe algum aspecto deste governo que se assemelha ao nazismo?

Para Tom, são muitos. “Metade dos discursos leva ao preconceito”. Os outros nove entrevistados, no entanto, afirmam que não.

7) Após a demissão de Alvim, Bolsonaro declarou: “Manifestamos nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”. Existem valores em comum entre a comunidade e o presidente?

“Nada em comum. Só quer se aproximar porque disseram que judeus são inteligentes e sabem ganhar dinheiro”, opina Samuel. Carlos reforça que a “comunidade judaica ouve muito mais”.

Ivo e Miriam vão por outro caminho. Para o primeiro, há muito em comum, visto que “a religião é bastante conservadora”. Para a segunda, a comunidade é “preconceituosa, mesmo contra seu próprio povo”. Ela se vê assim? “Seria mentira se dissesse que não.”

Para Marcelo, em comum é “o valor do trabalho. Diferentemente da esquerda, Bolsonaro quer que o pobre enriqueça por méritos próprios”. Pergunto se é possível enriquecer em situação de miséria ou fome. “É preciso dar educação para que, quem não tem recurso, aprenda a ganhar seu próprio dinheiro. Mas realmente... é praticamente impossível o cara que está na miséria enriquecer por méritos próprios.”

Seis entrevistados exaltam a aproximação do governo com Israel. Ivo opina: “o PT era alinhado com os palestinos. Esse é o primeiro governo pró-Israel. Para o bem e para o mal. Tenho uma visão bem crítica da política expansionista de Israel”. Rafael completa: “Não acho que Bolsonaro seja uma ameaça à comunidade judaica. É uma ameaça ao país”. Ele foi um dos dois a usar o termo “blindado” para definir como se sente.

​8) “Se há dez pessoas numa mesa, senta um nazista e ninguém se levanta é porque há onze nazistas na mesa”. Concorda com essa frase?

[Rafael]: Sim. Não dá pra ficar com um nazista na mesa. Me levanto.

[Rosa]: Não. Muitas vezes é preciso ficar por respeito. Mesmo se for um nazista.

[Samuel]: Não é nazista, mas consente.

[Carlos]: Faz sentido. Mas pode ficar sentado por medo.

[Marcelo]: Concordo. Estaria compactuando com ele. Mas e o medo?

[Tom]: A pessoa não precisa revidar na hora, mas me levantaria.

[Márcia]: Sim. Se fosse um nazista, me levantaria na hora.

[Roberta]: Não. Às vezes, não levantou pra não faltar com respeito.

[Miriam]: Concordo.

[Ivo]: É uma conclusão perigosa. Mas me levantaria. Repugnante, não tem como negociar.

Para finalizar, proponho que respondam à pergunta anterior trocando a palavra nazista por racista. Dos oito que sairiam da mesa com a chegada de um nazista, quatro não se levantariam na presença de um racista. “Racista pode ser racista e não querer matar todo mundo”, me diz um deles. Agradeço pela participação. E desligo.

Felipe Poroger é cineasta, graduado em filosofia pela USP e judeu. Diretor do Festival de Finos Filmes.