Foi a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975)
quem primeiro observou com mais detalhes a chamada verdade dos fatos – ou
verdade factual, no entender dos jornalistas. No livro Verdade e
Política (1967), ela propõe uma reflexão sobre governos que distorcem
fatos ao lembrar que a extinta União
Soviética simplesmente eliminou de todos os registros históricos a
figura de Leon
Trotsky, que foi um dos maiores protagonistas da revolução bolchevique.
Com isso, a filósofa mostra como as ditaduras preferem
simplesmente eliminar as notícias factuais que as contrariam do que encontrar
uma forma para tolerá-las e, muito importante, para conseguir conviver com
elas. O raciocínio de Hannah Arendt é o ponto de partida de Existe
Democracia Sem Verdade Factual? (Estação das Letras e Cores), livro
que o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci lança
nesta segunda, 14, em e-book e versão impressa.
Trata-se de um convite para se refletir sobre o impacto da
desinformação sobre o debate público, discussão cada vez mais necessária em
época que o avanço da tecnologia permite que qualquer pessoa, dispondo de um aparelho
conectado na internet, transmita qualquer notícia, falsa ou verdadeira. É o que
explica, em parte, o surgimento das chamadas ‘fake news’, cuja gravidade pode
causar danos irreversíveis. “A sombra entra no lugar da luz”, observa Bucci, em
entrevista realizada por e-mail.
Ubiratan Brasil: Como explicar a grande quantidade de
notícias falsas que circulam na internet?
Eugênio Bucci: O primeiro motivo é: isso agora é possível.
Por que há tantas fake news por aí? Porque é fácil, muito fácil, confeccioná-las
e distribuí-las. Hoje, qualquer pessoa com um celular conectada à internet
concentra poder de mídia. As mediações (que cumpriam funções de curadoria, de
depuração e de organização dos sentidos) foram atropeladas. Qualquer um pode
pôr em circulação relatos, fotos e toda sorte de falsificações. Um segundo
motivo é o descompromisso de muita gente com a verdade dos fatos. Várias
correntes políticas simplesmente desprezam o registro dos fatos. Com isso,
forma-se um caldo de cultura (ou de incultura) favorável à proliferação dos
fanatismos políticos, que odeiam a razão, a verdade factual e a opinião
fundamentada em evidências. A sombra entra no lugar da luz.
Aliás, qual momento histórico poderia explicar a invenção
e difusão de fake news? Seria algo inerente às modernas formas de comunicação,
mais rápidas e expansivas?
Sim, você tem toda a razão, mas é preciso qualificar um
pouco esse diagnóstico. Aquilo que chamamos de modernas formas de comunicação,
por motivos diversos, acabaram favorecendo crenças e preconceitos pré-modernos,
ou mesmo antimodernos. A tecnologia mais avançada impulsionou as formas de
poder mais primitivas e incultas. Há algo de errado, portanto, com essa
tecnologia que resulta de um imbricamento entre capital, silício, engenharia e
poder. Esse híbrido ultrapotente exacerba o narcisismo das multidões que
rechaçam qualquer divergência. Isso quer dizer que demos um passo a mais na
chamada dialética do iluminismo. As conquistas da ciência enfraqueceram e agora
enfraquecem mais o que haveria de emancipador no humanismo. Em outro sentido,
parece às vezes que as formas de comunicação hipermodernas restabelecem a selva
como rotina. A mentira (as fake news) está a serviço de forças que vêm
combatendo o que tínhamos nos acostumado a chamar de civilização.
É possível ajudar um leitor comum a descobrir a verdade
factual?
Claro que sim. A verdade factual brota do registro dos
fatos. A verdade factual não se confunde com verdades transcendentes, ou com
verdades metafísicas, assim como não se confunde com a verdade religiosa (que é
do domínio da fé). A verdade factual lida com os acontecimentos com os quais
todos convivemos, coletivamente. Lida também com as evidências das
demonstrações empíricas mais simples. Exemplo: a Terra é
redonda. Qualquer astronauta é capaz de atestar que a Terra é redonda. Outra
verdade factual: há muitas mortes violentas no Brasil.
Os fatos são constatáveis pela simples experiência que todos temos de viver em
sociedade. Qualquer um de nós é capaz de perceber os fatos e formar juízos
sobre eles. Ninguém precisa de doutorado para isso. Os laços com as nossas
experiências reais, vividas, os laços com os nossos semelhantes, os olhos
abertos diante das diferenças, tudo isso nos ajuda a perceber aspectos da
verdade factual. E tudo isso nos ajuda a ver que, sem essa base de verdade
factual, qualquer política se degrada em fanatismo. O problema é que hoje as legiões
que combatem o registro dos fatos vão se tornando mais numerosas do que os
grupos que ainda prezam a razão e os fatos.
O avanço tecnológico na difusão de notícias é acompanhado
na mesma velocidade pela atualização dos conceitos éticos? Ou não seria isso?
Se entendermos a ética como um território específico do
pensamento, um território em que nos ocupamos da sabedoria que nos ajuda a
viver e conviver melhor, vamos entender também que, quanto mais trocamos
impressões sobre o mundo, mais nos capacitamos a conviver em paz, de modo
fraterno. No entanto, quando a mentira se torna poder e impõe uma disciplina um
tanto tribal em que a dissidência vai deixando de ser possível, a própria ideia
de ética se perde. Quando vemos o expediente da censura ressurgir das trevas,
algo está errado. A censura se faz valer na base da força (mesmo quando essa
força é violência simbólica). A censura é resultado de uma impostura moral, de
uma não-verdade moral. A censura carrega o objetivo de estabelecer como normal
um modo de viver, e esse modo de viver, por sua vez, faz de tudo para banir as
outras maneiras de viver. Em suma, a fantasia dos que acham que a censura
poderia consertar o mundo está fundamentada numa mentira essencial, na negação
da verdade factual, na negação da razão. Está fundamentada, enfim, na abolição
da ética.
Além dos bibliotecários, quais outras categorias deveriam
mobilizar seu conhecimento para ajudar seu público a separar o que é verdade
factual do que é pura invencionice mal-intencionada?
As três instituições que são estruturalmente vocacionadas
para combater as fake news são a imprensa, as escolas e as bibliotecas. É claro
que qualquer operador da comunicação social pode e deve ajudar nisso. É claro
que lideranças sindicais, religiosas ou de qualquer outra extração também podem
ajudar. Mas, fundamentalmente, a função de assegurar a qualidade da informação
e a qualidade dos caminhos pelos quais se tem acesso ao conhecimento recai
sobre a imprensa, as bibliotecas e as escolas. Por isso, meu livro procura chamar
a atenção para isso, especialmente para a função da imprensa e das bibliotecas.
De que forma as palavras ‘antipolítica’ e ‘pós-verdade’
estão relacionadas nos dias atuais?
Seja como substantivo, seja como adjetivo, a palavra
“antipolítica” designa um vórtice que age para negar a política. A palavra
política, por sua vez, indica uma combinação entre princípios, ideais e
objetivos mais ou menos estratégicos, isso de um lado, e, de outro, a
habilidade de convencer, de dialogar, de aprender, de reformular, de negociar,
de construir consensos, ainda que instáveis. Quando deixamos de lado a
habilidade da conversa, da interlocução, e nos voltamos para um tipo de solução
de força, na base da autoridade armada, do poder inflexível, nós estamos
renunciando à política. Não custa lembrar que, na mitologia grega, o talento
político (a capacidade de viver em sociedade, de forma harmônica) é o que
diferencia os homens das outras espécies. Ora, para haver política, é
imprescindível que haja, também, uma base sobre a qual a interlocução vai se
dar. Portanto, para haver política, é preciso que estejamos de acordo sobre as
formas que temos de discordar. Do mesmo modo, é preciso que as opiniões de cada
um estejam baseadas nos fatos que todos admitimos ser fatos verdadeiros. Se não
temos mais acordos sobre como discordar, perdemos as condições de conviver em
paz. E, se deixamos de ter os fatos como fundamentação dos nossos argumentos,
perdemos o vínculo com a razão e não estamos mais fazendo política. É aí que
prosperam a intolerância, o fanatismo, a prepotência, o preconceito e a
violência.

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