segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Quem vender a democracia brasileira em troca de liberalismo econômico vai acabar sem os dois

Celso Rocha de Barros

Guedes

O único lado racional do governo Bolsonaro é o lado de fora. Ninguém que se propôs moderar o bolsonarismo por dentro teve, até agora, qualquer sucesso. Pelo contrário, foram todos rebaixados ao nível do chefe.

O ministro da Economia disse que entende por que os bolsonaristas pedem um novo AI-5. Segundo Guedes, os apelos por fascismo se justificam porque Lula pode convocar protestos que, inspirados em Leonardo Di Caprio, taquem fogo em tudo. A mera ameaça de algo assim já teria, ainda segundo o ministro, derrubado a reforma do serviço público.

No meio da conversa, Guedes pediu que todos aceitassem o resultado da eleição.

Na verdade, Bolsonaro abortou a reforma porque nunca quis fazê-la. Guedes fingiu que acreditou que a culpa fosse de Lula porque também precisava de uma desculpa: nunca conseguiu aprovar reforma que Rodrigo Maia não lhe tenha entregado pronta.

Não há protestos, violentos ou pacíficos, acontecendo no Brasil. Se houvesse, a democracia lidaria com eles como lidou com 2013, com 2015 e com a greve dos caminhoneiros de 2018.

Quanto a aceitar o resultado da eleição, ministro, faz só um ano, não deu tempo para esquecer: durante a campanha do ano passado, Bolsonaro disse repetidas vezes que não aceitaria o resultado em caso de derrota.

Em uma entrevista a José Luís Datena no hospital, Bolsonaro disse: “eu não posso falar pelos comandantes militares, respeito todos eles, mas pelo que eu vejo nas ruas, eu não aceito resultado diferente do que a minha eleição”.

Ministro, o senhor tem qualquer interpretação desta frase que não implique que seu chefe teria tentado um golpe de estado contra o presidente Fernando Haddad, com ou sem o apoio logístico do astro de “Titanic”?

Na verdade, Bolsonaro não é mais um “risco” para a democracia brasileira. A escalada autoritária já está em curso. A desmontagem da democracia brasileira está acontecendo agora, diante de nossos olhos.

A guerra à imprensa livre😂 não tem igual na história do Brasil democrático. O governo Bolsonaro está tentando estrangular financeiramente todos os órgãos de imprensa que denunciem seus crimes. A Folha foi excluída de uma licitação, e a distribuição de verbas publicitárias para a TV foi alterada para punir a Rede Globo. É a mesma estratégia usada na Hungria pelo governo Orbán. Eduardo Bolsonaro, lembrem-se, voltou de Budapeste no começo do ano dizendo que havia aprendido como lidar com a imprensa.

E o aparato repressivo está sendo montado. Excludente de ilicitude na repressão a protestos é pouco sutil mesmo para Bolsonaro.

Na primeira versão desse texto eu terminava pedindo que o empresariado, os militares e a turma de Sergio Moro se pronunciassem oficialmente, em voz alta, em público, contra o autoritarismo bolsonarista. Eu sei, pode rir, eu também comecei a rir alto enquanto escrevia, por isso apaguei.

De qualquer maneira, deixo uma dica para os ricos brasileiros, uma dica que eles não merecem.

Como mostrou o artigo de Laura Carvalho na Ilustríssima de ontem, nenhum outro populismo de direita da onda Orbán é liberal em economia como Guedes lhes prometeu que Bolsonaro seria.

Quanto mais os bolsonaristas se consolidarem no poder, menos vão precisar do apoio de vocês. Quem vender a democracia brasileira em troca de liberalismo econômico vai acabar sem os dois. Como da última vez.

O Leviatã é aqui


A cultura brasileira foi parar nas mãos de lunáticos, imbecis e racistas.

- Um chama Fernanda Montenegro de sórdida e mentirosa;

- Outro diz que o rock leva ao aborto e ao satanismo;

- Um terceiro afirma que todos os negros que a polícia matou são bandidos.

O Leviatã é aqui.

Paulo RJ

Doria é subproduto do fascismo perfumado dos Jardins


Leandro Fortes

INFERNÓPOLIS

Logo depois de eleito, no final de 2018, João Doria avisou: a partir de 1° de janeiro de 2019, a Polícia Militar de São Paulo iria "atirar para matar".

Não que não o fizesse, antes. "Rota 66", livro-reportagem de Caco Barcelos, de 1992, foi o primeiro relato sobre os métodos de extermínio da PM paulista contra os suspeitos de sempre: a gente preta e pobre das periferias. Por muito tempo, o jornalista foi ameaçado de morte por ter ousado denunciar essa máquina estadual de tortura e assassinato .

Doria, subproduto do fascismo perfumado dos Jardins da capital paulistana, apenas tornou explícita uma política de repressão racial e de classe, até então dissimulada por seu antecessor tucano, Geraldo Alckmin.

O fato de Doria ter sido massivamente votado pelos pobres que pretende enquadrar e exterminar à bala diz muito sobre a armadilha social que as eleições se tornaram, no Brasil, por conta do grau de manipulação do fluxo de informações, seja pela mídia tradicional, seja, principalmente, pela ação das igrejas neopentecostais.

No caldeirão de ignorância e miséria de Paraisópolis, onde a ação da PM matou nove pessoas encurraladas na saída de um baile funk, 70% dos eleitores votaram em João Doria.

Trata-se de uma tragédia dentro da outra.

Novo presidente da Funarte é louco, fanático e burro


'Rock leva ao aborto e ao satanismo', diz novo presidente da Funarte
No YouTube, Dante Mantovani defende outras teorias da conspiração, como a de que soviéticos infiltrados na CIA distribuíram LSD em Woodstock



Maestro e agora presidente da Funarte , Dante Mantovani também é youtuber. No canal Dante Mantovani, com mais de 6 mil inscritos, o novo integrante do governo costuma tirar dúvidas sobre música erudita, mas aproveita para praticar um dos esportes favoritos do YouTube:  compartilhar teorias da conspiração . O canal continua no ar, ao contrário dos perfis de Mantovani em outras redes sociais, que foram excluídos na semana passada, diante do anúncio de que ele assumiria a Funarte.

Em um vídeo, por exemplo, o maestro, aluno do ideólogo de direita Olavo de Carvalho , endossa teorias de que agentes comunistas infiltrados na CIA foram responsáveis por distribuir LSD para jovens em Woodstock. O objetivo final, diz ele, seria destruir a família, vista como "base" do capitalismo.

"Existe toda uma infiltração de serviços de inteligência dentro da indústria fonográfica norte-americana que se não levarmos em conta, não vamos entender nada. A União Soviética mandou agentes infiltrados para os Estados Unidos para realizar experimentos com certos discos realizados para crianças. Esses agentes iam, se infiltravam e iam mudando, inserindo certos elementos para fazer engenharia social com crianças. Daí passaram para música para adolescentes", afirma ele, ao citar como exemplo o surgimento de Elvis Presley na década de 1950.

Na sequência, Mantovani menciona Woodstock e diz que os Beatles "colocaram em prática as ideias da Escola de Frankfurt" , que segundo ele, queria destruir a cultura ocidental.

"Woodstock foi aquele festival da década de 60 que juntou um monte de gente, os hippies fazendo uso de drogas, LSD, inclusive existem certos indícios de que a distribuição em larga escala de LSD foi feita pela CIA. Mas como pela CIA? Tinha infiltrados do serviço soviético lá", diz o maestro, para em seguida concluir:

"O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo."


Apesar da crença de que o rock leva ao satanismo, em vídeo de fevereiro de 2018 o youtuber disse acompanhar duas bandas do gênero: Metallica e Angra.

"Era uma banda brasileira que tinha grande preocupação com aspectos melódicos, tanto vocais quanto instrumentais, embora o ritmo fosse bastante frenético", avalia ele sobre o Angra.

Em outro vídeo, de dezembro de 2016, Mantovani critica o repertório musical da abertura das Olimpíadas do Rio e defende que "a verdadeira cultura" do Brasil é a música clássica de Heitor Villa-Lobos.

"Como apresentam numa abertura de Olimpíada aquelas aberrações sonoras que eu não tenho nem coragem de chamar de música!", reclama.

Agradecimentos a Olavo e curso online

Em 2013, Mantovani defendeu tese de doutorado na Universidade Estadual de Londrina (UEL) com o título de "O ensaio como procedimento para construção de sentidos textuais". Nos agradecimentos, ele cita o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, "cujas aulas, livros e artigos me resgataram de um mar de dúvidas que pareciam insolúveis e me propiciaram a clareza mental e a coragem necessárias para finalizar este trabalho".

Assim como o mentor, o maestro também oferece um curso online, o "Seminário de Música". Segundo o site do curso, o intuito é fornecer "vasta carga de conhecimentos musicais e dar-lhes uma formação superior, independente de instituições de ensino formal". Entre as disciplinas na grade, estão estão "Leitura de partituras", "técnicas de regência" e "Música e Marxismo". O valor para participar é de R$ 457.

Mantovani é ainda produtor do curta-metragem amador "Deus acima de todos", sobre a eleição de Jair Bolsonaro e a fé de seus seguidores. O filme narra em tons dramáticos a corrida presidencial com depoimentos de apoiadores do político — entre eles, nomes como a deputada Joice Hasselmann, agora um dos desafetos do presidente.

Procurado pelo GLOBO, Mantovani afirmou que estava indo para Brasília e que não poderia falar com a imprensa até quarta-feira, por recomendação do Secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim.

Os candidatos do fascismo


Moisés Mendes

SANGUINÁRIOS

Bolsonaro, Witzel, Doria Junior e Sergio Moro atuam na mesma faixa da extrema direita.

Eles serão os candidatos do eleitorado do fascismo, do ódio e das ignorâncias (no plural) em 2022.

Qualquer um dos quatro pode falar em nome das milícias e do 'direito' de matar pelo medo que a polícia tem do povo.

Com o massacre de Paraisópolis, Doria Junior ingressa no primeiro time sanguinário da Era Bolsonaro.

Moro é o que oferece argumentos 'legais' à licença para matar. É o subalterno jurídico submetido às ordens de todos os outros.

A realidade consagrada pela literatura e pelo cinema nos ensina que tipos com o perfil de Sergio Moro são os mais cruéis de todos.

A festa não é para vocês, pobres da periferia


Claudio Guedes

Paraíso?

A morte dos jovens negros e/ou pobres que estavam no baile funk, ou em seu entorno, em Paraisópolis é um recado claro da política vitoriosa nas urnas em SP, no Rio e no país em 2018.

O projeto conservador e autoritário não aceita conviver com um mínimo de espaço de lazer para os pobres, os negros, os que pouco ou nada possuem, os que não se enquadram como atores ativos no projeto do ultraliberalismo à moda Guedes & Bolsonaro.

Negros e pobres? Negros e pobres e brancos tão pobres que até parecem negros? Lazer? Festa para vocês? Não.

No projeto do ultraliberalismo os pobres são apenas suportados enquanto força de trabalho desqualificada, para limpar as ruas, recolher o lixo, limpar as casas e os banheiros dos ricos. Quiça os mais fortinhos, mais parrudos, possam colocar uma farda e trabalhar como segurança patrimonial dos poderosos. Nada mais.

O recado à Paraisópolis, da policia militar de João Doria Jr., é claro. Pobres da periferia fiquem nas suas casas ou frequentem as igrejas. Nada de festa. Festa não é para vocês.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Fundamentalismo de mercado pode ser calcanhar de Aquiles de Bolsonaro



Laura Carvalho
A eleição do populismo autoritário de direita como rejeição ao establishment político uniu, no Brasil, a agenda do conservadorismo moralista ao fundamentalismo de mercado.
Ao cogitar um novo AI-5 como resposta a eventuais protestos contra seu ambicioso pacote de reformas, o ministro da Economia, Paulo Guedes, desenhou para quem ainda se recusava a enxergar que o governo Bolsonaro não tem duas alas distintas: Estado mínimo na proteção social pede Estado máximo no encarceramento e na repressão, como bem alertou Loïc Wacquant em seu livro “As Prisões da Miséria” (Zahar).

No entanto, ainda que a associação íntima entre fundamentalismo de mercado e autoritarismo não seja nenhuma novidade para quem conhece o entusiasmo de Guedes e do próprio presidente Jair Bolsonaro pelo governo de Augusto Pinochet no Chile, essa agenda destoa de outros movimentos de extrema direita do mundo atual.

No caso da guerra comercial promovida por Donald Trump ou do brexit no Reino Unido, ficam muito claros a incompatibilidade com os princípios do liberalismo econômico e o contraste com a própria agenda de Guedes, que defende uma abertura comercial indiscriminada e unilateral no Brasil. Mas e o governo de Viktor Orbán na Hungria, que vem sendo fonte de um vasto repertório de ideias autoritárias adotadas pelo bolsonarismo como forma de interferir nos meios de comunicação e no Judiciário do país?

Em artigo publicado no jornal The New York Times em 16/10, intitulado “The case for populism” (a defesa do populismo), Maria Schmidt, historiadora e ex-assessora de Viktor Orbán, faz questão de distinguir a plataforma do primeiro-ministro húngaro e o que chama de “agenda econômica neoliberal de Bruxelas” imposta ao país nas décadas que sucederam o fim do comunismo.

“Entusiasmados em recuperar o controle de nosso destino e emergir da Cortina de Ferro, nós, húngaros, ingenuamente acreditamos que a Europa Ocidental fosse partilhar de nossa exaltação [...] Em vez disso, nós fomos forçados a nos adaptar ao Ocidente”, escreve Schmidt.

Sobre os motivos da vitória de Orbán em 2010, afirma: “As elites políticas que preferiram manter o
status quo durante a crise financeira de 2008 deixaram a classe média da Hungria, bem como a maior parte de seus cidadãos mais necessitados, totalmente desamparados”.

“Desde então, o sr. Orbán colocou os interesses da Hungria em primeiro lugar ao elaborar suas políticas econômicas [...], impôs taxas especiais sobre empresas multinacionais e bancos para distribuir o peso da crise tão proporcionalmente quanto possível entre os agentes de mercado que a causaram (e lucraram a partir dela) e os cidadãos húngaros”, argumenta.

Voltando aos EUA, cabe ressaltar que, apesar de o governo Trump ter aprovado um grande plano de redução de impostos que beneficiou também os mais ricos, sua plataforma eleitoral de 2016 tinha explorado as relações próximas de sua oponente Hillary Clinton com doadores de Wall Street para dissociar-se não apenas do establishment político mas também do establishment econômico que, desde a década de 1980, produz desigualdades crescentes e crises financeiras ao redor do mundo.

Da mesma forma, no Reino Unido, o apoio de agentes do setor financeiro à permanência na União Europeia foi muito utilizado na campanha a favor do brexit para opor o interesse dos bancos ao da maioria.

Nesse contexto, e diante da importação pelo bolsonarismo de tantas outras táticas adotadas por essas plataformas políticas no que tange ao papel de redes sociais, fake news, anti-intelectualismo, guerra cultural e criminalização da política institucional, cabe perguntar: por que sua plataforma combinou o conservadorismo moral tão típico desses movimentos com o fundamentalismo de mercado da Faria Lima? E indo além: seria esse seu trunfo ou seu calcanhar de Aquiles?

São inúmeros —e pouquíssimo surpreendentes— os estudos empíricos atestando o papel de uma melhora ou piora na economia para o resultado de processos eleitorais ao redor do mundo.

Contudo, quando o tema é o atual fortalecimento da extrema direita, uma parte da literatura, que está bem representada pelos estudos de Pippa Norris, da Harvard Kennedy School, e Ronald Inglehart, da Universidade de Michigan, tem defendido a predominância do que chamam de “cultural backlash”— a expressão, título do livro que a dupla lançou neste ano, indica uma reação de setores conservadores ao progressismo cada vez maior da sociedade no campo dos valores.

A partir de dados amostrais individuais que englobam 31 países europeus, nos anos de 2002 a 2014, os autores chegam à conclusão de que valores culturais predizem melhor o voto em partidos populistas do que o que chamam “insegurança econômica”, medida por indicadores de desigualdade social, renda e emprego.

Ainda que não se possa estabelecer causalidade nesse tipo de exercício, tais evidências vêm servindo de contraponto à visão que atribui aos efeitos colaterais da globalização comercial e às desigualdades crescentes observadas nos países ricos desde os anos 1980 um papel central na explicação desses fenômenos.

Porém, como apontou o economista Dani Rodrik, da Harvard Kennedy School, no artigo “Populism and the economics of globalization” (populismo e a economia da globalização), de 2017, fatores culturais e econômicos podem não ser passíveis de separação: o mal-estar econômico e social gerado pela globalização comercial e pela imigração pode ter criado as bases para que políticos populistas explorassem uma divisão cultural da sociedade, atribuindo aos imigrantes e a outras minorias a responsabilidade pela deterioração da situação material experimentada por boa parte da população.

Essa hipótese parece obter sustentação em artigos recentes na literatura econômica, que encontraram evidências de que distritos ou regiões mais expostas à importação de produtos chineses são mais propensas a apoiar partidos de extrema direita nos EUA e Europa ocidental.

Só que, no caso brasileiro, ainda que produtos chineses também tenham contribuído para a perda de postos de trabalho, a globalização comercial e o crescimento acelerado da China também foram responsáveis por um superciclo de commodities nos anos 2000, que elevou substancialmente o preço de produtos que exportamos, como petróleo, soja e minério de ferro.

Como sabemos, esse cenário externo favorável viabilizou uma agenda que trouxe muitos ganhos para a base da pirâmide (ainda que sem reduzir a alta concentração de renda no topo) por meio de forte expansão de investimentos públicos, benefícios sociais e empregos formais em setores de serviços e construção civil.

O crescimento da arrecadação de impostos —devido ao crescimento da economia, ao boom de commodities e à formalização das relações de trabalho— permitiu que esse processo fosse compatível com uma redução da dívida pública em relação ao PIB.

Nesse sentido, as condições econômicas mais estruturais identificadas por parte da literatura como fundamentais para a emergência do populismo de direita nos EUA e na Europa não parecem ter vigorado da mesma forma no Brasil, onde a globalização comercial teve um efeito, no mínimo, ambíguo.

A American Economic Review —principal revista científica de economia— publicou em sua última edição de novembro um artigo que leva em conta um prazo mais curto, o do pós-crise de 2008.

Em “Did austerity cause brexit?” (a austeridade causou o brexit?), o autor, Thiemo Fetzer, professor da Universidade de Warwick, utiliza estimativas de incidência dos cortes feitos a partir de 2010 em dez programas sociais em todos os distritos do Reino Unido, além de dados individuais que documentam se o eleitor recebe algum benefício social e qual seu voto (ou intenção de voto) declarado.

Fetzer conclui que a redução nos programas sociais aumenta substancialmente a declaração de votos pró-brexit, bem como a concordância com afirmações do tipo “o governo não se importa [comigo]”.

Ainda carecemos de estudos como esse para estimar o papel da recessão de 2015-16 e do ajuste fiscal executado desde então para a eleição de Jair Bolsonaro. Mas é de se esperar que a frustração crescente da população com o alto desemprego e a perda de renda em meio a uma das crises mais profundas da nossa história tenha sido crucial também para o processo eleitoral.

Mesmo que a recessão tenha se originado pelo fim do boom das commodities e por erros de política econômica pré e pós-2014, a percepção em meio aos sucessivos escândalos da Operação Lava Jato passou a ser que a corrupção era também a causa da crise para a maior parte da população (67% segundo pesquisa do Datapopular realizada em 2015).

Nesse contexto, em vez de culpar imigrantes ou a invasão de produtos chineses pelo colapso da economia, como fez o populismo de direita nos países ricos, atribuiu-se a responsabilidade pela crise ao PT, à gastança desenfreada e ao Estado corrupto.

Em um primeiro momento, as falsas promessas de retomada centraram-se, portanto, no impeachment de Dilma Rousseff e em sua substituição por um governo supostamente comprometido com o corte de gastos públicos e a diminuição do papel do Estado na economia. A reforma trabalhista e a aprovação do teto de gastos trariam de volta os empregos e a confiança dos investidores.

Mas a campanha presidencial de 2018 acabou se dando após sucessivas frustrações nas projeções de crescimento, um consequente aprofundamento dos desequilíbrios fiscais e escândalos de corrupção envolvendo o governo Temer. A culpa já não era mais só do PT, era de todo o establishment político.

Assim, a combinação da agenda de conservadorismo moral com a de fundamentalismo de mercado, que marca o bolsonarismo, se encaixou como uma luva: livrar-se da corrupção e da crise econômica exigia livrar-se do próprio Estado em todos os seus papéis que não o de combate ao crime.

Passados dois anos e meio desde o início da mais lenta recuperação da nossa história —que nem sequer chegou à base da pirâmide—, já deveria estar claro que o aprofundamento da agenda centrada no corte de gastos públicos e na redução de encargos e obrigações trabalhistas não é capaz de nos tirar do quadro de estagnação desigual em que nos metemos.

Não à toa, o próprio governo já começou a recorrer à liberação de recursos do FGTS, ao barateamento do crédito habitacional via bancos públicos e à transferência de recursos do pré-sal para estados e municípios como tentativa de estimular a economia.

No entanto as restrições cada vez maiores impostas ao Orçamento pelo teto de gastos —e pelas novas medidas anunciadas pelo governo, caso aprovadas— devem causar um sucateamento ainda maior dos serviços públicos e um desmantelamento de redes de proteção social que já têm sido insuficientes para impedir o rápido aumento da pobreza no país.

Assim, Bolsonaro não deve contar, em 2022, com o baixo desemprego e o crescimento dos salários que atualmente contribuem, por exemplo, para aumentar a popularidade de Donald Trump nos EUA ou a de Viktor Orbán na Hungria.

Para fazer frente ao forte apelo do populismo político no atual cenário, Dani Rodrik também tem defendido a adoção do que chama de bom populismo econômico, ou seja, o retorno da justiça social para o centro de uma agenda antiestablishment de política econômica. É o que têm feito Elizabeth Warren e Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata americano.

Se o governo Bolsonaro não abrir mão de dobrar a aposta na agenda que vem excluindo a maioria dos brasileiros do crescimento econômico, talvez seja hora de o campo democrático dedicar-se a construir um plano alternativo, capaz de canalizar o acúmulo de frustrações da população para o enfrentamento de conflitos distributivos evitados até aqui pelo Executivo e pelo Congresso.

É claro que o ganha-ganha dos anos 2000 já não é possível em meio ao atual cenário de desaceleração global. Isso significa que a disponibilidade maior de recursos para saúde, educação, infraestrutura e proteção social dependerá da redução de benefícios tributários (como isenção de Imposto de Renda sobre dividendos, Simples, desonerações e deduções de despesas com saúde e educação privadas), da eliminação de remunerações do funcionalismo acima do teto constitucional e do aumento da alíquota de imposto sobre a renda e o patrimônio do 1% mais rico da população.

A boa notícia é que um programa como esse também poderia funcionar como um motor de retomada da economia, na medida em que redistribui renda de quem poupa uma fração elevada para quem consome quase tudo o que ganha.

A insegurança econômica da população, quando combinada ao fundamentalismo de mercado, pode tornar-se o calcanhar de Aquiles de Bolsonaro. As ultrajantes ameaças de edição de um novo AI-5 por parte de seu clã, temeroso de uma nova onda de protestos de rua, deixam isso bastante evidente.

Laura Carvalho é professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, é autora de ‘Valsa Brasileira: Do Boom ao Caos Econômico’ (Todavia).

Folha de S. Paulo colhe a violência fascista que plantou



No artigo "Liberdade de prensa", Janio de Freitas escreve que os ataques de Bolsonaro à Folha atingem a imprensa de modo geral, e que "a opção de jornais, tevês e outros, entre opor-se ou entregar-se, não vai esperar muito". Porque "inexiste ação de qualquer poder contra um jornal, ou outra peça da mal denominada 'mídia', que não tenha reflexos sobre os demais. No mínimo, é um sinal de que estão todos sujeitos à violência, tão logo a deseje o poder agressor. Do agredido ao último dos demais, suas escolhas estão restritas a duas opções: manter-se ereto, sem ceder a condições e imposições, ou curvar-se."

É precisamente isto. E eu não duvido muito qual será a opção escolhida.

Um pequeno detalhe no texto, entretanto, é bem significativo:

"Afastado do convívio com a cúpula do jornal e da empresa, não ouso falar por um ou por outra."

Pois é. Por muitos anos Janio foi membro do Conselho Editorial da Folha. Já há algum tempo vinha perdendo influência. Primeiro lhe reduziram a frequência das publicações, de três vezes na semana para duas. Mais recentemente, limitaram sua participação a um artigo dominical, e então já não o identificavam como "membro do Conselho Editorial da Folha", mas apenas como "jornalista".

Foi um sinal, entre muitos, da opção política do jornal, que, entre outras coisas, impedia chamar de extrema-direita um presidente de extrema-direita.

É claro que a Folha colhe o que plantou. E a imprensa toda vai ser tragada pela mesma violência do poder agressor.


EM TEMPO: Toda opção tem seu preço. O problema é que, nesse caso, o ônus recai sobre todos nós.

Roberto Carlos: para quem elogiava Pinochet, Geisel e Médici, posar com Moro é moleza, bicho


Por Kiko Nogueira

O elemento mais espontâneo na foto do casal Moro com Roberto Carlos no camarim é o sorriso de Mona Lisa do cantor.

É um esgar entre a cólica renal e a enxaqueca.

Os três estão fingindo, portanto os três estão cientes de participar de um teatro.

Muita gente boa defendeu que Roberto não tinha como fugir daqueles “fãs”. Ora, claro que tinha.

Tudo é coordenado pela assessoria com sua anuência. Inclusive, e principalmente, a fotografia.

Sabia o que estava fazendo.

Ele já elogiou Sergio Moro publicamente algumas vezes.

Em 2018, falou que o trabalho do ex-juiz era “maravilhoso” e que “realmente merece todo o nosso apoio e os nossos aplausos”.

Roberto é absolutamente coerente com sua história.

Sempre foi e continua sendo de direita, embora chamado de “ingênuo politicamente”. Ingênuo é você.
Documento do Exército lista Roberto entre “artistas que se uniram à Revolução (sic)”

Na ditadura, quando tornou-se o maior cantor popular do país, foi condecorado com a Medalha do Pacificador, ocupou cargos em conselhos do governo, teve ajuda do ministro da Justiça para se livrar da censura e foi contratado para dar shows em homenagem à “Revolução” (é como ele trata o golpe de 64).


Puxou o saco dos militares até conseguir a concessão de uma rádio em Belo Horizonte, que manteve por quinze anos.

Apresentou-se nas Olimpíadas do Exército em 1972 diante de Médici.

Em 1976 — um ano depois do assassinato de Herzog — lá estava o rei ganhando a Ordem do Rio Branco, pelos serviços prestados à nação, das mãos de Geisel.

Não faltaram muchas gracias a Pinochet num festival em Viña del Mar, no Chile. Puxa saco, se declarou honrado com a “presença do presidente de um país”.

“É um motivo de orgulho para mim, don Augusto”, discursou (vídeo no pé deste artigo).

Esse é o Roberto. Podia se poupar, a essa altura da vida, desse tipo de mico com os Moros.

Mas aí não seria o Roberto.


A tentativa desavergonhada da Folha de S. Paulo de se promover como mártir da democracia brasileira


Luis Felipe Miguel

Do começo de 2014 ao final de 2018, a Folha disputou, com todo o resto da grande imprensa brasileira, o título de Diário Oficial da Lava Jato.

Exaltou Moro e Dallagnol como salvadores do Brasil, embarcou alegre em qualquer denúncia que atingisse Lula, fez tabelinha com policiais e procuradores para criminalizar o PT e a esquerda. Foi mesmo precursora daquilo que hoje se conhece como "doutrina Gebran da propriedade", com os infames "furos" de reportagem sobre os pedalinhos e o "iate de lata".

Quando a sua campanha pela vitória daquele homem santo, Aécio, não deu certo, a Folha aderiu imediatamente à ideia de um golpe.

Diante de Bolsonaro, hoje, a Folha diz: é preciso contê-lo. Diante de Dilma, ela dizia: é preciso derrubá-la.

Basta comparar os noticiários de uma e outra época. Quem lia a Folha nos últimos anos de Dilma via um país a caminho do caos. Moeda desvalorizada, carestia, desemprego, crescimento econômico pífio - e um governo envolvido em escândalos de corrupção.

Hoje temos moeda desvalorizada, carestia, desemprego e crescimento econômico pífio, mas a Folha não retrata a economia como estando à beira do abismo. Ao contrário, não cansa de exaltar a política econômica de Guedes. Os escândalos de corrupção são noticiados, mas de forma intermitente. E o envolvimento da cúpula do poder com a criminalidade comum é praticamente escamoteado do noticiário.

Quando o golpe de 2016 logrou êxito, a Folha saudou o governo Temer. Fiel a seu estilo, com críticas pontuais, mas apoiando fortemente o congelamento do gasto social, a entrega do patrimônio nacional, a redução dos direitos trabalhistas. Nunca descuidou de negar o golpismo do golpe e manifestou simpatia às tentativas de censura de quem tentava debater o caráter ilegítimo da derrubada de Dilma.

A Folha endossou a condenação forjada e a prisão inconstitucional de Lula. Sua adesão às regras da democracia mostrou-se tão lassa que se dispôs a participar de uma fraude eleitoral - o afastamento ilegal do candidato favorito - para garantir uma legitimação de fachada para o golpe que apoiara.

Nas eleições de 2018, insistiu na tese ridícula dos "dois extremos", equiparando o amigo de milicianos e entusiasta de torturadores Jair Bolsonaro a um político de credenciais democráticas irretocáveis (e além disso bem palatável para os grupos liberais), Fernando Haddad. Continua batendo nessa mesma tecla, aliás, como mostra o lamentável artigo de Hartung, Lisboa e Pessôa, com chamada de capa na edição de hoje, cujo título, na edição digital, é "Brasil vive entre riscos de extrema direita e recaída lulista" - e cujo resumo é que o país "precisa retomar diálogo para evitar radicalismos".

Com Bolsonaro no poder, a Folha trabalhou ativamente para cercear a discussão sobre as políticas destrutivas de Paulo Guedes.

A "democracia" que o jornal defende é compatível com a interdição da participação da classe trabalhadora no debate público e o cerceamento de suas organizações.

É a mesma Folha, não esqueçamos, que até hoje não foi capaz de fazer sequer um mea culpa hipócrita de seu apoio, inclusive material, ao golpe de 1964 e à ditadura militar. Ela fará mea culpa de sua participação ativa na destruição da ordem definida pela Constituição de 1988? Certamente não.

Os ataques de Bolsonaro à Folha são, sem dúvida, condenáveis demonstrações de autoritarismo. Mas a solidariedade que o jornal merece, mesmo com todos os seus muitos vícios, devido ao princípio da liberdade de expressão que nós gostaríamos de ver estendido também aos grupos historicamente silenciados, é freada pela repulsa à sua tentativa desavergonhada de se promover como mártir da democracia brasileira.

Como eu já escrevi outro dia: se é para dar dinheiro em favor da pluralidade de informação, que seja para os portais alternativos, para a Rede Brasil Atual, para o Brasil de Fato, para a TVT. Quanto à Folha, que seja bancada por aqueles a quem ela quer dar voz: a burguesia "ilustrada" paulista, a direita "civilizada", os conservadores "descolados". Que, aliás, têm condições materiais mais do que suficientes para manter seu órgão de imprensa, caso desejem.

O isentão


Imaginem o tipo isentão em 1941. Não apoiaria Churchill e Stalin nem Hitler e Mussolini porque todos são iguais e carregam suas contradições e defeitos. O isentão é um tipo pulha porque não entende os dramas e a situação limite da conjuntura. Pensa estar acima dos outros e imagina ter alguma superioridade moral, intelectual e científica quando é o tipo mais baixo, covarde e enganador. 

No campo da política não existe o isento e nem o observador universal, todos estão engajados, participam, apoiam e sofrem suas consequências de uma maneira ou de outra.

O governo não se divide entre técnicos, malucos e milicianos, são todos fascistas

É A GUERRA

Moisés Mendes

A Folha escancara, na edição de domingo, que a guerra é contra Bolsonaro e Paulo Guedes.

O bolsonarismo desmontou a tese bonitinha da própria Folha e dos cientistas do pós-golpe de que o governo se dividia entre técnicos, malucos e milicianos.

Essas caixinhas não existem. Todos estão misturados. A única diferença entre Damares e Guedes é que Guedes não vê Jesus.

O jornalismo da imprensa do golpe descobriu que só sobrevive se enfrentar Bolsonaro. Não é uma questão da democracia, é uma urgência do mercado, dos interesses deles.

Mas a Folha deixa claro na edição de guerra de hoje que coloca bolsonarismo e lulismo no mesmo saco.

Vem aí o tal projeto de centro, com Fernando Henrique de patrono, que ainda está perdido entre Doria e Huck.

E Sergio Moro? Este disputa mercado com a extrema direita armamentista e a turma das milícias. Moro é da mesma faixa de Bolsonaro e Witzel.

A guerra de Bolsonaro com a imprensa enlouqueceu a direita. Tem gente sem saber em que trincheira se acomoda, incluindo os militares.

Calúnia raivosa é o método político de Bolsonaro no carnaval das redes sociais



Vinicius Torres Freire
Livro tenta explicar a raiva carnavalesca da política das redes insociáveis
O bolsonarismo recorre com frequência à calúnia pusilânime a fim de atiçar milicianos virtuais contra “inimigos do povo”. Depois de introduzir um assunto com um “parece”, um “há suspeita”, Jair Bolsonaro costuma avançar para uma acusação, que por sua vez seria prova de alguma conspiração contra ele e o Brasil. Logo esquece que levantava apenas uma hipótese.

Bolsonaro pode ter escorregado para a calúnia estrita em seu programa semanal ao vivo, na quinta passada. Afora difamações, acusou ativistas ambientais e sociais do Pará de incendiarem a floresta. Sem evidência de crime dos militantes, Bolsonaro terá cometido crime de calúnia.

“Estava circulando uma foto dos quatro ongueiros, vi agora pouco aqui, parece que é verdadeiro, não tenho certeza, né, os caras vivendo em uma luxúria de fazer inveja para qualquer trilionário que anda pelo mundo. Ganhando a vida como? Tacando fogo na Amazônia!”, disse Bolsonaro.

Bolsonaristas repetiram a acusação temerária com desassombro sociopata. Não se trata de engano ou explosão de raiva ocasionais. É a vida como ela é um mundo em que a tentativa de argumentar com fatos é atropelada pela raiva.

Os “engenheiros do caos” exploram uma raiva de base a fim de provocar ondas de fúria, a distração permanente da lacração colérica e derrisória de “hashtags” e posts agressivos, a substância da nova política.

“Engenheiros do Caos” é o livro (em francês) do italiano Giuliano da Empoli, ensaísta pop esperto que analisa estrategistas e cientistas que assessoraram a ascensão dos principais demagogos autoritários do planeta.

Esses engenheiros utilizam massas de dados das redes (“big data”) a fim de provocar emoções extremas em grupos diversos, com mensagens quase individualizadas. O conteúdo de base dessa raiva não importa muito: abandono social, desesperança, desgosto com governos corruptos e tecnocráticos, com elites econômicas e intelectuais e inimigos do povo, reais ou imaginários. O demagogo autoritário não tem o plano de agregar cidadãos em torno de um programa de superação do mal-estar.

Os engenheiros do caos e seus algoritmos, escreve Empoli, levam as pessoas a “defender qualquer posição, razoável ou absurda, realista ou intergaláctica, desde que tenha a ver com as aspirações e os medos (principalmente os medos) dos eleitores”. O objetivo é provocar fúria e caos permanente, temperados por vaga promessa abstrata de “quebrar o sistema” que produz sofrimento.

As mídias sociais são um ambiente propício para a demagogia. A ideologia das redes, que tem seu elemento de verdade, é igualitária (parece que todos podem ganhar likes e serem ouvidos) e a da “democracia direta”, sem intermediação. A divulgação simpática da incapacidade intelectual, das gafes e da incompetência comuns a tantos demagogos autoritários reitera que o “líder” não faz parte da elite tradicional; as “fake news” e as grosserias demonstrariam autenticidade e independência, “sem frescura”.

O caos das redes, diz Empoli, tem um lado “festivo e libertário” como a confusão do Carnaval. Por lá, o ressentimento narcisista da gente comum e a quem não é dada importância, reconhecimento, explode na também carnavalesca quebra de hierarquias e na trolagem escarninha que zomba do poder, do especialista, do intelectual, do cientista, dos pedantes, protesto que ganha pela primeira vez voz individual, publicidade em massa, por causa das redes sociais.

O que fazer?

Armação ilimitada


Bernardo Mello Franco
A polícia paraense prendeu brigadistas acusados de tacar fogo na floresta. A notícia parecia estapafúrdia, e era. Mas foi festejada por se ajustar às ficções de Bolsonaro
Na “nova era”, não basta tomar cuidado com os excessos do guarda da esquina. É preciso se precaver contra as arbitrariedades do delegado, do promotor e do juiz.

Na quarta-feira, a polícia paraense prendeu quatro voluntários que ajudavam a combater incêndios em Alter do Chão. Eles foram acusados de tacar fogo na floresta para receber dólares de ONGs internacionais.

A notícia parecia estapafúrdia — e era. Mesmo assim, foi festejada por Jair Bolsonaro, que se apressou a comemorar o feito das redes sociais.

O caso agradou porque se ajustava a uma das ficções favoritas do presidente. Há meses, ele tenta convencer a plateia de que ambientalistas estariam por trás das queimadas na Amazônia. É uma invencionice conveniente, que desvia o foco da aliança do governo com ruralistas e madeireiros.

Em julho, Bolsonaro recorreu ao embuste quando o Inpe alertou para a escalada do desmatamento. Em vez de reconhecer o problema, ele contestou os números oficiais e disse que o diretor do instituto, um cientista respeitado, estaria “a serviço de alguma ONG”.

No mês seguinte, o presidente fez novas acusações genéricas e sem provas. Afirmou que as queimadas seriam “ação criminosa desses ‘ongueiros’ para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil”. Ele também atacou o francês Emmanuel Macron, que havia criticado a destruição da floresta, e os governos de Alemanha e Noruega, que suspenderam doações ao Fundo Amazônia.

A impostura se repetiu em outubro, quando Bolsonaro tentou culpar um navio do Greenpeace pelo vazamento de óleo que atingiu o litoral do Nordeste.

Se o presidente pode, todos podem. É o que devem ter pensado as autoridades paraenses. A prisão dos voluntários foi divulgada com estardalhaço. Em pouco tempo, viu-se que o inquérito não continha provas, só convicções.

A transcrição dos grampos indica que a polícia distorceu diálogos e tirou frases de contexto para incriminar o quarteto. A busca por doações para manter a brigada foi apresentada como tentativa de “obter vantagem financeira”. Numa passagem caricata, os investigadores confundiram o uso de maconha com os incêndios criminosos.

A armação começou a ser desmontada quando o Ministério Público Federal informou que “nenhum elemento apontava para a participação de brigadistas ou organizações da sociedade civil” nas queimadas. As investigações da Procuradoria, iniciadas em 2015, apontam grileiros e empresários do setor imobiliário como responsáveis pela degradação ambiental em Alter.

Em meio à fumaça da exploração política, o governador Helder Barbalho determinou a troca do delegado do caso. Em seguida, soube-se que o juiz que mandou prender os jovens pertence a uma família de madeireiros e já atacou uma ONG pelos jornais. Pressionado, ele voltou atrás e ordenou a soltura dos voluntários. Os quatro deixaram a cadeia aos prantos, com as cabeças raspadas.

Bolsonaro não se abalou, só mudou o alvo da tapeação. Na sexta-feira, passou a acusar o ator Leonardo DiCaprio de financiar as queimadas. Deve ter assinado o cheque da proa do Titanic.

Liberdade de prensa


Janio de Freitas
A opção de jornais, tevês e outros, entre opor-se ou entregar-se, não vai esperar muito
Os ataques de Jair Bolsonaro à Folha mais servem aos outros jornais, revistas e tevês para pensarem sobre atos, e sobre si mesmos, do que para atingir a própria Folha em qualquer sentido. A ideia decorativa da liberdade de imprensa presta-se a fins muito relevantes, entre bons e longe disso, mas sua fragilidade a expõe tanto de fora para dentro como de dentro para fora.

Inexiste ação de qualquer poder contra um jornal, ou outra peça da mal denominada “mídia”, que não tenha reflexos sobre os demais. No mínimo, é um sinal de que estão todos sujeitos à violência, tão logo a deseje o poder agressor. Do agredido ao último dos demais, suas escolhas estão restritas a duas opções: manter-se ereto, sem ceder a condições e imposições, ou curvar-se.

As duas condutas contam com exemplos históricos. É indisfarçável, porém, que a segunda tem sido muito mais numerosa. A opção está proposta outra vez. Em situação mais complexa do que qualquer outra desde o fim da ditadura: há motivos para ver no assédio econômico à Folha um ensaio, talvez já o primeiro capítulo, de um plano para submeter o jornalismo ao projeto antidemocrático que Bolsonaro está implementando. A opção de jornais, tevês e outros, entre opor-se e represar a ameaça ou entregar-se, não vai esperar muito.

Afastado do convívio com a cúpula do jornal e da empresa, não ouso falar por um ou por outra. Mas a experiência é um prenúncio, e a memória da Folha guarda farta experiência de trato com pressões. Desde as pouco sutis queixas de Fernando Henrique e José Serra por determinadas demissões —do que há alvos e testemunhas em bom número— à invasão da empresa por Polícia Federal e Receita Federal a mando de Collor.

Já é censura política, explícita e contrária à Constituição, o veto de Bolsonaro à presença da Folha em licitação do governo para assinatura de jornais e noticiários. Além disso, pela legislação comum, se a Folha atende às condições legais exigidas para a licitação, impedi-la é ato ilegal. Bolsonaro, também por aí, é fora da lei. Natural que queira censura.

AS FUGAS
A recente decisão do Supremo sobre a compatibilidade, ou não, entre um artigo do Código Penal e a Constituição refletiria na situação do encarcerado Lula. Quatro dos cinco ministros derrotados fundearam seus votos no mesmo tema: sem a prisão em segunda instância, negada pela Constituição e pelo código, é beneficiado quem pode contratar bom advogado e protelar seu caso nas instâncias finais. Nada sobre a compatibilidade, que era a questão em julgamento. É que não podiam negá-la, de tão óbvia, e queriam Lula preso.

Agora, o Supremo decidiu sobre a necessidade de autorização judicial para repasse de informações pessoais sigilosas, da Receita Federal para procuradores, promotores e polícias. Oito dos nove ministros vencedores seguiram o mesmo roteiro: “o compartilhamento” é necessário para o combate à corrupção. Mas o essencial da causa era fazê-lo com autorização judicial ou à vontade, sem justificação reconhecida. E, claro, condicionar à autorização não é impedir compartilhamento.

Esses votos chegaram a coisas assim: “A Receita compartilha os dados com o Ministério Público, mas não há quebra de sigilo. Há transferência de sigilo”. Mas a transferência não é de sigilo, já por ser intransferível. A Receita transfere conhecimento (dos dados). O que só é possível pela quebra de sigilo.

Apesar disso, a criação do ministro Luís Roberto Barroso foi adotada por vários. O direito à privacidade de dados pessoais só foi reconhecido pelos ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello.

O Brasil visto de fora, do mundo hiperdesenvolvido, encolhe, é pequeno, pobre, submisso


Brasil encolhe quando visto do hiperdesenvolvido
País observado de fora é pequeno e submisso à exploração imperialista das nações pobres que habitam o eixo-sul 
Marilene Felinto

A língua, o português, soava mais parecida com inglês do que com espanhol naquele evento de Houston, Texas, cidade de acentuada presença chicana, a que também chamam de tex-mex, misto de texano com mexicano —afinal o México fica logo ali, abaixo, assombrado pela esmagadora presença dos Estados Unidos. Afinal, o Texas foi antes território mexicano, incorporado pelos americanos no século 19. Afinal, fala-se espanhol em qualquer lugar em Houston.

Como eu não poderia ler em espanhol no evento —como fariam todos os demais convidados de um festival de literatura latino-americana—, me pediram que lesse em inglês. Além de meus textos estarem traduzidos para o inglês, mas não para o espanhol, não domino a língua espanhola como domino a inglesa.

Portanto, sozinha, isolada como o Brasil dentro do mapa da América do Sul (cercado de falantes de espanhol por todos os lados), encarei minha insignificância linguística, para não falar da minha minoritária presença negra no tal festival. Apesar de tudo, é melhor ser negro nos Estados Unidos do que no Brasil.

Falei no evento, com um quase nó na garganta: quero antes dizer que não represento aqui o Brasil do grupo neofascista que tomou o poder no país via golpe jurídico-político. Não represento os governos que dão licença para a polícia matar meninas e meninos negros, a caminho da escola, nas favelas do Rio de Janeiro, nas periferias de qualquer cidade brasileira. Não represento a política de criminalização da miséria, do genocídio da juventude negra, do encarceramento massivo de mulheres e homens pobres.

Mas, ressalve, essa fala não significava que o Texas merece qualquer lugar melhor do que o brasileiro no quesito violência: mata-se ali muito, com a diferença de que não se trata de matança disfarçada de “segurança pública” como no Brasil. As causas são outras, ainda que o controle social de negros e outras etnias indesejadas pela hegemonia branca seja o punitivismo criminal igualzinho ao nosso.

Em agosto último, um psicopata desses americanos, armado com um fuzil AK-47, matou 22 pessoas dentro de um supermercado em El Paso, município texano na fronteira com o México. O branco xenofóbico saiu de casa à caça de mexicanos. Poucos dias depois, novas leis afrouxando o porte e uso de armas no Texas entraram em vigor. Agora é permitido ter e usar armas não apenas em residências privadas, mas também em escolas e igrejas.

Houston, a cidade da ostentação rica e branca, é armada até os dentes. As indústrias petrolífera e aeroespacial dão o tom do superdesenvolvimento do lugar. Gasolina barata e automóveis gigantes, potentes e de luxo completam o cenário de uma metrópole feita para carros, cortada por autoestradas, vias expressas (as chamadas “freeways”) de cinco ou seis pistas de asfalto perfeito, que se abrem para fora do centro, ligando este, por meio de anéis viários, a qualquer ponto do território absolutamente plano.

Entrar em um Uber de Houston é quase como experimentar um passeio de limusine, tal o tamanho e conforto desse transporte de passageiros por lá. Uma pesquisa de 2016 demonstrou que, naquela cidade totalmente dependente do automóvel, quase 80% da população vai ao trabalho dirigindo sozinha seu próprio carro, o qual comportaria mais quatro ou até seis, sete pessoas. A mesma pesquisa indicou que somente 3,6% de seus habitantes utilizam transporte público.

Não bastasse isso, é Houston que abriga a sede das instalações do Centro Espacial da Nasa, o centro de controle das missões espaciais. A cidade também é conhecida pela tecnologia de ponta em medicina —ali está instalado o Texas Medical Center, maior aglomerado de instituições médicas e de pesquisa em saúde do mundo, com seus avançados centros de tratamento de câncer e experimentos em DNA.

Aquela espécie de shopping center da saúde, um agrupamento de prédios ultramodernos (objeto de propaganda em outdoors e veículos de mídia como se fosse um produto qualquer de consumo), aquela cidade asséptica existe provavelmente como contraponto ao tanto de fast food que os americanos comem no norte, em Nova York, também por exemplo. É como se o conglomerado da saúde viesse compensar a quantidade de doença e lixo que se produz no resto do país.

Entrar hoje num restaurante ou lanchonete qualquer para um almoço rápido em Nova York implica invariavelmente comer num prato de isopor ou numa tigela de papelão ou plástico, com talheres e copos também de plástico. A obesidade de grande parte da população, negra ou branca, salta aos olhos. Ainda que Nova York tenha um eficientíssimo sistema de reciclagem e compostagem de lixo doméstico, recolhido na porta das moradias, o montante de resíduos produzidos impressiona.

Mas, a mim, interessaram os carros. Não se veem pelas ruas de Houston os coitados dos Unos, Gols, Corsas, os Renault não-sei-quê que essas fábricas europeias despejam nas ruas do Brasil como se fossem produtos de primeira linha —sem dispositivos de segurança eficientes, sem o conforto (para não falar do luxo) dos automóveis dos EUA. É nisso que se nota como o brasileiro é considerado cidadão de segunda classe —o mundo rico sabe que brasileiro não tem dinheiro para adquirir esse tipo de bem; sabe que só cabem aqui arremedos de automóveis.

Eu, que tenho um defeito de formação, o de adorar carros, senti um minuto de inveja daquela pujança alarmante da cidade texana. Claro que a ultrarriqueza americana de Houston se dá às expensas do Brasil, às custas da Venezuela, na exploração imperialista do Equador, da Guatemala ou de qualquer outro país pobre do chamado eixo sul.

A inveja dos automóveis passou logo. Tive pena da classe média brasileira que comemora, como se estivesse subindo de vida, ao passar do automóvel 1.0 para o carro 1.6 —classe média desinformada, despolitizada, que não conhece o lugar que lhe reserva o mundo rico. E tive vergonha da classe alta estilo Miami, da mesquinha e abrutalhada burguesia de direita, dos grupelhos que apostam na violência e na destruição do mais fraco como forma de governar.

O Brasil visto de fora, do mundo hiperdesenvolvido, encolhe, é pequeno, pobre, submisso. Esta foi a segunda vez que andei lá fora de cabeça baixa, constrangida da situação política e social do país, tendo que explicar a profunda crise de legitimidade por que passam as instituições democráticas no Brasil. A primeira foi nos anos Collor, quando, coincidentemente, morei em Berkeley, na Califórnia.

Também envergonhada de que, em um dado momento, a poesia, a literatura, tenha me importado menos, ali em Houston, do que um hiperautomóvel, uma supermáquina ianque, terminei a fala com um nó inteiro na garganta.

Liquidação de carne


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