sábado, 27 de março de 2021

Maria da Graça Meneghel, empresária

Alceu Castilho

Uma das coisas curiosas em relação a cidadã Maria da Graça Meneghel, recriada como Xuxa, é que mesmo as pessoas no campo crítico continuam tratando-a apenas como se fosse a "rainha dos baixinhos", uma eterna apresentadora de televisão, no máximo fazem referência à encarnação anterior dela, como modelo.

Xuxa é uma capitalista. Uma empresária. Com uma vasta capivara relativa a essa condição — de dona de empresas.

Uma singela busca em um nome como Parque da Xuxa mostra tentáculos dela com a Justiça que a amante dos animais talvez queira esquecer. Antes Parque do Gugu, depois Parque da Mônica, o empreendimento no SP Market, em São Paulo, era gerido pela Lar's Empreendimentos (hoje na mão de outro grupo empresarial), que chegou a ser condenada por forjar a extorsão de um advogado — um cliente que tivera problemas no parque.

Outro braço da empresária (essa condição eterna de apresentadora apenas infantiliza o debate) era o Xuxa Water Park, que teve sérios problemas com o Ibama. A amiga dos animais queria construir o parque temático em uma área no litoral paulista, em Itanhaém, que era, segundo o Ibama, "abrigo de fauna e flora silvestre ameaçadas de extinção".

Jornalistas que não queiram apenas ser caixa de ressonância de um debate pueril podem também checar as aventuras da Xuxa International Corporation pelo mundo. Dica: fica nas Ilhas Cayman. Em 2005, durante uma investigação sobre lavagem de dinheiro, a PF ficou intrigada com uma movimentação de US$ 27 milhões da empresa. "Não trabalhamos com doleiros brasileiros", disseram os advogados dela na época. "Se alguma empresa que fizemos pagamentos usou a Beacon Hill, paciência". (A Beacon Hill era uma conta de doleiros.)

Xuxa tem e sempre terá vasto direito à defesa em relação a esse e quaisquer outros casos relativos às suas empresas. Até pela capacidade de pagar advogados gordos que os frequentadores de penitenciárias — aqueles que ela quer ver como cobaias — não costumam ter.

O que não pode acontecer é que, além de advogados graúdos, ela seja protegida por nossa imprensa miúda, como se fosse apenas uma moça sapeca com vozinha de criança. 

Não, meus senhores e minhas senhoras. Xuxa é uma "International Corporation". A voz dela é bem mais grossa.

Americanos já pedem abertamente a invasão do Brasil por causa do caos bolsonarista

 

Pam Keith, Adv. 

Repito meu aviso de que a crise da COVID no Brasil é um problema sério.

A falta de liderança de Bolsonaro está criando uma crise econômica e de saúde, que se completa com um escândalo político de proporções épicas.

Os Estados Unidos precisam ser pró-ativos e liderar uma intervenção internacional.

A epidemia fugiu do controle, e só podemos contar com nós mesmos

Claudio Duarte

Drauzio Varella

Brasileiros decretaram o fim do coronavírus em novembro sob a justificativa de que ninguém aguentava mais ficar em casa

Os brasileiros decretaram o fim da epidemia, em novembro do ano passado. Os bares lotaram, multidões nas praias, famílias reunidas no Natal e no Ano-Novo, festas clandestinas à luz da noite espalhadas pelas cidades, Carnaval.

A justificativa para esse comportamento estúpido era a de que ninguém aguentava mais ficar em casa.

Em janeiro, chegaram as férias. Os hotéis dos recantos turísticos voltaram a receber hóspedes, as ruas das metrópoles se encheram de gente aglomerada sem máscara e de ônibus e trens superlotados pelos que não tinham alternativa senão trabalhar.

Alheio a tudo, o presidente da República passeava de jet ski, cumprimentava admiradores e posava sem máscara para selfies, o Ministério da Saúde distribuía o kit Covid, deputados e senadores tentavam aprovar uma emenda à Constituição para livrá-los da prisão em flagrante e faltava coragem à maioria de governadores e prefeitos para decretar medidas rígidas de afastamento social.

Os médicos, os sanitaristas e os epidemiologistas que alertavam para as dimensões da tragédia em gestação eram considerados alarmistas e defensores de interesses políticos escusos.

Deu no que deu: 300 mil mortos, hospitais com UTIs sem leitos para oferecer aos doentes graves, milhares de pacientes morrendo à espera de uma vaga.

O que acontecerá nas próximas semanas? Chegaremos a 400 mil mortes?

Os hospitais brasileiros estão em colapso. Os infectados foram tantos que abrir mais leitos em UTI é enxugar gelo. Os gestores investem em equipamentos e profissionais para abrir vagas que serão ocupadas em menos de 24 horas.

O número de óbitos em casa e nas unidades básicas de saúde despreparadas para o atendimento é enorme. Os estoques de medicamentos para a sedação dos doentes entubados chegam ao fim. Começam a faltar até corticosteroides e anticoagulantes, medicações de baixo custo que o Ministério da Saúde não se preocupou em adquirir.

As vacinas perderam o "timing" para conter a escalada atual. Ainda que fosse possível vacinar todos os brasileiros neste fim de semana, as mortes continuariam a se suceder da mesma forma, pelo menos durante o mês de abril e uma parte de maio.

Vejam a situação de São Paulo, o estado que conta com o sistema de saúde mais organizado do país. No pico da primeira onda, dispúnhamos de cerca de 9.000 leitos de UTI, agora temos 14 mil, lotados. No dia 17 de março havia pelo menos 1.400 pessoas à espera de internação em UTI.

O maior complexo de saúde do Brasil, o Hospital das Clínicas, recebia, em fevereiro, a média de 56 pedidos de internação; nos últimos sete dias foram 364, dos quais 110 estavam em estado grave por outras doenças e 254 por Covid.

Se esse é o panorama no estado mais rico, caríssima leitora, dá para imaginar o caos no resto do país?

Parece que nossos dirigentes despertaram para as dimensões da tragédia que se abateu sobre nós. Empresários e economistas enviaram um recado duro ao presidente, pena que tardio. O ministro da Economia reconheceu que sem vacinação a economia não se recupera. Só agora percebeu? Por que não disse nada em julho, quando nos foram oferecidos os 70 milhões de doses da vacina da Pfizer que o Ministério da Saúde rejeitou? Receio de magoar o chefe?

O presidente da Câmara declarou que "tudo tem limite" e que apertava "o botão amarelo". Amarelo, excelência? Enquanto 300 mil famílias perdiam entes queridos, o sinal estava verde?

Deprimente ver os malabarismos circenses do novo ministro da Saúde, ao justificar que ficava a critério da liberdade milenar do médico prescrever o tratamento precoce com drogas inúteis. Como assim, ministro? Enquanto a medicina foi praticada como o senhor defende, os colegas que me antecederam receitavam sangrias e sanguessugas.

Finalmente, sob pressão, o presidente convocou os três Poderes para um convescote político, com o pretexto de criar um comitê para gerir a crise sanitária. Incrível, não? Imaginar que uma equipe comandada por ele será capaz de nos tirar dessa situação é acreditar que mulher casada com padre vira mula sem cabeça.

A consequência mais nefasta de tantos desmandos, caro leitor, foi a de que a epidemia fugiu do controle do sistema de saúde. Daqui em diante, só podemos contar com nós mesmos.

Nazismo continua popular no Brasil

Luis Felipe Miguel 

Vocês perceberam? Na hora em que Xuxa defendeu experimentos nazistas, o entrevistador - não sei quem era - exclamou: "É verdade!"

Tem gente que parece ter fissura pela suástica. O assessor do genocida, por exemplo, não consegue se conter: um dia reproduz lema de organização neonazista no Twitter, no outro faz eco a assassino racista, adiante conspurca sessão do Senado Federal com gesto supremacista.

Mas, se evitarem os símbolos, encontram uma vasta receptividade.

A ração cotidiana de discurso do ódio, desprezo aos direitos, racismo, indiferença pelas pessoas, apologia do egoísmo, apreço pela violência como "regeneradora", propagada em programas de rádio e TV, púlpitos de igrejas, tribunas de casas legislativas, redes sociais, só podia gerar uma mentalidade neonazi.

Stormfront, a vilã do seriado The boys, está coberta de razão quando diz: "As pessoas adoram o que tenho a dizer! Elas acreditam nisso! Elas simplesmente não gostam da palavra 'nazista'. Isso é tudo".


Lógica


Torpe submissão aos interesses de um lunático


A raiz do mal

Sérgio Augusto

Torpe submissão aos interesses de um lunático resultou na morte de 300 mil brasileiros

Bolsonaro quase me matou em 5 de outubro de 2018.

A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais, bastante tenso com a possibilidade de o candidato da extrema-direita vencer os dois turnos, tive um enfarte agudo do miocárdio.

Aos amigos e ao colunista Ancelmo Góis, de O Globo, esclareci que sofrera, na verdade, um “bolsonaro agudo do miocárdio”. Ninguém contestou, nem duvidou. Uma semana e três stents depois, já estava em casa, pronto para o segundo turno, cujo trágico desfecho, felizmente, não me levou de volta ao hospital.

A simples ideia de ouvir “o presidente Jair Bolsonaro” desafiava minhas coronárias e alentava minha crença na Primeira Lei de Murphy. Se algo pode dar errado, certo não dará.

Imaginar na presidência da República aquele deputado do baixo clero, inapto, demagogo, fanfarrão, que nada de útil ou relevante fizera em quase três décadas de politicagem, era algo que me soava tão absurdo e inimaginável quanto William Bonner noticiar que Trump restaurara a monarquia nos EUA e agora era rei, ou que Fernanda Montenegro aceitara participar do próximo BBB.

Parecia-me então que, tão ou mais duro do que metabolizar a presença do ex-paraquedista na presidência, seria vê-lo a toda hora na TV, a proferir asneiras com aquela inflexão vulgar de chefe de torcida de futebol: a fala em staccato para disfarçar a espessa ignorância, o tatibitate de um espírito tosco, inteiramente despreparado para o cargo a que o oportunismo político e a insensatez de um eleitorado ressentido e envenenado por distorções e mentiras das mídias sociais haviam conduzido.

Ao menos para mim, foi mais duro, sim. E muito pior ficou depois que ele a seu vastíssimo currículo de defeitos – não sendo a maneira de falar e a compulsão para a mentira os menos nocivos de todos – acrescentou uma sádica propensão ao extermínio de pessoas indesejadas.

Bem antes de tornar-se réu em potencial do Tribunal de Haia, acusado de genocídio e ecocídio, Bolsonaro, ainda deputado, já defendia a esterilização em massa de pobres, por uma perspectiva malthusiana jeca: “É gente demais! Não tem mais lugar para deitar na praia!”, discursou, em 5 de agosto de 2010.

Depois, como também está registrado em vídeo – e façamos aqui um brinde à implacabilidade da internet –, ameaçou mergulhar o País numa guerra civil, para matar, no mínimo, umas 30 mil pessoas.

Era só o trailer do filme.

Entre os cabras por ele marcados para morrer estava o mesmo FHC que há dias não apenas reiterou sua rejeição ao impeachment como avaliou Bolsonaro “mais competente que a Dilma” em lidar com os interesses que o seguram no poder; embora infinitamente menos passível de uma punição parlamentar, faltou ressaltar, mas ressalto eu, contornando, par delicatessen, a palavra “golpe”, por sinal já admitida até por seu maior beneficiário, Michel Temer.

Afinal, o que foram as “pedaladas fiscais” da Dilma comparadas aos estragos promovidos, em todas as instâncias e gradações, pelo capitão, em 28 meses de disfunção administrativa? E nem estou incluindo nesse passivo as 300 mil mortes por covid por ele estimuladas de várias formas – ininterruptamente.

300 mil! Dez vezes mais mortes do que os assassinatos prometidos por sua guerra civil.

Nada disso (ou pelo menos em tais proporções) teria acontecido se Bolsonaro tivesse sido cassado quando pela primeira vez, ainda como deputado, exaltou da tribuna da Câmara o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Dr. Tibiriçá das masmorras da ditadura militar e seu mais notório torturador. Ou se, também por falta de decoro parlamentar, tivessem-no punido com o devido rigor por hostilizar, de corpo presente, o Palácio do Planalto como “uma pocilga”, cheia de porcos “com faixa presidencial e broche de ministro de Estado, zombando, debochando do povo brasileiro”.

O mais grave senão da carta-manifesto de economistas e banqueiros, divulgada esta semana, com críticas às ações de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, à parte a necessidade de sua elaboração (a elite econômica precisando defender a adoção de medidas de saúde pública!), foi não exigir, explicitamente, que o presidente fosse afastado, para o bem do Brasil.

Bolsonaro é o núcleo, o eixo, a medula, o epicentro, a célula-mãe de toda a crise sanitária, diplomática, econômica, moral e cultural instalada no País, o teimoso fiador das nulidades, dos robôs e sabujos que escalou em seus ministérios, dos quais só passou a abrir mão com menor resistência depois que seu governo começou a afundar inexoravelmente. Inútil trocar ministros e deixar o capitão fazendo prevalecer, sempre, a sua vontade, as suas doentias e obtusas certezas e as de sua prole delinquente, abduzida pelo olavismo e os delírios nível Lex Luthor de Steve Bannon. É preciso cortar o mal pela raiz.

Em seu comentário da última terça-feira, no YouTube, o jornalista Bob Fernandes revelou como o governo Bolsonaro, transviado pelo chanceler olavista Ernesto Araújo, entubou as pressões de Trump para não comprarmos a vacina russa Sputnik e medicamentos afins da China, Venezuela e outros “países mal-intencionados”, na visão Guerra Fria do trumpismo.

Essa torpe submissão aos interesses de um lunático que já deixou a Casa Branca resultou na morte de milhares de brasileiros e pode ser comprovada no Relatório de 2020 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.

Afastado o Genocida, seus ministros irão para o vinagre. Aí zeramos a fita e tentaremos salvar o que ainda é possível. Não é só o que o Brasil precisa e espera, mas o que o mundo também espera, para não ser contaminado.

Credibilidade


Mensagens satânicas em discos da Xuxa Mengelel

Gorilas fardados derrubariam Bolsonaro se não fossem covardes


Nata militar poderia, sim, derrubar Bolsonaro, mas precisaria ter coragem

Mario Sergio Conti

Diários da Alemanha nazista mostram fracasso de uma elite de outrora para estancar um outro descalabro genocida

Deve haver um fundo de masoquismo ao se ler sobre o nazismo bem agora: como se não bastassem as atrocidades do presente. Ou talvez o que se queira seja uma comparação reconfortante: perto da dor dos europeus no Reich de Mil Anos, a dos brasileiros é fichinha.

Pode não ser nem uma coisa nem outra, e sim querer aprender com o passado. Contra essa insensatez, porem, o primeiro a se insurgir foi Hegel em pessoa, quando disse que a única coisa que se aprende com a história é que ela nada ensina.

A Alemanha de 1941 e o Brasil de 2021 não têm coisa alguma em comum. Hitler e Bolsonaro são animais heteróclitos, por mais que o capitão ame o cabo. Toda analogia histórica tende à tolice, em suma. Mas quando o livro é bom, aprende-se muito com o nazismo.

É o que ocorre com “Diários de Berlim: 1940-1945”, publicado pela Boitempo com tradução e notas primorosas de Flavio Aguiar —e contracapa de Antonio Candido, que empregou as palavras “revelação” e “fascínio”.

Sua autora, Marie Vassiltchikov, começou a escrevê-lo com 23 anos. Era uma princesa no sentido real e no figurado. Nascida em berço nobre e russo, fugiu da revolução de 1917 e saltou de país em país até se fixar em Berlim, onde foi tradutora na chancelaria do 3º Reich.

Tinha a candura e a altivez que se atribuíam à aristocracia —afora que era linda. Doente terminal, só consentiu em publicar seus diários pouco antes de morrer, em 1978, com a condição que não lhe alterassem uma vírgula.

O que chama a atenção neles é a vivacidade. Marie se chateia porque o governo só autoriza tomar banho no fim de semana; cobiça roupas bonitas; queixa-se do chefe; reclama da comida; anda de metrô para lá e para cá. Vive o cotidiano de uma jovem inteligente e espirituosa.

Mas os “Diários” são muito mais que um registro perspicaz. É com verve de escritora que ela retrata um mundo se desintegrando. De fato, três mundos: o da fina flor do Velho Continente; o da Berlim estuporada pelos bombardeios; o da oposição da elite a Hitler.

É esse último mundo que pode interessar mais os brasileiros. Marie acompanhou lateralmente, e torcendo o tempo todo pelo seu sucesso, o atentado de 20 de julho de 1944, no qual um coronel da alta roda prussiana, o conde Claus von Stauffenberg, liderou um complô para assassinar Hitler.

O patriciado militar, que festejara ruidosamente a ascensão nazista, veio a se horrorizar com o ímpeto genocida de Hitler. Como não havia espaço político para mobilizar a opinião pública e barrá-lo, um grupo de oficiais organizou um atentado e um golpe de estado, a Operação Valquíria.

O nome da operação se referia às divindades que recolhiam os corpos de heróis tombados nos campos de batalha. Ela fora concebida pela própria ditadura nazista. Seu objetivo era organizar tropas da reserva e fazer frente a uma eventual revolta —Hitler mesmo a chancelara.

Os conspiradores o matariam, tomariam o poder e assinariam a paz. Stauffenberg entrou na toca do lobo e detonou a bomba. Mas o cabo, que Marie chama de Demônio, sobreviveu. Kaputt a cavalgada —o conde e seus golpistas foram passados nas armas.

Agora, o Brasil da elite. Banqueiros e chefões do Congresso andaram murmurando contra o Capetão. “Mandaram recado”, “falaram duro”, “sinalizaram” —um chorrilho de clichês descreveu o pocotó das valquírias, pois que circunscrito a muxoxos, lamúrias e uma missiva suavíssima.

A cantilena dos fidalgos disse o seguinte ao Exterminador: vamos levar um papo, querido. Tanto que um dos que fizeram beicinho e ameaçaram ficar de mal foi Aécio Neves. Cuidado com ele. Se chateado, ligará para o açougueiro da JBS e pedirá uma mala de tutu com torresmo.

A sério: nossas valquírias até poderão conseguir a cabeça de uma dessas mulas sem cabeça que assombram Brasília. Botarão um jumento sem cabeça no seu lugar, farão bons negócios —e vida que segue.

Isso é o oposto exato de estancar a carnificina em andamento. Para tanto, seria preciso tirar o assassino em massa do Planalto. Ponto, parágrafo.

A nata militar poderia, sim, derrubá-lo. Mas ela teria de ter aquilo que sobrava entre os da estirpe de Stauffenberg —coragem, noção de pátria, civismo, a crença que a derrota é o de menos. Numa palavra, heroísmo. Ao receber a ordem de fechar o Congresso, o herói responderia ao vilão:

“Não. O senhor e sua família têm uma hora para ir ao aeroporto, onde um avião da FAB os levará a Israel. Se se recusar, será preso, processado e julgado por genocídio".

Se a estupidez é contagiosa, a inteligência também é



A nossa esperança está naqueles que insistem em denunciar o óbvio
Em Angola, nos anos que se seguiram à independência, a Prisão de São Paulo, a maior do país, juntava presos de delito comum, jovens ligados a diferentes partidos e movimentos, quer de esquerda, quer de direita, militares do exército sul-africano e zairense, capturados em combate, e ainda um pequeno número de mercenários ingleses e norte-americanos.

Os jovens esquerdistas, que vinham quase todos de famílias da pequena burguesia urbana, e eram, na sua maioria, estudantes universitários, tentaram organizar cursos de línguas e de cultura geral. Também organizavam bailes. Começaram por improvisar orquestras com instrumentos imaginários. Os músicos levavam o desafio muito a sério. Ficavam num pequeno palco, imaginando que tinham nas mãos guitarras, flautas, trombones, enquanto imitavam o som dos respetivos instrumentos.

A partir de certa altura, os presos criaram um canal de televisão. Obviamente, sem televisão. Os âncoras sentavam-se atrás de uma estrutura de madeira, a imitar uma tela, e liam notícias totalmente inventadas. Um antigo coronel do exército português, Teles Grilo, acusado de ter dirigido um massacre terrível contra camponeses, em janeiro de 1961, na Baixa de Cassange, manteve durante alguns meses um programa de música clássica que era escutado, atentamente, pelos restantes presos. A esmagadora maioria nunca havia visto ou sequer escutado um piano. Contudo, os que sobreviveram às torturas e fuzilamentos saíram da Prisão de São Paulo especialistas em música clássica.

Ver aqueles jovens, num pequeno palco, tocando instrumentos imaginários deve ter parecido aos carcereiros uma expressão de loucura. Parece-me, pelo contrário, um exemplo de lúcida insurreição perante o domínio do absurdo. Mergulhados num ambiente de crueldade extrema, de perversão, de humilhação, de inversão de valores, sós e desamparados, aqueles jovens construíram uma estratégia de resistência, recriando um universo ficcional de alguma normalidade.

É isso, afinal, o que a arte faz. Em contextos de desumanização, a arte reafirma a humanidade. A encenação de realidades alternativas é também, muitas vezes, a melhor forma de expor e denunciar as falhas na matriz, ou seja, os absurdos que se vão alojando no real, de forma mais ou menos sólida, mais ou menos bem-sucedida.

Quando os loucos se instalam no poder, o simples bom senso se torna subversivo. O sujeito que grita “o rei está nu”, diante do déspota que marcha pelado, tem mais chances de ser perseguido como um terrorista radical pelos seguidores do rei do que de os persuadir. Ainda assim, é necessário gritar. É imperioso continuar gritando. A nossa esperança está naqueles que insistem em denunciar o óbvio. Em todos os que, segurando instrumentos imaginários, vão compondo as canções reais com que acordaremos os adormecidos.

Penso muito naquela orquestra imaginária, e nas suas canções urgentes.

Vale sempre a pena relembrar que, se o absurdo é contagioso, a lucidez também; se o medo é contagioso, a coragem também; se a estupidez é contagiosa, a inteligência também.

Nos quartéis ou nos ministérios?


Cristina Serra

Onde estarão em 2050 os tenentes de 2020?

O general Pazuello assumiu o Ministério da Saúde com 15 mil mortos pela pandemia e deixou o cargo, dez meses depois, com mais de 300 mil cadáveres nas costas. Pazuello não tinha nenhuma credencial para o posto e ainda exibiu subserviência degradante ao genocida. "Um manda e o outro obedece" é sua frase que ficará para a história.

O desastre Pazuello contamina a imagem do Exército e a dos militares que decidiram trilhar o caminho de volta para a política, da qual haviam se afastado (ou pareciam ter se afastado) desde que o general Figueiredo deixara o Palácio do Planalto pela porta dos fundos, em 1985, pedindo: "Me esqueçam". Por que voltaram?

Pistas podem ser encontradas na análise do coronel da reserva Marcelo Pimentel em artigo para o livro "Os Militares e a Crise Brasileira" (organizado por João Roberto Martins Filho) e também em alentada entrevista para o podcast Roteirices, de Carlos Alberto Júnior. Pimentel é um crítico da participação política dos fardados, que considera um risco à consolidação do Estado democrático de Direito. Identifica na atuação deles o que chama de "Partido Militar", que cultiva autoimagem "salvacionista" e tem fundo ideológico antiesquerda.

O "Partido Militar" tem pauta corporativa (bem-sucedida em questões previdenciárias e orçamentárias), ocupou espaço de forma "massiva" em ministérios, estatais, autarquias e agências reguladoras e tem base militante bastante ativa em redes sociais, onde se conecta com o eleitorado civil. São comportamentos, na visão do analista, de um partido político, com um projeto que iria além de Bolsonaro e que só pode ser contido se as Forças Armadas entenderem que seu lugar é na "retaguarda" do cenário interno, dentro da "estrita constitucionalidade".

Para Pimentel, o envolvimento da caserna na política pode gerar efeito nocivo de longo prazo sobre a jovem oficialidade, polícias militares e órgãos de segurança pública. A pergunta que ele deixa é: onde estarão os tenentes de 2020 em 2050? Nos quartéis ou nos ministérios?

sexta-feira, 26 de março de 2021

Ministro Astronauta anuncia VACINA do governo


Brasil registra novo recorde de mortes por Covid em 24 horas: 3.650


Com isso, o total de vítimas fatais da doença no País chegou a 307.112

Redação

O Brasil contabilizou 3.650 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas, segundo boletim divulgado na noite desta sexta-feira 26 pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Trata-se de mais um recorde de óbitos em um único dia. Com isso, o total de vítimas fatais da doença no País chegou a 307.112.

O Conass também registrou entre quinta e sexta-feira 84.245 novos casos da doença, levando o total oficial de infectados a 12.404.414.

Um indicativo de que o País caminhava para um novo recorde negativo se deu nesta manhã, quando o estado de São Paulo anunciou 1.193 mortes pelo novo coronavírus nas últimas 24 horas, maior número desde o início da pandemia.

A média de mortes por Covid-19 no Brasil, que leva em consideração os dados dos últimos sete dias, indica a dramática aceleração da doença: nesta sexta, a média é de 2.400, ante 2.280 na véspera.

Já a média de casos no período é de 76.146. Na quinta-feira 25, era de 77.050


O céu é o limite - e o inferno já está aqui.

Luis Felipe Miguel


Chegamos aos 300 mil, mas a verdade é que os números não querem dizer mais nada.

Chegamos aos 300 mil sabendo que os 400 mil estão ali na esquina.

Depois os 500 mil, e assim por diante. O céu é o limite - e o inferno já está aqui.

A preocupação principal do governo é impedir que o presidente seja chamado de genocida. Só isso dá um indício de como é sem fundo o buraco em que nos metemos.

Bolsonaro continua como sempre esteve. Pressionado, dá um aceno fingido para a racionalidade, mas no minuto seguinte volta atrás.

Mente, sem parar. Parece o suficiente para agradar sua base fiel.

A notícia de hoje é que, incomodado com as críticas a Ernesto Araújo, um dos responsáveis pela catástrofe por sua política de isolamento absoluto do Brasil, Bolsonaro decidiu que vai mantê-lo no cargo.

É claro - bater o pé que nem um machinho contrariado é mais importante do que salvar vidas.

Nos Estados Unidos, que estão vacinando em massa, o número de novos casos de Covid caiu cerca de 90% do início do ano para cá.

Já nós continuamos com a curva ascendente, batendo nos 100 mil novos registros diários.

Não era para ser assim. Embora um país pobre, o Brasil sempre teve os recursos e a expertise para garantir a vacinação de toda a sua população.

Poderíamos estar caminhando para o fim desse pesadelo, em vez de nos afundando cada vez mais nele.

Mas temos um criminoso na presidência, colocado lá por um consórcio de criminosos.

E mantido no cargo porque, não só para Bolsonaro, mas para milhões de brasileiros, incluída aí a maior parte da nossa elite econômica, política, judiciária e militar, a vida humana não é um valor digno de nota.

Triste Brasil.



Two beer or not two beer


E se o Canal de Suez fosse administrado pelo Governo Bolsonaro?


Agora imagina se Canal de Suez fosse administrado pelo Governo Bolsonaro.


1. Bolsonaro: "Eu pescava muito em Angra. Conheço tudo de barco. Esses barcos encalham mesmo. Fazer o que? Lamento. Nós temos rodovias. O que não pode é ficar tudo parado por causa de um barco. Não dá para ir de barco, vai a pé".

2. Paulo Guedes: "O problema é que no Governo PT eles deixaram assorear muito o canal. São 30 anos de detritos. Nós lançamos uma reforma para triplicar o canal e tirar 20 trilhões de toneladas de lama. Mas, infelizmente, o Congresso não nos deixa trabalhar". 

3. Ernesto Araújo: "Isso é resultado do globalismo comunista mundial que quer mandar mercadorias para o mudo inteiro. Os outros países precisam entender que o Brasil mudou. Que somos patriotas e o povo quer o canal assim". 
 
4. General Heleno: "Não tem problema nenhum com o canal. O Presidente agiu certo em não fazer nada. O Exército é uma instituição respeitável e qualquer ameaça de intervenção será vista com ressalvas". 

5. André Mendonça: "Nós estamos tomando providências cabíveis para o devido enquadramento legal, com base na lei de segurança nacional, de todos que falarem que o problema no canal é assunto do presidente". 

6. Tarcísio: "Para desencalhar o navio de forma rápida precisamos de uma equipe multidisciplinar, esforços logísticos e de engenharia que demandam investimento maciço e emergencial. Mas a proposta do Governo de não fazer nada é boa também". 

7. Marcos Pontes: "Eu posso garantir que o canal de Suez existe, pois o vi com meus próprios olhos quando orbitei a terra". 

8. Salles: "Tem que aproveitar agora que tá todo mundo olhando para coisa do canal e passar a boiada na flexibilização das leis ambientais. Essa coisa de navio encalhado é culpa desse monte de regra ambiental que não deixa o navio fluir". 

9. Rodrigo Maia (em nota): "Repudio veementemente o encalhamento do navio do canal de Suez. O Brasil não pode mais conviver com isso". 

10. Arthur Lira: "Temos um grupo de empresário interessados em cuidar dos assuntos do canal. Será bom para o Brasil e para o empresariado". 

11. Fux: "Ante o exposto, concedo a medida em tutela liminar, para determinar a imediata remoção do navio, se possível e, se não, que seja apresentado um plano de remoção em até 3 meses". 

Um expoente da estupidez que reina no governo do Bozo

 


Claudio Guedes

Araújo, Ernesto

É um tipo raro no plantel do Itamarati, nosso bem sucedido ministério das Relações Exteriores. 

O Brasil, um país emergente e desfigurado por uma desigualdade social brutal, sempre teve uma inserção global, em quase 200 anos de história ativa na diplomacia, muito aquém das suas qualidades. Por quê? Porque nossa elite diplomática sempre teve um brilho especial. Por isso conseguimos boas relações no continente, poucas guerras com vizinhos, uma eficiência formidável na solução das questões de fronteiras e uma imagem respeitada no mundo, que sobreviveu até à ditadura militar.

Ernesto Araújo, a escolha do presidente Bolsonaro para a cargo de Chanceler, é quase uma unanimidade. No Brasil e no mundo. É tido como um alucinado, um energúmeno. 

Junto com Ricardo Salles, o ministro de Destruição do Meio Ambiente, é forte candidato à Medalha de Ouro como o ministro de Bolsonaro que deu maior contribuição ao desmantelamento da boa imagem do Brasil no mundo, entre os grandes países emergentes, conquistada nas últimas décadas. 

Elio Gaspari, que quando aparece por aqui é para ser criticado, dessa vez será elogiado - vejam a unanimidade contra Araújo, Ernesto. Elio definiu com rara felicidade este personagem:

"O doutor Araújo é um expoente da estupidez que reina no governo [Bolsonaro]".

Tudo dito. 

Será exonerado, é uma questão de tempo, mesmo que o presidente Bolsonaro, que é um energúmeno da mesma laia do seu Chanceler, tente mantê-lo.

O lugar de Ernesto Araújo é na lata de lixo de material não-reciclável do Itamarati.

O genocídio que está em curso vai muito além das vítimas diretas do vírus


João Ximenes Braga

Quando Etchegoyen e Temer se abraçaram, enfiaram suas línguas secas e bifurcadas na boca um do outro e com esse beijo selaram a PEC da Morte, congelando orçamento de Saúde e Educação, eu achei que era o fim do Brasil. Tolinho.

Era só o início do fim. O fim está sendo lento, doloroso e com requintes de crueldade.

Lendo agora sobre o orçamento 2021, vejo que o filho que saiu daquele beijo é ainda mais cruel. Quatrocentos e dez mil mortos depois (número de vítimas de Síndrome Respiratória Aguda Grave), as verbas para Saúde são quatro vezes menor que as destinada às Forças Armadas. 

Educação, Censo, Previdência, Seguro-Desemprego, fiscalização do desmatamento, está tudo sendo esquartejado em praça pública. Além do aumento garantido para os militares, única categoria do serviço público preservada do congelamento de salários, vai uma grana para obras realizadas por  emendas parlamentares, garantindo a reeleição dos congressistas que acreditam que os poucos sobreviventes desse morticínio votarão neles por causa de uma rua asfaltada ou uma bica d'água suja. E provavelmente estão certos. É a única lembrança de Estado que essas pessoas terão.

O genocídio que está em curso vai muito além das vítimas diretas do vírus. É uma perversão tamanha que condena uma ou duas gerações ao analfabetismo. Os que sobreviverem, claro.

O resultado disso será imediato: aos que sobreviverem, queda no consumo, queda da Economia, queda brutal na arrecadação e um arrocho maior em 2022.

No início desse governo eu falava que vivíamos a uberização da ditadura, já que a repressão era descentralizada. Chegamos na etapa da uberização da tortura. O retorno dos militares ao poder executivo no século XXI os vê mais sofisticados na guerra contra seu maior e único inimigo, o povo brasileiro.

Diplomacia do desatino

Bernardo Mello Franco

Ernesto Araújo praticou diplomacia do desatino e é cúmplice da tragédia

No dia em que assumiu o Ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo citou a Bíblia em grego, rezou a Ave Maria em tupi e viajou na maionese em português. Num discurso delirante, o chanceler misturou Tarcísio Meira, Renato Russo, Dom Sebastião e Raul Seixas. A performance espantou a plateia e inaugurou uma era de vexames no Itamaraty.

Discípulo de Olavo de Carvalho, Araújo aplicou a cartilha da extrema direita na diplomacia. Prometeu uma “política externa do povo”, mas subordinou o interesse nacional às crenças de uma seita radical.

O chanceler hostilizou nações amigas, endossou teorias conspiratórias e isolou o Brasil em fóruns internacionais. Na ONU, o país passou a boicotar resoluções que defendiam os direitos humanos. Alinhou-se a teocracias que oprimem mulheres e perseguem minorias.

O fanatismo também pautou a relação do ministro com o chefe. Num discurso banhado em lágrimas, Araújo chegou a comparar Jair Bolsonaro a Jesus Cristo. Aos soluços, descreveu o capitão como a “pedra angular” de um “novo Brasil”.

A vassalagem não o salvou de humilhações públicas. Numa visita à Casa Branca, o chanceler foi barrado no encontro com Donald Trump. Enquanto ele esperava no corredor, o deputado Eduardo Bolsonaro acompanhava o pai no Salão Oval.

A submissão a Trump foi um capítulo à parte na gestão Araújo. Para bajular o republicano, o ministro traiu países vizinhos, aceitou taxas abusivas e abriu mão de espaço em organizações multilaterais. Quando Joe Biden venceu, ele endossou a falsa tese de fraude eleitoral. A birra aumentou a má vontade da nova administração americana com o Brasil.

Num governo cheio de lunáticos, os desatinos do chanceler foram tratados como um exotismo a mais. Por mais de dois anos, o Congresso e a elite empresarial fecharam os olhos enquanto Araújo babava na gravata. A omissão durou até o agravamento da pandemia.

Com mais de 300 mil mortos pela Covid, o Brasil sofre para conseguir vacinas e medicamentos. Parte do drama se deve à antidiplomacia de Araújo, que inviabilizou acordos com a China e a Índia. Agora Senado e Câmara exigem a demissão do ministro. Mas não basta afastá-lo do cargo. Ele precisa ser responsabilizado como um dos cúmplices da tragédia.

Conversa com Bia e Mau