sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Viagem no tempo em marcha à ré



Artur Araújo

A capa da FSP conta que a queda nas exportações brasileiras em 2019, com destaque negativo para a redução de 11% na venda de manufaturados para o exterior, provocou, em um ano, uma diminuição de 20% no saldo da balança comercial.

Os US$ 46,7 bilhões de superávit são o pior resultado desde o início da recessão em 2015.

Já o portal G1 anunciava, desde a noite anterior, que pela primeira vez em quarenta anos nossas exportações foram majoritariamente de produtos primários (53%), com velocidade de deterioração acentuada (50% em 2018).

No curto prazo, estes números sinalizam riscos crescentes de retorno ao cenário dos anos 1980/90, da chamada restrição externa, de crise cambial, porque o saldo comercial cada vez cobre parte menor da perda de divisas originária de um balanço de pagamentos sempre desfavorável (projeção otimista de saldo em transações correntes de -3,2% do PIB para 2020).

Esdruxulamente, se o PIB crescer a situação piora, porque dependemos cada vez mais da importação de insumos e de produtos industriais intermediários para fabricarmos o que quer que seja. Mais produção, mais importação sem correspondência de exportações que gerem os dólares para pagar a conta.

Estruturalmente, a dependência da demanda de outros países por commodities agrominerais e dos hipervoláteis preços internacionais de produtos primários - pedras de ferro, barrigas de porco, grãos de soja, quartos de boi, barris de petróleo, carcaças de galinha e, talvez, as cestas de bananas e abacates que tanto seduzem o presidente da República - leva à intensificação de uma desindustrialização precoce já gritante.

Teremos que vender cada vez mais primários para fora para sustentar o próprio consumo interno de manufaturados importados.

Tudo indica que demos um salto tecnocientífico esplendoroso, dominamos a viagem no tempo.

Tudo indica, também, que só sabemos executá-la rumo ao passado, voltando a quando éramos um enorme fazendão com buracos de minas, regredindo mais de século e anulando mais de 100 anos de esforço nacional concentrado pela industrialização, diversificação e competitividade mundial da economia brasileira.

As relações de trabalho do presente já marcham celeremente para o pré-1888... parece que o sórdido caminho é mesmo o completar da jornada.

Ou trocar a gerência antes que seja tarde demais.

Para não perder a década na política


Nelson Barbosa
Iniciamos 2020 com queda do gasto social e tentativa de intervenção nas universidades
Entramos nos anos 20. A virada simultânea de ano e indicador decenal levou vários analistas a avaliar nossa nova “década perdida”, pois os anos 80 e 90 do século passado também não foram bons em crescimento econômico.

Porém, se utilizarmos o padrão histórico correto, o século 21 começou em 2001 e a segunda década deste século só acabará no final de 2020. Dado que a expectativa média do mercado é de crescimento de 2,3% neste ano, cabe perguntar: será isto suficiente para salvar a década? A resposta é não.

Tomando o PIB per capita como referência, a atual expectativa de crescimento pouco alterará a estagnação prevista para 2011-20. Traduzindo do economês, em 2020 a renda média por habitante do Brasil retornará ao nível de 2010. Para piorar, como houve aumento da desigualdade no período, isto significa redução da renda real dos mais pobres.

Mesmo que a economia surpreenda positivamente (tomara), crescendo 3% neste ano, ainda assim teremos nossa segunda pior década desde que temos dados sobre o PIB per capita do Brasil.

Coloquei todos os números no blog do Ibre/FGV. Nesta coluna me concentrarei no período pós 1980.

Com base nos dados do IBGE, o PIB per capita teve queda acumulada de 3,9% em 1981-90. Em outras palavras, em 1990 estávamos quase 4% mais pobres do que em 1980.

O retrocesso econômico foi parcialmente compensado pelo avanço da democracia, dado que voltamos a ter eleições diretas para presidente nos anos 1980 e encerramos o período com uma nova Constituição e previsão de ampliação da rede de proteção social.

Apesar dos pesares a situação melhorou nos dez anos seguintes, em 1991-00, quando houve expansão de 18,1% na renda real por habitante.

O crescimento foi facilitado pelo cenário externo favorável durante a maior parte do período, que por sua vez viabilizou a estabilização da economia (Plano Real).

Como a redução da inflação beneficiou relativamente mais os mais pobres, também houve redução da desigualdade na “década tucana”. Difícil considerar os anos 1990 como década perdida neste aspecto.

A situação melhorou mais ainda na primeira década deste século, em 2001-10, quando registramos expansão de 27,8% (o “milagrinho” econômico) novamente em um cenário externo quase sempre bem favorável.

Na “década petista” houve aceleração da renda e redução mais rápida da desigualdade, com materialização de vários direitos previstos na Constituição de 1988, via aumento da rede de proteção social e maior acesso a crédito, educação e a empregos com carteira assinada (o “Brasil de Todos” do PT).

Diante do quadro acima, nosso desempenho em 2011-20 é decepcionante, sobretudo quando consideramos o retrocesso político dos últimos anos. Enquanto na década perdida de 1981-10 tivemos redemocratização e “Constituição Cidadã”, hoje temos tendências autoritárias e desmonte da rede proteção social.

Como exemplos, lembro que iniciamos 2020 com previsão de nova queda real do gasto social do governo por habitante, tentativa de intervenção do Planalto nas universidades federais (MP 914) e retomada da guerra jurídica contra a esquerda, vide a nova decisão da Justiça contra o ex-Presidente Lula e a ação da CGU contra Sergio Gabrielli (ex-Presidente da Petrobras).

Diante destes sinais, podemos esperar por mais ataques à democracia neste ano. Para não perder a década também na política, precisaremos de mais mobilização social, pacífica e dentro da lei, contra o obscurantismo em curso. O primeiro passo é repelir a intervenção na educação.

Nelson Barbosa
Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Clima no Oriente Médio esquenta e pode se transformar em incêndio incontrolável



1- Esqueçam essa história de que o petróleo está se tornando um produto irrelevante. O petróleo ainda é o motor da guerra, e deverá ser por muito tempo. Na há guerra sem energia, não há guerra contemporânea sem petróleo. Nenhuma potência considera o petróleo um produto a partir da lógica econômica que se ouve na TV. Petróleo é produto geopolítico, tem outra lógica. Comparar petróleo ao trigo é coisa para neoliberal de periferia.

2 - A máquina de guerra dos EUA não precisa do petróleo do Irã. Então qual o motivo da cobiça? Resposta complexa, mas em resumo reducionista: a lógica da geopolítica do petróleo não consiste apenas em se ter petróleo, tão importante quanto é evitar que outras potências tenham esse tipo de recurso em abundância. É travar, impor custos e dificuldades logísticas aos rivais. O Irã, na prática e em potencial, é um fornecedor de energia para máquinas de guerra na Ásia, tudo o que não pode acontecer. A Ásia é o terreno prioritário para a manutenção da hegemonia estadunidense. Sem a Ásia, os EUA são apenas uma potência regional.

3 - O Irã é um país de desenvolvimento médio, economia relevante, investidor em áreas cruciais de educação e tecnologia, e país que compete com a Arábia Saudita pelo papel de liderança no Oriente Médio. Trata-se de um polo com enorme capacidade de atração e que trabalha pela perda da influência estadunidense, e que por isso precisa ser contido.

4 - Para China e Rússia, a manutenção do regime iraniano e o consequente posicionamento do país nesse tabuleiro é essencial para conter eventuais avanços dos EUA na Ásia. Conter os EUA na região é objetivo prioritário para Moscou e Pequim, o que torna qualquer crise na região ainda mais séria. Por outro lado, faz com que Teerã tenha orientação pela prudência e garantias de subterrâneo. Política sem impulsos, jogada sem amadorismo e com retórica na medida certa. Isso, contudo, não deve evitar retaliações de grupos em forma de atentados nos EUA e em alvos estadunidenses pelo mundo. A tensão vai aumentar.

Começou mais um chicken game. Perde quem piscar primeiro.

"Dois papas" presta um péssimo serviço à História



Moisés Mendes

OS PECADOS DE ‘DOIS PAPAS’

‘Dois papas’ seria um filme médio, se tratasse de dois idosos anônimos que buscam a remissão confessando-se mutuamente sobre pecados de tempos idos. Mas o filme é sobre duas celebridades da Igreja e por isso acaba sendo um fracasso pela sua desconexão com a verdade.

Pois vi o filme, depois dizer que me negaria a aceitar como natural uma história distorcida sobre figuras reais e edificantes. Decidi ver por insistência de amigos. O que vou escrever aqui, e vou escrever muito, pode incomodar quem já viu e quem ainda pretende ver o filme de Fernando Meirelles.

Aprendemos que não se brinca impunemente com personagens reais e vivos, mesmo que a arte, qualquer arte, permita devaneios sobre a realidade ou não seria arte.

O filme não parece propor um espelho de opostos, ao colocar um diante do outro, mas está clara a intenção de tratar os dois papas como protagonistas do mesmo tamanho.

Nenhum deles está ali para fazer escada para o outro, ou o filme não existiria. A intenção está no título original e no título traduzido: dois papas.

Mas o Joseph Aloisius Ratzinger de Meirelles é uma figura quase fictícia, apenas escorada num personagem real.
Não interessa se metade das cenas não reflete a realidade. O que importa é que Meirelles expõe os dramas de Jorge Mario Bergoglio e esconde os dramas ainda mais terríveis de Ratzinger.

Nas sequências que sustentam a ideia do filme, Meirelles comete o grande desastre. É quando o argentino fala dos seus erros ao tentar proteger os colegas jesuítas do terror da ditadura argentina e, na sequência, o alemão confessa suas omissões diante das denúncias de pedofilia na Igreja.

Não há contraponto possível na abordagem escolhida por Meirelles e que o diretor pode jogar no colo do roteirista. O argentino fica exposto como um líder religioso que fraqueja politicamente diante dos ditadores. O alemão, logo depois, confessa que também foi fraco com os pedófilos. E diz apenas isso, o que não é pouco, mas não é tudo.

Os dilemas de Bergoglio são mostrados em imagens, com sequências fortes, lembranças pessoais, personagens reais. A confissão de Ratzinger é balbuciada, sem nada que sustente a dimensão trágica da sua fala, apenas com a citação de um nome de um dos principais acusados de pedofilia.

O drama do argentino é dolorosamente político e humano, enfileirando os algozes e suas vítimas. O drama de Ratzinger é resumido a uma chaga religiosa. Não há personagens no drama do alemão.

As vítimas dos padres pedófilos são hoje adultos e já foram representadas em outros filmes. E os seus parentes? E as suas histórias? E as articulações de Ratzinger para proteger os acusados?

Meirelles não quis ou não conseguiu tomar a decisão que transformaria o filme médio num filmaço. Não contrapôs, no momento das confissões, os dramas dos papas com a dimensão que têm.

Logo depois de mostrar o aniquilamento de Bergoglio com a desastrada intervenção que desagrada os jesuítas perseguidos, e a sua imediata tentativa de redenção (inclusive lendo livros de resistência escritos por brasileiros), Meirelles era obrigado a fazer o óbvio: a confissão de Ratzinger também deveria ter força política, em voz alta, como a que o alemão ouvira do argentino.

Bergoglio disse: eu tentei proteger meus irmãos e admito que devo ter errado, enquanto eles lutavam com radicalidade para afrontar os ditadores.

Ratzinger deveria dizer, para que fosse além da confissão sobre o acobertamento dos horrores da pedofilia: eu, muito antes de proteger pedófilos, na condição de alta autoridade da Igreja, persegui e reprimi meus irmãos que lutaram contra as ditaduras e por um catolicismo menos reacionário.

Ratzinger deveria ter dito, para ser o contraponto à altura de Bergoglio, que muitos dos livros que o argentino lia, quando tentava se livrar das culpas e entender a luta dos ‘radicais’, foram escritos por católicos progressistas que ele odiava e que ajudou a massacrar, entre os quais frei Leonardo Boff.

Mas não. Meirelles prefere dar à confissão de Ratzinger o tom religioso dos que falam em voz baixa, como se os pecados do então papa devessem ser tratados com cuidado, como os crimes que a igreja do alemão tentou camuflar. Meirelles ajuda Ratzinger a simular sua remissão, que fica abafada e incompleta.

E isso é importante, podem perguntar? É a essência do filme, ou deveria ser. Bergoglio confessa e transcende, consegue passar o sentimento de que está em dia com a sua consciência e com o seu Deus. Ratzinger, o guardião dos dogmas da Igreja, não tem essa chance. Meirelles o compromete ao tentar protegê-lo.

Meirelles pode ter contado a história possível. Ratzinger é um velhinho que, por tudo que fez pela Igreja, acaba sendo perdoado. Mas tudo o que ele fez não aparece no filme, e nem vamos falar de sua juventude hitlerista.

É paradoxal também que Ratzinger tenha a compreensão e a admiração pela trajetória de Bergoglio, se o que fez durante toda a vida no Vaticano foi conspirar contra a Igreja progressista que acaba por conquistar o argentino.

O Ratzinger denso, mas sempre bondoso, é interpretado por um Anthony Hopkins contido, e Meirelles acredita que por isso ficou doce demais, porque a figura de Hopkins o suavizou (o diretor não deve ter esquecido que Hopkins já foi Hannibal Lecter). O Bergoglio de Jonathan Pryce é latino, argentino, italiano, um Francisco real e poderoso.

Se ‘Dois papas’ não fosse um filme, mas uma reportagem, Meirelles teria contribuído para a disseminação de uma das mais danosas fake news sobre duas personalidades da igreja católica.

O filme emociona, mas isso não basta. Como trata de pessoas reais e vivas, ‘Dois papas’ presta um péssimo serviço à História. Um dia talvez Meirelles tenha a chance da remissão que insinua conceder, mas não concede, a Joseph Ratzinger.

Xangai comemora Ano Novo com dois mil drones


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Inferno, ano 2


E o amigo da Sininho hein?


Vinícius Carvalho

E o amigo da Sininho hein? Eduardo Fauzi, Black Block ativo nas Marchas de Junho de 2013, guerreiro Jedi mascarado, o revolucionário dos trópicos, defendido por "adevogados livres", revoluciotários, libertários, horizontalizados e etc fizeram Greve de Fome pela sua liberdade em 2013.

Agora o cara aparece gravando vídeo com bandeira integralista, e junto de movimento de extrema direita, atacando a sede do Porta dos Fundos e etc.

Pior, o maluco é ligado a milícia, dançarino de zouk e filiado ao PSL.

Sempre me considerei o inimigo número 1 das Jornadas de Junho de 2013 e principalmente desse time de pulhas: sininho, black block e etc. Apanhava igual um boi ladrão por isso, botei a cara a tapa em pleno 2013, fui ameaçado pra caralho por gente da própria esquerda (mas nunca tive medo, porque a esquerda brasileira não mete medo em ninguém, e quem tem 30 anos de esgoto e de Baixada Fluminense não perde pra rato), conquistei antipatia de gente de universidade e etc.

Tava na cara que aquele movimento era mundial. Começou com as ditas primaveras árabes, até aí tudo bem, ninguém sabia ao certo o que acontecia. Mas, tirando Egito, apenas países não aliados ao neocolonialismo sucumbiam, incluindo o mais representativo, Líbia.

Depois tentaram transformar a Síria num estado zumbi. Quase conseguiram. As custas e de muita mulher escravizada e muitas decapitações.

E foi seguindo, implantaram um regime neonazista na Ucrânia (com apoio de gente da esquerda ocidental, achando que "era o povo livre lutando contra a influência de Putin"). Desembarcaram na América Latrina, Venezuela, Brasil (N Ã O V A I ter Copaaaa - idiotas).

Inclusive foi assim que meu perfil de Facebook começou a ter uns textos viralizados. Mas não se enganem, muitas vezes era viralizado comigo sendo atacado. Eu estava literalmente fantasiado de bunda e festa de pica.

Essa semana rolou uma falsa polêmica entre o presidente do PSOL e o Lula. Lula disse que tinha dedo na CIA naquelas manifestações e o presidente do PSOL, cara pelo qual eu inclusive tenho estima e respeito, achou absurdo e elencou um séquito de "intelectuais" que discordavam de Lula.

Sendo que dos intelectuais que ele elencou, Pablo Ortellado, Safatle, Esther Solano (que inclusive escreveu um livro e brigou com o Jô Soares os defendendo), Avritzer, Biroli e etc, sendo que absolutamente todos esses "intelectuais" apoiaram apaixonadamente e fanaticamente tal marcha, e inclusive um deles obteve ganhos financeiros com isso, que foi o caso do Pablo Ortellado, que foi devido ao seu status conquistado de "intelectual progressista crítico ao petismo", que ele conseguiu uma coluna na Folha. Muitos, usando de artifícios linguísticos academicistas, (e a gente que é de academia sabe bem como isso funciona), disfarçavam seu fanatismo em frases praticamente parnasianistas e citações vagas. Ou seja, para defender o que se quer, se tergiversa e usa citações poderosas, para fingir neutralidade e que está fazendo um trabalho de debate historiográfico sério, faz citações pífias e conduzidas para que o enredo feche com o que se defende.

Eu partia por pressupostos simples: não tinha como um movimento que só visava derrubar governos não-alinhados com os EUA e UE, sem nenhuma manifestação nesses países, e sobrepondo em todos os lugares por onde passava por regimes neofascistas ser um movimento que prestasse.

Tá aí o resultado, como diria Roberto Requião "erraram todos!".

O legado de junho de 2013

A ascensão do fascismo

Rodrigo Perez Oliveira
Cadê os corpos em movimento expressando suas subjetividades e desestabilizando o governo do capitão igual fizeram com Dilma
Em junho de 2013, eu tinha três empregos e uma tese de doutorado pra escrever. Dava aula em universidade particular, turma pra karai, salário chegando na casa dos dois dígitos pela primeira vez na vida . Franca ascensão rumo à classe média. Saindo de Nova Iguaçu e indo morar em Copacabana. Viajando de avião pra cima e pra baixo. Família comprando terreninho em Saquarema pra construir casa de praia. Só alegria.

Ia fazer o quê na rua pra protestar?

Nunca entendi muito bem aquela revolta toda. Pleno emprego, inflação sob controle. Galerinha lá do IFCS, playboyzada bolsista sem registro no PIS, gritava "fora todos". Tinha todo um papo de corpos e subjetividades. Eu achava maior viagem, mas tudo bem. Cada cachorro que lamba sua casseta, eu pensava.

A esquerdinha culturete "queria mais", acusava o PT de traição, falava em nome da juventude negra que "estava sendo exterminada". "Os bancos nunca lucraram tanto". Pelo direito de namorar pelo bumbum. Coquetel molotov, blac blocs e os caralhos.

Marcha das vadias, marcha dos maconheiros, parada gay, revolução na altura das genitálias. Não vai ter copa.

Teve copa, teve copa pra caralho. Me esbaldei com a gringada na Lapa, no samba da Gomes Freire.

Agora essa galera tenta defender o legado de 2013. Tão reivindicando paternidade de filho feio. Tudo bem também. Cada louco com sua loucura.

Acho que tinham que ir além e fazer tudo outra vez: helicóptero da polícia dando tiro em favela, gasolina a 5, 12 milhões de desempregados. Cadê os corpos em movimento expressando suas subjetividades e desestabilizando o governo do capitão igual fizeram com Dilma? Onde está a horizontalidade, os novos sujeitos?

Cuzões

Licantropia



Síndrome de Bettina


The Guardian: Governo Bolsonaro é formado por "desqualificados, lunáticos ou perigosos"


Revista Fórum

Uma longa reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada nesta quinta-feira (2), traz uma elaborada lista de figuras do seu governo consideradas inaptas para o cargo que ocupam e inclusive perigosas. “Diga o que quiser sobre Bolsonaro, mas é preciso reconhecer seu raro talento em escolher as pessoas mais desqualificadas, lunáticas e/ou perigosas para os empregos”, comentou um dos entrevistados, o jornalista Mauro Ventura.

A matéria é assinada pelos jornalistas Tom Phillips e Dom Phillips, e se foca principalmente em quatro nomeados por Bolsonaro: Filipe Martins (consultor de política externa), Roberto Alvim, (secretário especial de cultura), Sérgio Camargo (Fundação Palmares) e Dante Mantovani (Funarte).

O primeiro a ser analisado é Filipe Martins, um dos principais assessores de Bolsonaro para política externa e descrito pela matéria como um “discípulo do escritor e teórico da conspiração Olavo de Carvalho, assim como os filhos do presidente, que são seus amigos pessoais”. A matéria conta que Martins “se diverte nas redes sociais atacando esquerdistas, feministas e globalistas, e também é fã de Steve Bannon, razão pela qual ganhou o apelido de `Sorocabannon´, graças às suas origens na cidade brasileira de Sorocaba”. Também lembra que o consultor acusou meios estadunidenses como o canal de notícia CNN e o diário The New York Times de cumplicidade com uma campanha de engenharia social para promover a pedofilia.

No caso de Roberto Alvim, um dos principais responsáveis pela política cultural do governo de Bolsonaro, o The Guardian afirma que “apesar de já ter recebido um prêmio por uma produção de “O Quarto”, antes de ser nomeado secretário de cultura, ele era mais conhecido por insultar a grande dama do teatro brasileiro, a atriz indicada ao Oscar Fernanda Montenegro, como `esquerdista sórdida´”. Também fala sobre como a conversão de Alvim à religião evangélica o transformou em um bolsonarista incondicional. “Em postagens recentes no Facebook, ele critica os oponentes de seu líder, chamando-os de `baratas ordinárias´, ataca o `bastardos do Greenpeace´ e acusa o mundo artístico `podre e demoníaco´ do Brasil por `repudiar Bolsonaro injustamente´”.

No caso de Sérgio Camargo, nomeado para a administração da Fundação Palmares, a reportagem lembra que seu cargo tem como missão promover a cultura negra no Brasil, para mostrar que tal tarefa é incompatível com “uma figura que afirma que o Dia da Consciência Negra deve ser descartado, e considera que muitas das celebridades e artistas negras mais conhecidas do país são `parasitas da raça negra´”. Também mostra como, em suas redes sociais, Camargo se descreve como um “negro de direita” que se opõe à “vitimização e ao politicamente correto”, e considera que “a escravidão era terrível, mas terminou sendo benéfica para os descendentes”.

Finalmente, no caso de Dante Mantovani, nomeado para presidir a Funarte (Fundação Nacional das Artes), a reportagem conta que “o novo encarregado das políticas de artes visuais, música e dança alega que a União Soviética se infiltrou na CIA para distribuir LSD em Woodstock”, e lembra de suas declarações dizendo que “o rock promove as drogas que ativam o sexo, e assim alimenta a indústria do aborto”, e que “John Lennon havia dito que fez um pacto com o diabo”.

A reportagem traz outra declaração do jornalista Mauro Ventura, questionando o grupo de nomeados: “eles parecem ter sido escolhidos pelo seu QI: isto é, seu quociente de imbecilidade, incapacidade, idiotice, incompetência ou impiedade”. Por sua parte, a especialista brasileira Monica de Bolle disse que a indicação desses nomes reflete a natureza “totalmente louca” do governo “fundamentalista” de Bolsonaro. “Eles não estão procurando pessoas que tenham conhecimento, mas pessoas que são leais”, comentou a analista internacional.

Leia a reportagem completa no The Guardian (em inglês)


Balanço da década: o Brasil e a China



Luiz Felipe de Alencastro

Nesta virada de ano, reportagens da mídia nacional e estrangeira apresentam retrospectiva dos últimos dez anos e, às vezes, das duas primeiras décadas do século. Há várias maneiras de tratar o assunto. Penso, entretanto, que a irresistível ascensão da China marca as duas décadas passadas. Numa reportagem de outubro de 2018, a revista Economist foi mais longe, "manchetando", que o século 21 é o século da China. A revista se referia aos avanços da China, tanto no plano interno como no cenário internacional.

Mas no Brasil também se pode apontar o impacto transformador da presença chinesa. Nos anos 2000 o comércio sino-brasileiro aumentou acentuadamente e, em 2009, a China se tornou o primeiro parceiro comercial do Brasil, conservando a primazia ao longo da última década. Na sequência de uma alta de preços suscitada pela pantagruélica demanda chinesa, os principais produtos nacionais exportados para a China são commodities agrícolas e minerais.

De 2019 para 2020
Como resultado, houve apreciação do câmbio, aumento das importações de bens industriais e desindustrialização. Assim, o aumento das trocas com a China corresponde à diminuição da complexidade da economia, isto é, da diversidade e da sofisticação da estrutura produtiva brasileira. Num detalhe que resume os paradoxos da relação Brasil-China e ficará com um dos fatos marcantes da década, no dia 19 de outubro de 2019, a FIESP -, maior instituição representativa da indústria nacional -, cobriu seu prédio da avenida Paulista com a projeção da bandeira chinesa, comemorando o 70° aniversário da revolução comunista e da entrada das tropas de Mao Zedong em Beijing.

A força gravitacional da economia chinesa também incide sobre os eixos logísticos e territoriais brasileiros. Vira e mexe, surgem projetos de abertura de uma rota transcontinental, unindo um ou vários portos brasileiros a portos peruanos ou chilenos. Sob o impulso dos capitais chineses, um dia a Estrada do Pacífico será escavada, reduzindo o custo e tempo do transporte de mercadorias entre o Brasil e a China. A produção de soja e de carne do centro-oeste e norte brasileiro ficará mais perto das crescentes cidades chinesas. Na realidade, o norte do Brasil já está sendo impacto pela nova geopolítica dos oceanos gerada pela mudança do eixo econômico do Ocidente para o Oriente. A abertura da navegação comercial entre a Europa e o Extremo Oriente pelo oceano Ártico, iniciada em 2013, que reduz de 48 para 35 dias a viagem entre os portos do nordeste da China e Roterdã, levou à modernização do Canal de Suez (2015) e do Canal do Panamá (2016). Desde logo, as exportações pelo norte do Brasil tendem a crescer regularmente, sobretudo quando for concluída a ferrovia norte-sul e o chamado Arco Norte, incluindo porto fluviais e marítimos da Bahia, Pernambuco, Maranhão e Amazonas. Pela primeira vez, desde a criação do Estado do Grão Pará e Maranhão, concebido em 1621 como entidade autônoma da América Portuguesa, no contexto da política filipina envolvendo as quatro partes do mundo, o comercio externo, e essencialmente o comercio marítimo, rearticula a geografia econômica da totalidade do território nacional.

Dei destaque à China e em outros tópicos que abordei nas minhas colunas, numa emissão recente do programa Painel da GloboNews. Com Renata Loprete, Matias Spektor e Jorge Caldeira fizemos o balanço da década.

Esta é a minha última coluna no UOL na qual comentei, ao longo das duas décadas, de França, Estados Unidos e Brasil a União Europeia, a geopolítica dos oceanos, a demografia e a política internacional. Agradeço aos internautas que me ouviram na primeira fase nos videocasts e nos últimos anos me leram nesta coluna. Continuarei comentando os mesmos temas na mídia social (@alencastro_f) e alhures. A todos, desejo bons anos vinte.

A farsa da fakeada continua sem nenhuma investigação



Xadrez da facada de Adélio, o enigma político da década, que permanece sem solução


A facada de Adélio Bispo Oliveira  em Bolsonaro ainda é um mistério à procura de uma explicação. É o fato político mais importante da década, porque viabilizou uma mudança radical na política brasileira.

Os efeitos políticos da facada nas eleições eram tão óbvios que, no dia seguinte, Bolsonaro já havia se tornado o franco favorito.

Seria possível simular um atentado tão arriscado, a ponto de a vítima correr um risco de vida calculado para viabilizar um projeto político?

Há duas versões para o atentado.

  • A versão oficial é que um sujeito, desequilibrado óbvio, decidiu matar Bolsonaro e foi mal-sucedido.
  • A versão conspiratória é que foi um ato planejado visando garantir a vitória eleitoral de Bolsonaro.
Bolsonaro comparecia a todos os eventos com um colete à prova de balas e de facadas e tinha uma cirurgia marcada, para remover um câncer. Portanto, bastaria simular a facada, conduzir Bolsonaro com segurança a um hospital local e depois transferi-lo para um hospital em São Paulo, para efetuar a cirurgia contra o câncer.

Após o atentado circularam vídeos pelas redes sociais mostrando a extraordinária desenvoltura com que Adélio infiltrou-se pela multidão e passou pelos seguranças até enfiar a faca em Bolsonaro.

Há um complicador nessa versão: o fato de duas equipes de hospitais conceituados, a do Sírio Libanês e a do Alberto Einstein. Ambas foram a Juiz de Fora e Bolsonaro optou pelo atendimento no Alberto Einstein.

Há uma explicação para o ferimento: a de que a faca resvalou por uma brecha no colete, ferindo efetivamente Bolsonaro. O que seria, nessa versão, um acidente de percurso.

Entre essas duas hipóteses, há uma série de evidências que não batem com a versão do crime comum bancado por um psicopata.

São os seguintes fatos.

  1. A ida anterior de Adélio ao Clube de Tiro frequentado por Eduardo Bolsonaro.
Como um sujeito limítrofe, que trabalhava em um açougue, localiza o clube de tiro em Santa Catarina e vai até lá. E vai para quê? Até agora não houve uma resposta satisfatória.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foi até lá combinar os detalhes do atentado: 70% de probabilidade
  • Hipótese 2 – Foi até lá para conhecer o ambiente de treinamento do filho de Bolsonaro, sabe-se lá para quê: 30% de probabilidade
  1. A ida de Adélio à Câmara Federal para uma visita a um deputado do PSOL.
O sujeito, que hipoteticamente planeja um crime de repercussão nacional, vai até a Câmara e deixa um registro oficial de visita a um parlamentar do PSOL. Depois, se descobre que ele nunca teve nenhuma relação com o PSOL.

Análise de probabilidade:

  • Hipótese 1 – foi com a intenção de criar um falso vínculo com o PSOL para estabelecer uma motivação política para o atentado: 50% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – tinha uma simpatia política pelo PSOL: 50% de probabilidade.
  1. O papel dos advogados de defesa.
Da noite para o dia aparecem advogados de Belo Horizonte, indo de jatinho a Juiz de Fora, para defender Adélio. Fazem mais do que isso: isolam-no completamente de qualquer contato com a imprensa. E demonstram tal influência, que conseguem manter o isolamento total até hoje.
Ou foram bancados por grupos bolsonarista, visando manter Adélio a salvo da óbvia falta de vontade de cobertura da mídia; ou por grupos ligados à Igreja de Adélio, que jamais foram identificados.
Tempos depois, o deputado federal Fernando Francisquini, uma das pontas de lança do bolsonarismo, entrou com ação na Justiça para impedir Adélio de dar uma entrevista.
Análise de probabilidade:
  • Hipótese 1 – foram bancados por grupos bolsonaristas: 70% de probabilidade.
  • Hipótese 2 – foram bancados por grupos que queriam a morte de Bolsonaro: 25% de probabilidade. Se houvesse qualquer indício de conspiração contra Bolsonaro, não haveria como não ser descoberta.
  • Hipótese 3 – foram bancados por grupos ligados à igreja de Adélio: 5% de probabilidade.
  1. O papel da Polícia Federal.
As investigações concluíram pela ação individual de Adélio. Bolsonaro reagiu com fúria, não aceitando as conclusões do inquérito – mas nada fez para avançar nas investigações.

Não bate. O presidente controla completamente a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Qual a razão, até agora, para jamais ter se chegado aos financiadores dos advogados de Adélio? Respeito às prerrogativas de advogados? Com Sérgio Moro? Conte outra!

O carnaval de Bolsonaro, exigindo novas investigações, criticando o fato de não se chegar aos financiadores dos advogados, não bate com o poder de polícia quase ilimitado de seu Ministro da Justiça. Se houvesse vontade política, o caso seria resolvido e a identidade de quem contratou os advogados seria levantada em dois tempos. E não haveria nenhuma força oculta capaz de demovê-lo dessa empreitada. Não se levantaram os nomes dos responsáveis porque não é de interesse de Bolsonaro levantar. Simples assim.

A versão da conspiração contra Bolsonaro seria muito complexa de administrar porque envolveria outros personagens e situações, incluindo inúmeras variáveis que poderiam ser desmentidas, em qualquer falha de narrativa. Apontar Adélio como único responsável resolveria a questão e mataria qualquer tentativa de aprofundar o inquérito.

Análise de probabilidade.

  • Hipótese 1 – ocultar as motivações políticas pró-Bolsonaro: 70% probabilidade.
  • Hipótese 2 – aceitar como verdadeiras as conclusões do inquérito, de ação individual de um alucinado: 30% de probabilidade. `
Pode ser que tudo não passe uma teoria da conspiração. Mas a sucessão de fatos sem respostas sugere que há mais segredos entre o céu e a terra do que supõe a vã teoria dos idiotas da objetividade.

Mais um ano maravilhoso


No centenário de Asimov, suas ideias nunca foram tão atuais


Escritor criou as três leis da robótica, que pautam discussões éticas até hoje 
Salvador Nogueira

Não seria exagero dizer que ele foi um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. Mas o que mais impressiona no legado de Isaac Asimov (1920-1992), no centenário de seu nascimento, é a presciência e a relevância.

Autor e editor de mais de 500 livros, muitos voltados para a divulgação científica, Asimov previu com notável precisão muitos dos elementos tecnológicos e sociais de nossa época, com décadas de antecedência. Além disso, usou de sua ficção para introduzir discussões éticas relevantes para nossos dias, e mais ainda para o futuro.

Nascido em Petrovichi, na Rússia, em algum dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920 (esta última data a adotada pelo próprio para seu aniversário), Asimov era filho de um casal de judeus russos que trabalhava em moinhos. A família mudou-se para os EUA em 1923. Nunca aprendeu russo.

Formou-se em química em 1939, depois de abandonar o curso de zoologia em protesto pela dissecção de um gato. Doutorou-se em química e tornou-se professor de bioquímica da Universidade de Boston em 1949. Mas sua maior paixão era pela escrita. Seu primeiro conto saiu em 1939.

Marcado pela presença da robótica em sua ficção (palavra que ele cunhou), sua maior contribuição ficcional para o mundo real talvez sejam as três leis da robótica, código de ética implantado em inteligências artificiais para impedir que os robôs prejudicassem os humanos. Apresentadas no conto “Runaround”, de 1942, elas dizem o seguinte:

Primeira Lei: um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; Segunda Lei: os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

“Mesmo longe desse futuro vislumbrado por Asimov, as três leis da robótica são tidas como a base de um código de ética para qualquer máquina inteligente e autônoma que preste algum auxílio aos seres humanos”, diz Cassio Leandro Barbosa, astrônomo da FEI (Fundação Educacional Inaciana), em São Bernardo do Campo (SP).

“Eu diria que a primeira lei merecia discussões mais aprofundadas”, analisa Alexey Dodsworth, autor brasileiro de ficção científica e filósofo da ciência. “O que não falta na internet são robôs virtuais que induzem humanos a cometer erros. Isso quando não são esses mesmos robôs os responsáveis por ataques em massa e linchamentos a pessoas reais —basta ver o que acontece quando você decide criticar alguém poderoso que controla os robôs.”

Para Dodsworth, “ou seguimos as leis de Asimov, ou iremos nos destruir, e os robôs não terão culpa, já que os programamos sem os imperativos éticos propostos pelo escritor.”

De fato, organizações voltadas à inteligência artificial têm realizado reuniões para definir um código de ética para pesquisas no segmento, uma das potenciais ameaças existenciais que a humanidade enfrentará no século 21.

De forma marcante, a ficção científica de Asimov é quase totalmente livre de alienígenas. “Em mais de uma ocasião, Asimov foi acusado de ser excessivamente antropocêntrico em sua produção ficcional”, diz Dodsworth. “Talvez Asimov tenha feito uma aposta na perspectiva mais pessimista da equação de Drake, que pretende calcular a probabilidade de existência de vida inteligente na galáxia: seríamos apenas nós.”

Seu maior legado como autor é a série Fundação, um conjunto de livros que compilam contos ambientados num mesmo universo ficcional e retratam o futuro longínquo da espécie humana.

Durante os anos 1950 e 1960, Asimov dedicou boa parte do seu tempo a escrever livros de popularização da ciência, motivado em parte pelo lançamento do Sputnik, em 1957. “Fui tomado por um ardente desejo de escrever ciência popular para uma América que poderia estar em grande perigo por sua negligência com a ciência”, escreveu, em 1969.

Seus livros influenciaram gerações a se interessarem por ciência e entenderem que é com ela que se pode construir um futuro próspero.

A incompreensão da ciência que ele combateu em vida tornou sua morte um episódio nebuloso. Em 1977, Asimov teve um ataque cardíaco. Em 1983, foi submetido a uma cirurgia de tripla ponte de safena; com uma transfusão de sangue durante o procedimento, contraiu HIV.

Aconselhado pelos médicos a não revelar sua condição por conta do preconceito anti-Aids da época, que poderia iria se estender a seus familiares, ele jamais revelou o diagnóstico. Morreu em 6 de abril de 1992, por complicações causadas pelo vírus. Sua obra, contudo, permanece.

O núcleo intelectual do governo


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Quantos anos a gente voltou só no ano passado?

Gregorio Duvivier

As últimas eleições foram marcadas pelo saudosismo. “O Brasil feliz de novo”, dizia o slogan do PT, mas poderia ser todos os outros partidos. Todos concordavam: 1) que o Brasil não estava feliz, e 2) que a chave pra felicidade estava no retorno a algum passado. Só restava debater qual seria o ano de destino da nossa máquina do tempo.

Haddad queria voltar pros anos Lula, Bolsonaro queria voltar pros anos Geisel, Alckmin queria voltar pros anos FHC, Meirelles queria voltar pros anos Temer, Álvaro Dias queria voltar pro sarcófago. Acredito que cada um queria voltar pra época em que, pessoalmente, foi mais feliz. Marina, pra ser justo, tinha um projeto pro futuro, mas ninguém entendeu qual era. Ciro, na verdade, também tinha planos: planejava viajar pra Paris assim que terminasse aquilo tudo.
Catarina Bessell

Tantas vezes no passado visto como o país do futuro, o Brasil acabou se tornando o país do futuro do pretérito. A renda que deveria ter sido distribuída, a terra que seria repartida, a vida inteira que poderia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.

Hoje só nos é permitido sonhar com o passado —aquele tempo em que ainda era possível sonhar com o futuro. Confesso que tenho saudade da época em que acreditava que o melhor estava por vir.

O futuro, ao que parece, foi cancelado —junto com Monteiro Lobato e a calça saruel. Já não se faz mais futuro como antigamente. Faz um tempo que os anos têm corrido para trás.

Não foi do dia pra noite. Você deve ter percebido que os anos começaram a passar mais rápido. A Simone começou a cantar em setembro. Resultado: 2012 durou só uns 8 meses. 2013, em contrapartida, durou um só —precisamente o mês de junho. 2014 durou o tempo de uma partida de futebol —a Alemanha fez sete gols e pronto, acabou o ano, a vida, o país.

Foi a partir de 2015 que tudo começou a passar tão rápido que a duração dos anos foi negativa. Terminávamos os anos antes do começo. No final de 2015 estávamos em 2010, e com o impeachment de 2016 voltamos pra 2002. O MDB no poder em 2017 nos levou de volta a 1985. E a eleição de Bolsonaro em 2018 jogou a gente pra 1964.

Agora, no final de 2019, chegamos aos anos 1930. Grupos integralistas promovem atentados pra barrar a ameaça comunista. O slogan do governo, “Brasil acima de tudo”, é a tradução perfeita de “Deutschland Über Alles”. Assim como naquela década, o mundo está se dividindo em dois, e a gente tá pendendo pro lado errado.

2020 começa hoje. Vamos inventar um futuro e, se tudo der certo, esse ano só termina no ano que vem.

Mais crescimento em 2020


Primeiro ano de Bolsonaro foi triplo O, de um governo opaco, omisso e oculto


Conrado Hübner Mendes
Um ano atrás, perguntávamos se a 'nova era' trazia risco à democracia; um ano depois, essa pergunta perdeu sentido
Teorias conspiratórias, teorias estapafúrdias e notícias falsas são os produtos que Jair Bolsonaro tem para vender no mercado político.

Não há assessor que o civilize ou modernize, pois ele se cerca de iguais. E dos filhos.

Foi assim nos seus 30 anos de carreira parlamentar; foi assim, com mais potência e coordenação, na sua campanha. Como presidente, não se pode esperar outra coisa: seu primeiro ano de governo confirmou o que prometia.

Tantas as inusitadas fantasias que algumas caem no esquecimento. Gosto daquela que denunciava o “Triplo A” como ameaça à soberania nacional. Tudo porque um antropólogo colombiano, certo dia, sugeriu que o corredor ecológico formado por Andes, Amazônia e Atlântico tivesse gestão cooperativa pelos países respectivos. Para o bem do fluxo da biodiversidade entre os três ecossistemas, propunha.

Com base nisso, Bolsonaro defendeu sair do Acordo de Paris e cancelou a COP-25 no Brasil, o maior encontro internacional sobre política climática. As fantasias podem trazer dividendos políticos, mas também cobram seu preço. Um desses preços é a ironia.

Uma síntese possível desse primeiro ano se encerra na fórmula do Governo Triplo O: opaco, omisso, oculto.

Opaco em razão das restrições à transparência, à livre informação e ao conhecimento. A cultura do sigilo e do apagamento se instalou em diversos ministérios (sigilo sobre gastos de viagens, cartão corporativo, contratos governamentais, agendas oficiais, gastos com publicidade da reforma da Previdência, dados sobre enxugamento do Bolsa Família etc). 

Um governo que esconde e disfarça, mas grita para desviar a atenção.

Omisso diante de problemas que requerem ação governamental competente, oportuna e não sectária. O governo investiu na redução da capacidade estatal e na deterioração de políticas públicas. O fogo na Amazônia e o óleo na costa, crises que não terminam, foram os exemplos mais visíveis. 

As 37 denúncias por violação de direitos humanos na ONU, o desmonte do combate à tortura ou a paralisia do Ministério da Educação dão outras pistas.

Oculto pelas ações paraestatais que o governo incentiva e legitima: na esfera pública, com a promessa e efetivação do perdão a milícias urbanas e rurais que instituem o “governo com as próprias mãos”, e na esfera privada, com o incremento das microagressões e de crimes de ódio.

Dos grileiros que desmatam floresta e assassinam indígenas à patrulha ideológica contra professores; da indústria de disseminação de informações falsas à do assédio de reputações e de ameaças de morte; do terrorismo cristão que tradicionalmente ataca religiões de matriz africana ao terrorismo cristão que mira em humoristas: o bolsonarista da esquina é agente de um governo terceirizado. Não é temente à lei, mas diz ser temente a Deus.

Poderíamos imaginar outros O’s para aperfeiçoar a radiografia: ocioso (que tem preguiça da ginástica da articulação política no Congresso, vítima da soberba que Fernando Limongi chamou de “presidencialismo do desleixo”); obtuso (que publica juízo estético sobre esposa de presidente francês, que não perde a piada do “cearense cabeçudo” ou o “paraíba”); onanista (metáfora autoexplicativa).

O Triplo A é uma paranoia fabricada para distrair. O Triplo O é o tipo de governo que fabrica a paranoia.
Um ano atrás, perguntávamos se a “nova era” trazia risco à democracia. Um ano depois, essa pergunta perdeu sentido. 

O processo está em curso e tem nos restado perguntar onde está a linha vermelha, se o ponto de não retorno está longe ou perto.

Analistas têm concordado que a boa notícia de 2019 é que as instituições “têm resistido”. Tecem elogios ao Congresso e à ascendência de um primeiro-ministro extraoficial nesse “parlamentarismo branco”. 

Alguns céticos ainda perguntam se as instituições resistirão por mais três anos. Ou por mais sete. A avaliação otimista corre o risco de perder de vista o que não foi resistido e a magnitude das derrotas. Parece subestimar, acima de tudo, o jogo da autocratização lenta, gradual e segura.

O império estrebucha e cospe fogo em 2020



Nilson Lage

O impasse do mundo que prossegue em 2020 tem raízes e paradigmas conhecidos. Sempre que a economia se desloca do mercado de produtos para o mercado do dinheiro, do consumidor e do produtor para o acionista. ocorre a recessão.

Como todos querem dinheiro depressa, as ideias se acumulam nas bibliotecas a na memória dos computadores, porque inovar implica investimento demorado, contínuo e incerteza quanto a resultados.

Foi o caso da recessão do final do século XIX, comandada por banqueiros ingleses, durante a qual se conceberam o rádio. a televisão, os aviões, os foguetes espaciais, a arquitetura despojada, a assepsia e a cientificação da medicina. Tudo isso apenas prosperaria na fase econômica seguinte, após os choques da Primeira e, principalmente, da Segunda Grande Guerra.

Por que, do ponto e vista do investidor, apressar a digitalização do som e da imagem antes de esgotar as possibilidades do vinil e do filme? Essa pergunta, que se colocou no final da década de 1970 -- quando tudo que a informática e as telecomunicações por via espacial proporcionam hoje era previsível -- explica o retardo de vinte anos na implantação em escala global das redes de computadores e da Internet.

Já então, nos anos 1970-1980, formava-se a equação que freia o desenvolvimento das potencialidades sociais e humanas no Ocidente e em sua área de influência. A globalização foi pensada como instrumento para esse fim: a legislação internacional para quase tudo, as organizações não governamentais e, na prática, a extraterritorialidade do poder administrativo e judicial dos Estados Unidos.

Na mesma época, para conter o inimigo da vez, a União Soviética, os americanos concederam condição de nação privilegiada à subdesenvolvida China, com seu estranho projeto nacional confúcio-comunista.

A China, hoje, não só prosperou aceleradamente como impulsionou as economias vizinhas e se dispõe a fazer exatamente o que os Estados Unidos, com sua elite de banqueiros e seu capitalismo entrópico, já não conseguem: criar infraestrutura para um novo padrão tecnológico e uma rede comercial planetária -- tudo isso aplicando a mais avançada ciência disponível.

Como o Império Romano, os EUA espalharam por todo o mundo suas legiões, que pouco lhes servem; sua defesa é, hoje, baseada no domínio que ainda detêm da informação e do universo simbólico dos povos.

O fascismo de um Bolsonaro ou de um Trump, a negação da ciência, o fanatismo e o arcaísmo expressam medo da superação do modelo de dominação anglo-americano; não, me parece, do capitalismo em si, que avança, disciplinadamente, subordinado às diretrizes do Partido Comunista chinês, maestro de uma aventura planetária em que a ideologia das partes importa pouco ao todo.

Mais um ano que acharíamos interessante, se vivêssemos em Marte.