sábado, 28 de dezembro de 2019

Conexão Curitiba: uma hipótese muito provável



OUTRASPALAVRAS

por José Luís Fiori e William Nozaki

Agora, todas as peças parecem se encaixar. Como a descoberta do pré-sal, em meio a uma guinada estratégica à direita, nos EUA, colocou o Brasil no centro da “guerra híbrida” e criou as condições para o atual cenário de horrores
É comum falar de “teoria da conspiração”, toda vez que alguém revela ou denuncia práticas ou articulações políticas “irregulares”, ocultas do grande público, e que só são conhecidas pelos insiders, ou pelas pessoas mais bem informadas. E quase sempre que se usa esta expressão, é com o objetivo de desqualificar a denúncia que foi feita, ou a própria pessoa que tornou público o que era para ficar escondido, na sombra ou no esquecimento da história. Mas de fato, em termos mais rigorosos, não existe nenhuma “teoria da conspiração”. O que existem são “teorias do poder”, e “conspiração” é apenas uma das práticas mais comuns e necessárias de quem participa da luta política diária pelo próprio poder. Esta distinção conceitual é muito importante para quem se proponha analisar a conjuntura política nacional ou internacional, sem receio de ser acusada de “conspiracionista”. E é um ponto de partida fundamental para a pesquisa que estamos nos propondo fazer sobre qual tenha sido o verdadeiro papel do governo norte-americano no golpe de Estado de 2015/2016, e na eleição do “capitão Bolsonaro”, em 2018. Neste caso, não há como não seguir a trilha da chamada “conspiração”, que culminou com a ruptura institucional e a mudança do governo brasileiro. E nossa hipótese preliminar é que a história desta conspiração começou na primeira década do século XXI, durante o “mandarinato” do vice-presidente americano, Dick Cheney, apesar de que ela tenha adquirido uma outra direção e velocidade a partir da posse de Donald Trump, e da formulação da sua nova “estratégia de segurança nacional”, em dezembro de 2017.

No início houve surpresa, mas hoje todos já entenderam que essa nova estratégia abandonou os antigos parâmetros ideológicos e morais da política externa dos Estados Unidos, de defesa da democracia, dos direitos humanos e do desenvolvimento econômico, e assumiu de forma explícita o projeto de construção de um império militar global, com a fragmentação e multiplicação dos conflitos, e a utilização de várias formas de intervenção externa, nos países que se transformam em alvos dos norte-americanos. Seja através da manipulação inconsciente dos eleitores e da vontade política dessas sociedades; seja através de novas formas “constitucionais” de golpes de Estado; seja através sanções econômicas cada vez mais extensas e letais, capazes de paralisar e destruir a economia nacional dos países atingidos; seja, finalmente, através das chamadas “guerras híbridas” que visam destruir a vontade política do adversário, utilizando-se da informação mais do que da força, das sanções mais do que dos bombardeios, e da desmoralização intelectual dos opositores mais do que da tortura.

Desse ponto de vista, é interessante acompanhar e evolução dessas propostas nos próprios documentos norte-americanos, nos quais são definidos os objetivos estratégicos do país e as suas principais formas de ação. Assim, por exemplo, no Manual de Treinamento das Forças Especiais Americanas Preparadas para Guerras Não-Convencionais, publicado pelo Pentágono em 2010, já está dito explicitamente que “o objetivo dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças internas de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos”. Com o reconhecimento de que “em um futuro não muito distante, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregulares”1. Uma orientação que foi explicitada, de maneira ainda mais clara, no documento no qual se define, pela primeira vez, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA do governo de Donald Trump, em dezembro de 2017. Ali se pode ler, com todas as letras, que o “combate à corrupção” deve ter lugar central na desestabilização dos governos dos países que sejam “competidores” ou “inimigos” dos Estados Unidos2. Uma proposta que foi detalhada no novo documento sobre a Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, publicado em 2018, em que se pode ler que “uma nova modalidade de conflito não armado tem tido presença cada vez mais intensa no cenário internacional, com o uso de práticas econômicas predatórias, rebeliões sociais, cyber-ataques, fake news, métodos anticorrupção3”.

É importante destacar que nenhum desses documentos deixa a menor dúvida de que todas estas novas formas de “guerra não convencional” devem ser utilizadas – prioritariamente – contra os Estados e as empresas que desafiem ou ameacem os objetivos estratégicos dos EUA.

Agora bem, neste ponto da nossa pesquisa, cabe formular a pergunta fundamental: quando foi – na história recente – que o Brasil entrou no radar dessas novas normas de segurança e defesa dos EUA? E aqui não há dúvida de que cabem muitos fatos e decisões que foram tomadas pelo Brasil, sobretudo depois de 2003, como foi o caso da sua política externa soberana, da sua liderança autônoma do processo de integração sul-americano, ou mesmo, da participação no bloco econômico do BRICS, liderado pela China. Mas não há a menor dúvida de que a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006, foi o momento decisivo em que o Brasil mudou de posição na agenda geopolítica dos Estados Unidos. Basta ler o Blueprint for a Secure Energy Future, publicado em 2011, pelo governo de Barack Obama, para ver que naquele momento o Brasil já ocupava posição de destaque em 3 das 7 prioridades estratégicas da política energética norte-americana: (i) como uma fonte de experiência para a produção de biocombustíveis; (ii) como um parceiro fundamental para a exploração e produção de petróleo em águas profundas; (iii) como um território estratégico para a prospecção do Atlântico Sul4.

A partir daí, não é difícil rastrear e conectar alguns acontecimentos, sobretudo a partir do momento em que o governo brasileiro promulgou – em 2003 – sua nova política de proteção dos produtores nacionais de equipamentos, com relação aos antigos fornecedores estrangeiros da Petrobras, como era o caso, por exemplo, da empresa norte-americana Halliburton, a maior empresa mundial em serviços em campos de petróleo, e uma das principais fornecedoras internacionais das sondas e plataformas marítimas, e que havia sido dirigida, até o anos 2000, pelo mesmo Dick Cheney que viria a ser o vice-presidente mais poderoso da história dos Estados Unidos, entre 2001 e 2009. A Odebrecht, a OAS e outras grandes empresas brasileiras entram nessa história, a partir de 2003, exatamente no lugar dessas grandes fornecedoras internacionais que perderam seu lugar no mercado brasileiro. Cabendo lembrar aqui que a complexa negociação entre a Halliburton e a Petrobrás5, em torno à compra e entrega das plataformas P43 e P48, envolvendo 2,5 bilhões de dólares6, começou na gestão de Dick Cheney e se estendeu até 2003/4, com a participação do Gerente de Serviços da Petrobrás na época, Pedro José Barusco, que se transformaria depois no primeiro delator conhecido da Operação Lava-Jato7.

Nesse ponto, aliás, seria sempre muito bom lembrar a famosa tese de Fernand Braudel, o maior historiador econômico do século XX, de que “o capitalismo é o antimercado”, ou seja, um sistema econômico que acumula riqueza através da conquista e preservação de monopólios, utilizando-se de todo e qualquer meio que esteja ao seu alcance. Ou ainda, traduzindo em miúdos o argumento de Braudel: o capitalismo não é uma organização ética nem religiosa, e não tem nenhum compromisso com qualquer tipo de moral privada ou pública que não seja a da multiplicação dos lucros e a da expansão contínua dos seus mercados. E isto é que se pode observar, mais do que em qualquer outro lugar, no mundo selvagem da indústria mundial do petróleo, desde o início de sua exploração comercial do petróleo, desde a descoberta do seu primeiro poço pelo “coronel” E. L. Drake, na Pensilvânia, em 1859.

Agora bem, voltando ao eixo central da nossa pesquisa e do nosso argumento, é bom lembrar que este mesmo Dick Cheney que vinha do mundo do petróleo, e teve papel decisivo como vice-presidente de George W. Bush, foi quem concebeu e iniciou a chamada “guerra ao terrorismo”, conseguindo o consentimento do Congresso norte-americano para iniciar novas guerras, mesmo sem aprovação prévia do parlamento; e o que é mais importante, para nossos efeitos, conseguiu aprovar o direito de acesso a todas as operações financeiras do sistema bancário mundial, praticamente sem restrições, incluindo o velho segredo bancário suíço, e o sistema e pagamento europeus, o SWIFT.

Por isso, aliás, não é absurdo pensar que tenha sido por esse caminho que o Departamento de Justiça norte-americano tenha tido acesso às informações financeiras que depois foram repassadas às autoridades locais dos países que os Estados Unidos se propuseram a desestabilizar com campanhas seletivas “contra a corrupção”. No caso brasileiro, pelo menos, foi depois desses acontecimentos que ocorreu o assalto e o furto de informações geológicas sigilosas e estratégicas da Petrobras, no ano de 2008, exatamente dois anos depois da descoberta das reservas petrolíferas do pré-sal brasileiro, no mesmo ano em que os EUA reativaram sua IV Frota Naval de monitoramento do Atlântico Sul. E foi no ano seguinte, em 2009, que começou o intercâmbio entre o Departamento de Justiça dos EUA e integrantes do Judiciário, do MP e da PF brasileira para tratar de temas ligados à lavagem de dinheiro e “combate à corrupção”, num encontro que resultou na iniciativa de cooperação denominada Bridge Project, da qual participou o então juiz Sérgio Moro.

Mais à frente, em 2010, a Chevron negociou sigilosamente, com um dos candidatos à eleição presidencial brasileira, mudanças no marco regulatório do pré-sal, numa “conspiração” que veio à tona com os vazamentos da Wikileaks, e que acabou se transformando num projeto apresentado e aprovado pelo Senado brasileiro. E três anos depois, em 2013, soube-se que a presidência da República, ministros de Estado e dirigentes da Petrobras vinham sendo alvo, havia muito tempo, de grampo e espionagem, como revelaram as denúncias de Edward Snowden. No mesmo ano em que a embaixadora dos EUA que acompanhou o golpe de Estado do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo foi deslocada para a embaixada do Brasil. E foi exatamente depois desta mudança diplomática, no ano de 2014, que começou a Operação Lava Jato, que tomou a instigante decisão de investigar as propinas pagas aos diretores da Petrobrás, exatamente a partir de 2003, deixando fora, portanto, os antigos fornecedores internacionais, no momento exato em que concluíam as negociações da empresa com a Halliburton, em torno da entrega das plataformas P 43 e P48.

Se todos estes dados estiverem corretamente conectados, e nossa hipótese for verossímil, não é de estranhar que depois de cinco anos do início desta “Operação Lava-Jato”, os vazamentos divulgados pelo site The Intercept Brasil, dando notícias da parcialidade dos procuradores, e do principal juiz envolvido nessa operação, tenham provocado uma reação repentina e extemporânea dos principais acusados desta história que se homiziaram, praticamente, nos Estados Unidos. Provavelmente, em busca das instruções e informações que lhe permitissem sair das cordas, e voltar a fazer com seus novos acusadores o que sempre fizeram no passado, utilizando-se de informações repassadas para destruir seus adversários políticos. Entretanto, o pânico do ex-juiz e seu despreparo para enfrentar a nova situação fizeram-no comportar-se de forma atabalhoada, pedindo licença ministerial e viajando uma segunda vez para os Estados Unidos, e com isto tornou público o seu lugar na cadeia de comando de uma operação que tudo indica que possa ter sido a única operação de intervenção internacional bem-sucedida – até agora – da dupla John Bolton e Mike Pompeu, os dois “homens-bomba” que comandam a política externa do governo de Donald Trump. Uma operação tutelada pelos norte-americanos e avalizada pelos militares brasileiros.

Por isso, se nossa hipótese estiver correta, não há a menor possibilidade de que as pessoas envolvidas neste escândalo sejam denunciadas e julgadas com imparcialidade, porque todos os envolvidos sempre tiveram pleno conhecimento e sempre aprovaram as práticas ilegais do ex-juiz e de seu “procurador-assistente”, práticas que foram decisivas para a instalação do capitão Bolsonaro na Presidência da República. O único que lhes incomoda neste momento é o fato de que sua “conspiração” tenha se tornado pública, e que todos tenham entendido quem é o verdadeiro poder que está por trás dos chamados “Beatos de Curitiba”.

1 U.S. Department of the Army. U.S.Army Special Forces Unconventional Warfare Training Manual. Headquarters, Washington D.C., 2010. Disponível em: https://publicintelligence.net/u-s-army-special-forces-unconventional-warfare-training-manual-november-2010. Acessado em 22/07/2019.

2 U.S. Department of Defense. National Security Strategy, Washington D.C., 2017. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf. Acessado em 22/07/2019.

3 U.S. Department of Defense. National Defense Strategy, Washington D.C., 2018. Disponível em: https://dod.defense.gov/Portals/1/Documents/pubs/2018-National-Defense-Strategy-Summary.pdf Acessado em 22/07/2019.

4 U.S. Department of Energy. Blueprint for a Secure Energy Future, Washington D.C., 2011. Disponível em: https://obamawhitehouse.archives.gov/issues/blueprint-secure-energy-future. Acessado em 22/07/019.

5 “Petrobrás fecha negócio bilionário com Halliburton, www.dci.com.br, 20/04/04.

6 “Os laços Petrobrás Halliburton”, 25/02/2004, www.istoedinheiro.com.br.

7 “Veja na íntegra a delação premiada de Pedro Barusco”, https://poliitca.estadao.com.br, 05/02/2015

Exercícios de empatia


José Eduardo Agualusa

A maioria dos meus leitores são leitoras. Nada de surpreendente, visto que, em todo o mundo, as mulheres leem muito mais do que os homens. No meu caso, uma parte considerável dessas leitoras já ultrapassaram os setenta anos. Dei-me conta disso numa visita recente a Buenos Aires, que, com as suas 734 livrarias, 25 para cada cem mil habitantes (é a cidade do mundo com maior número de livrarias por morador), sempre me pareceu uma espécie de paraíso para os escritores.

Sentado a uma mesa da belíssima livraria El Ateneo Gran Splendid, olhando a plateia, percebi que os cabelos brancos dominavam. Quase sempre, as opiniões mais interessantes chegam-me ou de crianças ou de pessoas idosas. Aprendo muito sobre os meus próprios livros com quem os lê. Naquela noite não foi diferente. Conversamos sobre literatura, mas também sobre o estado do mundo. O que me impressionou, naquelas leitoras de longo curso, é que embora tivessem mais passado do que futuro, todas elas se mostravam preocupadíssimas com os dias que hão de vir.

— Gostei muito d’ “A vida no céu” — disse-me uma simpática senhora uruguaia, referindo-se a uma distopia para jovens que publiquei em 2013.

No romance, imagino que num futuro próximo os sobreviventes de um terrível dilúvio, resultante do aquecimento global, serão forçados a construir gigantescos balões e dirigíveis e a viver entre as nuvens.

— Não consegui dormir durante várias noites, pensando nos meus bisnetos, que irão pagar pelos erros que estamos cometendo hoje.

— A senhora já tem bisnetos? — Perguntei.

— Não. Não sou assim tão velha. Mas hei de ter.

Chama-se empatia à capacidade de nos colocarmos na pele dos outros. Uma pessoa capaz de se imaginar no lugar de uma outra, que ainda não existe, parece-me detentora da forma mais elevada de empatia. Para enfrentar o ano que começa na próxima quarta-feira — e os seguintes —, precisaríamos de grandes doses dessa forma de empatia. Precisaríamos em particular de dirigentes políticos capazes de tal talento. Precisaríamos que nos altos cargos governamentais estivessem pessoas como aquelas minhas leitoras.

Infelizmente, não temos essa sorte. Um sujeito como o presidente norte-americano, Donald Trump não só não lê nada, como manifesta o mesmo grau de empatia, e a mesma inteligência e discernimento, de uma pedra submersa. Donald não está só. Depois que se elegeu, multiplicou-se feito um câncer. Em 2020 teremos metástases dele por todo o planeta.

As democracias deveriam proteger-se sujeitando os candidatos a altos cargos governamentais a severos testes de empatia e gramática, e investindo mais no ensino básico. Não sei explicar o motivo, mas tenho reparado que entre os protoditadores do nosso tempo, as grandes deficiências de caráter estão normalmente associadas a um insuficiente domínio do idioma materno. Com um bom exame gramatical seria até possível prescindir da avaliação de empatia.

Não obstante a inquietação que me aflige, e que é muita, desejo a todos um feliz 2020! Exercitem a empatia: leiam mais.

O Patriot Act Tabajara


Ataque ao "Porta dos Fundos": canastrice, false flags e psi-zumbis

Cinegnose - Wilson Roberto Vieira Ferreira
Sim... nós também temos terroristas! Mas não importa se estão em vídeos mal produzidos ou dirigidos, falando um espanhol com sotaque carioca ou mesmo um português macarrônico, e soltando palavras-clichê como “burguês” ou “revolucionário” a cada cinco segundos. Dizem representar “Comandos” ou “Sociedades” cujos nomes fariam rolar de rir os integrantes do grupo de humor Monty Python. Bem-vindo ao mundo das false flags Tabajara, terroristas canastríssimos de segunda mão em vídeos toscos, como o da “Frente Integralista Brasileira” que reivindicou a autoria do ataque à produtora do Porta dos Fundos. O que é mais engraçado? O vídeo “terrorista” ou um esquete do Porta dos Fundos?  Clamam por uma ação da Justiça contra um “atentado terrorista”, cuja prova é uma “false flag” tosca e mal produzida. Então o que há de real e mais preocupante nesse não-acontecimento? Certamente o vídeo deve ter vindo das insondáveis profundezas da Deep Web. Mas não de Integralistas. Mas de “Incels” (Celibatários Involuntários), Hominis Sanctus ou de algum tipo de supremacismo branco e hetero ressentido – o farto exército industrial de reserva psi-zumbi pronto para servir ao primeiro cripto-comando de um Estado Policial que busca o pretexto para impor o “Patriot Act Tabajara”.
Este Cinegnose vem ao longo desses dez anos insistindo na tese de que as diferenças entre ficção e realidade cada vez mais estão se perdendo – enquanto a ficção torna-se cada vez mais “realista” (ou hiper-realista com a evolução dos recursos tecnológicos), a realidade tende a querer emular essa realidade ficcional. 

Por isso a realidade tende a se tornar cada vez mais “canastrona”: over, estereotipada, saturada. E o mais sério: a credibilidade ou verossimilhança de um evento estará na relação direta da semelhança com as imagens ficcionais.

A coisa fica ainda mais séria quando essa, por assim dizer, “ontologia invertida” começa a entrar no campo da Política. O velho paradigma hipodérmico da propaganda política começa a dar lugar a uma sofisticada engenharia de percepção para tornar críveis false flags ou inside Jobs que se tornam pautas sérias para agenda midiáticas.

O 11 de setembro foi o (pseudo) evento inaugural da ação política através de armas não-convencionais (guerra híbrida, bombas semióticas etc.) – trazer para a realidade a recorrente destruição de Nova York, recorrente na indústria do entretenimento daquele país desde a transmissão radiofônica de “Guerra dos Mundos”, de 1938.

Esse não-acontecimento justificou o “USA Patriot Act” de George Bush, paradigma para o século XXI, onde sem qualquer autorização da Justiça (seja dos EUA ou de outros países) órgãos de segurança e inteligência dos EUA poderão invadir a privacidade de qualquer um suspeito de conexões com “práticas terroristas” – conceito tão elástico quanto se queira.

Outro exemplo? A célebre Guerra Fria, glamourizada dos filmes de James Bond às incursões de Rambo no Afeganistão cenográfico dos anos 1980, é requentada num “conflito cibernético” que poderá interferir nas eleições americanas de 2020 – quando sabemos que as fábricas de memes e fake news que que beneficiaram Trump foi tudo, menos exclusividade dos RAVs (Russos, Árabes e vilões em geral) hollywoodianos – clique aqui. 

 E... sim, nós também temos terroristas! Pelo menos é o que vem sendo ensaiado no Brasil, logo imediatamente após do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
O evento-encenação da "célula-amadora" dos terroristas com armas de paintball
Com um ministro Raul Jungman vestido de colete de campanha e “papagaios de pirata” para as câmeras com roupas de camuflagem e o ministro do STF Alexandre Moraes grave e gaguejante, anunciando a poucos dias dos Jogos Olímpicos a existência de uma “célula amadora” islâmica no Brasil – a “verdade” comprovada com fotos do terrorista que, na verdade, tinha uma arma de paintball – clique aqui.

Desde então é recorrente o controle da agenda midiática para pautar o discurso da ameaça terrorista como ensaio para o fechamento político, através do estímulo de um cenário progressivo de confrontação.

O vídeo que apenas foi visto no Brasil sobre a FARC ameaçando Bolsonaro (num sofrível espanhol com sotaque carioca...), a matéria da revista Veja de julho desse ano o líder terrorista da Sociedade Secreta Silvestre (SSS) revelava planos para matar Bolsonaro (terrorista que anuncia seus planos “secretos”...), claro, numa entrevista direta das profundezas irrastreáveis da Deep Web... 

... e agora um revival do vídeo de um grupo com o inacreditável nome de “Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira”, reivindicando a autoria do ataque a bombas caseiras contra a produtora do grupo Porta dos Fundos – supostamente, um grupo inconformado com o especial de Natal do grupo de humor “A Primeira Tentação de Cristo”, figurando um Jesus gay.

Porém, o mais inacreditável nem foi o atentado com bombas incendiárias, mas levar à sério um vídeo mal produzido e canastríssimo como evidência de “atentado terrorista”.

A melhor descrição desse vídeo talvez venha da ironia do escritor Antonio Prata: 
“Sei que é ingenuidade minha, mas ainda aguardo a revelação de que o atentado do Porta dos Fundos era uma piada deles mesmos só para lança a piada mor: o vídeo dos integralistas carioquistas sotaquistas de neopentecostalistas avec monty python no úrtimo”.
Dentro do contexto político atual de um governo que deliberadamente está buscando a confrontação para criar seu próprio Patriot Act, por meio da estratégia de saturação na pauta midiática da figura do terrorista (inédita por essas plagas), é impossível não considerar esse vídeo uma false flag, um “não-acontecimento”. 

Porém tosco, mal dirigido e produzido e que não consegue chegar ao nível dos vídeos false flags das execuções do Estado Islâmico produzidos em 2015 por empresas terceirizadas do Pentágono e da CIA.

O vídeo tosco

De tão tosco e infantil, certamente o vídeo deve ter vindo das insondáveis profundezas da Deep Web. Mas não de Integralistas que tentam manter os ideais de Plínio Salgado. Mas de “Incels” (Celibatários Involuntários), Hominis Sanctus, PUAs (Pickup Artists) ou de algum tipo de supremacismo branco e hetero ressentido – o farto exército industrial de reserva psíquico zumbi pronto para servir ao primeiro cripto-comando de um Estado Policial – voltaremos a esse ponto adiante.

Primeiro, é uma paródia over de todos os vídeos da Al Qaeda, ISIS, Estado Islâmico etc. Algo assim como o roqueiro Supla ser uma paródia de Billy Idol que, por sua vez, já era nos anos 80 uma caricatura de Sid Vicious do punk dos anos 70... O vídeo é uma cópia da cópia da cópia... até virar uma nota de três reais.

Mal produzido: a bandeira (Brasil do Império!) e as roupas parecem que foram tiradas naquele instante de alguma arara ou guarda-roupa cenográfico – não estão surradas ou usadas como se presa de um grupo clandestino com intensa atividade terrorista. E ainda mal-ajambradas e com péssimo caimento sobre o corpo dos “atores” – parece algum vídeo feito nas coxas no quarto da casa de um dos “atores”, enquanto a mãe impaciente grita chamando todos para o almoço...

O discurso ambíguo: a cada cinco segundos o sujeito fala “burguês”, “popular” e “revolucionário”, sugerindo um discurso de esquerda. Mas a pauta é de direita: defesa da família, “contra a atitude antipatriótica, blasfema do grupo de militantes marxistas do Porta dos Fundos”.

Efeito Firehose

Na mosca! O vídeo dá munição tanto à direita quanto à esquerda para se acusarem mutuamente sobre a natureza fake do vídeo e do próprio “atentado” – só poderia ter sido armação de um dos lados... 

Para criar a espiral especulativa numa mídia saturada pelo chamado “efeito firehose”: a estratégia de fabricar diariamente boatos, para depois serem negados pela checagem, fazendo com que a realidade se torne subjetiva. A ideia é justamente criar uma espiral incontrolável de interpretações de tal forma que faça a opinião pública não acreditar em fato algum.

Do ponto de vista discursivo é um pastiche total: qual o significado da bandeira monarquista com o símbolo do Integralismo ao fundo? Jamais a vertente brasileira do fascismo foi monarquista. O texto lido pelo soturno porta-voz parece um trem descarrilhando, numa verborragia que em segundos muda o tom: do neopentecostalismo, para a acusação contra a “mega-corporação bilionária” Netflix que “quer roubar nossas riquezas” até conclamar ao levante de extrema-direita com acento miliciano.

"O Mandarim" assusta o Ocidente em uma false flag no "Homem de Ferro 3"

Mas por incrível que pareça a verossimilhança desse evidente vídeo forjado como tática false flag vem daquela inversão ontológica entre ficção e realidade: o que é mais real? O vídeo do “Mandarim” (no filme Homem de Ferro 3) feito por um ator medíocre e que é “vazado” para as cadeias de TV? Ou todos os vídeos do Estado Islâmico produzidos por terceirizadas do Pentágono?

Por isso a nossa “False Flag Tabajara” ser tão canastrona e farsesca como uma piada do grupo inglês de humor Monty Python – parece ainda reverberar no imaginário brasileiro a falsa entrevista do Gugu com um líder do PCC que prometia matar Datena e todo mundo. 

Soma-se a isso a estratégia de saturação por anos da guerra anti-terror nos telejornais com os vídeos canastrões que fazem apenas crianças se mijarem de medo. Então, temos o início da multiplicação de nomes hiperbólicos de grupos terroristas tupiniquins com seus discursos em português macarrônico: “Individualistas que Tendem ao Selvagem” (ITS), “Comando de Insurgência Popular Nacionalista...”. 

Lembrando a comédia Bananas (1971) na qual Woody Allen ironizava a multiplicação dos nomes bombásticos de grupelhos ativistas de esquerda em Nova York. 

Para além dessa questão percepto-cognitiva-sensorial que assola o distinto público que crê em qualquer coisa há duas questões sérias por trás desse vídeo canastro-tosco.

O indulto de Bolsonaro conforta milicianos e policiais assassinos


Natal, Dostoiévski e Moro 

Luís Francisco Carvalho Filho

A boa notícia é a tradução (do russo) de Paulo Bezerra da obra de Dostoiévski "Escritos da Casa Morta" que a editora 34 lançará em 2020. Trecho do capítulo "O Espetáculo de Natal" foi publicado domingo (22) pela Ilustríssima. O livro é elaborado a partir da experiência prisional do escritor na Sibéria, depois de condenado por subversão.

A má notícia é o indulto de Natal assinado pelo presidente Bolsonaro beneficiando agentes de segurança.

O impacto do decreto é simbólico, porque não terá repercussão prática no sistema penitenciário: não alcança os criminosos hediondos (assassinos, torturadores) que o desejo mais íntimo de Jair Bolsonaro gostaria de favorecer. Provavelmente, ninguém será libertado por conta da "benevolência" presidencial.

O indulto de Natal é da tradição jurídica brasileira e, historicamente, serve para distensionar a vida nas prisões, estabelecendo fios de esperança em ambientes marcados pela mais severa brutalidade.

O ministro lambe-botas da Justiça e Segurança Pública saudou a iniciativa de Bolsonaro, apontando para a "linha clara" que distinguiria o indulto dos excessos culposos dos "indultos salva-ladrões ou salva-corruptos" dos governos anteriores. É curioso, assim como petistas no passado recente, o governo também se declara gestor de uma nova era.

Jair Bolsonaro e Sergio Moro (responsável técnico pelo estrambótico decreto) subvertem o caráter genérico do indulto (em benefício de vários setores da população penitenciária, desde que atestado o bom comportamento do preso, entre outros requisitos) e emite sinais de simpatia e conforto para a legião de policiais e milicianos habituados a agir à margem da lei.

É mais um estímulo do governo federal para tiroteios temerários, balas perdidas e salvamento dos que "dão azar" e matam inocentes.

Moro (a mais influente personalidade do Brasil), esperto e demagogo, é um homem iletrado. Aposto que nunca leu a tradução (do francês) de Rachel de Queiroz da preciosa narrativa de Dostoiévski, publicada em 1952, pela editora José Olympio, sob o título "Recordações da Casa dos Mortos".

A brutalidade que caracteriza o regime prisional russo no século 19 é diversa da brutalidade do regime prisional brasileiro no século 21, que será diversa do caráter brutal da privação da liberdade na China no século 22.

Dostoiévski enxerga o caráter perene e deletério das prisões (casas mortas), independentemente de diferenciais de tempo e de lugar, da temperatura amazônica ou siberiana, da comida "parca e repulsiva" ou do caráter mais ou menos tirânico de quem a dirige, sempre ávido por esmagar alguém ou suprimir direitos.

Na visão do escritor, o encarceramento "suga a seiva vital do indivíduo, enerva-lhe a alma, enfraquece-o, assusta-o". É desconcertante a sua percepção da coabitação obrigatória: "não poderia conceber nunca o tormento espantoso de não poder ficar só um minuto que fosse".

No hospital da prisão, Dostoiévski coleciona anotações clandestinas de provérbios, frases e canções populares. Uma delas sintetiza a impossibilidade de transparência na gestão dos presídios e o sentimento do prisioneiro em qualquer canto do mundo: "ninguém vê, por trás dos muros, como vivemos aqui, mas Deus sempre está conosco embora nos guarde aqui".

Destituído de sentimentos humanistas, Moro, mesmo que tenha lido o livro que ganhará nova e festejada versão em português, não é capaz de compreendê-lo.

Luís Francisco Carvalho Filho
Advogado criminal, presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004).

O novo capitalismo

A Nova Idade das Trevas


'A Nova Idade das Trevas' faz reflexão sobre o custo dos avanços tecnológicos

Antônio Xerxenesky
Livro não mudará a mentalidade dos teimosos, mas oferece uma fundamentação repleta de exemplos concretos para temer o futuro
Quando a adolescente sueca Greta Thunberg assumiu o microfone em um discurso das Nações Unidas e culpou a geração anterior por sequestrar o seu futuro —e o de todos jovens— a internet explodiu com pessoas acusando-a de alarmista.

“A Nova Idade das Trevas”, lançamento de James Bridle, não mudará a mentalidade dos mais teimosos, mas oferece uma fundamentação repleta de exemplos concretos para temer o futuro.

Bridle explora, além de artigos científicos, relatórios oficiais de governos e empresas preocupadas com as maneiras como as mudanças climáticas afetarão seu lucro. Ele pesa os prós e contras de todos avanços tecnológicos, com a certeza de que nossa situação atual, e sua tendência a acelerar, é insustentável.

Sabe-se, por exemplo, que a aviação civil, responsável por encurtar as distâncias do mundo ao longo do século 20, é uma das grandes fontes de poluição aérea, e a própria aviação sentirá os efeitos das mudanças, com um aumento drástico em casos de turbulência de ar claro no hemisfério norte.

A internet, por sua vez, ubíqua em nossas vidas, tem sua contrapartida muitas vezes encoberta.

Onde estão armazenados a biblioteca imensa de filmes e séries oferecidas pela Netflix, todos os chats, perfis e fotos do Facebook? Em centros de dados instalados em países frios da Escandinávia ou em paraísos fiscais, consumindo quantidades monstruosas de energia que seriam capazes de iluminar cidades inteiras, e colaborando com o aquecimento global (que, por sua vez, dificultará cada vez mais o resfriamento desses servidores).

“Os 416,2 terawatt-hora de eletricidade que os data centers globais consumiram em 2015 excederam o total de consumo do Reino Unido”, calcula o autor, que diz serem vantajosas para as empresas a ocultação da infraestrutura e a incompreensão geral de como funcionam instrumentos abstratos que moldam nossas vidas digitais e reais.

Ainda que Bridle sempre retorne à questão climática no livro, o que une todos os assuntos abordados é a ilusão que tínhamos de que a tecnologia seria capaz de dar conta dos problemas contemporâneos, que o acúmulo absurdo de dados traria soluções para o clima, para a criminalidade, para as guerras.

Nossa mentalidade seria computacional, quando na verdade não temos metáforas para compreender como as máquinas e as tecnologias funcionam de fato. Ao tratar de redes neurais que jogam xadrez ou Go, Bridle explora como as máquinas passaram a pensar por conta própria e como o raciocínio destas é alienígena para nós, humanos, inclusive para os programadores.

“Quanto mais ficamos obsessivos em computar o mundo, mais complexo e incognoscível ele parece”, afirma o autor, que parece alinhar-se, ou ao menos complementar, outros intelectuais que abordaram esses tópicos em publicações recentes.

Enquanto Bridle se preocupa com o fato de que a pluralidade de visões de mundo gerou teorias da conspiração e fragmentação, o filósofo coreano Byung-Chul Han estuda, em “Psicopolítica” (Ed. Âyiné), como a conexão constante estimula a competitividade e gera novos meios de exploração para o capitalismo tardio. O pessimismo, por sua vez, é um eco de “Depois do Futuro” (Ed. Ubu), do teórico italiano Franco Berardi, que analisa como o entusiasmo do começo do século 20 com as máquinas se transformou numa visão catastrófico de um “futuro cancelado”.

“A Nova Idade das Trevas” não é um chamado à ação, nem adota atitudes luditas em relação à tecnologia, mas propõe reflexão a respeito da posição dos humanos em relação às máquinas.

“Sabemos cada vez mais sobre o mundo, mas somos cada vez mais incapazes de fazer algo a respeito do que sabemos.” Espera-se que tenhamos forças para discordar disso.

Antônio Xerxenesky, tradutor e escritor, é doutor em teoria literária pela USP

Sob ataque


Fernando Haddad
Bolsonaro promove investidas frequentes contra a universidade pública 
Por que a universidade pública é frequentemente atacada por Bolsonaro?

O Brasil foi dos últimos países da América a criar uma universidade, já no século 20. Colonizadores, monarquistas e os primeiros republicanos tinham em comum o desapreço pela educação em geral e pela educação superior em particular. A universidade só entrou na agenda nacional nos anos 1930, ainda assim de maneira tímida.

No período seguinte, a universidade assumiu algum protagonismo, limitado pelos fatores que distinguem o desenvolvimentismo brasileiro (1930-1980) do asiático: a captura do Estado pelo patrimonialismo, que reservou terra, crédito e o orçamento público às classes proprietárias e o descaso com a educação básica, que mantinha à margem os despossuídos, especialmente os negros.

Patrimonialismo e escravidão são as duas faces da formação nacional.

Nesse contexto, o acesso à educação superior pública ficou restrito às camadas privilegiadas, e a contribuição do pensamento liberal sobre a matéria limitou-se à defesa da cobrança de mensalidade, que, diante do quadro, parecia uma decisão justa.

Os governos progressistas do século 21 tomaram outro caminho. Aumentaram como nunca o investimento em educação básica e mantiveram o investimento público em educação superior como proporção de um PIB em forte expansão.

Isso permitiu dois movimentos simultâneos transformadores: mais do que dobrar o número de cidades que dispõe de um campus de universidade federal e reservar 50% das vagas de ingresso, triplicadas, para egressos da escola pública.

Hoje, pretos e pardos já somam 50,3% dos estudantes nas universidades públicas no Brasil e nada menos do que 67% da população, segundo o Datafolha, defendem a educação superior gratuita.

Enquanto o governo Bolsonaro desmonta o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e todo marco regulatório correspondente, especialmente quanto à educação a distância, que balizava o crescimento com qualidade do setor privado, ele promove investidas frequentes contra a universidade pública, que responde por 90% da pesquisa científica do país.

Independentemente de renda, cor ou credo, a inteligência do país está hoje representada na universidade pública. Um projeto de nação não pode prescindir de sua vitalidade. Atacar sua reputação, como faz Bolsonaro, é próprio de quem tem no horizonte um país submisso.

A recente medida provisória sobre escolha de reitores é inconstitucional pela forma e pelo conteúdo. Esse novo ataque à autonomia universitária é só mais uma ação sórdida contra a democracia que deve ser combatida.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Cuidado!


Jornalismo de cativeiro


Otimismo incurável



Adoro ver gente com medo de que o Brasil venha a se transformar numa ditadura distópica em algum ponto do futuro.

Vai ser otimista assim na casa do seu Jair.

João Ximenes Braga

Feliz miliciano novo



Renato Terra

Foi o premiado escritor Sérgio Rodrigues, colunista aqui da Folha, quem criou a expressão “Feliz miliciano novo”.

As tradições para a virada do ano tiveram que se adaptar aos novos tempos. A cor que vai dar sorte, por exemplo, é o laranja. Perto da meia-noite, segure chocolatinhos da Kopenhagen na mão direita e uma Glock na mão esquerda. Nos primeiros minutos de 2020, interfone para os vizinhos, pule 58 ondinhas e cante:

Adeus, miliciano velho
Feliz miliciano novo
Que todos relativizem
O miliciano tá no poder
Com muito dinheiro no bolso
Tudo bem tiramos o PT

Num ímpeto irrefreável, indico uma animada playlist que contemple trocadilhos com a palavra do ano —milícia— para bombar as festas de Réveillon.

Capitão miliciano
Doutor, eu não me engano
Meu capitão é miliciano
Doutor, eu não me engano
Meu capitão é miliciano
Eu não sabia mais o que fazer
Tanta corrupção por culpa do PT!
Ah! Doutor, eu não me engano
Botaram logo um capitão miliciano

Pelo interfone
O chefe da milícia
Pelo interfone
Mandou avisar
Que lá no Vivendas
Tem um áudio loko
Para se apagar

A Grande Milícia
Essa milícia é muito unida
E também muito ouriçada
Brigam por qualquer razão
E acabam vencendo eleição

Milícia
Dizem que ela existe pra achacar, dizem que ela existe pra proteger
Eu sei que ela pode te ferrar
Eu sei que ela pode te prender
Milícia para quem precisa
Milícia para quem precisa de milícia
Milícia para quem precisa
Milícia para quem precisa de milícia
Dizem pra você obedecer
Dizem pra você eleger
Dizem pra você comprar gás
Dizem pra você ter WhatsApp
Milícia para quem precisa
Milícia para quem precisa de milícia
Milícia para quem não precisa
Milícia para quem não precisa de milícia

As Origens do Bolsonarismo



Recentemente, participei de um evento chamado As Origens do Bolsonarismo, título do livro que será lançado no próximo ano com pesquisas etnográficas realizadas com eleitores que votaram no presidente Jair Bolsonaro. Os entrevistados apontaram diferentes datas para o início desse processo. Alguns fizeram referência ao ano de 2013, em razão das manifestações de junho. Outros citaram o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula ou a Operação Lava Jato. Embora a pesquisa que coordeno se baseie na observação e na análise de protestos e manifestações de rua, nosso marco temporal data de 2010. Mais precisamente, das reações em torno da terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), lançado entre 2009 e 2010.

Ainda que as reações contrárias ao PNDH-3 não tenham ganhado as ruas, os desdobramentos das manifestações que se seguem ao longo da década de 2010 fazem referência a seus temas. Entre esses temas, como aponta o sociólogo Sérgio Adorno no artigo “História e desventura: o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos”, as versões anteriores do PNDH (em 1996 e 2002) já propunham mudanças como a transferência da competência da Justiça Militar para a Justiça Comum para julgar policiais militares, a tipificação do crime de tortura e a criminalização do porte ilegal de armas. Ou ainda direitos de livre orientação sexual e identidade de gênero e o combate à violência doméstica. Ainda de acordo com Adorno, pela primeira vez o Estado brasileiro reconhece a existência do racismo e aponta iniciativas para políticas compensatórias. Em continuidade às versões anteriores, o PNDH-3 amplia seu escopo e propõe a criação da Comissão Nacional da Verdade, a descriminalização do aborto, o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, maior regulação da mídia e impõe limites para a presença religiosa no Estado.

Mesmo nas manifestações de 2013, ao ouvir diferentes atores sociais naquele contexto, já era possível identificar reações aos desdobramentos do PNDH-3 que, ao longo dos anos, se materializaram em pautas hoje já bem conhecidas, como posições contrárias à laicidade do Estado; ampliação da posse e do porte de armas; posições antigênero; contra a diversidade de orientação sexual; contra a discussão de temas ligados à sexualidade nas escolas; contra a ampliação do acesso ao ensino superior por parte de jovens negros, pobres, indígenas ou mesmo egressos de escola pública; defesa de intervenção militar; entre outras pautas. O ano de 2010 também marcou o início da ruptura da base religiosa com os governos do Partido dos Trabalhadores. E é nessa época e nesse contexto que Jair Bolsonaro ganha visibilidade, em especial depois de se referir a materiais de um programa do governo federal como “kit gay”. A acusação foi um dos motes de sua campanha eleitoral de 2018.

No entanto, ainda que os grupos conservadores e bolsonaristas tenham posições contrárias ao PNDH-3, eles não se apresentam como “antidireitos”, segundo a pesquisa. Mesmo defendendo posturas de violações aos direitos humanos, sua retórica se vale de uma suposta posição de defesa de direitos dentro de uma moldura democrática. O núcleo do bolsonarismo acusa as proposições do PNDH-3 de serem “autoritárias” e reivindica para si a posição de defesa da democracia. Em inúmeras entrevistas feitas com grupos que defendem a intervenção militar em São Paulo — e que apoiam a agenda cultural do bolsonarismo —, o argumento principal era o de que a falta de “alternância de poder” com a sucessão de governos petistas seria antidemocrática e a justificativa para a entrada de um regime militar seria restituir a suposta democracia perdida.

“Nossas pesquisas apontam que uma das características do ‘bolsonarismo’ — e tão importante quanto entender seu início é buscar definir esse fenômeno — não é ser ‘antidireitos’, e sim apresentar uma noção seletiva de direitos”

Bolsonaristas não são contra direitos no absoluto, mas defendem uma noção parcial de direitos e de Justiça, sendo contrários a sua universalização. Tal seletividade está relacionada a uma noção muito específica de “pessoa” — nos termos do antropólogo Marcel Mauss —, tendo como referência a noção de “cidadão de bem”. Essa noção está fundamentada na ideia de que seria preciso “merecer” os direitos ou o acesso à Justiça. Em outras palavras, apenas uma pessoa “correta” seria merecedora de direitos. Isso não é algo inédito na sociedade brasileira e se expressa inclusive na expressão “direitos humanos (apenas) para humanos direitos”, muito usada entre os eleitores conservadores. O que há de novo é que, pela primeira vez na história recente do Brasil, a máxima se tornou paradigma de governo.

Isabela Kalil, pesquisadora, antropóloga e cientista política, é professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Política externa de Bolsonaro é merda pura, diz o Estadão


Diplomacia da camaradagem
'Quase todas as decisões de Bolsonaro na política externa deram em nada ou impuseram prejuízos'
Quase todas as decisões adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da política externa deram em nada ou impuseram severos prejuízos, sejam os de ordem econômica, sejam os danos à imagem do Brasil no exterior.

O fiasco da diplomacia brasileira observado neste ano era totalmente previsível porque o presidente da República erra no básico e não emite qualquer sinal de que está disposto a aprender com seus erros. Jair Bolsonaro crê que a relação entre as nações se estabelece por meio da afinidade pessoal e ideológica entre chefes de Estado, e não pela concertação dos interesses em jogo em uma complexa trama comercial e geopolítica. Ou seja, o presidente Bolsonaro trata o que é um mero facilitador na aproximação entre lideranças internacionais como princípio orientador de suas ações.

A opção pelo alinhamento praticamente automático ao presidente norte-americano, Donald Trump, parece ser a linha mestra da política externa do governo Bolsonaro. Na visão do presidente, isso implicaria resultados que nenhum outro governo antes dele conseguiu produzir, como o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a abertura do comércio entre os dois países. De fato, Donald Trump apoiou a entrada do Brasil no chamado “clube dos ricos”, mas tratou-se de um apoio vago, sem a definição de prazo ou condições para que o pleito do País fosse de fato analisado. Na verdade, Trump optou por dar preferência aos interesses argentinos no âmbito da OCDE, em detrimento dos brasileiros.

Quanto ao comércio entre Brasil e Estados Unidos, a “proximidade” que haveria entre Bolsonaro e seu contraparte norte-americano também não parece estar ajudando. A carne bovina brasileira continua sob embargo e, em novo revés imposto ao País, Donald Trump decidiu retomar a aplicação de tarifas sobre o aço e o alumínio provenientes do Brasil e da Argentina, sob a alegação de que os dois países estariam praticando uma “deliberada desvalorização de suas moedas a fim de prejudicar as empresas e os trabalhadores dos Estados Unidos”. Sem atinar para a dimensão do problema, Jair Bolsonaro está disposto a resolver a crise com um telefonema. “Se for o caso, falo com Trump, tenho canal aberto”, disse o presidente.

Bolsonaro também tem trabalhado duro para minar a posição de liderança do Brasil na América Latina. Evidente que as dimensões do País, de sua população e a pujança da economia brasileira são os fatores que pesam, e muito, na relação com os vizinhos. Mas o País teria muito mais a ganhar caso Jair Bolsonaro pusesse os interesses do Estado acima de suas predileções. Na Argentina, por exemplo, o presidente brasileiro manifestou apoio à reeleição de Mauricio Macri, que foi derrotado pelo peronista Alberto Fernández. A relação entre Bolsonaro e Fernández já começou estremecida, a bem da verdade por erros que foram cometidos em ambos os lados da fronteira.

No Uruguai, o presidente Jair Bolsonaro apostou na vitória de Luiz Lacalle Pou, que saiu vitorioso do pleito, mas não sem antes recusar o apoio do presidente brasileiro, tido como “tóxico” em razão de suas posições extremadas.

O ano diplomático também foi marcado pelo amplo apoio dado pelo presidente Jair Bolsonaro à recondução do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, outro líder internacional de quem o presidente brasileiro se julga próximo. Jair Bolsonaro chegou a prometer a mudança do local da embaixada do Brasil em Israel, de Tel-Aviv para Jerusalém, o que traria sérios abalos na relação comercial entre o País e as nações árabes.

A nota positiva na condução da diplomacia brasileira neste ano foi a recente mudança da visão do presidente Bolsonaro em relação à China, cedendo ao pragmatismo. Já não era sem tempo o despertar, dada a vibrante relação comercial com nosso principal parceiro.

A afinidade pessoal entre chefes de Estado ajuda muito na fluidez das relações entre as nações. Entretanto, este jamais deve ser o fio condutor da política externa de um país. Os riscos de uma “diplomacia da camaradagem” são muito maiores do que os eventuais benefícios que a proximidade entre os líderes, seja real ou imaginária, pode trazer.

Teologia da Prosperidade


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Os evanjegues têm que ser combatidos, não entendidos

Qual deles você quer na tua casa?

Vinícius Carvalho

As condições políticas do país me transformaram naquilo que eu jamais imaginei: na pessoa que se vê na obrigação de defender o Porta dos Fundos.

Nunca achei a menor graça no Porta dos Fundos, de todos os episódios que eu vi, não existe um sequer que eu goste. Acho o Fabio Porchat um bosta, o Antonio Tabet um merda e o Gregório Duvivier um pela saco, se eu tivesse doidão um dia na Praça São Salvador, eu acho que sairia no soco com os três ao mesmo tempo sem motivo nenhum, apenas por esporte, apenas por não gostar de gente que tem cara de paga-lanche.

Sou da geração do Bullying do Bem da Baixada Fluminense, advento que era um recurso de reparação histórica você ser um adolescente fodido e mal diagramado dar uns catiripapos nos playboys dotadões. Era justiça socrática.

Éramos feios, magrelos, não tinha internet, jogávamos futebol em ruas de paralelepípedo, era um dedo arrebentado por dia, a porrada comia por pipa e bola de gude, mas sadiamente, rolava sim brincadeira de mal gosto, como Garrafão e Carniça, o Maracanã ainda era de concreto armado, na Rádio Cidade tocava Alice in Chains e o Zeca Pagodinho ainda gravava músicas de macumba. Morávamos em lugares como Campos Elísios, Pantanal, Corte 8, Lote XV, Belford Roxo, Favela do Papel Cagado, Morro do Rato Molhado, Lixão, Vila Ideal, Kelson, Batan e etc. E na Baixada Fluminense, playboys não queimariam mendigos e índios.

Foi a minha geração que levou o Lula à presidência em 2002, que deu ao mundo o Hermes e Renato, o Funk Proibido e o Planet Hemp e, assim, limpamos com ácido e aguarrás a reputação do país dos jovens almofadinhas fãs de vôleibol da geração de prata e de filmes como Curtindo a Vida Adoidado dos anos 80, que elegeu o Collor, e ao mesmo tempo mantivemos a primazia moral sobre a geração posterior, criada a leite com pêra, já no bem-bom econômico do governo Lula e que queria ser gourmet e deu ao país lixos como Pânico na TV, Sertanejo Universitário, CQC e o Funk Ostentação.

Deu no que deu.

Por isso, venho por meio desta dizer que, mesmo odiando o Porta dos Fundos, é simplesmente vergonhoso ver gente relativizando o ataque terrorista que a sede da produtora deles sofreu por conta de um vídeo que eles fizeram debochando de Jesus Cristo.

É prerrogativa de uma sociedade que tenta ser democrática e um Estado Laico que se DEBOCHE SIM de toda e qualquer religião. A religião só é sagrada para quem a professa. Achar que existem preceitos religiosos intocáveis e incriticáveis é mais do que apenas medo e covardia, é assimilar que vivemos num Estado pré-teocrático e radical, nos moldes da Arábia Saudita.

Qual é o próximo passo quando esses cristãos malditos começarem a querer aplicar leis similares às leis de sharia? Falar que "Ahhh mas a maioria da sociedade é cristã, não podemos debochar disso".

O que o cristão ou qualquer outro militante ou sacerdote de outra religião, apenas eles, tem que SABER, nem que seja na base da marra e da mão pesada do Estado, é que a sociedade civil PODE SIM E TEM A LIBERDADE de debochar de qualquer religião, mas NENHUMA RELIGIÃO pode ameaçar a sociedade civil e a laicidade do Estado.

São eles que vivem num Estado de Direito e não o Estado de Direito que deve viver de baixo de preceitos bíblicos.

Só que é ainda pior. O ataque aparentemente partiu de um grupo integralista, de extrema direita, usando a bandeira do Anauê e da Monarquia. Há poucas semanas um grupo de jovens barbudinhos e crossfiteiros de Botafogo apareceram como representantes do novo integralismo no Brasil. Coincidência? Devem ser aqueles filhos da puta que ficam bebendo cerveja no Bar Bukowski.

Por isso é importante falar em choque de gerações, a minha não ia admitir isso. Já hoje, mesmo os marxistas, se cagam nas calças.

Eu acho que se necessário, não é mais momento de respeitar esses cristãos aí não, chegou o momento mesmo de afrontar e encarar sim.

E antes que falem que não podemos generalizar, é o seguinte: OU OS EVANGÉLICOS QUE DISCORDAM DESTE RADICALISMO PASSAM A SE POSICIONAR PUBLICAMENTE CONTRA ESTES ABSURDOS, OU, SE CONTINUAREM QUIETOS, VAI TER GENERALIZAÇÃO SIM.

Ou melhor, o respeito que eu tenho pelos neopentecostais é diretamente proporcional pelo respeito que os neopentecostais possuem pela macumba e pelos comunistas.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Molotivos & Molotoves


Deus, Pátria e Família



Deus, Pátria e Família era o lema do integralismo, movimento de inspiração fascista fundado por Plínio Salgado em 1932. Deus, Pátria e Família é o lema da Aliança pelo Brasil, partido lançado pelo presidente Jair Bolsonaro em 2019.

Os dois grupos de ultradireita são separados por 87 anos e duas ditaduras. Unem-se no apelo à fé, ao nacionalismo e ao anticomunismo para mobilizar seguidores e disputar o poder.

Os integralistas buscaram referências na Europa. Salgado chegou a ser recebido por Mussolini, que comandava a Itália com seus milicianos de camisas negras. Voltou decidido a copiar o modelo de Estado autoritário, com partido único, hierarquia rígida e submissão total ao chefe.

Alguns rituais do fascio foram abrasileirados. A saudação com o braço esticado ganhou a companhia do grito indígena “Anauê!”. Em tupi, a palavra significa “Você é meu irmão”. Os integralistas desfilavam de camisas verdes e, a exemplo dos nazistas, se engalanavam com braçadeiras. No lugar da suástica, exibiam a letra grega sigma.

“O símbolo lembra que o nosso movimento tem o significado de integrar todas as forças sociais do país na suprema expressão da nacionalidade”, explica o site da Frente Integralista Brasileira, que cultua a memória e o ideário de Salgado.

Na quinta-feira, o grupo celebrou a reciclagem do lema pelo partido de Bolsonaro. “É mais uma demonstração do quanto estão vivos os ideais essencial e sadiamente cristãos e brasileiros do integralismo”, festejou, nas redes sociais.

O historiador Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora, vê traços de continuidade entre os dois movimentos. “O integralismo ajudou a formar uma cultura política nacionalista e autoritária”, explica.

Autor do livro “Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo” (Eduem, 2014), ele acompanha os pequenos grupos que se espelham em Salgado. Depois da extinção do Prona, do ex-deputado Enéas Carneiro, eles se aproximaram do PRTB, do vice-presidente Hamilton Mourão.

Com a eleição de Bolsonaro, os neointegralistas encontraram um governo partilha suas bandeiras ultraconservadoras. Isso não significa que a Aliança pelo Brasil seja uma nova versão da Ação Integralista Brasileira. O mundo é outro, os personagens também.

Plínio Salgado cultivava veleidades intelectuais. Circulou com os modernistas e escreveu cerca de 70 obras. Bolsonaro e seus filhos não têm intimidade com os livros: preferem os vídeos do guru Olavo de Carvalho. O líder integralista admirava Mussolini, fuzilado em 1945. A família presidencial mira-se em Donald Trump, que sonha com a reeleição em 2020.

Na campanha, o capitão usava uma camiseta com a frase “Meu partido é o Brasil”. Para o historiador Caldeira Neto, a criação da Aliança reforça o caráter antissistêmico do bolsonarismo. “Ela nasce como um partido e, ao mesmo tempo, como um antipartido”, define. Ao mesmo tempo, o clã promove uma “purificação” na tropa, abandonando os dissidentes no PSL.

No que isso vai dar? “Ainda é uma incógnita”, diz o professor da UFJF.

Onde o comunismo deu certo? Na China, maior país do mundo

Chongqing

A cada vez que vejo o capitalismo neoliberal relativizando regime autoritário simpático ao livre mercado pelo "desenvolvimento" sou obrigado a usar o argumento "Democracia não importa? Ok, cabe lembrar que o maior case de desenvolvimento dos últimos 30 anos é um país comunista"

"Ah mas o milagre chileno sob Pinochet"

Caras, a China incluiu 500 milhões de pessoas na sociedade de consumo em 3 décadas, o Chile é metade de Chongqing e aquilo NEM EXISTIA como distrito industrial até a década de 90

E tudo conforme a cartilha comunista dos planos quinquenais.

"Onde o comunismo deu certo?", pergunta o passador de pano de regime autoritário de direita.

Já que "democracia" não importa, deu certo na China. Deu tão certo que o presidente autoritário daqui inventou que a China é "capitalista", afinal 1/4 de nossas exportações vai pra lá.

A China, com todos os seus enormes problemas, é o que acontece quando um regime comunista fortemente planificado adota um planejamento de abertura econômica e de reposicionamento do país no mundo levado à risca por 30 anos. O capitalismo é controlado pelo estado, não o contrário.

É bom? Essa é outra discussão

Mas é um indício monumental do fracasso do modelo capitalista neoliberal que o país que tem maior sucesso econômico após o surgimento do neoliberalismo seja um país comunista de quem TODOS os países de receituário neoliberal se tornaram dependentes

Os culpados pelo atentado terrorista contra o Porta dos Fundos


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