Novos diálogos: indícios de conversas impróprias entre
Deltan e Gebran
Mensagens obtidas pelo site The Intercept Brasil e analisadas por VEJA citam 'encontros fortuitos' entre procurador e desembargador do TRF4
Há um mês o site The Intercept Brasil começou
a divulgar conversas comprometedoras e com claras transgressões à lei entre o
Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o ex-juiz Sergio Moro,
o atual ministro da Justiça. Tais diálogos eram travados fora dos autos e
dentro de um sistema de comunicação privada, o Telegram. Em parceria com o
site, VEJA publicou em sua última edição uma reportagem
de capa que mostra que a colaboração era ainda maior do que se
imaginava. Na prática, Moro atuava como o chefe da força-tarefa,
desequilibrando a balança da Justiça em favor da acusação. Um novo pacote de
conversas obtidas pelo Intercept e analisadas em parceria com VEJA traz fortes
indícios de que os diálogos impróprios dos procuradores nos chats do Telegram
também ocorreram com um dos membros do Tribunal Regional Federal da 4ª
Região (TRF4), órgão encarregado de julgar em segunda instância os
processos da Lava-Jato em Curitiba. O desembargador em questão
é João Pedro Gebran Neto, que atua como relator dos casos da
operação. Parte dos diálogos nos quais Gebran é citado se refere a Adir Assad,
um dos operadores de propinas da Petrobras e de governos estaduais, preso pela
primeira vez em março de 2015. Em setembro, ele acabou condenado pelo então
juiz Sergio Moro a nove anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção,
lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Cinco meses antes do julgamento do caso em segunda instância
no TRF4, o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa em
Curitiba, comenta em um chat com outros colegas do MPF: “O Gebran tá fazendo o
voto e acha provas de autoria fracas em relação ao Assad”. O assunto é tema de
outra conversa, de 5 de junho de 2017, entre Dallagnol e o procurador Carlos
Augusto da Silva Cazarré, da força-tarefa da Procuradoria Regional da República
da 4ª Região, que atua junto ao TRF4. No diálogo, ocorrido às vésperas do
julgamento da apelação de Assad, Dallagnol mostra-se novamente preocupado com
a possibilidade de Gebran absolver o condenado. Naquele momento, em paralelo, a
força-tarefa negociava com o condenado um acordo de delação (esse acordo seria
fechado em 21 de agosto de 2017). Daí a preocupação do MPF com a possibilidade
de Assad ser absolvido e voltar atrás nas conversas sobre delação. No chat,
Dallagnol aciona Cazarré, que fica em Porto Alegre, sede do TRF4. “Cazarré, tem
como sondar se absolverão assad? (…) se for esse o caso, talvez fosse melhor
pedir pra adiar agilizar o acordo ao máximo para garantir a manutenção da
condenação…”, escreve Dallagnol. “Olha Quando falei com ele, há uns
2 meses, não achei q fisse (sic) absolver… Acho difícil adiar”, responde
Cazarré. Na sequência, Dallagnol volta a citar Gebran: “Falei com ele umas
duas vezes, em encontros fortuitos, e ele mostrou preocupação em relação à
prova de autoria sobre Assad…”. Dallagnol termina pedindo ao colega que não
comente com Gebran o episódio do encontro fortuito “para evitar ruído”.
Nos chats, há sempre a possibilidade de os participantes
exagerarem situações ou se portarem de forma fanfarrona, fingindo intimidade
com pessoas importantes. Considerando-se, no entanto, o histórico dos diálogos,
nos quais fica evidente um grau indesejável de promiscuidade entre autoridades
que deveriam manter independência, é mais provável que as conversas entre Dallagnol
e Gebran tenham realmente acontecido. Se confirmada essa hipótese, a falha é
gravíssima. “Um juiz, independente do grau em que atue, jamais pode abrir seu
voto antes de finalizá-lo, e a decisão só pode ser comunicada nos autos”,
afirma o criminalista Renato Stanziola Vieira, autor do livro Paridade
de Armas no Processo Penal. “Se eu sei que o desembargador está achando
fraca uma parte da minha tese, claro que vou tentar fortalecê-la. Ou seja,
saber antes do momento adequado o que o juiz está pensando sobre o caso
concreto coloca uma das partes em vantagem.”
As provas de autoria que Gebran, a princípio, teria
considerado “fracas” são depósitos feitos por ex-empresas de Assad em contas do
próprio Assad. O operador de propinas apresentava como álibi o fato de já
ter vendido as empresas à época em que foram usadas para escoar dinheiro
desviado da Petrobras. Ocorre que, apesar de não ser mais o dono oficial, Assad
continuava recebendo depósitos delas. Em sua sentença, Moro concluiu que ele
permanecia no comando e, portanto, deveria ser responsabilizado. Em 27 de junho
de 2017, Gebran confirmou a condenação de Assad, e seu voto foi seguido pelos
outros dois desembargadores da Oitava Turma do TRF4. Às provas utilizadas na
condenação de primeira instância, Gebran acrescentou em sua decisão depoimentos
da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa — que ainda estava em sigilo
quando Moro assinou a sua sentença.
Parece mais uma vez a Lava-Jato desdobrando-se, a todo
custo, para manter um criminoso na prisão (Assad cumpre hoje pena em regime
aberto). Uma parte dos brasileiros delicia-se com a frase acima. O problema é
que isso ocorre com indícios de atropelos da legalidade. “Caso confirmadas as
conversas, fica evidente que Gebran atuou de forma absolutamente parcial. O
aconselhamento de partes é proibido pelo Código de Processo Penal e pode dar
margem à suspeição e anulação de processos”, afirma Breno Melaragno Costa,
professor de direito da PUC-Rio. Procurado por VEJA, Dallagnol não quis se
manifestar sobre o caso. Gebran respondeu por e-mail às questões enviadas pela
revista. “Em relação ao réu Adir Assad (ou qualquer outro réu), trata-se de
questão processual e que somente autoriza manifestação nos autos, pelo que
nunca externei opinião ou antecipei minha convicção sobre qualquer processo em
julgamento.” Gebran e Dallagnol ainda fizeram questão de registrar que não
atestam a autenticidade dos diálogos.
O caso das conversas entre membros do MPF e o desembargador
do TRF4 reforça que, a despeito do incontestável sucesso obtido pela Lava-Jato
na condenação de políticos e empresários poderosos, ocorreram irregularidades
que não podem ser varridas para debaixo do tapete. A luta contra a corrupção
precisa continuar, mas sempre respeitando as normas constitucionais. Citado em
um dos diálogos por Deltan Dallagnol, que escreve para colegas do MPF “Aha uhu
o Fachin é nosso” após um encontro entre os dois, Edson Fachin, durante um
evento no Paraná realizado no dia 8, disse à plateia: “Ninguém está acima da
lei, nem mesmo o legislador, nem o julgador, muito menos o acusador”. O
discurso parece sob medida para a dupla Moro e Dallagnol — e pode servir
também para Gebran.
Colaborou Victor Pougy

Nenhum comentário:
Postar um comentário